Notas iniciais
Tive problemas com a minha conta pessoal, mas já está tudo (quase) acertado. Aí vai a continuação do Amálgama!

IV

- Vamos me ajude aqui.

- Se você não está vendo eu estou com as mãos ocupadas!

Enzo tinha um Gurgel o qual eu suspeitava ser o carro mais velho em atividade no mundo. Ele era de uma cor insossa e a sujeira estava incrustada na lataria tanto quanto a pintura. A mecânica era um desgosto, ligar aquele Gurgel em dias frios levava mais ou menos o mesmo tempo que esperar uma flor desabrochar em câmera lenta.

Ainda assim era o único veículo que tínhamos para carregar a nós e a imensa parafernalha que Enzo dispunha. Seu arsenal era bem extenso e incluía microfones sensíveis, máquinas fotográficas analógicas e digitais, câmeras de vídeo com infravermelho, filmadoras portáteis, monitores atmosféricos, detectores de movimento, contadores Geiger, câmeras térmicas, detectores EMF, um sismógrafo e um kit de análise forense.

Claro que aquele monte de tralha era inútil na maioria das vezes mas isso não impedia Enzo de lotar a traseira do Gurgel com aquele lixo. Talvez por isso o veículo fosse tão mal-humorado.

- Meu Deus! Nós vamos ter que fazer umas trezentas viagens para levar tudo isso!

- Podemos começar a viagem número um agora – Enzo disse tirando do bolso mais um dos artefatos que levava para qualquer lugar, um bombom Sonho de Valsa.

Me sentia uma carregadora de algum hotel de luxo que precisava levar as malas cheias de tranqueiras de um mala. Minha raiva era ainda maior porque Enzo vinha com a metade do que eu carregava já que precisava ter uma mão livre para comer seu maldito bombom.

Eu respirei fundo sabendo que me frustrar seria perda de tempo, Enzo sempre agia como se fosse a pessoa mais importante do mundo. Eu tentei então aproveitar o dia de Sol e a estadia que, apesar de assombrada, seria muito confortável. Uma casa daquele tamanho deveria ter camas queen size e colchões de mola, bem como banheiras e toda a sorte de bugiganga que uma garota precisa para se sentir uma diva. Seria ótimo relaxar com alguns daqueles mimos, me ajudariam a esquecer os convidados de outro mundo que eu com certeza encontraria mais cedo ou mais tarde.

- Então há três espíritos ali...

Ótimo, lá estava o Enzo agindo como o parapsicoinvestigador que eu conhecia. Sempre me trazendo para a realidade. Sempre me obrigando a ficar alerta com o mundo que existia ao redor. Talvez ele me deixasse em paz se tivesse alguma noção do quão horrível eram as sensações que eu tinha mas pedir algo assim é absurdo, Enzo não sentia os cutucões que eu lhe dava nas noites em que seus roncos chegavam aos decibéis de um trator, imagine as sutis presenças que existiam nos outros planos.

- Difícil dizer se são somente três, mas com certeza são três os que você deve se preocupar.

Sentir espíritos não é uma ciência exata. Eles são como mágicas. Às vezes você consegue pegar o truque mas às vezes deixa escapar. Em condições normais é preciso um estado de espírito bem calmo para se quantificar quantas e quão poderosas são as entidades em um local, mas em alguns casos as entidades estão tão perturbadas que é como um mágico fazendo um truque ruim.

- Você acredita que eles sejam tão violentos quanto nosso anfitrião diz serem?

Eu bufei sentindo um arrepio varrer meu corpo. A raiva que eu senti vindo dos espíritos ainda me deixava desconfortável.

- Eu sei que vamos ter de tomar cuidado...

Enzo lambeu os dedos sujos de chocolate e não disse mais nada durante os dez minutos seguintes que usamos para trazer as coisas do velho Gurgel para a sala de estar. O veículo estava estacionado relativamente próximo a residência mas a quantidade de tranqueira nos obrigou a três exaustivas viagens – e claro que Enzo me alfinetou perguntando se eu não gostaria de dar mais duzentos e noventa e sete passeios por aí.

- Vocês se mudaram para cá? – A voz de Giovana veio cortando o ar como um chicote e me atingindo numa hora de particular mal-humor.

- Trouxe umas roupas mais compridas se você precisar...

- O que você–

- Gostamos de uma abordagem diferente – Enzo disse rápido para que as farpas não acabassem se tornando estacas – Eu gosto de documentar as manifestações. Dar um embasamento científico à elas.

- O último Velasquez dando um embasamento científico aos mortos. Seus pais devem estar orgulhosos...

Vocês devem imaginar que Enzo Velasquez não acordou num dia particularmente entediante pensando “vou largar tudo e me tornar parapsicoinvestigador”. Eu não conheço muito da família de Enzo mas sei que a ideia de correr atrás de fantasmas e afins é algo familiar, um tipo de loucura genética. Porém houve um evento – que Enzo nunca quis me contar – que acabou por torná-lo o último Velasquez vivo e por consequência o último parapsicoinvestigador do mundo. Só há um problema nisso, a família de Enzo era famosa por ter os melhores médiuns do mundo, cada Velasquez era uma gigantesca antena de comunicação entre os vivos e os mortos.

Cada Velasquez à exceção de Enzo.

