Anabel
1 Cocaína
Notas iniciais
Um aroma doce de chuva caindo na terra do canteiro do prédio invadia o apartamento, mesmo que eu morasse no oitavo andar. Eu, sentado em uma poltrona velha e rasgada, assistia as gotas caírem do céu e estalarem nos telhados das casas e o chão das ruas. Era encantador como despencavam do céu, insípidas e transparentes, para misturar-se com toda a impureza que havia por aqui só para poder lavar a alma. Levavam consigo, então, toda a dor, todo sofrimento, toda tristeza. Deixavam todos os sentimentos ruins penetrarem nas terras para não voltarem mais. Não sabia se isto funcionava comigo; apesar de sentir-me absurdamente eufórico quando chovia. Mas eu ainda me via como um erro constante, uma aberração desprezível. Era preciso um dilúvio para me fazer sentir bem comigo mesmo.
O telefone tocou. Olhei para a mesa de canto, com preguiça. Eu queria ficar ali, sentado, encarando tudo e todos, sem me meter. Porém, me sentia culpado a não atender ligações.
— Alô? – disse um tanto rouco.
— Eu preciso que você vá comigo ao Loretto comprar um presente para Amelia – uma voz árdua respondeu. “Era Olavo”, eu pensei com a mais absoluta certeza. Apenas ele era capaz de obrigar alguém a ir ao outro lado da cidade quase nove da noite.
— Você tá chapado, cara? Eu não vou à Tijuca agora. Não mesmo! – tentei não ser rude, mas quando percebi, eu já estava sendo. Então ri para disfarçar.
— AGORA! Arrume-se e eu vou para aí. Eu até dirijo se você quiser, Leo. Só vamos, por favor! – indiretamente, era um “por favor” que me mandava fazer o que ele exigia. E eu não sabia ao certo porque ele queria comprar algo para Amelia, já que não estava nem um pouco perto de seu aniversário. Olhei ao relógio e me espantei. “Meu Deus”.
— Vinte minutos, cara – desliguei antes que fosse obrigado a fazer algo mais Terminava de fumar o cigarro e, simultaneamente, vestia uma camiseta azul limpa, mas que ficaria com um carregado cheiro de tabaco em algumas horas.
O interfone tocou. Peguei as chaves, um maço de cigarro e o isqueiro para guardar tudo no bolso na calça. Fechei a porta com cuidado pois o ruído que a madeira velha fazia era como uma tortura. Só quando já estava fora do apartamento, percebi que estava sem a jaqueta, então torci para que tivesse algum casaco no carro. Enquanto o elevador não chegava, pensei no fato que deveria ter chamado Deborah para acompanhar-nos. Mas também lembrei que não estava preparado para ouvi-la dizer que deveríamos assumir um namoro concreto e parar de se drogar e beber tanto. “Eu pararia quando eu quisesse”, sussurrei como se ela pudesse me ouvir. Já me sentia uma espécie de namorado dela; comprava presentes, flores, levava-a para comer em lugares legais e deixava ela dormir na minha casa quando queria. Só não sentia uma coisa: paixão suficiente para chamá-la de “minha namorada”.
— Meu herói! – Olavo gritou e correu para me abraçar, assustando o porteiro – Eu já falei o quanto que eu te amo?
— Oi, Beto – acenei para o porteiro, tentando expressar minha timidez quanto ao Olavo ali, dizendo aquelas coisas – Espero que ele não tenha te torturado tanto, me desculpe – sussurrei, ciente que não só o Beto ouviria. Olavo envolveu seu braço em meus ombros e me levava até o portão.
— Eu adorei o Neto! Eu quero um porteiro desses lá no prédio – ficando perto de Olavo, sentia o cheiro forte de whisky saindo de sua boca enquanto falava. “Puta merda”, pensei.
— Beto, Olavo... Ele se chama Beto – corrigi, encarando-o com um olhar caído.
— Foi o que disse! Você – pôs o indicador na minha bochecha, girando-o – que ouviu errado! Neto, abra o portão, por favor – ele gritava. Percebi que Olavo estava tão bêbado que estava começando a andar arrastado.
