Ana e o Mar
1 Prólogo
Notas iniciais
A imagem da capa é de Silvana A. Santini, respeitem.
PRÓLOGO
Seu rosto se assemelhava a uma lua, tão redondo e rechonchudo estava. Seus pés, também inchados, disputavam espaço entre as toalhas e tapete no chão. Naquela situação desajeitada em que se encontrava, derrubou alguns objetos na pia enquanto ajeitava os cabelos e eu, na cama esperando, sorri:
- Ao invés de ficar olhando, poderia me ajudar...
Não foi uma bronca necessariamente, porque ela também sorria. E como estava linda, cada dia mais linda a minha Hideko... Enquanto eu ia em sua direção, ela completou:
- Me diga o que vi neste vestido, por favor, Julian?! Que dificuldade!
- Fique calma, não precisa se exaltar por isto. O bebê pode sentir...
A voz dela jamais se alterava. Mas com o tempo juntos, passei a perceber em outros sinais quando ela estava nervosa e também aprendi como acalmá-la...
Passei a mão por seus braços delicados e senti a tensão dela começar a se desvanecer num suspiro. Fechei o vestido dela devagar e arrumei o tecido atrás, em duas faixas soltas que lembravam um obi japonês. Ela era verdadeiramente uma deusa... Na tranqüilidade do nascer do sol, encontrei meu porto seguro: um lugar que eu posso chamar de lar. O que virá agora da união do oceano com o sol nascente?
Acaricio a barriga de sete meses, detalhe que a deixava ainda mais radiante e...
- Esta é a primeira vez nesta viajem que o vejo sorrir assim, Julian...
- Você está linda, não tenho como deixar de sorrir.
- Ju, você sabe do que estou falando.
Suspirei profundamente e ajeitei minha gravata com o semblante novamente carregado. Eu não tinha a mínima vontade de ir àquele coquetel.
- Mas é um coquetel como qualquer outro na Europa! E lá é ainda pior, porque
só tratam de negócios!
- Já lhe disse, aqui também serão tratados apenas negócios. É só economia,
Hideko... Não adianta falar que não.
Ela terminou de colocar os brincos e eu, ainda que mau-humorado, não resisti a colocar-lhe o colar de ouro branco e pérolas tão delicado quanto ela.
- Uma Conferência sobre meio ambiente, Ju... Ainda mais esta, com tamanha
repercussão, não trata apenas de dinheiro! Existem pessoas que fazem mais
que isso, que...
- São todos hipócritas, Hideko! Já disse isso a você, prefiro os capitalistas que
ao menos são honestos com suas crenças.
Silêncio. A discussão era a mesma já há algumas semanas, quando ela me convenceu a participar da Rio +20. Aceitei a oportunidade pois não queria deixá-la transtornada e também porque sempre ouvi dizer que o Brasil era um país muito belo. Mas isto não queria dizer que eu havia concordado em participar de todos os eventos dessa Conferência... E muito menos gostar.
Ela terminou de colocar sua sandália e já a esperava na porta. Seu olhar... Aquele olhar me fazia morrer por dentro. A expressão do mais puro afeto, como se sentisse pena por eu estar agindo daquela forma, sem saber as conseqüências de tal ato.
Eu abri a porta para ela, que tocou meu rosto com suas suaves mãos e beijou meus lábios sorrindo, mesmo eu sabendo de sua tristeza.
(...)
Mas o que posso fazer se o que vejo é exatamente como disse à minha esposa?
- Estes ativistas, senhor Solo, acham que podem parar empresas como as nossas! Se é de água que eles necessitam, então paguem o preço por ela!
- Você já colocou na ponta do lápis o custo de um tratamento de seus efluentes? A grana que se gasta para parar de poluir, não compensa!
Eu me sentia enjoado.
- É muito mais fácil pagar o fiscal e deixar o governo cuidar do resto!
Risadas. Soavam como um circo de horrores. Eu queria acreditar no que o meu sol me falara... E também que era por azar que eu ficara num grupo tão boçal. Olhei ao redor, tentando disfarçar minha raiva e procurando por Hideko. Encontrei-a num grupo de mulheres que riam alegremente. Quis fugir. Como ela podia ainda acreditar em algo como esse evento, depois de tudo o que escutei?
