Amores, Mentiras & Segredos
4 Capítulo 2.

NARRAÇÃO POR:
Serena van der Woodsen
2022
Uma semana hospedada no Bronx foi o suficiente para me reestruturar mentalmente. A forma cruel como minha mãe me tratou anteriormente, já não me afetava mais, longe disso, alguns dias depois minha conta fechou e em vez de decepção, percebi que a Serena de dezessete anos tinha um coração carregado de inocência, empatia e solidariedade e por conta disso o resultado foi pessoas me desmoralizando, manipulando e desacreditando minhas dores, vivências e experiências por qualquer passo maior que a perna.
Os dez mil dólares deixados por vovó Cece foram-me de muita utilidade, a hospedagem para uma semana no Morris Guest House foi quitada, eu comprei alimentos para pelo menos três semanas além de roupas de segunda mão e um Dodge Durango 2001 — SUV usado por mil dólares. Apesar de ter ficado sem lar, a sorte estava do meu lado, porque eu consegui estadia boa e barata, alimentos em conta, roupas de segunda mão em boa qualidade e um modelo de carro que definitivamente custaria o dobro numa loja qualquer.
Durante minha estadia no Morris Guest House a temida resposta que ansiava chegou. Eu fui aprovada no vestibular e fui contemplada com uma bolsa de estudos gratuita para o curso de Direito na Universidade de Oxford na Inglaterra. E esse, sem sombra de dúvidas foi meu maior sonho, além de obviamente poder criar o meu bebê, naquela época.
A Universidade de Oxford representou o meu recomeço, porque, me permitir viver experiências diferentes, sólidas e sadias com pessoas novas, verdadeiras e confiantes, indo além, o curso de Direito abriu meu horizonte, agregou em meu vocabulário e várias outras coisas. No Reino Unido, morei nas instalações da faculdade, pois, tudo era custeado pela própria instituição de ensino, mas para conseguir uma renda a fim de sustentar meu bebê, conseguir uma qualidade de vida melhor e claro ter os meus luxos, passei a pintar quadros e levava cada um deles para o setor de artes plásticas do campus e isso me rendeu uma ótima dinheiro e nos fins de semana fazia bicos como garçonete num renomado restaurante.
Ao analisar todo meu passado, devo admitir que deixar os Estados Unidos foi a melhor decisão de minha vida e não consigo expor em palavras o quão orgulhosa estou de mim mesma como mulher, mãe, profissional, humano e o mais importante, o fato de eu quebrado o molde e provado para mim mesma que sou algo maior que um estereótipo clichê de apenas mais uma garota loura, bonita e bem de vida.
X
ON: Flashback
Aconteceu há 15 anos.
Bronx, Nova Iorque
(Estados Unidos)
21 de janeiro de 2007.
O relógio marca, às 7:30 de uma manhã, novamente chuvosa, mórbida e sofrida, e mesmo contra minha própria vontade me levanto, pois, hoje é o dia que deixarei por definitivo essa cidade. Corro para o banheiro para tomar um banho quente e reconfortante, enquanto, mentalmente repasso meus planos para uma vida em paz com meu bebê.
Quarenta minutos depois saio da toalete e o banho quente fez-me muito bem, pois me sinto mais leve e, ao mesmo tempo, disposta. Penteio meus cabelos e me sinto diferentemente nova, porque, os pintei de castanho médio-quase preto, sozinha, há dois dias e tinha tudo para dar errado, mas deu muito certo.
Pinta-los foi uma forma de começar com o pé direito, daqui a algumas horas pisarei firme no acelerador para fora dos Estados Unidos, então, nada mais coerente que mudar o cabelo também. Enquanto me arrumo ouço o aparelho celular vibrar e não dou atenção, porque provavelmente é algum SMS oferecendo produtos.
Faz uma semana que não tenho notícias de nenhum conhecido e não estou fazendo questão. Como minha mãe me expulsou de casa, felizmente não tenho necessidade de dar satisfação para os outros e por mais que possa parecer solitário sinto-me em paz e livre para fazer o que bemquiser. Em contrapartida, meu celular de hora em hora toca e vejo serem ligações de meu irmão Eric, mas o ignoro, porque se ele realmente importar-se comigo, teria interferido quando minha mãe me jogou para fora de casa, mas não, Eric ouviu Lily me insultar e dizer que sou um estorvo calado e eu sou do time "quem cala, consente".
