Amy Tokisuru em Portland
21 Capítulo 21 - Alice Marvel
AMY
Amy não sabia ao certo a quem devia encarar. Após o ataque de Anny, Jau se levantou, sacudiu a poeira de suas vestes, e olhou para a garota com ódio. TR ainda estava sobre posse da consciência de Jau.
— Alice Marvel — ele disse. — Eu deveria ter me livrado de você antes.
Anny ignorou TR e voltou sua atenção para Amy, que ainda estava confusa com o que acabara de acontecer.
— Amy, você está bem?
Amy balançou a cabeça tentando processar tudo o que estava acontecendo, e respondeu:
— Não. Não estou bem. Tem um monstro dentro do meu amigo!
— Eu sei, Amy. Mas não se preocupe. — Anny voltou sua atenção para TR. — Eu vou dar um jeito nisso.
— É tarde para dar um jeito, Alice — TR respondeu. — Eu já venci. Não tem nada que você possa fazer sem que machuque o amigo da garota.
Amy esperava que Anny — ou Alice — tivesse um truque na manga e dissesse àquele monstro algo como “Você não sabe do que sou capaz”. No entanto, a garota apenas ficou calada e encarando TR tentando parecer confiante. Porém, Amy conhecia esse olhar. No fundo Alice não sabia o que fazer.
— Por favor, não o machuque — foi tudo o que Amy pensou em dizer.
— Não se preocupe, Tokisuru — quem respondeu foi TR. — Alice é fraca. Ela não teria coragem de matar ninguém. — Ele sorriu para Alice. — Porém, mesmo que ela tivesse, não seria capaz de me derrotar.
Alice o encarou com fúria. Ela estava sendo provocada por TR e Amy teve medo de que ela explodisse de raiva e resolvesse ferir Jau. Para impedir isso, ela se colocou no meio dos dois.
— Chega — gritou. — TR, me escuta. — Amy se odiaria pelo resto da vida pelo que iria dizer agora, mas não teve escolha. — Eu estou te pedindo mais uma vez. Deixa o Jau em paz e eu... faço o que você quiser.
— Amy, não! — Alice vociferou. — Não pode se juntar a um ser como TR.
Ela tinha razão, mas não havia mais nada que Amy pudesse fazer. Respirou fundo e encarou nos olhos vazios e possuídos de Jau.
— Por favor — repetiu.
TR olhou para ela como se assistisse a um filme de comédia durante a madrugada, segurando como podia sua vontade de rir.
— Muito bonitinho da sua parte dizer algo assim, Tokisuru — falou, enquanto ria. — Mas, infelizmente, você não me é mais útil, então guarde suas súplicas para você.
— Não — ela gritou ainda mais alto, entrando em desespero. — Eu já disse, faça o que quiser comigo, eu não me importo. — Amy se ajoelhou de novo. Abaixou a cabeça e apoiou suas mãos no chão. Quase chorando, ela terminou de falar:
— Por favor. Sai dele. Por favor.
Não conseguiu conter suas lágrimas depois disso. Ela sabia que TR não era capaz de sentir piedade, mas para sua surpresa, Amy o ouviu dizer:
— Está bem, Amy. O que eu quiser, certo? — perguntou, ficando com a expressão séria. — Levante-se, então.
Atônita, Amy obedeceu. Teria realmente funcionado? TR iria libertar Jau? Ela queria acreditar que sim, mas teria que obedecê-lo antes. Não importava o que ele ordenasse, ela iria fazer.
— Olhe para a garota atrás de você. — Foi a nova ordem. Era óbvio que ele estava se referindo à Alice.
Devagar, Amy se virou e encarou a garota por dois segundos. Não mais que isso pois começou a sentir um constrangimento estranho. Voltou seu olhar para o chão esperando um novo comando.
— Essa é Alice Marvel — TR disse. — Filha de Antony e Caroline Marvel. Os pais dela eram meus colegas quando eu ainda era humano. Mas, como todos os outros, eles se voltaram contra mim e conspiraram para me matar. Agora, como vingança, Alice vem tentando, sem sucesso, me caçar, e tem sido um problema para mim de uns tempos para cá.
Amy não entendeu o porquê de TR estar contando essas coisas. O que Alice tinha a ver com ela?