- Meus pais estão mortos então a opinião deles não é de muita importância. – Enzo disse com a mesma sensibilidade de uma luva – A propósito já viram os túmulos?

- Sim – senhor Basílio disse espantado com a frieza de Enzo – E fiz um rápido tour pela propriedade com eles, estava indo agora mostrar-lhes os quartos.

- Isso muito me interessa. Vamos Talita?

Nosso anfitrião nos guiou por uma escadaria de mármore até o segundo andar e eu por pouco não amarrei um lenço ao redor do queixo para impedi-lo de cair...

Havia um corredor largo onde um boi poderia passar sem problemas, quadros estavam pendurados nas paredes de cores sóbrias e cada lustre deveria valer meu peso em ouro. Eu já tinha visto mansões estupidamente grandes em filmes e seriados mas estar ali, no coração de uma delas, era completamente diferente. Nos filmes você não consegue sentir o cheiro do mogno do qual as portas eram feitas, nem a maciez do tapete que o coloca nas nuvens, nem o eco de sua respiração contra as paredes... Eu estava deslumbrada, a ponto do meu coração acelerar.

- Esta propriedade conta com dezoito quartos. Apenas dois estão ocupados portanto os senhores têm a liberdade de escolherem qualquer um dos demais, embora se me permitirem, tenho quatro opções que acredito será do agrado dos senhores.

- Dois quartos ocupados? – Enzo perguntou pensativo – Imagino que um seja do senhor então o outro de quem seria?

- Se o jovem Velasquez tivesse nos acompanhado essa pergunta não precisaria ser respondida de novo. – Giovana alfinetou.

Enzo reagiu ao comentário do mesmo jeito que reagiria a uma ameba boiando num riacho. Já eu franzi o rosto visivelmente irritada. Zombar do Enzo era uma atividade minha e não era uma pseudo-médium qualquer que ia assumir o meu lugar.

- Desculpe se nós trazemos mais de uma mala para trabalhar. – Retruquei com uma mão na cintura.

- É, com você são quantas?

- Senhoritas, por favor... – Senhor Basílio interrompeu – Tenho certeza que gostariam de ver os seus quartos. Por aqui.

Eu fiz questão de fazer minha cara mais feia enquanto nos colocávamos outra vez em movimento.

- Os funcionários não conseguem ficar aqui mais do que alguns dias – nosso anfitrião respondeu à pergunta de Enzo e seus ombros caíram com o peso que carregava – E achar novos funcionários está cada vez mais difícil porque os boatos começam a correr a cidade. Mas tive sorte pois há alguns dias contratei uma nova empregada que disse não se importar com os fantasmas. Se isso é verdade ou não, creio que descobriremos com o tempo.

- Então é basicamente o senhor e essa nova empregada em toda a casa? – Enzo havia sacado seu caderno de anotações mais uma vez e começava a encher suas páginas de palavras.

- Sim senhor.

- E como o senhor conheceu essa mulher.

- Eu coloquei anúncios em diversos jornais. Diz ela que foi assim

que me encontrou.

- E ela já viu alguma das manifestações?

- Se viu não me disse. Embora deva dizer que a mulher não fala muito... Aqui, chegamos.

Estávamos no fim do corredor onde o senhor Basílio nos apresentou os quatro quartos que seriam nossa morada durante aquela estadia.

- Eu separei os melhores da casa. Mas sintam-se a vontade se quiserem trocar.

Por um momento eu esqueci a médium megera, o chato do Enzo, o perturbado anfitrião e o insosso padre. Minhas atenções estavam focadas a minha frente porque eu sabia que atrás daquela porta o paraíso estaria esperando por mim.

Confesso que devo ter parecido meio afobada em minha investida mas fazer o quê, para quem vive em uma casa de 50 m² ter um quarto com o dobro do tamanho é um evento e tanto. Eu escancarei a porta e acho que se meu sorriso esticasse mais eu racharia os lábios...

O piso era de madeira em um tom claro combinando com as paredes em cores creme. Havia uma porta de vidro que dava para uma grande varanda onde uma mesinha e duas cadeiras estavam colocadas; também haviam cadeiras do lado de dentro, móveis de madeira certamente caríssima que ostentavam uma tapeçaria feita em pano vermelho com detalhes dourados, mesmo padrão das cortinas, do tapete e da cabeceira da cama. E por falar em cama ela era uma queen size tão alta que eu precisaria de um pulinho para me sentar. Acelerei até esticar o pescoço por uma porta lateral e encontrar o maior banheiro que já vira na vida, bem como uma das maiores banheiras de todos os tempos.

Eu não tivera um começo promissor naquele lugar mas era inegável que as coisas estavam melhorando.

Pelo menos até Enzo cortar o meu barato.

- Vamos Talita, temos muita coisa que instalar até a noite.

- Ora, qual é! Nós podemos descansar um pouquinho não podemos? Você mesmo estava querendo vir ver os quartos!

- E agora que já vimos podemos voltar ao trabalho. Preciso que me ajude a trazer os equipamentos aqui para cima. Vamos montar uma central e depois podemos ir distribuindo as câmeras pela casa.

Eu bufei fazendo um bico.

- Qual é... Isso vai levar um milhão de anos...

Notas finais
Espero que tenham gostado! Qualquer comentário é bem vindo ^^