An Impossible Love
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Notas iniciais
Acordei no dia seguinte com uma dor horrível em minha cabeça. Não dormi direito durante a noite e nos momentos em que dormi eu tive pesadelos. Eu estava assombrado pelos últimos acontecimentos. Tudo que vinha em minha mente era aquele acidente que tirou a vida das pessoas que tanto amava.
“Bom dia.”
Olhei para o lado e vi Blaine sentado na poltrona, com sua roupa branca igual a do dia anterior. O encarei pensativo e ele abriu um pequeno sorriso para mim.
“Não vejo nada de bom.”
Sei que fui um pouco rude, mas apenas falei a verdade. Não conseguia pensar em nada bom naquele momento e, se for para pensar nos momentos atuais, continuo sem pensar em algo bom.
“Não estou perguntando se está bem, Kurt. Não sou burro, sei que não está nada bem. Estou apenas desejando que você tenha um bom dia, mesmo que eu ache isso algo difícil de se acontecer.”
Olhei para baixo e revirei os olhos. Ele era insistente e muito bom na arte de falar comigo. Era incrível a maneira que ele dizia justamente o que eu precisava ouvir e essa maravilhosa habilidade seguiu ao lado dele no decorrer desses quase três anos em que nos conhecemos, mas isso é história para depois.
“Também duvido.”
Eu disse simples para ele, o encarando e observando todos os perfeitos detalhes de sua aparência. Os cabelos cacheados, a vestimenta branca, os olhos castanhos, o sorriso iluminado. Era tanta bondade que pairava na volta dele, que chegava a ser um pouco assustador.
“Mesmo sendo difícil se animar, eu acho que tenho boas notícias.”
Ele levantou e se aproximou da cama, parando ao meu lado.
“Que seriam?”
Perguntei, admito que com um pouco de medo de sua resposta.
“Você vai ser liberado hoje do hospital, mas permanecerá em recuperação na sua casa, pelo que entendi vão te dar alguns remédios e pedir para que você visite um psicólogo, mas, tirando isso, são boas notícias.”
Boas notícias? Sério que aquilo eram boas notícias? Aquilo era o melhor que ele tinha a me oferecer? Honestamente, minha irritação maior não foi por pensar que eu iria para casa, porque isso era ótimo. Minha irritação foi por, não acredito que vou admitir isso novamente, pensar que eu talvez não fosse vê-lo outra vez.
Blaine se tornou, de um dia para o outro, uma boa companhia. Seu otimismo sempre me animava, embora eu não tenha admitido isso nem uma única vez em voz alta. Admiti uma vez que não queria perde-lo e outra que eu estava apaixonado, fora outras coisas em relação a isso. Mas nunca citei o fato de que amava seu otimismo.
“Ânimo, Kurt!”
Ele praticamente pulava dentro do quarto e eu fui obrigado a sorrir. Era impossível que eu não sorriso com ele daquele jeito.
E então, sorrindo como um idiota apaixonado – coisa que eu definitivamente ainda não estava –, lembrei novamente do acidente e uma tristeza me atingiu com ainda mais força.
Aquela cena nunca vai sair da minha cabeça. É impossível.
Olhei novamente para Blaine e ele chegou mais perto de mim, colocando sua mão sobre a minha. Me assustei por não sentir nada e acabei puxando a mão bruscamente. O encarei ainda mais confuso e toquei seu rosto. Eu poderia dizer que senti um arrepio em mim, uma boa sensação, qualquer coisa, mas nada era possível de ser sentido.
E, acreditem, isso não mudou. A única coisa que já senti perto dele foi um leve formigamento em meus lábios em um certo momento, o qual vocês ainda irão saber. Mas, tirando isso, nunca senti nada. Já o abracei, já beijei seu rosto, já dormi ao seu lado e nunca senti absolutamente nada e, por mais que isso me assustasse, eu simplesmente não conseguia me afastar.
Naquele momento eu o perguntei o motivo de não poder senti-lo, então ele me disse que o lugar dele não era ali. Ele só estava ali para cuidar de mim e, logo, de outras pessoas que também necessitavam de sua ajuda. Nunca entendi muito bem o motivo da sua existência e por qual motivo o mundo precisava de anjos, mas eram em momentos de ternura e carinho que ele me transmitia, que eu conseguia entender.
