Amy Tokisuru em Portland
9 Capítulo 9 - A Garota Muda
AMY
Amy não conseguia parar de chorar. Por mais que forçasse, suas lágrimas não paravam de cair. Após a conversa com Sofia, ela saiu da casa aos nervos, e correu descontroladamente para longe daquele vilarejo. Quando não tinha mais forças para se mexer, desabou no terreno terroso e se entregou às lágrimas. Por que isso estava acontecendo com ela? Amy já odiava o fato de ter aquele poder do fogo e esconder isso da maioria das pessoas por se achar estranha. Agora, todas aquelas coisas ruins estavam acontecendo de uma vez. Um livro mágico que te ameaça de morte, uma águia gigante, uma garota estranha de outro planeta, e agora ela acabara de descobrir que talvez Thomas, a pessoa que ela mais amava no mundo, poderia não ser seu pai, pelo menos, não biologicamente.
— Droga. Droga. Droga! — Uma das árvores ao seu redor pegou fogo espontaneamente. Ela estava reagindo à raiva de Amy, assim como o livro anteriormente. — Por que eu não posso ser feliz? — gritou, para ninguém em especial. — Por que eu não posso ser normal?! — Outra árvore pegou fogo.
— Amy! — Jau disse, assustado, se aproximando de Amy cautelosamente.
— Jau, por favor, vai embora. — Ela enxugou as lágrimas. — Eu não quero machucar você.
— Você nunca me machucaria, Amy. — Jau se aproximou mais da amiga. — Não precisa sofrer sozinha. Eu estou aqui com você.
— Seu idiota. Por que você se importa tanto comigo? Eu sou... um monstro!
— Não, Amy. Você não é um monstro. Você é Amy Tokisuru, minha melhor amiga e a garota mais incrível que eu já conheci. — Jau estendeu os braços para ela. — Eu nunca vou ter medo de você. Vou continuar do seu lado em qualquer ocasião. Você sempre vai ter o meu ombro se quiser chorar.
Amy ficou calada, sem saber o que dizer. Suas lágrimas ainda rolavam, mas dessa vez não eram de raiva, eram de uma mistura estranha de tristeza e felicidade. Ela se deu conta de que sempre que estava triste, zangada, magoada, lá estava Jau para ouvi-la. Amy sempre podia contar com ele.
Sem pensar duas vezes, correu em direção ao amigo e o abraçou tão forte que quase o deixou sem ar, mas ele não pareceu se importar. Apenas retribuiu o abraço e lhe deu um beijo carinhoso na testa.
— Eu não mereço você — ela sussurrou, soluçando.
— Até parece. — Jau sorriu.
— O que eu faço agora?
— Agora você vai descansar. Está exausta. Depois nós vamos dar um jeito de voltar para casa. Nós dois, juntos. E então você vai esclarecer essa história com o seu pai. — Jau segurou nos ombros de Amy e olhou em seus olhos. — Não se preocupe com o que a Sofia disse. Metade da história que ela nos contou é mentira. Ela não é uma pessoa confiável.
— Como sabe que ela está mentindo? — Amy perguntou, mas rapidamente lembrou-se de que Jau era bom em saber quando as pessoas estavam faltando com a verdade. — Ah. Você acha que ela mentiu sobre o meu pai?
— Eu acho que você não precisa se preocupar com isso. — Jau brincou com uma mecha de cabelo de Amy. Sua coloração já estava voltando ao castanho normal de sempre. — Por enquanto, vamos dar o que Sofia quer. Se Bart realmente sabe como ir para a Terra, ele vai nos ajudar se ajudarmos a esposa dele.
— Você tem razão. — Ela sorriu. Não estava mais com vontade de chorar. — Sempre sabe o que fazer. É por isso que eu amo você.
Jau não disse nada. Apenas abraçou Amy novamente. As árvores ao redor já haviam parado de queimar. Agora só restavam brasas e cinzas no lugar.
— Deveríamos voltar para o vilarejo — Jau alertou. — Não deve ser seguro ficar numa floresta no meio da noite.
Amy assentiu. Os dois caminharam de volta em direção à aldeia, mas, quando estavam na metade do caminho, viram a imagem de uma garota deitada no chão, inconsciente e ferida.
— Essa não. — Jau correu em direção à menina. Amy o seguiu.