Subitamente me lembrei de todas as batalhas travadas nos últimos tempos. A luta dos guerreiros de Athena... Teria sido em vão? Que mundo era este que ela, Athena, desejava proteger?
Hideko me olhava. Seus exóticos olhos cor de âmbar me diziam que ficaria tudo
bem. Virei o rosto em direção a porta e ela compreendeu, sorrindo e voltando a conversar com seu grupo.
- Senhores, com sua licença.
Não precisei dar maiores explicações para aqueles patéticos políticos de primeiro mundo. Eu mal falara, não sorrira e era apenas um empresário que provavelmente fazia a mesma coisa que eles.
Mas não fazia.
- Vai precisar do carro, senhor Solo?
- Não, irei caminhando por agora. Obrigado.
Depois de todas as guerras que os deuses travaram, decidiu-se — não conquistou-se — pela paz... Pelo menos momentaneamente. Descoberto meus erros, fui apresentado a então senhorita Kido, com sua fundação mundial pregando a igualdade e protegendo o mundo de pessoas corruptas, violentas ou radicais. Pelo menos se tentava isso. No fim, resolvi me unir a eles formando uma sociedade.
Foi quando conheci Hideko. Ela foi a primeira pessoa a falar sobre o descontentamento que sentiu quando soube que uma empresa de caráter tão social quanto a Fundação GRAAD tinha se unido a um milionário mesquinho. Sorri ante esta lembrança. Tirei os sapatos e desabotoei a camisa — a gravata já estava no bolso há alguns minutos. Não imaginava que esse país era tão quente, muito menos que suas praias eram tão espetaculares... Mesmo na madrugada eu podia sentir como aquele mar era diferente dos que eu conheci. Parecia ter ainda um tanto mais de vida do que aqueles frios mares europeus.
E hoje... Hoje era Hideko que me convencia a permanecer nessa sociedade empresarial. Depois de tanta sujeira eu não conseguia mais acreditar num futuro possível de paz. A própria Terra, como planeta, estava contaminada. Eu me convencia que não adiantava tentar trazer outras pessoas para essa causa e só fazia a minha parte como dono de indústria. Ainda assim sabíamos, eu e ela, que haviam aqueles corrompidos dentro de minha própria empresa.
Sentado na areia branca do nordeste brasileiro eu me perguntava se valia à pena continuar. Passaram-se quase dez anos da decisão que tomei de ajudar aqueles que fiz sofrer desnecessariamente... E o que mudou?! A cada evento que Hideko ou Saori me convenciam a ir era mais decepção. Então, por que permanecer assim? Por que tentar?
E de repente, escuto um som de um sorriso.
“Veio de manhã molhar os pés na primeira onda
Abriu os braços devagar e se entregou ao vento
O Sol veio avisar... que de noite ele seria a Lua,
Pra poder iluminar...Ana, o céu e o mar”
Ela era negra como a madrugada. Mas o sorriso que dava, misto de riso e choro era branco como a espuma das ondas. Uma criança, corrompida pela vida, deixava sua infantilidade à flor da pele saudando o oceano com suas gargalhadas curtas.
Suspirei pesaroso... Que tipo de gente deixava uma menina como aquela vender seu próprio corpo para sobreviver?
- Quer companhia?
Aparentemente meus pensamentos fizeram com que eu não percebesse a aproximação dela. Fiquei constrangido e sem reação, pois suas roupas eram insinuantes e eu não sabia como falar para uma menina que...
- Ah, não! Não é pra nada não, moço... Eu só to achando você sozinho demais.
Ela agachou do meu lado rindo.
- Se você quiser eu posso até pensar, mais acho que num é por isso que ta aqui. E eu também não quero mais nada hoje.
Sentou-se espalhando areia por todos os lados. Eu não sabia o que fazer... Sua
singela e dura simpatia me dominavam.
- Eu... Sou casado.