— Seria um alívio para mim se ela sumisse, portanto, se está tão disposta a me obedecer, quero que faça o seguinte. — TR fez uma pausa dramática antes de concluir. — Quero que mate Alice Marvel.
Todos os pelos do corpo de Amy se arrepiaram. TR não estava brincando. Ele queria mesmo que Amy fizesse isso. Não para se livrar de sua inimiga, mas porque estava se divertindo com a situação.
— Não dê ouvidos a ele — Amy pôde ouvir Alice dizer. — Ele só está brincando com você.
Alice estava dizendo o óbvio. Era claro que para TR tudo não passava de um grande jogo. Mas se havia uma chance de salvar seu melhor amigo, Amy não iria impor limites.
Ela voltou a encarar Alice. Os olhos violetas da jovem loira estavam cheios de medo e súplica. A julgar por sua expressão, Amy deduziu que ela não tentaria se defender. Alice ficaria parada até que Amy resolvesse tomar sua decisão.
Fosse como fosse, Amy não se importava. Aquela garota era tudo o que estava no caminho da liberdade de seu melhor amigo e naquele momento não sentia nem um pouco de piedade.
Sentiu todo o seu corpo esquentar enquanto seus poderes aumentavam com seus sentimentos ruins. Sentiu seus fios de cabelo, um a um, ficando rubros como sangue. Suas mãos se encheram com chamas ardentes e brilhantes, enquanto ela as levantava lentamente.
— Amy, por favor — Alice pediu, com a voz trêmula. — Não precisa fazer isso.
Amy olhou para a garota uma última vez. Então, fechando os olhos e abaixando a cabeça ela disse:
— Sinto muito.
Uma força de uma tonelada fez Amy cair no chão de repente, antes que ela pudesse desferir qualquer golpe. Uma dor aguda vinda de sua perna esquerda percorreu todo o seu corpo como uma onda de choque. Antes que pudesse perceber o que estava acontecendo, ela começou a ser arrastada com força. A dor na perna ficou mil vezes pior. Era como se algo com dentes afiados estivesse mordendo-a e arrastando-a como uma fera arrasta sua presa.
Ela abriu os olhos e se assustou ao perceber que era exatamente isso. Havia uma criatura enorme a puxando com tanta brutalidade, que as pedras e galhos no chão arranhavam as costas de Amy fazendo-a gritar desesperadamente. Quando sua dor se tornou quase insuportável, ela desferiu uma esfera de fogo contra o que quer que a havia atacado.
A fera soltou Amy e ficou confusa. Sem perder mais tempo, ela tentou se levantar e correr. Sua perna estava doendo, mas isso não a impediu. Tinha que fugir daquela coisa ou iria virar almoço dela.
Infelizmente correr não adiantou. Alguns segundos depois ela foi encurralada por outra criatura, idêntica à anterior. Amy agora pôde ver o quanto era assustadora. Parecia-se com uma mistura de leão com lince do deserto. Seus pelos eram alaranjados enquanto que em volta de seu pescoço havia uma enorme juba de coloração vermelho-escuro. O mais estranho e bizarro eram suas patas. Não só pelo fato de possuírem garras afiadas e mortais, mas por serem invertidas, como se alguém as tivesse girado 180º para trás.
Amy parou de correr imediatamente assim que deu de cara com a fera, enquanto esta a olhava friamente esperando que Amy fizesse qualquer movimento brusco.
Vagarosamente, Amy foi andando para trás, tentando fazer o mínimo de barulho. No entanto isso parecia inútil. A criatura, apesar de ter patas invertidas, ia andando para frente com um olhar furioso ao mesmo passo que a garota tentava se distanciar. Era apenas questão de tempo que Amy ficasse encurralada e então fosse atacada.
— Ei, seu curupira estúpido — uma voz chamou. A voz de Alice. Ela havia aparecido de repente atrás do monstro e este automaticamente virou sua atenção para ela.
— Vem atrás de mim. — Imediatamente ela começou a correr, e a fera se esqueceu da existência de Amy e foi atrás de Alice.
Alice Marvel, a garota que Amy estava decidida a matar minutos atrás havia acabado de salvá-la... pela segunda vez!