A jovem parecia ter catorze ou quinze anos. Tinha cabelos loiros compridos e a pele coberta por cortes que estavam em processo de cicatrização.
— Ela está viva? — Amy perguntou, agachando-se perto de Jau, que já estava verificando o pulso da garota.
— Está — ele respondeu. — Mas está com febre. Temos que levá-la a um médico.
— Não acho que nesse mundo tenha hospitais de qualidade — Amy brincou.
— Você deve ter razão. Mas não podemos deixá-la aqui. Vamos levar ela para a vila. — Jau usou seus braços não muito fortes para carregar a garota. Apesar de ser um pouco pesada, ele seria capaz de carregá-la até a vila. — Vamos.
Os dois se apressaram em chegar ao vilarejo e procurar por um médico. Havia poucas pessoas do lado de fora. Amy perguntou a elas se por ali havia um médico, mas ninguém soube lhe responder, pelo simples fato de que não conheciam a palavra “médico”. Então Jau perguntou a elas se na vila havia algum curandeiro ou boticário. Todas apontaram para uma humilde casa de madeira, no fundo de uma ruela mais estreita. Jau e Amy seguiram para lá com a menina.
Assim que chegaram, Amy bateu na porta. Não houve resposta. Amy bateu novamente. Dessa vez, eles ouviram passos de alguém se aproximando, até perguntar:
— Quem está aí?
— Precisamos de ajuda — Jau respondeu. — Estamos com uma garota ferida.
Logo, a porta se abriu, revelando um senhor magro e calvo. Uma barba rala e grisalha cobria o seu rosto. Estava vestindo uma túnica marrom clara que lhe cobria quase todo o corpo, assim como a maioria dos aldeões. Ele encarou Jau e Amy por alguns segundos antes de responder.
— Entrem — ele disse. Sua voz era grossa e rouca, como se tivesse acabado de gritar com um bando de pirralhos para saírem de seu gramado.
Jau e Amy obedeceram e entraram na casa. O cômodo principal não possuía quase nenhum móvel. Apenas uma estante de frascos com diferentes líquidos, e uma cama que parecia ser mais velha que o próprio curandeiro.
— Obrigado por nos atender — Jau disse. — Eu posso...
— Sim. Coloque a garota na cama — o velho ordenou.
Jau repousou cuidadosamente a adolescente na cama, constituída por um grande tecido cheio de penas sobre uma mobília de madeira imperfeita, mas com resquícios das camas do planeta Terra. Amy fazia perguntas ao curandeiro.
— Você a conhece? Nós a achamos na floresta. Pensamos que fosse alguém do vilarejo.
— Não a conheço. — O senhor se dirigiu a sua estante de frascos.
— Qual o nome do senhor? — Jau perguntou.
— Berto. — Ele pegou um frasco com um líquido azul-escuro que estava no topo da estante. Aproximou-se da jovem inconsciente e derramou o líquido em sua boca. — Isso vai fazer a febre baixar. Ela deve acordar em breve.
— Certo. Obrigado. — Jau agradeceu com um sorriso, mas o velho não reagiu.
Então, a garota loira acordou, tossindo. Quando o ataque parou, ela olhou ao seu redor, avistando os três que lhe faziam companhia com um pouco de medo nos seus olhos violetas.
— Ei, você está bem? — Jau foi o primeiro a perguntar.
Ela não disse nada. Ficou olhando para o garoto, ainda espantada.
— Ei, não precisa ficar com medo. Não vamos machucar você. — Jau pegou nas mãos da garota. Amy não pôde deixar de sentir certo ciúme daquele gesto, mas é claro que permaneceu quieta. — Nós achamos você na floresta e te trouxemos para um curandeiro. Ele cuidou de você.
A garota pareceu se sentir um pouco mais aliviada com aquela resposta e sorriu.
— Ótimo. — Jau retribuiu o sorriso. — Você pode nos dizer o seu nome?
Ela ficou parada olhando para Jau por alguns segundos, então balançou sua cabeça negativamente.
— Por que não?
A jovem abriu a boca, como se fosse falar algo, mas o som não saiu.
— Ela deve ser muda — Berto disse então.
— Ah, entendo — Jau disse. — Você se lembra de onde veio ou quem você é?
Mais uma vez ela balançou a cabeça negativamente. O garoto assentiu.
— Você pode curar isso? — Jau perguntou, dirigindo-se a Berto. — Ela deve ter perdido a memória ou algo do tipo.