- Oxente... e isso quer dizer algo, hoje em dia?! Você é estranho... Mais gostei
de você!
Não pude deixar de sorrir ante a essa observação tão cruel e infantil. Inocente, por mais estranho que isso possa parecer, vindo de uma prostituta. E era o que estava acontecendo: a menina confiava em mim por algum motivo e agora vinha com perguntas que traziam um pouco de carinho a minha repentina solidão.
- Você num é daqui. De onde você é?
- De longe...
- Da Europa?
Olhei pra ela espantado, e ela sorriu com seus olhos de ônix:
- É... de um lugar de lá.
- Tava chata a festa que você tava? Sua mulher num tava lá?
Pensei um pouco antes de responder. Eu tinha sido mesmo muito egoísta de ter deixado Hideko para trás por não estar me sentindo a vontade na festa.
- Estava bem chato, na verdade. Acabei por dar uma volta para relaxar.
- Eu te atrapalhei?
Olhei pra ela pela primeira vez de forma direta.
- Não.
- Que bom!
Ficamos ambos olhando para o mar naquele final de noite quente. E eu pensava em Hideko. Pensava que se estivesse ali comigo, desejaria levar a menina para o abrigo de um lar, pois eu mesmo estava com esta vontade.
- Você tá aqui por causa daquela reunião do ambiente?
Meu semblante mudou. Não era bem sobre isso que eu queria conversar, mas parecia que não conseguia esconder nada daquela garota.
- O que você é? Político?
- Não. Ainda bem!
Ela riu-se:
- Eu sou dono de uma indústria.
- Então você suja o ambiente?
- Não! Onde eu trabalho tratamos toda a... sujeira, antes de jogar ela fora e
também economizamos energia.
- E porque você veio então?
Baixei a cabeça, brincando com uma pequena concha entre meus dedos.
- Não sei. Ninguém está interessado em mudar alguma coisa nessa reunião. São vinte anos que aparentemente que não saímos do lugar. Quando pensamos que avançamos, vemos que por causa de outros damos diversos assos para trás.
De alguma forma deixei toda a angústia que eu sentia com aquela situação
extravasar. — Ela não ia entender mesmo, pensei. Então que mal havia em falar?
-Tanta luta e guerras são feitas por nada. As pessoas parecem não estar reparadas, ou melhor... Não são capazes de conviver bem uns com os outros.
Quanto mais com o meio em que vivem! Quem liga para as florestas? Eles só pensam em dinheiro.
Meus olhos marearam. Eu estava decepcionado com tudo aquilo, profundamente
decepcionado.
- Mesmo entre meus próprios amigos, cheios de esperança... Qual é a razão?! Não parece ter sentido continuar sendo o único correto em um milhão. Os grandes não têm interesse em educar a população, não existe interesse algum. Então, por que se preocupar?
Passei a mão pelo rosto, um tanto envergonhado pelo desabafo tão sincero para uma menina que não chegava aos quinze anos. Ela permaneceu me observando por alguns minutos em completo silêncio e então explodiu em gargalhadas:
- Ta até parecendo minha amiga! Fica reclamando da vida o tempo todo...eu falo pra ela: que adianta ser triste e resmungona? Ser feliz é melhor que isso! Ninguém faz nada por mim, faço eu mesma o que eu quero!
Senti meu rosto ferver. Queria gritar que não era assim tão simples.
- Vocês se dizem adultos, mas são mais crianças do que eu! Já passei por coisas que você não acreditaria, moço... Vou te falar uma coisa: eu tô viva! Isso é suficiente pra eu entender que posso fazer alguma coisa ainda... Pra mim ou pros outros!
Não sabia como interrompê-la e com certeza o que ela acabara de falar era verdade. Ela então deitou na areia, as ondas beijavam seus pés...
- Todo mundo tem um sonho e eu tenho o meu. Se é impossível ou não, Oxalá
sabe!
“Ana aproveitava os carinhos do mundo
os quatro elementos de tudo
deitada diante do mar”
- Eu quero cuidar do mar...
Arregalei os olhos surpreso. Mas ela não percebeu o fato. Meu coração disparou de emoção por tudo o que ela falara.