Pus meu braço esquerdo em volta das costas dele para poder carregá-lo melhor até o carro. Refleti na besteira que estaria fazendo caso deixasse que Olavo dirigisse, então o fiz sentar no banco do carona e entrei no carro, antojado e rezando para que tivesse algum casaco no banco de trás. “Graças a Deus”, falei quando vi minha jaqueta jogada no chão do carro.
— Vamos no Loretto e depois para casa, certo? – perguntei – Por favor.
— A gente pode parar em uma padaria? – olhando para o teto, Olavo respondeu minha pergunta com outra pergunta. Segurei o riso para ele não pensar que eu gostava de sair com ele quando já era tarde.
Liguei o carro e fomos. Tentei dirigir o mais rápido possível. Deborah não saía da minha cabeça. Sentia que precisava tomar uma decisão, porque eu sabia – e todos sabiam – que eu estava, inconscientemente, brincando com ela. E Deborah era uma moça que dependia das pessoas para não fazer nenhuma besteira em sua própria vida. Aquilo me prendia à ela também. Eu não podia abandoná-la porque ela decerto faria uma loucura. Porém, manter uma mentira que era o nosso pseudorelacionamento era, contudo, uma loucura também. Eu não a amava – e nem nunca me senti capaz de amar alguém. Era triste ver seus amigos se apaixonando e vivendo insanidades com seus parceiros, enquanto você era um ridículo que se sentia vazio e solitário em meio de tanta orgia. “Você é uma porra louca”, eu dizia à mim mesmo. A cada pensamento ofensivo, pisava mais forte no acelerador.
— Meu Deus do céu, Leo! Sinto que vamos morrer! – gritava Olavo, dando gargalhadas como se um acidente de carro fosse divertido. Encarei-o sonsamente, com um pequeno riso apertado.
— Espero que você esteja sentindo errado – respondi, irônico. Oitenta quilômetros por hora e eu só pensava em tudo que era capaz de fazer só para fugir de toda a realidade. O vento em nossos rostos suados era forte e encantador. Parecia que iríamos voar dentro daquele Santana.
Saí do carro exaltado com a velocidade que dirigi. Olavo levantou do banco cambaleando – o que era engraçado. Após toda aquela corrida, uma emoção estranha florescia do meu corpo, e me fazia sentir como se tivesse cheirado o dia todo. Ao meu redor, encontrava a rua brilhante, cheia de gente. Passavam por mim aqueles seres normais e singelos, que não aparentavam ter problemas consigo mesmo. “Devem ser felizes”, pensava. “Ou menos infelizes que eu”.
Loretto, a melhor loja de discos que podia existir em todo o Rio de Janeiro, estava diante de nós. Com um letreiro incandescente e bem estilizado, podia nos cegar. Era o melhor lugar do mundo, com certeza; e graças a Deus a placa ainda indicava que a loja estava aberta. Olavo não me esperou; entrou na loja fazendo um completo estardalhaço. Pus a mão no bolso, tirei o maço do cigarro e acendi um. E, mesmo sabendo que não poderia entrar no Loretto fumando, insisti mesmo assim. Vi logo Olavo parado em uma estante na esquerda, segurando em mãos o Nevermind.
— Cara, você sabia que já tinha lançado? Meu Deus, eu preciso levar – ele gritava, como se tivesse esquecido que estava em um local público.
— Olavo, Olavo – sussurrei chegando perto dele, pegando em seu braço -, pelo amor de Deus, porra, fala baixo. A loja inteira tá encarando a gente – ele olhou ao redor, rindo.
— A loja toda? É, a loja toda, cinco pessoas! – gargalhou – E eu estou falando dos caixas ali! – fazia um escândalo. Os vendedores nos encaravam; alguns com expressão assustada, outros seguravam o riso. Confesso que, se eu não estivesse na situação, riria também. Escondia o cigarro quase dentro do bolso da jaqueta entre uma tragada e outra para ninguém perceber. Porém, a fumaça espalhava-se pelo ar e chamava atenção. Ouvi passos arrastados em nossa direção pelo chão de madeira do lugar. Olavo olhava para mim, rindo e girando a cabeça, como se fosse desmaiar a qualquer momento. “Meu Deus, cara, fazer isso não devia ter a menor graça”.
