Amoris Sacrificalis

1 Capítulo Único - Um Último Adeus.


Percy havia acabado de sair de um banho longo e relaxante, tão quente que a pele do menino estava avermelhada. Estava com a toalha enrolada na cintura, então seguiu para o seu armário em busca de um par de cuecas.

Quando finalmente achou em meio a bagunça e a vestiu, sentiu a temperatura do chalé 3 cair. Virou-se preocupado procurando algum possível inimigo – desde que venceram a guerra com Gaia tudo parecia ter ficado calmo demais — mas, achou apenas Nico di Ângelo em seu quarto.

- Ah... Hum, oi, Nico. O que você está fazendo aqui? Não deveria estar dormindo?

Nico o encarou, e ao olhar nos olhos dele, Percy sentiu como se todo o calor do mundo fosse sugado. O garoto assustava ele, mas o filho de Poseidon fazia o possível para não deixar isso transparecer.

- Eu... Eu vim dizer adeus, Percy. Eu precisava dizer um adeus antes de partir ao menos para você.

- O que você quer dizer com partir ? Você volta, não é? Você sempre volta.

O olhar de Percy endureceu e sustentou o do menino que queria desviar.

- Não dessa vez. Dessa vez é... Diferente. Dessa vez eu não volto, Percy. Nunca mais.

Percy engasgou e encarou o chão. Após alguns minutos de silêncio que pareceram uma eternidade, Nico se virou e estava prestes a viajar nas sombras quando o rapaz o interrompeu.

- É por causa daquilo, não é?

Ele disse, ainda encarando o chão.

- Daquilo o que?

- De você ter uma queda ...

Nico, nervoso, o cortou no meio da frase:

- Pela Annabeth? Não, Percy, eu já superei isso, sério.

- Não, Nico. – Percy parou de encarar o chão e olhou fundo nos olhos do filho de Hades – Você não tem uma queda pela Annie. É por mim, eu sei. Jason me contou o que aconteceu quando vocês encontraram o Cupido em...

Ele ia continuar, mas ao ver que o garoto a sua frente ia explodir em lágrimas a qualquer momento, parou. Nico reagiu gritando enquanto tentava não chorar.

- Então é isso que vai fazer, Jackson? Me humilhar aqui? Porque já não basta todo mundo me olhar torto por ser filho de Hades, como se eu andasse por aí coberto em sangue e matando filhotinhos, eu ainda tenho que... Tenho que ser –

Percy o cortou. Enquanto falava, o filho de Poseidon aproximara-se dele, e agora havia acabado com todo o espaço entre os dois, apertando sua boca contra a dele.

Foi a sensação mais estranha – e arrebatadora – que Nico já experimentara; seu primeiro beijo. Suas mãos desajeitadas estavam moles, e ele as deixou cair ao lado de seu corpo, enquanto as te Percy estavam em sua cintura. O garoto correspondia ao beijo o melhor que sua inexperiência o permitia, e ele sentia a pele quente de Percy contra a sua, sempre gelada.

Quando o ar finalmente se fez necessário eles se separaram, ofegantes. Nico estava chocado, e balbuciou um “Di Immortales” atrapalhado.

- Nico, nunca se culpe por quem você é. Cada um é único, e isso faz parte de quem você é. Ser gay não é motivo de vergonha, é apenas uma característica sua; não muda sua personalidade. Ninguém vai te julgar aqui. Não precisa fugir de todos os lugares, você poderia ficar por aqui e ter uma vida normal. Bem, tão normal quanto a vida de um semideus permite ser.

Percy sorria, mas Nico estava mais nervoso do que já ficara em toda sua vida. Não sabia o que fazer, não sabia o que dizer. Era a primeira vez que alguém tinha dito algo assim para ele, droga! Ninguém tinha estado assim tão perto dele, tipo nunca. Muito menos o beijado. Sempre Percy Jackson, o primeiro em tudo na vida dele.

Nico ainda estava muito confuso com tudo o que estava acontecendo, mas resolveu arriscar e beijou Percy. Dessa vez os movimentos eram mais fluídos, e enquanto o filho do deus dos mares estava concentrado em beijar-lhe, Nico pousou suas mãos entre as omoplatas de Percy, e o rapaz estremeceu com o contato frio em suas costas.

Percy se sentia desconfortável de estar beijando alguém na frente da enorme estátua de seu pai que ficava no meio do chalé, mas fez o possível para ignorar a sensação de incômodo.

Quando se separaram, Nico afastou-se um bom metro do amigo e estava prestes a fugir viajando nas sombras quando ele o chamou, quebrando sua concentração para a viagem.

- Não, Nico. Hoje você não vai.

Ser encarado por mais de alguns segundos pelos olhos verde-mar de Percy não causava o efeito mais agradável de todos, e Nico constantemente desviava e encarava o chão.

Sem saber o que viria em seguida, ele se apoiou na parede e olhou para o amigo.

Percy coçou a cabeça e tomou a decisão mais rápida de sua vida.

- Você vai dormir aqui – Ele disse, já indo em direção a cama.

Nico pensou em protestar, mas logo desistiu. Se permitiria ao menos uma noite – ou algumas horas dela – de algo mais próximo da felicidade antes de desaparecer do mapa.

Tirou a jaqueta e o sapato, colocando-os no chão ao lado da espada de ferro Estígio e deitou-se na cama de solteiro ao lado de Percy. Não se tocavam, mas ele sentia o calor emanando do amigo, e isso o fez se sentir um pouco desconfortável, talvez pela proximidade.

Percy não se preocupava mais com a estátua gigante de Poseidon, apenas tentava deixar Nico o mais confortável que podia. Ao ver o garoto aninhado ao seu lado na cama não pôde deixar de lembrar-se de um filhote de gato – A semelhança com Nico era notável.

Só preocupava-se com o fato de ele estar magro demais, mas não queria falar nada a aquela altura. Sabia que o garoto estava provavelmente mais confuso do que já ficara em toda sua vida, e estava deixando-o pensar.

Com a mente em branco, Percy adormeceu.

Nico não conseguia dormir. Sentia que Percy estava dormindo ao seu lado e não queria incomodá-lo. Passou umas duas horas deitado e, por fim, se levantou.

Se sentia culpado por aquilo. Sabia que Percy não o amava do jeito que queria, e sabia que estaria tirando de Annabeth uma das melhores coisas que já havia ocorrido em sua vida, e ele simplesmente não podia, não conseguia, fazer aquilo. Teria que deixar Percy, ele já pertencia a outra pessoa – sabia disso pelo próprio Cupido. Talvez fosse adicionado a sua lista de “e se” mas sabia que nada entre os dois ia dar certo, que Percy não era para ele, teria que sacrificar aquilo para menos sofrimento – da parte dos dois.

E ele sabia que tinha que ir agora. Se não fosse, talvez nunca mais tivesse a coragem para ir. Droga, por que Jackson simplesmente não caia morto e acabava com seus problemas?

Repreendeu-se por pensar isso depois, afinal, o problema não era Percy, mas sim o próprio Nico. Percy teria uma vida inteira ainda pela frente, já Nico não.

Naquele momento , enquanto Nico ainda tinha a coragem necessária reunida, abriu uma passagem para a viagem nas sombras. Queria deixar algum agradecimento para Percy, mas sabia que não podia, então com um ultimo olhar para o filho do deus dos mares – que por sinal estava babando no travesseiro – pulou para a escuridão rumo á lugar nenhum.

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