Amy

3 Lembranças


Capítulo 3 – Lembranças

Seis anos atrás.

Eu acordei com a voz de Emma me chamando, não para me dizer que estava tendo outro de seus desejos, mas sim para puxar minha mão em direção a sua barriga. Nós duas ficamos em silêncio, uma de frente para a outra, sentindo nosso bebê chutar pela primeira vez. Não ousamos nos mexer ou dizer o que quer que fosse e eu, que imaginava não mais existir espaço para felicidade, me encontrei transbordando de alegria.

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Nós temos dias bons e dias ruins. Hoje, nós estávamos tendo um dos dias bons, ontem, porém, eu me vi obrigada a mandar Henry para a casa dos avôs, caso contrário, eu tinha a certeza de que ele fugiria de casa. Emma estava com os nervos à flor da pele e tudo a irritava ou a emocionava demais.

Ontem, por exemplo, ela teve um acesso de raiva, quando Henry chegou em casa com o DVD errado. Nós dois então aprendemos a não esquecer ou confundir nenhum de seus pedidos. De modo que Henry passou a anotar tudo o que ela pedia.

Diferentemente de Henry, eu não podia me proteger em nenhum lugar. Então eu tinha que me esforçar e me policiar sempre para não a tirar do sério. Não era difícil lembrar de todas as coisas, mas havia algumas delas que eram tão importantes que eu simplesmente não via necessidade de anotar, como as visitas ao obstetra que sempre vinham acompanhadas de nervosismo e momentos de felicidade.

Um desses momentos, o melhor até hoje, foi o dia em que nós ouvimos pela primeira vez o coração do nosso bebê. Quando aquele som tomou conta da sala, eu não consegui conter minhas lágrimas de felicidade. Eu apertei a mão de Emma contra a minha e deixei minhas lágrimas de emoção molharem o meu rosto.

Nós ficamos em silêncio, deixando aquele som tomar conta não só daquele consultório, mas também tomar conta de nós duas. Era um som estranho, para quem não entendia do que se tratava, mas para nós duas era o som de uma vida inteira.

Hoje a visita foi por outro motivo. Nós iríamos descobrir o sexo do bebê e eu estava rezando para que fosse uma garotinha, pois, afinal, Emma já havia comprado todas as roupinhas de menina que ela viu pela cidade. Eu havia lhe dito para esperar, até que nós soubéssemos se seria uma menina de fato, mas eu mesma não me controlei quando ela trouxe o primeiro vestidinho para casa. No dia seguinte, eu simplesmente tive que voltar naquela loja para comprar todos os outros modelos disponíveis.

“É uma menina, não é?” Emma perguntou, olhando para o monitor do ultrassom. O doutor confirmou com a cabeça e Emma se virou para mim, com um sorriso no rosto. “Eu sabia que seria uma menina!” Ela disse, emocionada.

“Eu só espero que ela goste de vestidos.” Eu respondi.

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Ela mandou pintar todo o quarto de rosa e preparou cada detalhe daquele cômodo como se fossemos receber uma princesa. De fato, era isso que estava acontecendo, a cidade inteira já esperava por essa criança. Todos a mimavam e nós recebíamos tantos presentes que tivemos que doar metade do que já tínhamos por falta de espaço.

Aqueles que não podiam nós dar algo, apareciam de qualquer forma e desejavam saúde para nossa pequena e que Emma tivesse um ótimo parto. Eu não me preocupava muito com isso, pois Emma estava ótima, tanto ela quanto o bebê. Não tivemos problemas em nenhum momento e seu médico estava acompanhando de perto essa gestação, devido às condições especiais que essa criança havia sido concebida.

Estávamos cada vez mais perto de ter nossa filha em nossos braços e eu não conseguia parar de pensar em como seria o seu rostinho. Eu sabia que ela seria perfeita, eu não tinha dúvidas disso, quer dizer, era só olhar para nós duas. Essa criança definitivamente seria o bebê mais lindo do mundo.

