Amy Tokisuru em Portland

12 Capítulo 12 - Ilusões


WALTER

Walter acordou em sua cabine no barco de Renner. Mas como podia ter parado ali? Há algumas horas atrás estava numa missão maluca, em um mundo maluco, com um companheiro maluco. Agora havia acordado como se estivesse de volta à Terra.

Ótimo. Talvez tudo não tivesse passado de um pesadelo. Rick, Sofia, Jaci e todo o resto foram apenas uma brincadeira de mal gosto de sua própria imaginação. Levantou-se da cama e saiu da cabine.

— Renner? — ele chamou, esperançoso de que o velho iria responde-lo. — Renner, aparece!

Saiu do barco e tentou procurar Renner fora do barco, mas não apenas ele havia sumido, como também todas as pessoas do local.

— Isso não é bom. — Sem querer desistir, ele começou a gritar por alguém, mas por um momento, ninguém respondeu.

— Pare de gritar, Walter. Só estamos nós dois aqui.

Walter levou um susto. Olhou para onde a voz tinha saído e então viu. Parecia ser Renner, mas algo estava diferente. Geralmente Renner era desajeitado e repugnante. Mas agora ele parecia mais autoritário e sombrio. Aquele definitivamente não era o verdadeiro Renner.

— Quem é você? — perguntou Walter, prontamente.

— Você é bem espertinho. — Renner se aproximou de Walter. — Você pode me chamar de... seu pior pesadelo.

— Prefiro chamar você de imbecil — Walter retrucou. Não gostava nem um pouco que alguém lhe respondesse com rodeios.

— Fica calmo. — O ser deu um tapa fraco no ombro de Walter como se fossem velhos amigos. — Já que teve a astúcia de descobrir que não sou o verdadeiro Renner, vou te dizer quem eu sou.

— E o que você é?

A coisa usando o corpo de Renner fez uma breve pausa antes de responder.

— Eu sou seu verdadeiro pai.

Todos os pelos do corpo de Walter se eriçaram. Sem chances. Como algo tão sombrio ao ponto de possuir alguém poderia ser o pai de Walter?

— Conta outra — respondeu tentando parecer o mais calmo possível.

— Bem, não espero que depois de tantos anos você vá começar a me chamar de papai. Por enquanto, pode me chamar apenas de TR.

— Vá logo ao assunto e me diga o que você quer. — A essa altura Walter já tinha mudado seu tom de voz. Estava ficando irritado e impaciente.

— Walter, meu rapaz, eu quero que você se junte a mim. — Começou a dar voltas ao redor de Walter. — Sua irmã, Sofia, não é muito confiável.

Dessa vez Walter teve vontade de rir.

— Sofia é minha irmã? Você é um louco. Me tira desse sonho agora.

— Não é brincadeira, Walter. — TR agora estava parado de frente para o garoto. — Não só Sofia é sua irmã, como Rick também é.

— Já chega de tanto escutar bobagens.

Walter fechou os olhos e tentou acordar — pois já estava óbvio que aquilo era um sonho. Quando abriu os olhos novamente, ainda estava no ancoradouro, com TR o olhando fixamente.

— Droga cara, eu já estou cheio de problemas. Não pode me deixar em paz?

— Walter, me escute com atenção. Eu preciso da sua ajuda para concluir meu objetivo. Sem você, tudo o que eu fiz será em vão.

— Isso não me interessa nem um pouco — Walter interrompeu.

— Pense bem, garoto. Você não vai querer que o sofrimento de todos os seus irmãos não tenha valido a pena.

— Posso fazer uma pergunta? — Walter disse, tentando mudar de assunto de qualquer jeito. — Quantos irmãos e irmãs eu tenho?

— Além de Rick e Sofia, há uma garota chamada Amy Tokisuru. — TR pigarreou. — Mas isso não vem ao caso agora. E então. Vai ou não se juntar a mim?

— Por que está pedindo ajuda para mim, e não para os seus outros filhos que provavelmente são muito mais úteis que eu?

— Você se subestima de mais, Walter. Não deveria, já que de todas as minhas criações, você, de longe, é a mais poderosa.

Walter não entendeu o uso da palavra “criação”, ao invés da palavra “filho”, mas resolveu perguntar isso depois.

— Eu? Poderoso? — perguntou, em tom de escárnio.

— Sim, Walter. Foi por isso que eu o mandei para a Terra quando era mais jovem. Você seria um perigo hoje se tivesse sido criado em Portland.

— Então simplesmente me abandonou, não é? Me jogou fora como se eu fosse um lixo.

— Não finja estar triste, rapaz. Eu fiz o que foi necessário. — TR suspirou. — Enfim. Vejo que não quer me responder agora. Mas pense no que eu te falei. Logo você vai entender que valerá muito mais a pena estar do meu lado. — Ele encarou o céu. — Preciso ir embora agora.

TR tocou na cabeça de Walter bruscamente e o fez dormir de novo.

Quando Walter acordou de novo, o sol estava batendo forte no seu rosto. Levantou-se aos poucos pois estava um pouco tonto. Coçou o olho cheio de remela...

— Ai! — Algo viscoso arranhou suas pálpebras quando ela a coçou.

Olhou para as costas da mão e viu que ela estava escamosa, como a carne de um peixe.