XX
Colocando meus pertences no carro respiro fundo para manter a coragem de recomeçar dentro de mim. Felizmente não tenho muita coisa, além de roupas usadas, comidas rápidas, muita água e produtos para higiene pessoal. Por eu ter que dirigir comprei dois litros de energético e café colocando-o numa garrafa térmica, pois, tenho doze horas na estrada dirigindo sem parar e necessito de atenção e energia para tal.
Por precaução confiro o tanque do possante e está felizmente cheio e isso me tranquiliza. Após conferir a gasolina, pneus, motor e todos meus pertences, finalmente adentro no carro, porém, antes de pisar no acelerador faço uma oração pedindo proteção para que meu percurso seja calmo.
Abro uma cartela de trident de hortelã e ligo o rádio do automóvel colocando para tocar o álbum "Nevermind" do Nirvana — esse é o meu álbum para se ouvir durante a estrada e esquecer de todos os problemas, dei play e logo os primeiros acordes de Smells Like Teen Spirit começou a ecoar invadindo meus ouvidos. Pego meu aparelho celular e vejo alguns torpedos SMS e entre os vinte que eu não fiz questão alguma de ler anteriormente, há cinco de Nate, porém, novamente ignoro e abro o aplicativo de GPS do meu blackberry e dessa forma começa minha viagem rumo a uma nova vida.
OFF: Flashback
Aconteceu há 15 anos.
Bronx, Nova Iorque
(Estados Unidos)
21 de janeiro de 2007.
XXX
NARRAÇÃO: 3ª PESSOA
2022
O final do mês de Janeiro 2007 foi marcado por muitas mudanças e transições na vida de todos. Enquanto, Serena mantinha-se reclusa do outro lado do mundo e se adaptando a uma nova realidade cheias de responsabilidades, um curso difícil, uma gravidez problemática e também certa dificuldade financeira, Nate Archibald buscava entender o sumiço repentino de sua ex-namorada mesmo que o rapaz mantivesse uma relação com outra garota.
Estar com Mayena Montecollos significava viver um relacionamento de mentira para Nate, pois, não a amava, mas o que era amá-la perto do sexo gostoso que faziam? Mayena era uma garota mexicana cujo, país multimilionários mudaram-se para os Estados Unidos onde a garota reside desde a pré-adolescência. Nate e a senhorita Montecollos se conheceram numa unidade do Starbucks e os flertes aconteceram de imediato, e desde então sempre que estava solteiro e carente lá estava a latina como seu plano B.
Obviamente, a morena sabia ser a segunda opção, mas não se queixava, porque, entendia que o que ambos compartilhavam era apenas prazer e desde que ele respeitasse suas vontades e nunca problematizar os "nãos" que às vezes ela dizia estava tudo certo. Ou seja, era uma via de mão dupla, onde se tinha prazer e liberdade, entretanto, os dois não eram bobos e sabiam que não passaria de fogo e diversão, mas até quando?
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Lily Van der Woodsen vivia um inferno pessoal, após expulsar a própria filha de casa. A situação estava tão ruim que ela acreditava que a filha a havia rogado alguma praga ou maldição, porque a vida da matriarca da família Rhodes descera ladeira abaixo. Para começo de conversa seu filho e única companhia não trocava nenhuma palavra com a mãe e o conflito se deu justamente desde que o filho soube da gravidez da irmã.
O segundo problema se chamava dinheiro. Sim, Lily estava falida e não via a hora de arrumar um novo homem rico e bobo a quem ela pudesse dar o golpe do baú e casar-se, para assim, manter-se no padrão de vida luxuoso sem precisar sequer trabalhar.
O terceiro problema foi a consciência, porque mesmo expulsando a filha de casa, ao perceber que dias depois Serena não voltou batendo em sua porta suplicando por ajuda, Lilian passou a ter problema de insônia e ansiedade, pois, a vontade de saber como a filha e o neto(a) estava falava mais alto.
Já Eric van der Woodsen por um momento sentiu-se preocupado ao ponto de se comportar como se ele fosse o irmão mais velho entre eles, contudo, depois de ligar e não receber nenhum retorno por parte da irmã e mesmo tendo ciência de que sua S gerava uma vida e precisava de ajuda, o rapaz não fez nada, para ele deixar de falar com a mãe era o bastante para ajudar a irmã, então desaparecida e gestante. Ou seja, Eric era só mais um rapaz hipócrita que supostamente se indignava com o que a mãe fizera, mas continuou sentado em sua poltrona confortável nos fins de semana e como defesa caso um dia recebesse alguma acusação de negligência tinha na ponta da língua que ligou várias vezes e nunca teve retorno.
