Amy Tokisuru em Earthland

5 Capítulo 5 - Reecontro


AMY

Amy deveria estar com medo, mas não estava. Yak segurava as mãos dela com força atrás das costas. Ele provavelmente achou que não adiantaria amarrá-la como fez com Alice já que Amy podia facilmente queimar as cordas. Se ela tentasse machucar Yak superaquecendo seu corpo, ele poderia simplesmente tomar a forma de Richard, que era resistente ao calor. Mas não havia necessidade de nada disso. Amy não queria e não iria fugir. Ela se preparou por dois anos para esse encontro. A cada passo que dava adiante, sentia-se mais decidida. Depois de um ano, ela iria finalmente rever o seu pai.

Ele provavelmente iria dizer coisas horríveis à Amy, mas ela saberia que, apesar de possuir a mesma voz e a mesma aparência, não seria realmente Thomas quem estaria falando e sim, o espírito que mantinha a posse de seu corpo. TR.

Eles entraram na fábrica abandonada. O lugar estava demasiadamente escuro e tinha cheiro de metal que havia enferrujado há décadas. Então, Yak finalmente soltou Amy por alguns segundos para que ele pudesse fechar e lacrar o portão da fábrica para que ninguém ali entrasse. O que estava prestes a acontecer naquele lugar não precisava de interrupções do mundo externo.

Ao fechar o portão, o lugar ficou tão obscuro que Amy não pôde ver um palmo diante de seu nariz. Sentiu uma forte vontade de ferver sua mão e fazer aparecer uma labareda de fogo só para iluminar o local, mas ela não o fez pois temeu que Yak visse aquilo como um gesto de ameaça.

Felizmente, não foi preciso. Logo, várias luzes internas e potentes se acenderam e iluminaram todo o extenso corredor em que estavam. A iluminação era tão forte que as duas garotas tiveram que abrir os olhos devagar para se acostumarem com a mudança. Ao se abrirem completamente, a primeira visão de Amy e Alice foi a mesma. Um jovem loiro inconsciente, preso por uma corda em um pilar de alumínio que ia do chão ao teto.

— Bart! — Alice gritou imediatamente depois de vê-lo. Teria corrido até o rapaz se Yak não a tivesse segurado de novo.

— Calma aí, gatinha. Seu macho está bem — Yak disse. O jeito de falar dele era realmente podre, cem vezes mais do que Corey Spok nos seus piores dias. — A gente não fez nenhum mal a ele... por enquanto.

Bart realmente não parecia machucado. Aparentemente não havia marcas de briga em seu corpo, como ferimentos de soco no rosto ou algo do tipo. Mas se ele estava desmaiado, provavelmente havia levado algum golpe forte na cabeça, e o ferimento causado por isso sua cabeleira loira e emaranhada podia esconder bem.

— O que você vai fazer com a gente? — Alice perguntou. Estava mais nervosa do que assustada, diferente de Amy, que não estava demonstrando simplesmente emoção alguma.

— Não vamos fazer nada com vocês garotas. — Yak sorriu maliciosamente e começou a empurrar Alice de novo para a frente na direção onde Bart estava. Amy os seguia de trás.

— É? Difícil acreditar nisso quando você tem nós três sob custódia, e pode fazer o que quiser com a gente sendo que não há ninguém para nos resgatar.

Yak ficou quieto. Parecia estar cansado de tanto ouvir a garota falar. Para ser bem sincera, Amy sabia muito bem como ele se sentia. Alice tinha a péssima mania de fazer perguntas de mais e agir de menos.

Ela foi amarrada junto ao marido. Ou melhor, namorado. Na Terra, o casamento deles já não tinha mais nenhum valor, visto que era um pacto mágico de sangue, e a Terra era um planeta quase cem por cento livre da magia, com exceção apenas de, é claro, TR e suas criações — o que incluía Amy. Por algum motivo, esse poder possuía algum tipo de preferência ou ligação com o planeta Terra, mas quando Amy perguntou por mais, no passado, Alice não soube o que responder.