Eu já conseguia ver prêmios de beleza e uma torre enorme onde eu mandaria prender todos os pirralhas metidos a príncipes que tentassem quebrar o coração da minha garotinha. Eu contei isso a Emma e ela riu, dizendo em seguida: “Mas e se ela gostar de princesas?”. Eu passei o dia pensando a respeito e cheguei à conclusão de que eu iria mandar construir logo duas torres.

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Emma era a grávida mais linda que eu já tive a chance de conhecer. Estávamos na reta final da gravidez e todos os desconfortos estavam deixando-a bem irritada, mas ainda assim ela mantinha o sorriso no rosto e continuava a curtir cada segundo desse momento. Sua barriga estava enorme e se antes ela já era linda, agora então era como se a gravidez tivesse um efeito mágico nela. Seus cabelos, sua pele, seu sorriso e por deus, como eu amava sua barriga de grávida.

Eu adorava conversar com a nossa bebê, adorava senti-la se mexendo ao som de minha voz e me derretia a cada chute, pois para mim era como se ela estivesse dizendo que me amava. Eu me derretia mais quando via Henry conversando com a barriga de Emma, me derretia em dobro quando percebia o quanto Emma ficava emocionada com essa interação dos dois.

Às vezes eu esquecia o quanto essa gravidez significava para Emma, pois, quando ela estava grávida de Henry, tudo isso lhe foi negado. Ela nunca falou muito sobre isso, mas também nunca houve necessidade. Uma parte de mim queria poder prolongar o que estávamos vivendo, uma outra parte queria poder curtir mais minha mulher nessa fase tão linda em que ela se encontrava. Porém, havia essa outra parte, que não via a hora de finalmente conhecer nossa bebê e de finalmente poder dizer a ela o quanto eu a amava e receber um sorriso banguela em resposta.

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Nós não havíamos escolhido ainda um nome para o bebê. Não conseguíamos entrar em um acordo, pois nenhum nome parecia ser bom o suficiente para a nossa princesa. Emma estava extremamente frustrada com isso, estávamos na reta final e ela se encontrava sentada na nossa cama, ao meu lado, com um livro de nomes e seus significados em mãos.

Usando uma caneta vermelha, ela circulou os nomes que mais gostava e os escreveu em um post-it, colocando o seu significado logo embaixo. Em seguida, ela me entregou o livro e se levantou, se aproximando de uma das paredes do nosso quarto e colocando um por um os post-it na parede. Ela se sentou ao meu lado, assim que concluiu sua tarefa e encostou sua cabeça em meu ombro, me fazendo virar em sua direção para beijá-la.

“Você está feliz, Regina?” Ela perguntou e eu assenti, me aproximando novamente para outro beijo, mas sendo impedida. “Sabe...” Continuou a dizer. “Na próxima vez eu quero que seja você.”

“Que seja eu o quê?” Eu perguntei, confusa.

“Que seja você que gere nosso próximo filho.”

“Ah, teremos outra criança depois dessa? Não sabia desse seu plano.”

“Bem, por que não? Temos uma casa enorme e você é ótima com crianças.” Ela disse, me fazendo rir.

Na verdade, eu era péssima com crianças. Não era nenhum segredo que eu adorava crianças, mas não era um sentimento reciproco.

“Não sei. Não que eu não goste da ideia de um terceiro filho, mas é que eu não acho que eu seria uma mãe tão boa quanto você.” Eu respondi, fazendo-a revirar os olhos.

“Você será incrível. Aposto que você quer isso também. Sabe, é muito bom, tirando os enjoos, os pés inchados, o fato de nenhuma posição na cama ser boa e os quilinhos a mais.”

“Essa é você me dando motivos para engravidar?” Eu perguntei, rindo, ela ignorou meu comentário e continuou a falar.