Ele existia por pessoas como eu, com problemas em sua vida, com um vazio no peito, um buraco no coração. Ele existia para evitar que nós simplesmente tirássemos nossas próprias vidas. Existia para mostrar bons motivos para vivermos e seguirmos em frente.
Eu poderia facilmente dizer que ele me salvou, ainda que agora pareça que ele me afundou ainda mais, me atirou no fundo do poço e me deixou à deriva para morrer. Sei que pode parecer confuso, mas ainda irei explicar. Sei que pode parecer estranho falar sobre o fato de que ele me abandonou, mas foi exatamente isso que ele fez, tudo porque ele fez algo que não podia. Ele se apaixonou por mim e, tão perdidamente quanto ele, eu também me apaixonei.
Mais tarde naquele dia eu realmente fui liberado do hospital e voltei para casa de táxi. Eu estava com medo de entrar novamente em um carro, mas Blaine estava ao meu lado me observando o tempo todo. Quando descemos do táxi, entreguei o dinheiro para o motorista e peguei as chaves de casa. Encarei a residência que eu costumava viver com minha família e uma enorme vontade de chorar me invadiu.
Vi Quinn, minha vizinha se aproximar e, com ela, sua filha, Beth, a qual tinha cinco anos. A cumprimentei com um abraço e ouvi suas condolências, me segurando para não chorar. Quando nos separamos, pude ver que Beth olhava na direção de Blaine e foi naquele momento que eu percebi que eu não estava ficando louco. Ele era de verdade.
“Pequena, você não quer vir mais tarde aqui em casa olhar desenhos?”
Perguntei para Beth, sempre me dei bem com ela e com Quinn, pois tinha apenas três anos de diferença de Quinn e crescemos juntos. A garotinha sorriu para mim, pediu permissão para Quinn e, após eu dizer que precisava mesmo de companhia, a loira finalmente permitiu e então nos despedimos e adentrei minha casa.
Era estranho chamar aquele lugar de lar agora. Estava tão vazio, que poderia facilmente ecoar minha respiração. Era triste estar ali, mas eu não tinha para onde ir.
“Como ela conseguiu te ver? E como eu posso te ver e os outros não?”
Perguntei assim que ele passou pela porta e eu a fechei. Aquela era a minha maior curiosidade desde o momento em que botei meus olhos nele.
“Só as pessoas que eu cuido podem me ver... me machuca você não lembrar de mim, mas já faz tanto tempo, que eu não o culpo.”
Ninguém entendeu nada? Naquele momento, juro que eu também não. Eu só conseguia pensar em algo relacionado a ‘o que ele quer dizer com eu não me lembrar?’.
“Desculpe... o que?”
Ele me encarou com um sorriso triste e sentamos juntos no sofá, onde ficamos bem próximos um do outro e novamente em não sentia nada com ele tão perto. Era irritante.
“Nenhum adulto pode me ver. Você só consegue porque eu sou seu anjo da guarda desde que você nasceu. Apareci quando você nasceu e te dei uma benção. Eu ia todas as noites ao seu quarto para ver se você dormia bem e só apareci de verdade quando você perdeu sua mãe. Você pode não se lembrar disso, pois você cresceu, mas você adorava passar seu tempo comigo e sempre chegava da escola cheio de perguntas para mim. Essa é a razão pela qual Beth me vê. Eu sou o anjo dela, assim como era e sou o seu. No futuro Beth nem lembrará da minha existência, já você, me terá sempre em sua memória.”
“Espera, isso é sério? Eu não lembro...”
“Se você não lembra, então fico feliz, pois isso significa que você seguiu em frente e superou o trauma de perder sua mãe. Eu só espero que, por mais que supere o que houve no acidente, você não se esqueça de mim.”
“Não vou me esquecer.”
“Como pode ter tanta certeza? Você pode esquecer...”
“Poder eu posso, eu apenas não quero.”
E, por mais que ele esteja agora longe de mim, eu ainda permaneço com a ideia de que não quero esquecê-lo.
Por mais que me doa, eu não consigo parar de amá-lo. É uma dor que só aumenta, mas, junto com ela, meu amor só cresce.
Como vou superá-lo quando está bem claro que quase três anos se passaram e eu ainda não desisti de alguém que não consigo nem sentir? Se até agora eu não consegui, então isso nunca irá passar.
Passarei o resto da minha vida preso a uma paixão louca, um desejo que não posso matar, um amor impossível.
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