Amy foi deixada solta por Yak. Era incrível como ele subestimava a garota. Será que ele estava tão confiante assim que iria vencê-la numa luta, caso ocorresse alguma? Bom, Amy temia que sim. Apesar de no último ano ter treinado muito a controlar os seus poderes, a briga que eles tiveram antes provou que Yak era muito mais habilidoso, devido ao fato de que podia se transformar em qualquer criação de TR que ele quisesse. Aquilo deixava Amy numa desvantagem tão alta, que ela questionou mentalmente se iria sair daquela fábrica com vida naquele dia. Esse pensamento fez todos os pelos de seu corpo se arrepiarem. O fato era que, ela não se importava em morrer, contanto que soubesse que havia salvado o seu pai. Se ela pelo menos soubesse como fazer isso...

Então, as luzes da fábrica se acenderam subitamente, fazendo Amy sair de seu torpor. Yak ficou parado ao lado de Bart, ainda inconsciente, e de uma Alice com expressão de medo, ambos amarrados à viga.

Amy ouviu passos ecoando pelo lugar recém-iluminado, e olhou em volta para ver quem, e de onde estava vindo. Teve que mover sua cabeça várias vezes até finalmente achar a pessoa que estava chegando. Ele vinha de longe, por um extenso corredor, e ficava cada vez mais próximo. Primeiramente, Amy pensou não saber de quem se tratava, mas quando ele se aproximou o suficiente, ela finalmente o reconheceu. Uma onda de fúria e ódio percorreu por todo o seu corpo.

— TR, o que é que você fez com meu pai?! — Foi a primeira coisa que ela disse, segurando-se muito para não avançar ardentemente para cima de seu inimigo, o que foi difícil.

Era simplesmente inacreditável. TR, com o corpo de Thomas, estava usando uma calça jeans preta, rasgada nas partes dos joelhos, um tênis vermelho sangue com cadarços pretos, e uma regata acinzentada com uma enorme estampa de caveira no centro. Mas a roupa era o de menos. O que realmente irritou Amy foi o fato de que, além da vestimenta extravagante, os braços nus de seu pai estavam quase que totalmente preenchidos por tatuagens tribais. Seu cabelo, anteriormente castanho e liso, fora substituído por um penteado estilo moicano colorido de verde. E o pior de tudo na opinião de Amy: O rosto de seu pai estava repleto de piercings. Lábios, narinas, orelhas... Quase todas as partes de sua face possuíam aqueles pequenos objetos metálicos.

Amy não tinha nenhum tipo de preconceito com quem possuía esse estilo punk de ser. O fato era que Thomas era um homem extremamente conservador e apegado em se manter nos padrões impostos pela sociedade. Pessoas de estilos como punk, gótico, entre outros, eram exatamente o tipo de gente que seu pai mais desprezava. Tanto que ele ficara bem irritado quando Amy aparecera com apenas uma mecha ruiva no cabelo, muito tempo atrás. TR devia saber muito bem disso, e só havia transgredido o corpo de Thomas daquela forma para provocar Amy. Ela tinha certeza disso pois a risada que o espírito lançou a seguir possuía um teor elevado provocação.

— Você gostou, Amy? — TR perguntou, assim que parou de rir. — Eu achei que o seu pai precisava de algumas mudanças. O estilo dele era muito ultrapassado e entediante.

— Você não tinha o direito. — Amy cerrou os dentes com tanta força que quase saiu fumaça pela sua boca. Aquilo não seria uma coisa tão estranha, já que Amy possuía bastante afinidade com as chamas. — Você vai sair do meu pai, agora.

— Eu vou? Acho que não. — Deu mais uma de suas risadinhas. Era incrível como, mesmo no corpo de Thomas, o tom de voz e o jeito de rir de TR eram praticamente opostos ao do pai de Amy. — Talvez, se você se ajoelhar e implorar pelo seu pai, como fez lá em Portland, na tentativa desesperada de salvar seu amiguinho, eu possa reconsiderar.