“Aposto que você também quer sentir uma vida dentro de você. Sentir a felicidade de se sentir completa, pelo simples fato de ser responsável por algo tão pequeno e tão grande ao mesmo tempo.” Ela continuou. “Aposto também que você vai se derreter todas as vezes que sentir nosso futuro/próximo filho se mexendo dentro de você ou te chutando a noite. Fora que eu vou adorar compensar tudo o que você vem fazendo por mim até agora. Além do mais, eu sei que você seria a grávida mais linda dessa cidade, já consigo ver todo mundo babando em você.” Ela completou e eu não respondi, pois eu sabia que essa última frase não era verdade.

Eu sabia bem que nem todo mundo dessa cidade havia esquecido de quem eu fui um dia. Muitos deles só me aturavam porque eu era a noiva de Emma e somente por isso, caso contrário, eles ainda me odiariam e ainda me veriam como a Rainha Má.

Porém, isso não mais importava, pelo menos não agora. Novamente Emma se levantou, voltando a colocar mais sugestões de nomes no seu mural de post-it, enquanto eu pensava que talvez a ideia de eu gerar uma criança, não fosse assim tão absurda.

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Eu cheguei em casa mais cedo aquele dia e encontrei Emma desmaiada nos pés da escada. Eu a levei imediatamente para o hospital e as horas seguintes se seguiram de uma sucessão de exames e esperas. Ela estava exausta, não conseguia se lembrar do que havia acontecido e tinha marcas por todo o corpo. O médico tentou me acalmar, dizendo que o cansaço era normal e esperado nos últimos dias da gestação, mas isso não foi suficiente para me convencer.

Eu conhecia Emma e estava acompanhando cada segundo dessa gravidez. Ela havia tido sim picos de cansaço ao longo dos meses e houve dias em que ela simplesmente não queria se levantar da cama por pura preguiça, mas esse cansaço dela agora era algo diferente. Era um cansaço de alguém doente, seus olhos cansados e profundos e sua respiração lenta denunciavam isso.

Segundo Whale, as marcas do corpo de Emma não ocorreram devido a uma queda, mas ele não sabia dizer os motivos de elas terem aparecido. Não havia nada de errado com a nossa bebê e todos os exames que Emma havia feito não acusavam nada de errado também. Porém, nós já estávamos naquele hospital há quase duas horas e os sintomas de Emma só pioravam. Já não era mais o cansaço a minha preocupação e sim a falta de oxigênio, o déficit cardíaco e a febre que havia chegado a 40 graus a fazendo convulsionar. Whale decidiu pedir mais exames, mas eu já havia perdido a fé na ciência.

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A febre cedeu, porém, isso trouxe consequências não muito boas, os batimentos da nossa filha estavam baixando a cada hora que passava e ela já não se mexia mais como antes.

“Vai ficar tudo bem, Regina.” Emma disse.

Sua voz saiu com dificuldade, eu percebi que essa era uma daquelas frases que as pessoas dizem antes de tudo dar errado. Eu não disse isso a ela, apenas beijei sua testa e disse o quanto a amava. Ela fechou os olhos e as lágrimas desceram pelo seu rosto.

No fim da noite, ela acabou dormindo e a febre cedeu de vez. Sua pressão se estabilizou e o bebê mostrou sinais de melhora. Whale, porém, não estava satisfeito com essa suposta melhora das duas.

Ele estava parado diante da porta do quarto de Emma, com Blue ao seu lado, me fazendo questionar os motivos dessa visita. Eu me levantei e caminhei até eles e era visível a preocupação no rosto de Blue, Whale também não estava tão relaxado quanto eu gostaria.

“Regina.” Ele começou a dizer. “Antes de você dizer qualquer coisa, eu peço que você escute até o final o que Blue tem a dizer.” Eu não disse nada e esperei a fada se pronunciar.

“Regina, a criança que vocês esperam foi gerada de uma forma não tradicional. Aliás, de uma forma especial. Acho que você entende o quanto isso é impossível e ainda assim extraordinário. Vocês duas quebraram todas as regras da magia e isso tem um preço. ”

“Como assim?” Eu perguntei, confusa.