— Talvez — ele respondeu, coçando sua barba. — Mas pode demorar um tempo e eu não tenho os ingredientes necessários aqui.
— Bom, nós podemos pegá-los para você e aí...
— Jau — Amy o interrompeu. — Podemos conversar um segundo lá fora?
O garoto pareceu querer protestar, mas concordou e logo os dois estavam do lado de fora da casa de Berto.
— Amy, eu...
— Escuta — ela disse, com um tom de severidade na voz. — Sei que quer ajudar essa garota, mas no momento temos outros problemas para resolver, lembra-se?
— Eu sei — o garoto respondeu, um pouco envergonhado. — É que eu pensei que podíamos...
— Não. Não podemos. Eu lamento, mas ela não é nossa responsabilidade. Já fizemos o bastante trazendo ela até aqui. — Amy cruzou os braços.
Jau olhou para ela tristemente, mas acabou assentindo.
— Tudo bem. Você venceu. Mas onde a garota vai ficar?
— Não é problema nosso.
— Mas...
Jau foi interrompido. Dessa vez, Sofia chamou-os de longe. Ela estava caminhando em direção a eles.
— Eu fiquei preocupada com vocês — ela disse, quando estava próxima o bastante. — Já estão fora há um tempo.
— Como nos encontrou? — Amy questionou.
— Perguntei a algumas pessoas se elas não viram uns adolescentes usando vestes estranhas — Sofia respondeu, referindo-se à blusa cinza de Amy, e sua calça jeans azul que já estava um pouco gasta graças aos acontecimentos do dia.
— Ah — Amy assentiu. — Nós já estávamos voltando.
— Tudo bem. Escuta. Sei que não deve estar com cabeça para ouvir mais nada agora, mas eu tenho uma notícia boa.
— Que notícia? — Amy perguntou, duvidando muito que a notícia realmente fosse boa a essa altura do campeonato.
— Bart pode levar vocês para casa. No entanto, ainda falta um ingrediente necessário para fazer o ritual. O plano é que você busque ele para nós.
— Legal — Amy disse, sem emoção. — Me deixa adivinhar. Esse ingrediente está em um lugar perigoso e eu vou ter que sofrer para pegá-lo.
— Infelizmente sim. Mas pense em como isso pode ser bom.
— Fala sério! — Jau se intrometeu. — Como sofrimento pode ser bom? Ainda mais para a Amy, que já teve que aturar tanto em apenas um dia.
— Estou falando que, nessa busca, a Amy vai aprimorar seus poderes de fogo. Enquanto isso, eu vou procurar por Richard. Quando eu o encontrar, nós duas o enfrentaremos juntas, e vamos finalmente acabar com seus objetivos malignos, sejam lá quais forem. — Sofia falava como se tudo fosse como um conto de fadas.
— E se eu morrer no processo? — Amy perguntou, quebrando de vez com a simplicidade.
— Ah, Amy, não se preocupe com isso. O Bart pode dar o que você precisa para se dar bem nessa viagem. Não vai ser difícil.
— Não sei, Sofia. — Amy olhou para ela com um pouco de fúria, mas tentou se controlar. — Não sei se posso confiar em você ainda.
— Eu entendo... — Sofia abaixou a cabeça. — Mas, olha, se não quer fazer por mim, faça por seu amigo. Ou melhor, faça por sua família que está lá na Terra preocupada com você.
Amy sabia que estava sendo manipulada, mas apesar disso, a garota águia tinha razão. Ela tinha que fazer o que quer que fosse para poder voltar para casa com Jau e reencontrar seu pai.
— Tudo bem — disse por fim. — Eu aceito. Amanhã mesmo eu começo a buscar esse tal ingrediente. É só me dizer para onde ir.
— Ótimo. — Sofia riu. — Você precisa ir até o bosque dos Rubis, não muito longe daqui. Venha à minha casa amanhã de manhã e vou lhe dar um mapa com mais detalhes.
— Tá — Amy respondeu. — Vou estar lá.
Sofia agradeceu e se retirou. Nem se deu ao trabalho de perguntar o porquê de Jau e Amy estarem na casa de Berto, o que era relativamente bom.
— Bosque dos Rubis, é? — Berto perguntou, abrindo a porta de repente.
— Estava ouvindo nossa conversa? — Amy reclamou.