TR havia mexido onde mais doía em Amy. O fato de Jau ter sido refém daquele espírito monstruoso, e ela não ter conseguido fazer nada para ajudá-lo. Ela queria muito poder atacar TR dessa vez, mas, assim como na vez anterior, ela não podia. Aquilo a estava deixando cada vez mais furiosa. Fechou os olhos e tentou se acalmar, respirando o mais fundo que podia.

— TR. — Dessa vez fora Alice quem chamou. Amy tinha até se esquecido que havia mais alguém lá. — Por que está fazendo isso?

Aquela pergunta era inútil. Amy sabia muito bem o porquê, e Alice também deveria saber. TR queria se vingar de seu pai pois, no passado, Thomas fora o responsável por derrotar o espírito pela primeira vez.

— Mas você acha que é apenas por isso, Amy? — TR perguntou, fazendo Amy levar um susto enorme, afinal, ela não tinha dito nada, apenas pensado.

— Como você...

Antes que ela pudesse completar a frase, TR se antecipou.

— Não precisa ficar surpresa. Deixe que eu te apresente a minha outra criação.

Outro personagem se juntou à cena então. Aparecera de repente, detrás de TR. Era um garoto baixo, de pele amarela, muito provavelmente de descendência asiática, pois seus olhos eram finos e estreitos, tanto que Amy não conseguiu distinguir a cor de seus orbes. Seu cabelo era negro e bem curto. Não devia ter mais que quinze ou dezesseis anos. Estava vestindo uma blusa cinza de inverno que parecia ser bem quente e uma calça jeans azul-marinho.

Amy ficou o encarando por um tempo, e fazer isso lhe deu calafrios tão fortes que ela se obrigou a desviar os olhos para o chão.

— Meu nome é Sony — o recém-chegado respondeu, com uma voz aguda. — E, ao contrário do que está pensando, não sou um garoto.

Então Amy olhou para ele — ou melhor, ela — de novo. Definitivamente não se parecia com uma menina. Porém, isso era o de menos comparado ao estranho fato de que ela sabia o que Amy estava pensando. Ótimo, uma criação do TR que podia ler a mente de alguém. Era tudo o que Amy menos precisava.

— Agora você já conhece a Sony — TR continuou. — E o Yak já se apresentou. O que achou de seus novos irmãos?

Eles não são meus irmãos, Amy gritou em pensamento. Você não é meu pai!

— Acalme-se, Amy. — Foi Sony quem disse. Era horrível saber que nem na sua própria mente Amy estava livre.

— Você ainda não respondeu minha pergunta, TR. — Alice voltara a insistir no assunto. Ao invés de ajudar, a insistência da garota só estava deixando Amy mais irritadiça.

— Sony, poderia me explicar sobre o que esta garota tola e chata está falando? — TR pediu. Uma ordem mascarada de solicitação, era o que aquele espírito sabia fazer de melhor, logo depois de manipular pessoas.

— Ela quer saber — Sony começou a explicar — porque continua a fazer criações se já obteve sua vingança contra Thomas. — A garota aspirou o ar com força como se estivesse puxando, junto com o oxigênio, os pensamentos de Alice. — Ela quer saber qual o motivo por trás disso.

— Ah, é claro. Uma enxerida como sempre. — TR andou até a garota, agachou-se perto dela e segurou seu queixo, provavelmente com força já que Alice deixou escapar um gemido. — Normalmente, garota, eu não responderia alguém insignificante como você, mas, para a sua sorte, hoje estou de bom humor, então vou contar para vocês todos. — TR soltou o queixo dela com desprezo, ergueu-se, virou as costas e afastou-se de Alice. — Me diga, Amy. Você ainda se lembra da história da criação dos dois mundos?

Amy voltou um ano no passado, quando Sofia contara essa história para ela pela primeira vez, enquanto fingia ser uma aliada. Jau estava lá com as duas, então Amy rapidamente afastou esse pensamento, para evitar ficar mais deprimida do que já estava. Ficou calada, esperando que TR repetisse a história, e foi o que fez.