— Essa não. Está se espalhando. — Continuou a verificar o seu corpo em busca de outra anomalia, mas além das guelras no pescoço e da escama cinzenta na mão, não havia mais nada.

Depois do check-up, procurou em volta para ver se encontrava Rick, mas ele não estava em nenhum lugar perto.

— Rick — gritou. — Aparece!

Nada do cabeça de pedra.

— Ótimo. Agora eu estou sozinho. — Sentou-se na pedra mais próxima. — Espero que isso seja outro sonho. Tomara que tudo nesse mundo seja um sonho.

Então Walter parou de falar sozinho, pois uma música suave começou a tocar de algum lugar. Parecia ser cantada por uma garota, com voz serena e afinada. Não tinha nenhuma letra específica, ela apenas cantarolava as vogais do alfabeto.

— Puxa. Que voz linda. — Walter se levantou no mesmo instante, e seguiu em direção à voz.

Atravessou um matagal alto, alguns pinicavam a sua pele e o deixava com coceira, mas ele insistiu em ir atrás do canto misterioso. Logo, ele chegou às margens de um lago. Ali, encontrava-se uma garota de longos cabelos castanhos, de frente para o lago. Era ela quem estava cantando. Ela não usava roupas, o que instigou Walter mais ainda a se aproximar. Tocou no ombro dela de leve. Ela virou o rosto, parando de cantar, e automaticamente, Walter a reconheceu.

— Você. A garota de olhos azuis. É você mesmo.

Sim. Era ela. Seus cabelos castanho escuros cobriam seus seios. Ela sorriu para Walter, como se já estivesse esperando por ele.

— Mas, eu não entendo. O que você está fazendo aqui? — Walter perguntou, afinal, como uma garota do planeta Terra, como ele, havia chegado ali? — Já sei. Deve ser outro sonho, né? — Tentou o velho truque de se beliscar, mas a garota continuava lá, sorrindo inocentemente.

Talvez não fosse tão ruim. Ele estava perto da garota que sempre fora afim, e ela estava praticamente nua. Se aquilo era um sonho, ele não queria acordar tão cedo.

De súbito, a garota pegou na mão de Walter e se levantou.

— Vem comigo.

Walter nem pensou em recusar o convite. Ela o conduziu em direção leste, onde o sol nascia. Ele ainda estava fascinado pela beleza da garota. Ela parecia muito mais bonita vista de perto. Aqueles cabelos brilhantes e sedosos. Aqueles olhos azuis claros como as águas de um rio. Sem falar de seu corpo escultural. Walter estava tão fascinado, que não percebeu que a garota já o tinha arrastado para o fundo do lago.

— Espera aí. O quê?

Bem. Walter não tinha dificuldades em respirar debaixo d’água, já que agora tinha brânquias, e a garota — que por sinal também estava respirando — pareceu ficar confusa com este fato.

— Você... Me atraiu para uma armadilha! — Walter, se tocou enfim.

De repente, ele conseguiu ver nitidamente. Aquela coisa não era a garota a quem ele estava apaixonado. Aquilo era... Aquilo era...

A criatura soltou um guincho horrível. Walter teve que tapar os ouvidos, mesmo estando embaixo sob a água, para evitar ficar surdo.

— Você é uma sereia!

A criatura tinha cabelos loiros acinzentados e pele escamosa. E, claro, como toda sereia das lendas no planeta Terra, possuía uma longa cauda de peixe, escamosa e azul-marinho.

— O que você fez com o Rick? — ele perguntou, preocupado com o amigo. Ele poderia muito bem ter caído na armadilha da sereia, e Rick não respirava embaixo d’água.

A criatura respondeu com um grasnido. Começou a nadar em volta de Walter, como se o estudasse antes de executar um ataque.

— Responda! — Walter insistiu.

Foi então que a criatura investiu contra o garoto e lhe desferiu um golpe no estômago. Se Walter estivesse ao ar livre, provavelmente teria ficado sem ar. Ao invés disso, sentiu uma dor imensa e uma enorme vontade de revidar.

— Vem de novo, seu monstro — ele desafiou.

A sereia avançou novamente, mas dessa vez, Walter estava preparado. Controlou a água a seu favor como já fizera no Rio Glacial. Uma explosão aquática lançou a criatura marinha para fora do lago. Logo, nadou até a superfície para ver o estrago que seu ataque fizera. A pobre sereia estava se debatendo como um peixe fora d’água.

— O que achou dessa, mulher peixe?

— Walter, o que você está fazendo? — uma voz conhecida perguntou.

Era Rick, ele estava assistindo a tudo de longe, mas se aproximava. Estava com uma cara de incredulidade.

— Rick — Walter disse, surpreso. — Achei que tivesse sido morto por essa sereia.

— Walter. Você... Você não machucou ela, machucou?

— Do que está falando? Ela tentou me matar!

— Mas ela é uma sereia. Um espírito do lago. Se você a frustrou, então...

A sereia começou a gritar desesperadamente. Parecia que estava chorando ou implorando por ajuda.

— Ótimo. O que foi que eu fiz de errado agora? — Walter perguntou, sentindo a pressão no olhar de Rick.

— Coisas ruins acontecem com quem fere um espírito, Walter — Rick respondeu, com a voz amedrontada.

Subitamente, a água começou a borbulhar. O céu escureceu e a sereia olhava para Walter com uma expressão nada amigável.

— É. Eu mereço isso...