Amy Tokisuru em Portland

3 Capítulo 3 - Terror


AMY

Amy e Jau pegaram um táxi e foram direto para o hospital. A jovem nunca havia ficado tão preocupada em sua vida, nem quando seu dedo pegou fogo no parque há vários anos. Mesmo a diretora tendo dito que não tinha sido nada grave, Amy tinha medo de perder o pai. Ela apenas perguntou a Cristina em que hospital ele estava e saiu do colégio correndo.

Amy também se sentiu mal por deixar o amigo preocupado. Quando saiu aflita da escola, Jau perguntou a ela o que havia acontecido, e a garota respondeu que precisava ver o pai no hospital. Jau não pensou duas vezes antes de fazer companhia a ela neste momento. No banco de trás do táxi, ele apertava a mão de Amy, dizendo coisas reconfortantes.

— Fica calma. Vai ficar tudo bem.

Ela queria acreditar que sim.

Alguns minutos depois ­— que pareceram uma eternidade — eles finalmente chegaram ao hospital. Jau perguntou na recepção onde Thomas Tokisuru estava internado, pois Amy não estava em condições de falar. Eles foram devidamente informados. Quarto 313, segundo andar.

Chegando a seu destino, Amy viu que havia um enfermeiro jovem em frente ao quarto onde estava seu pai. Ela tremeu quando pensou na possibilidade de este dizer algo como “Fizemos tudo o que estava em nosso alcance, mas...”. Estava tão nervosa que simplesmente travou e ficou encarando o profissional de enfermagem por longos segundos.

— São parentes de Thomas Tokisuru? — o enfermeiro perguntou aos dois, por fim.

— Ah, sim — Amy respondeu, voltando à realidade. — Sou filha dele. Ele está bem, não está?

— Está sim. Pode ficar tranquila. A batida não foi muito feia. — O enfermeiro saiu da frente da porta. — Se quiserem, podem falar com ele. Vai receber alta hoje mesmo.

Amy sentiu como se duas toneladas tivessem sido tiradas de suas costas. Abriu a porta do quarto, um pouco mais tranquila, e viu o seu pai na cama de hospital, com um enorme curativo na testa.

Thomas estava observando a paisagem pela janela quando a filha entrou. Ele tinha cabelos castanhos, como os de Amy, e olhos verdes. Estava com uma fina camada de pelos abaixo da boca e nas costeletas. Estava com trinta e seis anos de idade, mas poderia se passar por mais jovem se quisesse. Virou-se assim que viu a filha entrar.

— Amy — ele disse, sorrindo. — Não deveria estar na escola?

— Seu idiota. — A garota correu e abraçou o pai, com um pouco de dificuldade, já que ele estava deitado.

— Calma, meu bem. Estou legal — ele respondeu, retribuindo o abraço.

— Que droga. — Ela o soltou então. — Quase me matou de susto. Se você morre, como eu fico? Como aconteceu esse acidente?

— Foi um garoto maluco que passou na rua correndo. Eu não ia conseguir frear a tempo então desviei o carro. Infelizmente, para mim, havia um poste no meio do caminho.

— Maldito seja. — Amy ficou com raiva no mesmo instante. Por culpa de um idiota desatento, seu pai estava num hospital, e deixando-a morrendo de preocupação.

— Toc, toc, toc — Jau disse, com metade do corpo para o lado de fora do quarto. — Posso entrar?

Amy tinha até se esquecido que o amigo estava lá com ela.

— Claro que pode entrar — ela respondeu.

— Obrigado. — Jau colocou o resto do seu corpo para dentro e fechou a porta. — Vejo que seu pai está realmente bem. Isso é bom. Como vai, senhor Thomas?

— Vou bem, rapaz. — O pai de Amy gostava do adolescente. Era o único amigo de sua filha e muito respeitoso. — Já disse para não me chamar de senhor.

— Ah, certo. — Jau coçou a cabeça, desconcertado. — Desculpe.

— Pai, não mude de assunto — Amy interrompeu. — Estávamos falando do cara que quase te matou. Ele ao menos se preocupou em ver como você estava?

— Provavelmente não. Eu estava inconsciente quando cheguei aqui e desde que acordei não soube dele. Mas... — Thomas pegou uma mecha de cabelo da filha, a mecha que estava ruiva. — Desde quando você tem isso?

— Ah, isso? — Amy se amaldiçoou mentalmente. Naquela correria, deixou que a mecha ficasse visível de novo. Como explicaria ao seu pai que ela simplesmente apareceu quando acordou? — Eu tenho ela faz um tempinho...

— Tem, é? — Thomas soltou o cabelo. — Amy, você sabe que eu não gosto desse tipo de coisa. Podia no mínimo ter pedido minha permissão antes.

A expressão do pai de Amy ficou séria. Ele estava exagerando, claro, mas a garota já sabia que Thomas não gostava desses estilos punks de ser, como fazer tatuagens, colocar piercings ou deixar o cabelo colorido. Mesmo assim, Amy se sentiu constrangida, já que ele raramente ficava bravo com ela.

— Desculpa — ela disse, encarando o chão. — Vou cortar assim que chegar em casa.