Começou a contar a história e Amy foi se lembrando aos poucos. Haviam dois deuses, Quasar, das trevas, e Lucian, da luz. Os dois coexistiam e reinavam em um só planeta, onde havia magia. Porém, Quasar abominava o uso desse artifício, e queria destruí-la para sempre. Lucian discordou totalmente disso e então, para resolverem seus problemas, travaram uma guerra gigantesca. Foi então que TR começou a contar uma parte da história que Amy até então desconhecia.

— Lucian tinha a magia a seu favor, então estava vencendo a guerra facilmente, enquanto que o lado de Quasar era aos poucos dizimado — ele contava, ainda de costas, sem encarar ninguém. — Mas Quasar ainda não havia usado suas principais ferramentas. Os demônios.

Amy apenas ouvia, tentando descobrir o porquê de TR estar contando aquilo, que, aparentemente, não tinha absolutamente nada a ver com a pergunta de Alice, sobre os seus planos que iam além de uma vingança contra Thomas. Várias coisas naquela história não cheiravam bem, principalmente a parte em que ele se referiu a demônios.

— Quasar libertou seus demônios, e ele e Lucian finalmente travaram uma guerra de igual para igual — TR continuou, enquanto andava de um lado para o outro. — Uma boa parte do mundo foi completamente destruída devido a essa guerra. Foi então que os dois decidiram que era melhor parar, e entrar em um acordo.

A partir daí, Amy já sabia o resto. Os dois deuses resolveram separar o planeta em dois, criando dois novos mundos.

— Lucian ficou com Portland e toda a sua magia. Quasar ficou com Earthland, ou melhor, com a Terra, que era totalmente desprovida de mágica. — TR finalmente voltou a olhar para Amy, e ela teve medo do que iria ouvir. — Eu deveria dizer, quase totalmente desprovida de mágica. Entendem onde eu quero chegar, meninas?

Como Amy não ia dar uma palavra com aquele ser terrível, mais uma vez, foi Alice quem acabou respondendo.

— Por que contar essa história, TR? Nós somos de Portland. Já conhecemos a história. — Amy viu que a garota tentava de qualquer jeito se soltar, mas ela fora bem presa por Yak. Quando desviou seu olhar para Bart, viu que ele mexia a cabeça morosamente. O rapaz estava prestes a acordar.

— TR tem razão em te odiar, garota, você é muito burra — Yak falou, cuspindo no chão em seguida. Sony deu um sorrisinho com a cena. Ficar entre aquelas pessoas deixava Amy cada vez mais enojada.

— Então, Amy. — TR colocou ênfase no nome dela, para que ficasse claro que ninguém deveria se intrometer. — Por que acha que só eu, você, e minhas outras criações podem usar magia, aqui, no planeta de Quasar, que abomina a mágica?

Amy deveria responder ou ficar quieta esperando que ele mesmo desse a resposta? De qualquer forma, ela não sabia o que dizer. Se estava óbvio ou não o motivo também era um mistério para ela. Muito além disso, para quê falar algo se Sony podia ler a mente de Amy e responder ela mesma? A garota preferiu continuar calada.

— Que decepção, Amy. — TR chegou perto da garota, e ela sentiu um cheiro forte de perfume que fez seu nariz coçar por dentro. — Achei que fosse mais inteligente que isso, principalmente porque a vida do seu pai depende disso. Mas, já que não sabe, vou te contar.

Ele se abaixou e encostou a boca perto da orelha de Amy. Ela sentiu um calafrio. Porém, antes que o espírito pudesse dar qualquer resposta. Ouviu-se um som alto e estrondoso. Um barulho que até então Amy só havia ouvido pela televisão. Um ruído fácil de identificar. Um tiro.

O próximo som então foi o de alguém gritando alto de dor.

Notas finais
Deixem suas reviews lindas :*