- Eles só falam de água pra beber, do rio, da lagoa... Da chuva que não vem! Todo mundo esquece que é do mar que a gente veio, que nossa mãe tá no mar. E sem ele, o que vai ser da gente?
Engoli em seco escutando o relato, ela se levantou agitada.
- Sempre peço uma rosa branca para meu último cliente, pra poder agradecer
Iemanjá pelo dia que eu vivi e pedir proteção pelo que tá começando. É o que minha mãe ensinou e acredito nisto. O mar ainda vai me trazer meu sonho e eu vou sair por aí e cuidar disso tudo!
Esticando-se, ela abraçou a maresia e seu sorriso acendeu um farol guia na madrugada escura, pouco antes do nascer do sol...
“Quando Ana entra n´água
o sorriso do mar drugada
se estende pro resto do mundo”
- Sabe, moço, se eu estivesse nessa tal reunião do ambiente, eu ia falar disso tudo! Porque mesmo sendo pouco, é um começo! E sempre tem alguém que faz!
Meu coração se encheu de uma força e tristeza que eu nunca havia sentido, pois agora eu podia perceber... Que o hipócrita era eu!!
- Você deve ser importante lá! Por que você não fala disso pra eles? Você faria isso, moço? Contaria a eles sobre o mar?
A alegria dela contagiava todo o lugar que estávamos e eu me levantei. Ela era tão pequena e franzina, fantasiada de mulher da vida... Uma criança cheia de sonhos e esperanças.
Os primeiros raios de sol no horizonte, clareando levemente, me fizeram recordar
Hideko e o bebê: a menina que carrega em seu ventre. Que tipo de pai era eu, que não cuidava nem preparava os caminhos da filha? Que homem era esse que não se preocupava com o futuro dessas crianças? Era igual a qualquer corrupto!
- Qual é seu nome, criança?
Ela parou por um instante provavelmente se perguntando se revelava seu verdadeiro nome ou não. Percebi que era o real, pela expressão de seu rosto.
- Ana! Meu nome é Ana!
Sorri e me aproximei um pouco mais.
- Então, Ana, eu farei isso pra você. Falarei dos oceanos e virei te...
Ela não deixou que eu completasse a frase agradecendo várias vezes, dizendo que isto bastava e eu entendi. Aquele era seu lar, apesar de tudo...
A manhã nascia rapidamente e peguei meus sapatos na areia.
- Te disse o meu. Qual é o seu nome, moço?
- Meu nome...
Andei alguns passos, de costas pra ela, fazendo meu cosmo se espalhar um pouco e as ondas ficarem mais altas e as gaivotas voarem mais próximas sentindo a alegria da brisa e de Ana que, impressionada, colocou as mãos na boca.
- ...pode me chamar de Mar.
(...)
Abri a porta devagar, deixei os sapatos na entrada com o máximo de silêncio que consegui. Mas não adiantaria, pois ela encontrava-se acordada na sacada, me...
- Eu não esperei você... Eu só acordei para o nascer do sol.
Sorri e chorei. Toda a emoção que guardei na conversa com a menina-do-mar transbordou naquele instante, ao ver o quão errado eu estava. E agora era hora de mudar. Hideko aproximou-se preocupada enquanto eu sentava na cama.
- Julian, o que houve?
- Hideko, minha luz... Você sempre esteve com a razão e eu... Eu...
Abracei-a pela cintura, encostando o rosto em seu ventre e sentindo aquela nova vida se manifestar...
- Hideko, eu prometo. Vou lutar para dar um mundo melhor para nossa filha! Não vou apenas reclamar. Vou agir!
Senti que ela emaranhava seus dedos em meus cabelos e suas lágrimas escorriam de felicidade.
Eu acabara de descobrir o que realmente viera e viria da união do oceano com o
sol...
- Daremos um mundo diferente e melhor para nossa Mariana.
...Viria a vida.
“Ana e o Mar
Mar e Ana
Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir
Ana e o Mar
Mariana...”
CONTINUA
Notas finais
Abraços da Ephe-chan!
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