— Ei – uma voz suave e doce vinha de trás de nós -, não se pode fumar aqui – virei, pávido. Meus olhos, de repente, congelaram. Era uma figura estonteante. Os cabelos cor de fogo meio presos em um rabo de cavalo confuso, mas alguns fios grudavam na testa graças ao suor. Tentava entender como um rosto tão simplório conseguia ser tão espetacular, mesmo diante de um uniforme comum e empoeirado.
— Desculpe – disse gaguejando -, desculpe mesmo. Eu não... não queria causar nada – o nervosismo sem porquê me fazia falar como um ridículo. Olavo ria debochando de toda situação.
A moça era linda feito um anjo.
— Bem, você pode jogar fora. E você – ela acenava para Olavo -, posso te ajudar? Quer algo em especial? – fui lentamente até a janela e arremessei o cigarro. Um sorriso infantil impregnou-se em meu rosto enquanto eu via aquela menina. Era, definitivamente, uma menina. Baixinha e esguia, com as mãos pequenas. Retornei para o lado de Olavo e notei que ela o encarava como se esperasse uma resposta – Meu Deus! – disse espantada – Seu nariz, cara – apontou para mim. Passei o indicador em cima da boca e senti uma secreção. Quando olhei para meu dedo, era sangue puro. Ela puxou-me pela outra mão e gritou para Olavo vir conosco. Ela andava contornando as estantes e algumas caixas empilhadas. Pressionei o nariz com a palma da mão, aflito, sem nem saber como lidar com aquilo ao certo.
Ela abriu uma porta de madeira clara que dava para um grande almoxarifado. Ao entrarmos, a moça soltou minha mão e foi pegar algo em um armário. Ficamos parados na porta; e eu ainda pressionava o nariz. Pegou um pequeno lenço azul e me deu.
— Sente ali no sofá. – ela apontava para um sofá pequeno no fim da sala. Sentei-me ali junto ao Olavo. Sem mexer a cabeça, eu reparava nas paredes mal pintadas. Uns pôsteres colados cercavam um mural com diversos bilhetes coloridos. Era engraçado como eu nunca havera entrado no almoxarifado do Loretto, mesmo frequentando o lugar há anos. Estava tranquilo, apesar do nariz sangrando. Olavo apoiou a cabeça no braço do sofá e dormiu. Eu não estava assustado, nem um pouco. Constatei que uma anestesia inexplicável e fantasiosa instalou-se em mim. Eu queria entender o que era aquilo, queria entender porque diabos eu não estava preocupado comigo mesmo. Mas era difícil; eu estava preocupado demais com a presença daquela garota, que pegou água e sentou em um banquinho em frente a mim – Ainda está sangrando? – delicadamente, ela tirava minha mão do nariz – Que bom que não. Bebe um pouco de água – ela sorria. Os dentes eram perfeitamente alinhados e claros como porcelana. Enquanto tomava a água, ouvi passos vindo da escada.
— Seja lá o que estiver fazendo aí, é melhor parar. – a moça falou, rindo um pouco – Não é legal ficar sangrando. Mas, mesmo assim, qual é seu nome? – terminei o gole e pus o copo em uma mesa de canto ao lado do sofá. Eu sorri, envergonhado. Eu não costumava conversar com meninas como ela. Não gostava de fazer amigos; sentia-me fracassado demais para isso. Porém, era inevitável. A sensação que aquela desconhecida trouxe era boa demais para jogar de lado.
— Ah – tossi – sou Leo. Leonardo. Ele é o Olavo. – cutuquei-o na barriga – Viemos comprar um presente pra namorada dele. – ela deu um sorriso apertado, levantando as sobrancelhas e mexendo a cabeça – E o seu?
— Anabel.
Acho que nunca ouvi um nome tão doce.
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