Anabeth: A maçã do amor
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Anabeth a maçã do amor
Era uma quarta-feira como qualquer outra, a chuva caia do céu como uma menina cai em parque de diversões, parecia uma melancolia ao meio da felicidade. As gotas de água escorriam pelos vidros da cafeteria, e o meu café com caramelo escorria pela minha garganta. Coloquei o copo na mesa por um instante, e pus minhas mãos na janela, e através dela pude ver uma garota sorrindo na chuva, enquanto chorava pelas suas maçãs encharcadas. Ela estava vestida com um vestido branco meio surrado, um casaco verde musgo, provavelmente aqueles casacos que as pessoas colocam e não querem mais tirar, ela também usava uns coturnos cor de canela; sua pele deveria ser branca, seu rosto era cheio de sardas, seus cabelos eram lisos e embaraçados, sem falar na franja mal cortada, seus olhos eram castanhos, e: oh céus! Ela estava toda suja; por sorte a chuva a lavou e, por azar também lavou suas maçãs. Terminei o meu café, e saí da cafeteria, pensei em pedir um guarda chuvas emprestado, mas bem, se ela podia se molhar, porque eu não?! Talvez mamãe ficasse uma fera, mas quem se importava?
Atravessei a rua correndo, e lá estava ela, a qual olhou para mim, enxugou as lágrimas e sorriu levemente, seus olhos praticamente me mandaram dizer alguma coisa:
- Oi, eu sou a Genevieve, mas pode me chamar de Vívi, quem é você?- Me apresentei logo perguntando.
- Sou Anabeth! A vendedora de maçãs, te ofereceria, mas o caramelo está todo molhado, quando há amor de mais, elas se afogam totalmente!- Respondeu-me ela.
- Entendido, eu vou para casa, e você?- Eu me senti meio que perdida, então foi a primeira coisa que me veio em mente, mas oras, eu não queria ir para casa naquela hora.
- Acho que eu também vou, mas eles vão ficar realmente decepcionados, essa noite não terá nada além do pão que sobrou de ontem para o jantar.- Falou-me a menina, meio chateada.
- Eles quem?- Perguntei.
- Meus irmãos...Meus irmãos...É melhor você ir também, senão ficará como as maçãs, se a chuva te abraçar demais, morrerá afogada em caramelo.- Falou ela, depois eu apenas sorri e acenei um tchau, saí correndo e fui para casa, sem olhar para trás, mas depois que cheguei em casa fiquei pensando, no pão...
Uma semana se passou, quarta-feira de novo, lá vamos nós, fui na mesma cafeteria, pedi um café e me pus a olhar pela janela, disse para mamãe que estava na casa de uma amiga, bebi meu café gota a gota quase literalmente, só para não ter de me arrancar dali, esperando ver Anabeth novamente.
Tiro no alvo! Minha flecha não estava enferrujada. Lá estava a garota, desta vez sob o sol, vendendo suas maçãs do amor. Nem mesmo engoli as últimas gostas do café, atravessei a rua correndo, só ouvia as buzinas, quase fui atropelada. Porém cheguei, e desta vez eu que dei um olhar que obriga as pessoas a dizerem alguma coisa.
- Olá...Vívi?! Quer uma maçã, dessa vez não vai se afogar, mas seu coração pode se queimar pelos raios do sol.- Falou-me Anabeth, sorrindo.
- Oi! Quero, acho que tudo bem, talvez ele tenha passado protetor solar, ou talvez essa piada tenha sido horrível.- Respondi, logo pegando a maçã e pagando pela mesma, e logo continuei:
- Ei, eu vim pensando bem, e por que você vende maçãs do amor?
- Talvez para deixar a vida das pessoas mais doces, seria um belo pensamento, mas eu preferia estar na escola enchendo a boca de livros, ou quem sabe nos filmes de Hollywood, mas preciso ficar aqui.- Respondeu-me ela.
- Por quê?- Perguntei.
- Eu gostaria de lhe dizer, mas estou ocupada...- Respondeu, enquanto sorria, com um daqueles sorrisos confusos tipo aquele da Mona Lisa.
- Se eu comprar todas as suas maçãs você me conta? As garotas da escola vão amar!- Perguntei.
- Acho que tudo bem...
Depois disso, nós nos sentamos embaixo de uma árvore no parque, e lá começou ela:
- Tudo começou a três anos atrás, quando meus pais morreram, o único parente que eu tinha era meu tio, o qual tinha uma escola de teatro, fui morar com ele, e logo também entrei para o teatro, tínhamos uma peça perfeita marcada, mas as dívidas foram crescendo, meu tio pegou o pouco resto de dinheiro que tinha e fugiu com uma mulher louca que sabe-se Deus aonde ele conheceu, depois o banco tomou a escola de teatro e a casa, e eu fiquei sem ter onde morar. Enquanto vagava pelas ruas de São Paulo chorando, encontrei sete garotos, e eu meio que fui morar com eles, mas a casa é um barraco de madeira, eles também não tem pais, então costumam pedir dinheiro no sinal, e fazer alguns outros trabalhos, pegamos metade do dinheiro para eu fazer maçãs do amor, pois bastante gente compra por essas bandas, e a outra metade pagamos a luz que usamos, a água pegamos de graça dos vizinhos que devem ter pena da gente.- Explicou-me ela, e antes que eu pudesse dizer algo ela falou:
- Agora eu tenho de ir, logo eles irão chegar, gosto de esperar em casa por eles geralmente, quando acabo meu trabalho mais cedo, faz-nos parecer mais uma família.
Após isso, eu entrei na semana de provas da escola, droga! Não podia ir ver Anabeth, até que um dia voltando da escola ouço uma pequena multidão fazendo barulho, minha curiosidade me mandou para lá na hora. Todos olhando para cima, no alto de um prédio abandonado, um homem brigando com uma garota, a qual acabou sendo empurrada dele, e lá se foi Anabeth e suas maçãs do amor, caiu como a chuva no dia em que a conheci, em uma de suas mãos agarrava dinheiro e, na outra um colar que provavelmente tinha a foto de seus pais, não houve o que segurasse a cesta de maçãs, o caramelo inundou o chão, junto ao sangue da menina, os garotos chegaram já chorando, pareciam os sete anões em torno da branca de neve; mas ela não era a princesa, também não poderia ser a bruxa oras. Era apenas Anabeth, com seus sonhos esparramados, seu coração bordado, e suas maçãs do amor. Com um final clichê, talvez fosse uma boa peça para o teatro.
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