Anônima
18 Capítulo 18 : O Olhar de Uma Haruno
Notas iniciais
Anônima
Chapter 18: O olhar de um Haruno
By: Archangel
O suor nas mãos era desconfortável. Analisou mais uma vez suas roupas e conferiu as horas no visor do celular. Depois de anos, voltava ao lugar que tanto quisera deixar para trás. Sentiu-se vulnerável como na primeira vez que fora à casa dos avós.
Lembrava-se como se fosse hoje, sentada no mesmo lugar, vislumbrando a paisagem pela janela do carro e tentando não ser uma criança mal criada, para não irritar a mãe sentada ao seu lado ao telefone com alguma socialite. Não havia nada de diferente, exceto que a mãe não estava ao telefone como nos últimos anos, ela permanecia sentada e seus olhos vazios vasculhavam a paisagem sem demonstrar interesse. Sakura percebeu que algo a incomodava, mas optou por permanecer calada como sempre fez.
Sasuke mandou uma mensagem, chamando para conversarem e perguntando se estava tudo bem. Ela não respondeu. Preferiu ignorar, lidar com seus demônios passados primeiro e depois, conversar com ele.
O carro parou de repente, despertando tanto ela quanto a mãe dos pensamentos conflituosos. Sakura desceu do carro com calma e os dedos voaram imediatamente para os pulsos, acariciando suavemente enquanto encarava a fachada imponente e clássica da mansão de seus avós maternos. Respirou fundo e olhou em volta, analisando o condomínio requintado e bem cuidado, cujas flores silvestre e orquídeas, apesar de belas, há muito tempo significavam a entrada para um mundo de medo e terror.
— Sakura, vamos logo. — Mebuki chamou com tom de voz impaciente. Percebeu que a postura antes relaxada da mãe estava mais rígida e o rosto que antes aparentava tranquilidade expressava uma máscara gritante de indiferença.
Sakura também sentiu-se mais desconfortável. Ao pisar naquela casa, as antigas sensações voltaram com uma nostalgia macabra. O pânico crescia em um nó seco e dolorido pela garganta, ela sabia que agora o suor irritante em suas mãos seria capaz de manchar o tecido claro da saia que usava.
A porta se abriu de repente, apresentando a figura silenciosa e quase sem vida do mordomo. Ele saudou as visitantes com um tom neutro e permitiu que entrassem. Os olhos escuros analisaram a garota de cabelo rosa e, por um segundo, Sakura conseguiu vislumbrar um pouco de piedade. O nó na garganta se tornou quase sufocante.
A mansão continuava a mesma. Repleta de artigos caros, obras de artes e móveis de bom gosto. Era o sonho dos amantes da era vitoriana e apaixonados por arte, porém, para Sakura, era só mais uma caixa grande e cheia de objetos que não transmitiam nada mais do que eram: Coisas inanimadas para o deleite dos iludidos.
E como em um filme de terror, passos lentos eram ouvidos como o tic tac de um relógio, cruelmente incorporando um suspense que antecede a morte da vítima da vez.
A figura elegante e esguia da avó apareceu como um fantasma vingador. Os olhos verdes eram os mesmo de anos atrás, opacos como os de sua mãe e semelhante à morte, iluminados apenas pela sombra da crueldade e do ódio que desde pequena Sakura tentava descobrir o motivo. Eram os mesmos olhos que carregava de herança, que levava consigo.
Assim como veio, ela desapareceu pelo corredor. Sua mãe, sem proferir um único som, seguiu pelo mesmo caminho que levava a sala de estar, obrigando-a a dar mais um passo e iniciar uma caminhada para mesmo destino.
Encontrou a mãe se acomodando no sofá de frente para avó e servindo-se de uma xícara de chá. Sakura, com os músculos queimando pelo medo, acomodou-se ao lado da mãe e permaneceu em silêncio.
— E o papai? — Indagou Mebuki, sorvendo um pequeno gole do chá quente.
— Chegará em instantes. — Respondeu a mulher sem desviar os olhos da filha. A expressão não demostrava nada além do que Sakura conhecia: o vazio sem fim. Ela só conseguia decifrar a avó nos momentos em que ela queria castigá-la, o que na infância era quase sempre.
— Ele devia estar em casa, mamãe. É um absurdo nós virmos aqui para nada. Temos assuntos inacabados!
— Olha como fala comigo, fedelha! — Os olhos verdes faiscaram e um arrepio gélido subiu pela espinha de Sakura.
— Fedelha? Olha como você fala comigo, mamãe. Ou acha que eu esqueci o que fez com Sakura? Acha que ela esqueceu? — Diante do sarcasmo da filha, a mulher espremeu os lábios de forma rígida e os olhos queimaram em ódio vivo. A garota de cabelos rosas mantinha-se em silêncio e abaixou mais a cabeça com o comentário da mãe. Mebuki percebeu e de repente as palavras duras não eram mais destinadas à avó. — Levante a cabeça, menina!