“A bebê que vocês esperam existe porque o amor de vocês é puro e a magia das duas é muito forte. Porém, não forte o suficiente, não por parte da Emma, pelo menos. Para essa criança existir, ela necessita dessa energia que você e Emma têm em si. Enquanto vocês duas existirem, ela existirá. Ela é parte de vocês. Porém, Emma não tem todo esse controle. Talvez pelo fato de ela nunca ter sido treinada ou talvez a criança seja mais poderosa que ela.”

“O que você está dizendo, Blue?”

“Ela está dizendo que Emma está ficando cada vez mais fraca, pois a criança está tirando toda a magia dela e ela é feita disso, Regina. Emma é feita de magia, assim como você.”

Eu balancei a cabeça, tentando entender o que eu havia acabado de ouvir. Uma parte de mim estava tão irritada pelo fato de eles dois estarem acusando minha filha de algo que ela nem sabia que estava fazendo e outra parte de mim odiava o fato de eu não ter percebido isso antes.

“Vocês estão dizendo que ela está morrendo, não é isso?”

“Não. Estamos dizendo que ela irá morrer se não fizermos algo.” Whale respondeu.

“Qual é o plano?”

“Uma cesariana de emergência.” Ele respondeu e me pediu que convencesse Emma a aceitar o procedimento.

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Ela relutou um pouco em aceitar, mas depois de ouvir Whale dizendo que era o melhor a ser feito e que nossa bebê não corria risco algum, ela acabou aceitando. Eles a haviam preparado para o procedimento, ela estava deitada em uma maca que a levaria para o bloco cirúrgico, enquanto eu a seguia, minha mão o tempo todo segurando a dela.

Eu sabia o quanto ela estava frustrada por ver todos os nossos planos mudados de uma hora para a outra. Eu sabia o quanto ela queria trazer essa criança ao mundo da forma mais natural possível, mas no fim, tudo se mostrou estar fora de nosso controle. Eu só queria que tudo desse certo, eu só queria ter nossa filha em nossos braços, para enfim poder voltar com as duas para a casa.

Quando a cirurgia começou, eu estava bem próxima ao rosto de Emma e ficamos em silêncio durante todo o procedimento. Tudo o que eu fazia era acariciar seu rosto e eventualmente beijar sua testa, sem tirar os olhos da tela do LCD, que mostrava seus batimentos cardíacos.

Os minutos foram passando, Whale a cada minuto perguntava como ela estava e todas as vezes Emma respondia que estava tudo bem, mas em seguida fechava os olhos e se esforçava para respirar. Ela não estava bem, eu sentia isso e me inclinei em sua direção para que ela pudesse me ouvir.

“Como você a imagina, Emma?” Eu perguntei, baixinho e um sorriso surgiu em seus lábios, antes de ela me responder.

“No dia que Henry nasceu, eu estava tão assustada. Tão cheia de dúvidas e em nenhum momento eu estava preocupada com a minha saúde, apenas na dele.” Ela disse, ignorando minha pergunta e dizendo o que estava de fato acontecendo em sua mente. “Eu também não pensava em como ele seria. Eu só queria que ele fosse feliz, porque eu já sabia que ele seria perfeito.” Ela deu uma pausa, tentou recuperar o fôlego e continuou. “Ela vai ser perfeita, Regina. Ela já é prefeita. Ao contrário do dia em que Henry nasceu, eu não estou assustada, não tenho dúvida alguma em minha mente. Eu sei que independentemente do que acontecer hoje, você será a mãe mais incrível do mundo.”

“Nós duas seremos, Emma.” Eu disse, mas ela balançou a cabeça e disse que me amava. “Eu também te amo, querida. Eu amo vocês duas.” Seus olhos se encheram de lágrimas e eu senti que estávamos nos despedindo uma da outra.