Mas a garota loira não poderia correr para sempre e uma hora o felino rubro iria alcança-la. Amy não podia aceitar isso. Era a vez dela de salvar alguém naquele dia.
Foi em direção a onde a fera e Alice correram. Amy ficou confusa no começo pois as pegadas maiores estavam direcionadas para o lado contrário de onde deveriam seguir. Porém, ela logo se lembrou que aquela criatura, que Alice chamara de curupira, possuía as patas invertidas, assim como a lenda do curupira descrevia no planeta Terra. O mundo Portland só ficava cada vez mais estranho.
Então Amy finalmente os alcançou. Alice estava encurralada. Uma enorme rocha cinzenta se encontrava atrás dela. O curupira olhava para ela com vontade.
— Aí — Amy gritou, sem pensar nas consequências. — Não mexe com ela.
— Amy, corre — Alice alertou, embora não fosse preciso essa ordem para que Amy fugisse.
Entretanto, algo muito ruim aconteceu. Mais duas das mesmas criaturas apareceram por trás da garota das chamas, e ela ficou completamente encurralada. Agora, as três feras ficaram girando em torno de Amy, e a olhando com se estivessem discutindo qual parte dela parecia ser mais saborosa. Então, a primeira das três saltou em direção à garota.
Amy achou que seria seu fim, mas, num impulso, ela envolveu suas mãos em chamas alaranjadas e golpeou o curupira, lançando-o para vários metros longe dela. Logo em seguida, o segundo avançou, e Amy repetiu o ataque, tendo o mesmo efeito que no anterior.
O terceiro foi mais esperto e mais rápido. Não iria dar tempo de Amy atacá-lo. Por sorte, Alice a salvou — já tinha sido a terceira vez no dia — usando uma magia de coloração verde musgo.
— Você é boa — ela disse, sorrindo para Amy.
Amy não tinha muita certeza disso, afinal, todos os curupiras voltaram a se levantar e agora as cercavam novamente. As chamas nas mãos de Amy já haviam parado de arder.
— O que houve? — Alice perguntou.
— Não sei como controlar.
Um curupira pulou e estava pronto para jantar uma delas, mas Alice o golpeou bem na barriga, deixando-o sem ar. Ela era realmente muito habilidosa. Parecia uma pessoa completamente diferente de Anny, a garota muda e assustada que ela e Jau acharam na floresta.
— Relaxa e se concentra. Não posso lutar sozinha. Preciso de você.
Amy não tinha certeza se tinha ouvido muito bem. Alice aparentava ter se esquecido totalmente de que Amy estava disposta a matá-la para salvar seu amigo alguns minutos antes. Porém, tentou afastar esse pensamento por hora e se concentrar.
Seus poderes ficavam mais fortes quando ela se lembrava de coisas ruins que aconteceram em sua vida. Fora assim que ela tentara vencer Jake na caverna de gelo — o que infelizmente não tinha dado muito certo. Entretanto ela tinha que tentar de novo. Amy iria se lembrar das piores coisas que podia, mesmo aquelas que ela queria muito esquecer.
Um curupira avançou contra ela. Alice estava ocupada lutando com os outros dois, portanto, Amy estava por si mesma.
Quando eu tinha onze anos, ela começou a vasculhar suas lembranças, meu pai ficou decepcionado comigo por uma besteira que fiz na escola. O olhar de desgosto dele... Foi o pior.
Mais uma vez suas mãos se encheram de fogo, ainda mais fortes que anteriormente. Amy socou o curupira quando ele estava a ponto de abocanhar seu rosto.
Para Amy, o golpe parecia ter sido forte. Apesar disso, não demorou até que o curupira se levantasse e estivesse pronto para mais. Seu poder ainda não estava forte o suficiente.
Certo, ela pensou, há dois dias, a diretora disse que meu pai sofrera um acidente e estava no hospital. Eu nunca senti tanto medo.
Suas chamas arderam ainda mais, e dessa vez, ao invés de esperar que o curupira voltasse a atacar, foi ela quem tomou a iniciativa, lançando labaredas contra a criatura. Dessa vez, esta não voltou a se levantar. Amy finalmente havia a derrotado.