Como um cão adestrado, ela obedeceu. Parte de si se odiando por se manter submissa e fraca. No entanto, quando ela olhou para a frente e encarou as matriarcas, ela se lembrou da promessa que fez a si mesma. A promessa feita quando os pulsos foram soltos e a dor em sua pernas eram só uma ardência suportável, quando o pior já tinha passado. A dor passa, os machucados se curam, mas as lembranças são como cicatrizes que açoitam a mente cada vez que a tristeza vinha com um corte profundo, como uma faca afundando-se na carne lentamente.
E agora erguia a cabeça, olhando para a imensidão escura que fora completa com a chegada do avô. Viu o ódio da avó, a soberba do velho homem e a indiferença da mãe em olhos que deviam transmitir a sabedoria e afeto de uma família. E mais do nunca, as palavras antes escondidas em um lugar escuro de sua memória voltaram com uma lufada de ar, trazendo o alívio e firmando seus pés no chão.
Nunca mais. Não sou brinquedo, sou uma Haruno! E um dia, vou ter a família que quero e vou serei feliz. Eu prometo!
Não existiu mais pânico. A sensação de sufoco fazia parte do seu passado, o calor do medo foi substituído por um instinto feroz. Agora via-se um olhar que jamais foi visto no semblante calmo e temeroso da menina, o olhar que fez seus parentes naquela sala sentirem o mesmo que ela sentiu por todos esse anos: o desprezo.
O avô que há pouco chegara encarava a neta exalando dúvidas. Perguntava-se o que houve com a garotinha pequena e miúda, encolhida no estofado do sofá. Agora uma mulher o olhava como um inseto e seu grande ego indignava-se com a ousadia. Quem aquela criança pensava que era?
Olhou mais uma vez, tentando fortificar-se com a sua presença e relembrar à garota onde ela estava. Quando ela se desse conta do chão em que pisava, ela se encolheria no seu buraco de insignificância, obedecendo e temendo a própria sombra.
No entanto, aquela não era sua neta. Pelo menos não a menina que evitava falar algo que não devia e ser castigada. Aquela não era a menina que ele mandou soltar do sótão e desamarrar as pernas e os braços, depois que sua esposa a tinha espancando por horas.
Ela transmitia o mesmo olhar do pai quando veio desposar sua filha. Aquele olhar o fez perder a compostura tempos atrás e aceitar um casamento não desejado ao preço de uma chantagem. Sakura carregava o olhar dos Harunos. O olhar que sua família tanto odiava.
— Comprimente seus avós, Sakura. — A mãe sustentava um olhar sombrio agora que reconheceu as feições do marido impressas na filha.
Sakura perguntou-se por um momento o que faria a seguir. Não sentia mais medo e agora estava disposta a fazer qualquer coisa para não se submeter aos caprichos dos avós. E por fim, como se pela primeira vez conseguisse enxergar o mundo a sua volta, levantou-se e deu as costas, proferindo poucas palavras que deixariam os presentes perplexos.
— Harunos não devem saudações aos Nagasaki. Como você mesmo disse, Mebuki, eu não me esqueci do que Yoko e Maegi fizeram comigo. Tenham um bom chá.
E saiu da mansão com a alma leve e o decreto de nunca mais pisar naquela casa.
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Hoje poderia ser considerado um dia de glória. Ela não precisou descontar sua tristeza em calmantes. A leveza que sentia no peito era algo agradável de sentir. Era quase como voltar a ser a garota de antes.
O que de certa forma a preocupava. Parte de sua paz foi conquistada com um preço, o que a antiga Hinata não aprovaria. O que a Hinata de agora achava perigoso. Se ela voltasse a ser quem era antes, jamais conseguiria o que queria.
Kiba tinha que sofrer. Sofrer a ponto de sentir o dobro que sentiu. Cada vez que chorou e descontou suas frustrações em comida para depois botar tudo para fora em vaso sanitário, engolir inúmeros calmantes para dormir, olhando-se no espelho e achando-se gorda por saber que ele a traia com outras garotas mais magras que ela. Tudo isso somado à sua falta de interesse nela depois que a enganou para ganhar popularidade. Cada parte do que ele tinha ganhado era merecido.
E agora olhando para a manchete do jornal da escola, só conseguia pensar em como fora tola em subestimar a inteligência Uchiha. Se havia alguém perigoso naquela escola, seria ele. Principalmente agora que tinha novos amigos. Amigos esses que Hinata fazia questão de ter por perto.
Estava na hora de ter uma nova amiga. Estava na hora de conhecer Sakura.
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