— Não me culpe. Essas paredes não abafam o som. — Berto levantou suas mãos, defensivamente. — Só queria dizer que, nesse bosque existem árvores de folhas vermelhas que talvez sejam capazes de fazer um elixir que pode curar a garota em relação à sua memória.
Jau olhou esperançosamente para Amy.
— Podemos ajudar agora, né?
Amy queria protestar e falar que não, mas não conseguia dizer isso para Jau na situação atual.
— Tudo bem. Mas a garota vem com a gente, pois assim que partirmos, não quero voltar aqui até ter o que a Sofia quer.
— Certo. — Jau sorriu de ponta a ponta e pediu para Berto que chamasse a garota muda. — Ei, tudo bem? — ele disse, assim que ela saiu da casa. — Nós vamos fazer uma viagem para podermos resgatar sua memória, ok? Vai ser divertido. — Jau falou como se estivessem saindo para uma excursão ou acampamento.
A garota assentiu. Ela não parecia estar convencida de que realmente seria assim tão divertido, mas sorriu mesmo assim.
— Ótimo. — Jau coçou a cabeça. — Ela precisa de um nome. Não podemos ficar a chamando de “garota muda” ou “garota loira”.
— E o que você sugere? — Amy perguntou, sem nenhum entusiasmo.
— Hum... Que tal Anny? Anny soa bem...
— Anny? Por que um nome tão parecido com o meu?
— Ora, exatamente por isso!
— Você é um mané. — Amy decidiu então parar de reclamar para evitar que aquela discussão se prolongasse. — Não importa o nome dessa criatura; nós ainda não sabemos onde vamos passar a noite.
— Se me permitem... — Berto disse. — Posso oferecer a vocês um quarto nos fundos da minha casa. Não é muito espaçoso, mas acho que vá dar para o gasto.
— Ótimo. — Amy falou, mas, no fundo, ela sabia que nada mais seria ótimo por um bom tempo.
O cômodo que Berto ofereceu realmente não era espaçoso, mas poderia abrigar os três, desde que dormissem no chão. Amy não reclamou, embora não pudesse deixar de sentir falta de sua cama em sua casa na Terra.
Jau se acomodou no canto da parede, limpando as teias de aranha — que por algum motivo eram cor-de-rosa — que havia lá. Anny se sentou no meio e ficou acordada por um tempo. Não parecia estar nem um pouco cansada. Amy imaginou que as duas poderiam estar conversando, caso ela não fosse muda. Talvez fosse legal ter uma menina com quem conversar, já que Amy só fazia isso com Jau.
— Bom... — Amy começou. — Boa noite. — Se virou para a parede e tentou dormir um pouco.
Ela queria dormir logo, mas vários minutos passaram e ela ainda não havia pegado no sono. Manteve seus olhos fechados até ouvir algo que parecia um grito, do lado de fora do quarto.
Amy se levantou rapidamente e olhou ao redor. Nem Jau e nem Anny estavam lá.
— Essa não. — Levantou-se e correu o mais rápido que pode para fora. — Jau! Cadê você? — gritou. — Droga, garoto. — Continuou andando pelo vilarejo, que já estava completamente deserto.
Resolveu seguir até a casa de Sofia. Bateu na porta desesperadamente, mas ninguém a atendeu. Tentou abrir a maçaneta e percebeu que estava destrancada.
— Sofia? — ela chamou, entrando cautelosamente. — Você está aí?
Não havia ninguém, mas então, Amy viu um vulto negro no quarto de Sofia e de Bart.
— Não pode ser — ela disse, reconhecendo-o. Era o ser de capa negra que havia aparecido em sua casa mais cedo. O mesmo que provavelmente deixou uma ameaça de morte no livro.
— Quem é você?
Você vai morrer, Amy. A voz era grave e tenebrosa, e não parecia vir do vulto, mas sim como se estivesse falando em sua mente. Você vai ser morta por TR.
— O quê? — ela disse, se aproximando do ser da capa. — Do que está falando? Quem é TR?
Você vai morrer, Amy. O encapuzado apontou para o chão, ao lado da cama. Amy seguiu o olhar de seu dedo e então viu. Ela não conseguiu evitar gritar. Estava horrorizada.
No chão jazia um corpo completamente machucado e ensanguentado. Ela viu o seu rosto. Era Thomas, o seu pai.
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