— Acho bom — Thomas concluiu. — Acho que precisa ir embora agora, Amy.

— O quê? Mas eu acabei de chegar — a garota protestou.

— Vou receber alta só mais tarde. Não pode ficar me esperando o dia todo. Tenho certeza de que tem muita coisa da escola para fazer.

Amy não gostou de ouvir aquilo. Seu pai estava praticamente a enxotando dali, fazendo com que ela se sentisse meio rejeitada. Será que ele ficou tão bravo assim por causa da mecha ruiva?

— Tá. Entendi — ela assentiu, tristemente. — Me ligue quando sair... Vamos Jau. — Ela e o amigo saíram e deixaram Thomas sozinho.

Permaneceram em silêncio até estarem do lado de fora do hospital. Amy ficou olhando para baixo o tempo todo, sem saber o que falar. Por sorte, Jau puxou a conversa.

— Quer que eu vá para sua casa com você? Para fazer companhia, se quiser...

— Não, não precisa — ela respondeu, e agradeceu. — Acho que é melhor eu ficar um pouco sozinha.

O rapaz assentiu. Eles se despediram e cada um seguiu seu caminho. Amy resolveu ir a pé para casa. Mesmo que fosse longe, seria um bom exercício tanto para o corpo quanto para a mente. Ao menos era isso o que ela pensava. Quando estava andando a uns bons dez minutos, passou na frente de uma biblioteca, o que seria normal, se ela não tivesse escutado uma voz vinda de lá de dentro. Amy, Amy! A voz era como um sussurro, mas era alto de mais. Amy olhou assustada para dentro da biblioteca, porém não viu ninguém. Pensou em esquecer isso e continuar seu caminho, mas então a voz repetiu: Amy, Amy!

Aquilo a fez pensar que a voz queria que ela entrasse, por algum motivo. Apesar de parecer loucura, foi o que ela fez. Entrou na biblioteca, cumprimentou a recepcionista, e olhou ao redor das estantes de livros, tentando achar alguma coisa suspeita. Infelizmente, não encontrou nada. Mas é claro que não, Amy pensou. Eu estou ficando maluca.

Então, um livro que estava na estante próxima a ela caiu, sem nenhum motivo aparente. Amy levou um susto quando o livro desabou no chão, fazendo um barulho irritante.

Lentamente, ela foi se aproximando do objeto. A capa estava virada para o piso, então Amy não a viu imediatamente. Ajoelhou-se, pegou o livro e o examinou. Sua capa era feita de couro e não possuía título. As folhas eram finas e frágeis, como as de uma revista velha, e era composto por cerca de quatrocentas páginas, no entanto, todas elas estavam em branco. Amy se levantou e foi mostrar o livro para a bibliotecária. No crachá dela lia-se Berenice.

— Oi... O que preciso fazer para pegar esse livro emprestado? — Ela não sabia exatamente porque queria o livro, mas sentia que era importante de alguma forma.

— Hm, deixe-me ver — a bibliotecária pediu, e pegou o livro das mãos de Amy. — Que estranho. Este livro não pertence à biblioteca. Tem certeza de que pegou ele aqui?

— É... Eu o peguei numa estante...

— E o pior é que ele está todo em branco... — Berenice folheou as páginas do livro, então, deu ele para Amy. — Quer saber? Já que se interessou por ele, pode levar. Não vai fazer falta aqui.

— Certo. Obrigada. — Amy colocou o livro em sua mochila e saiu.

Pouco tempo depois ela finalmente estava em casa. Ficara tão exausta da caminhada que resolveu tomar outro banho, dessa vez com a temperatura da água não tão quente. Deixou sua mochila em qualquer canto em seu quarto e partiu para o banheiro. Ela olhou para o espelho para verificar a mecha ruiva mais uma vez. Talvez eu possa cortá-la. Pegou na maçaneta do espelho (que na verdade era a porta para uma pequena estante), puxou, e pegou uma tesoura. Quando fechou a portinha, levou um susto tão grande que deixou a tesoura cair no chão. Através do espelho, Amy viu que atrás dela havia um ser com uma longa capa preta cobrindo seu rosto e corpo. Ele se parecia com a Dona Morte de desenhos infantis. Permaneceu lá por dois segundos e sumiu. Quando Amy virou para trás, não havia mais ninguém lá. Só então percebeu que seu pé estava doendo. A tesoura havia caído e o perfurado levemente. Agora, estava sangrando um pouco.

— Droga. Esse dia não pode ficar pior mesmo. — Abriu a porta no espelho de novo e dessa vez pegou um curativo.

Após isso, voltou ao seu quarto. Para o seu espanto — de novo — o livro que ela havia pegado na biblioteca, estava aberto, em cima de sua escrivaninha.

Não... Não pode ser. Eu não o tirei da mochila.

Aproximou-se aos poucos do objeto e o verificou. Havia algo escrito na página aberta. Amy leu.

— Sua vida... Corre perigo...

Todos os pelos de seu corpo se arrepiaram. Pegou o livro com cuidado e sentou-se em sua cama, trêmula, analisando as palavras, sem saber o que fazer em seguida. Seu dia havia passado de péssimo para assustador.