Eu não sabia mais como acalmá-la ou como dizer a ela que tudo ficaria bem, pois eu já não mais acreditava nas minhas próprias palavras. Whale disse então que estava na hora e ficamos todos em silêncio. O único som do lugar vinha do respirador artificial e da máquina que informava que Emma ainda estava conosco.

Nos segundos seguintes, o que ouvimos foi o som que nós duas tanto esperávamos ouvir. O som mais lindo que podia existir. Emma, que já chorava antes, não conseguiu mais controlar suas lágrimas. O choro da nossa filha preencheu toda aquela sala. A enfermeira a trouxe ainda suja para nós e a colocou sobre Emma. Eu fiquei sem reação, ao ver nossa filha pela primeira vez. Tudo o que eu conseguia fazer era chorar, até que Emma se virou para mim, me fazendo inclinar em sua direção.

“Você conseguiu, querida. Nós duas conseguimos.”

Emma beijou inúmeras vezes a cabecinha de nossa filha, enquanto tocava em sua pequena mãozinha. Aos poucos, a bebê já não chorava mais e nossas lágrimas deram lugar a sorrisos. Eles permitiram que Emma ficasse mais um pouco com a nossa filha e ela pediu que eu a segurasse em meus braços.

Eu já imaginava que me emocionaria muito, quando segurasse minha filha em meus braços pela primeira vez, eu só não fazia ideia do quão intenso seria esse sentimento. Ela era tão parecida com Emma, seus cabelinhos claros estavam grudados em seu rosto e ela me fitava com seus pequenos olhinhos, como se soubesse que eu havia esperado muito tempo para enfim tê-la em meus braços.

“Ela é como você imaginava?” Emma perguntou, me fitando com um sorriso enorme em seus lábios.

Eu nunca a tinha visto tão feliz na vida e eu sabia que ela estava pensando o mesmo sobre mim naquele momento. Eu balancei a cabeça e me aproximei de sua boca para um beijo.

“Não, Emma. Ela é muito mais do que eu imaginei.” Ela sorriu com essa resposta. “Eu te amo.” Eu disse.

Ela tomou fôlego para me responder, mas sua resposta nunca foi ouvida, pois no instante seguinte ela fechou seus olhos e a sala foi tomada por aquele som constante que avisava que Emma já não estava mais entre nós.

Eu apenas senti quando uma das enfermeiras tomou o bebê de meus braços e outra enfermeira me arrastou para longe dali. Os médicos tentando reanimar Emma foi a última coisa que eu vi, antes de não ver mais nada.

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Eu andei por entre nossos amigos e familiares, que estavam na sala de espera. Eu ainda usava meu pijama cirúrgico e ainda não conseguia ouvir nada ao meu redor. O som da máquina, em um apito constante, ainda ecoava em minha mente e eu era incapaz de assimilar o que estava acontecendo. Não consigo lembrar por quanto tempo eu permaneci na sala de espera, esperando por Whale. Ele surgiu em algum momento, tirando a touca cirúrgica de sua cabeça e abaixando o olhar, não precisando usar nenhuma palavra para dizer a todos o que havia acontecido com Emma.

O que eu me lembro de fato, foi de ter respirado firme e de ter visto Snow ser amparada por David. Eu olhei ao redor, Henry afundava seu rosto no colo de Belle, que estava ao seu lado e eu não consegui me mexer ou chorar. Eu senti Ruby me abraçando, ouvi quando ela disse que eu não estava sozinha e tudo o que eu consegui fazer foi ficar em silêncio. Assim como Henry, eu me permiti procurar conforto em que estava mais próximo e afundei meu rosto em seu pescoço, deixando que minhas lágrimas falassem por mim.