A satisfação não durou muito. Ainda havia duas delas cercando Alice, que parecia estar com sérios problemas. Dessa vez, Amy lançou duas esferas de fogo, uma para cada curupira. Infelizmente, o ataque duplo parecia ter sido mais fraco, pois os monstros nem sequer se mexeram. Apenas começaram a olhar para Amy com fúria.
Ela precisava pensar em mais coisas ruins. Mas dessa vez, tinha que ser a pior coisa que poderia ter acontecido, e ela sabia exatamente o quê.
Nesse exato momento, Jau está sendo controlado por um monstro. Eu preciso salvá-lo... Eu preciso dizer a ele que também o amo.
Nesse momento, não só as mãos dela estavam queimando, mas sim todo o seu corpo. Ela sentiu como se todos aqueles problemas estivessem servindo como uma espécie de combustível, que se queimavam e desapareciam conforme seus poderes ficavam mais fortes.
Amy formou mais duas esferas de fogo, muito maiores que as de antes, e mais vermelhas também. Ela teve a sensação de estar segurando duas pequenas estrelas. Em um único segundo, as duas bolas flamejantes se lançaram contra os curupiras, que não tiveram nem tempo para raciocinar. Ambos foram lançados com violência para trás e acabaram batendo com as costas em árvores. De jeito nenhum eles voltariam a se levantar.
Alice olhou para ela com incredulidade. Enquanto isso, Amy sentiu todas as suas energias se esgotando e acabou caindo no chão. Apesar disso, não desmaiou.
— Amy! — Alice se ajoelhou ao lado dela. — Ei, está tudo bem. Você foi incrível!
Amy não tinha forças para responder, pois estava ofegante demais para isso. Apenas encarou Alice tentando lhe lançar um olhar de obrigado e de perdão.
— Você está esgotada. Vai se acostumar. — Ela puxou as mãos de Amy e a fez sentar. — Respire bem fundo.
Amy seguiu o conselho e tentou recuperar suas forças. Não demorou muito até que seu corpo fosse novamente preenchido com vitalidade.
— O que eram — ela disse, quando finalmente se recuperou — aquelas coisas?
— Curupiras. Eles são atraídos pelo fogo. Foi por isso que TR mandou você me atacar.
Amy encarou o chão.
— Sobre isso... eu nem sei o que dizer. Desculpas não são o suficiente para me redimir, eu... — Um nó se formou na garganta de Amy. — Eu sou horrível.
— Amy, você não é horrível — Alice assegurou. — E eu não estou com raiva. Eu bem sei como o TR pode ser persuasivo. Se eu culpasse você estaria sendo hipócrita.
Finalmente Amy teve coragem de olhar a garota loira nos olhos. Alice provavelmente era a pessoa mais compreensiva que Amy iria conhecer em toda sua vida.
— Você não está com raiva? É sério?
— Não e sim. — Ela sorriu, mas esse sorriso logo desapareceu. — Nós temos problemas maiores. TR fugiu. Com seu amigo.
— Droga! — Amy sentiu como se tivesse levado um choque da realidade. — Eu sou uma estúpida. Eu quase me esqueci do Jau. — Ela se levantou rápido demais, e acabou ficando nauseada.
— Vai com calma — Alice advertiu. — Nós vamos alcançá-lo. — A garota coçou a cabeça. — Algo não me cheira bem.
— O quê?
— Os curupiras deveriam estar presos nas masmorras dos caiporas, mas estavam livres. Além disso, só haviam três deles quando deveriam haver dezenas. Onde estão os outros?
— Talvez só três tenham fugido — Amy sugeriu, apesar de não ter ideia do que era essa masmorra ou os caiporas.
— Não, isso não é provável, e eu estou com um péssimo pressentimento. Temos que ir andando.
Amy assentiu. As duas começaram a andar para fora da Floresta dos Rubis, num ritmo devagar, pois Amy ainda estava tonta devido à batalha.
Vários minutos depois, elas chegaram à um campo aberto, que, no lugar de onde deveria ter um extenso gramado verde, havia algo muito mais assustador. Vários curupiras, pelo menos vinte, deviam ter passado por ali, pois a grama estava completamente deformada, e as pegadas seguiam para o lado de onde elas vieram, o que significava que estavam invertidas, como os pés daquelas criaturas.
Alice deu uma boa olhada naquela paisagem amedrontadora e murmurou:
— Tenho que ir para casa. Rápido.
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