Horas antes, essas lágrimas eram de emoção, agora elas eram um reflexo de uma dor profunda que latejava em meu peito. Ela não quebrou o abraço e não se importou quando minhas lágrimas molharam sua camiseta, apenas me abraçou mais forte, até eu perceber que não era apenas ela que me abraçava. Snow estava ali ao meu lado e Ruby havia dado espaço para ela se aproximar e me tomar em seus braços. O rosto dela estava tomado por lágrimas, seus olhos vermelhos e seu olhar cheio de compaixão.

“Por que ela?” Eu perguntei, entre soluços, Snow apenas balançou a cabeça dizendo que não sabia e me abraçou mais forte.

Eu olhei em volta e vi todos ali e percebi que as palavras de Ruby eram sinceras: Eu não estava sozinha.

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A bebê teve alta dois dias depois. Snow e David nos trouxeram para casa, ficaram comigo o resto do dia e me ajudaram com a bebê, que ainda não tinha nome. Henry passou o dia trancado em seu quarto, Archie havia conversado com ele e disse para dar algum tempo ao garoto.

Eu tentei conversar com meu filho, mas o garoto simplesmente se fechou. Ele não queria falar comigo ou com os avôs. Ruby e Archie foram os únicos que tiveram algum sucesso. Eu resolvi lhe dar algum tempo e espaço e não ousei forçar as coisas.

Quando a noite chegou, Snow pediu para que eu a deixasse passar a noite conosco, mas eu achei melhor não. Eu teria que enfrentar isso sozinha, então quanto mais cedo, melhor. Ela pareceu relutante, mas não se opôs a ideia e depois que se despediram dos netos, eles foram embora. Eu fechei a porta atrás de mim, assim que eles saíram, sentindo o quanto tudo era real agora e o quanto eu estava sozinha.

Eu encarei as escadas que levavam para o primeiro andar e as subi lentamente, parando e olhando para o último quarto no fim do corredor. O nosso quarto, que agora só pertencia a mim. Eu andei até o quarto de Henry, encontrando seu quarto vazio e me dirigi até o quarto do bebê, onde eu encontrei Henry sentado na cadeira de balanço, com a menina em seus braços.

Ele se balançava para frente e para trás e eu o vi conversar com a menina, que tinha seus pequenos olhos fixos no irmão. Ele não me notou, eu permaneci em silêncio, encostada contra o batente da porta, observando meus dois filhos juntos.

Henry sorria para ela e parecia estar se divertindo enquanto balançava. Eu lembrei do dia em que Emma ganhou essa cadeira de balanço. Ela havia feito o mesmo que Henry, havia se sentado nela e se balançado durante algum tempo.

“É perfeita! ” Eu lembro de ela ter dito. “Tem noção que é nela que vamos embalar e amamentar nossa bebê?” Ela continuou e eu lembro que eu me derreti toda, imaginando a cena. Ela sorriu para mim, o mesmo sorriso que Henry tinha no rosto agora.

“Ela é perfeita.” Henry disse, se referindo a sua irmãzinha.

“Ela é sim.”

“Se parece comigo quando eu tinha essa idade?”

“Sim, ela parece muito com você.” Eu respondi, me aproximando dele e passando as mãos em seus cabelos.

“Não foi culpa dela, não é? Ela não queria matar nossa mãe.”

“É claro que não foi culpa dela, querido. Não foi culpa de ninguém.”

“Mas se ela não souber disso? Se ela se culpar?” Ele perguntou, em um tom de voz preocupado, sem em nenhum momento tirar os olhos do bebê em seus braços.

“Nós vamos estar aqui por ela, não vamos?”

Ele assentiu e a entregou para mim. Eu a peguei em meus braços e andei com ela pelo quarto que Emma havia preparado com tanto carinho. Em seguida, eu me virei para Henry, que tinha o olhar mais triste possível.

“Nós estamos aqui por você também, meu anjo.” Eu disse, ele forçou um sorriso de lado e tirou algo do bolso. Era o colar de Emma.

“Vovó me deu, mas, se você quiser é seu.” Ele disse, estendendo o colar para mim.

“Não, querido. Ele é seu.” Eu respondi e ele sorriu, colocando o colar em seu pescoço. “É como se ela estivesse perto, não é?”

“Não perto o bastante.” Ele respondeu. “Posso ficar com vocês essa noite?”

“Claro que pode.” Eu respondi a ele e nós três seguimos em direção ao meu quarto.

Eu segurava a bebê em meus braços, Henry abriu a porta para nós. Eu não ousei dar um passo adiante, parada onde eu estava, observei o vazio daquele quarto e lembrei de todos os momentos que Emma e eu passamos ali.

Minha atenção voltou ao bebê em meus braços, antes de eu ganhar coragem para entrar no quarto. Minhas lágrimas desceram pelo meu rosto, quando eu me vi ali dentro. Henry, parado diante da parede com todos os nomes de bebês que Emma havia separado, se virou para mim e quebrou o silêncio do quarto.

“Ela precisa de um nome.”

“Eu sei.” Eu respondi, sentando-me na cama com a bebê em meus braços.

“Pensou em algum?”

Eu respondi que não, ele se virou novamente para os nomes na parede, tirando um por um, até que sobrou apenas um post-it. Ele passou o dedo sobre o nome ali escrito, se virando para mim logo em seguida. Eu não podia ver o nome que estava escrito, mas o sorriso em seu rosto, denunciava que era um bom nome.

“Que tal ‘Amy’?” Ele perguntou, ainda sorrindo. Eu olhei para ele e depois para a bebê em meus braços.

‘Amy’ é perfeito.” Eu respondi, trazendo minha filha para junto de mim.

“Olá, Amy.” Henry disse, se juntando a nós duas e tocando na pequena mãozinha de sua irmã, que prendeu seu dedo em reflexo. “Nós ficaremos bem, mãe.” Ele continuou a dizer, subindo na cama e deitando no lado onde Emma costumava dormir.

Ele olhou em minha direção, me desejou uma ótima noite e disse que me amava, antes de se enfiar embaixo das cobertas. Henry e Amy foram os únicos que dormiram aquela noite. Eu não consegui pregar meus olhos e passei a noite acordada, observando Amy dormir sobre o travesseiro que pertenceu a sua mãe.

Eu não conseguia parar de olhar para ela e já havia decorado cada detalhe de seu rosto, de suas mãozinhas e de cada dedo dos seus pés, que cabiam perfeitamente em minhas mãos. Ela era tão linda. Era como se Emma e eu tivéssemos desenhado cada detalhe dela.

Ela acordou durante a noite, mas não chorou e eu fiquei observando-a por algum tempo, sorrindo a cada vez que ela botava sua pequena mão em sua boca e ficava irritada quando sentia o gosto da luva. Eu corri minha mão pelo macacão rosa que ela usava e a peguei em meus braços, trazendo-a para junto de mim.

O perfume natural que ela exalava, havia se misturado ao perfume que restou de Emma em seu travesseiro. Eu a trouxe para mais próximo do meu corpo e ela se virou em direção ao meu seio, partindo meu coração em milhões de pedaços.

Eu sabia exatamente o que ela procurava e eu não podia lhe dar isso. Eu enxuguei as lágrimas do meu rosto e levantei com ela em meus braços, caminhando em direção a cozinha. Eu parei antes em frente a parede, que poucas horas antes estava tomada por vários post-it amarelos, mas que agora só havia restado um deles.

Eu li o nome de nossa filha, ali escrito com a grafia de Emma, com seu significado logo embaixo e sorri para mim mesma ao descobri-lo. Eu olhei para Amy e pensei que definitivamente nós não poderíamos ter escolhido um nome melhor, pois seu nome conseguia definir exatamente o que ela representava.

Nossa filha não era apenas o que restou de Emma, ela era bem mais que isso. Amy era o que ainda me unia a Emma, de modo que estaríamos sempre juntas, independentemente da distância entre nós.

Notas finais
Amy significa amor.