De fato, o rapaz não tinha como prever e nem mensurar o que estaria acontecendo com a loura, porém, havia uma grande verdade que não se expunha em voz alta: Serena van der Woodsen longe significava que os demais teriam um momento de paz.
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A loura residia na Inglaterra há cerca de três semanas e a adaptação a uma cultura distinta da sua e cotidiano de outro país tornara-se uma sensação agridoce levando-a em determinados momentos sentir-se acossada e perdida, afinal, estava domiciliada num território desconhecido para si onde não tinha ninguém para abraçar, chamar de amigo ou apenas encostar a cabeça no colo e chorar. O choque de realidade veio quando percebeu que nem mesmo sabia por onde começar para procurar um emprego decente, porque, assim que pisou na cidade de Oxford tivera que se humilhar para o reitor da universidade lhe cedesse moradia antecipada antes do período letivo começar.
Foi custoso para que a diretoria de Oxford concedesse o pedido e o reitor só abriu exceção após a loura suplicar e explicar os motivos que lhe fizeram necessitar de moradia antecipada: uma gestante desempregada e logo mais seria mãe solo. Além disso, argumentou que sua nota de aprovação deveria ser considerada, pois, não, era qualquer bolsista que conseguia nota dez no processo seletivo para o curso de Direito e muito menos falava dez idiomas. Em outra realidade se ainda residisse em Nova Iorque à garota com certeza diria "ser Serena van der Woodsen" e com apenas um sorriso carregado de carisma e uma jogada de cabelo teria tudo o que pedia rapidamente, mas em terras Britânicas, sua realidade era bem diferente fazendo-a lutar sem nem poder descansar para conquistar as coisas.
Decerto batalhar de modo a conquistar tudo o que almejava dava um gosto refrescante e era isso que Serena buscava, ser capaz de se virar sozinha sem depender de um nome ou familiar poderoso e sabia ter potencial, pois o primeiro passo já foi dado quando deixou tudo para trás e decidiu recomeçar em outro lugar.
Não estava sendo fácil, mas aquelas três semanas vivendo ao lado dos Europeus mudaram a sua vida e pela primeira vez a futura mamãe enxergava o mundo como qualquer outro cidadão comum e abrir os olhos lhe permitiu perceber que deveria ter estourado a bolha mais cedo do que ocorrera, porque agora, após conhecer a vida e a independência não voltaria à submissão de sua mãe ou de terceiros.
A coragem lhe fez almejar algo maior do que apenas dinheiro, luxo e mordomia, obrigando Serena a buscar conhecimento, porque, como diz o ditado "conhecimento é poder". Afinal, de nada lhe adiantava o dinheiro se ele não era propriamente seu e pior, beleza alguma era relevante, pois, no fim das contas a enxergavam como vazia.
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NARRAÇÃO POR:
Serena van der Woodsen
ON: Flashback
Aconteceu há 15 anos.
Universidade de Oxford
(Inglaterra, Reino Unido)
12 de fevereiro de 2007.
São 7:00 da manhã e cá estou eu pronta para encarar meu primeiro dia de aula como acadêmica de Direito em Oxford e meus sentimentos são os mais loucos existentes.
Em primeiro lugar estou ansiosa, porque não sei o que me espera ao longo desses cinco anos de curso, segundo por se tratar do primeiro local onde sou uma total desconhecida e vivo por conta própria e terceiro, porque estou fazendo algo que quis sempre sem a intervenção de outras pessoas.
Faz três semanas que estou residindo na Inglaterra e felizmente a universidade me concedeu um canto provisório para ficar, porém, agora minhas instalações serão no 'campus' assim como os demais bolsistas. Há muitos intercambistas pelos arredores, conheço pelo jeito de andar visivelmente perdido de cada um deles e não os julgo, porque há algumas semanas eu também era uma "turista perdida'' em Oxford.
O reitor entregou-me a chave do meu dormitório e apesar da curiosidade ainda não fui vê-lo, porque todos os cantos deste lugar são incrivelmente lindo e após admirar pedacinho por pedacinho da decoração compreendo o motivo pelo qual algumas cenas de Harry Potter foram filmadas por aqui. A biblioteca desta universidade é uma preciosidade à parte, há algo tão especial e espiritual que pude me sentir em Alexandria e o melhor, ao olhar as prateleiras de livros acadêmicos foi como se Thomas Hobbes me observasse esperando que eu o chamasse para uma conversa sobre "O Leviatã".
Por fim, deixando meus devaneios de lado, volto a arrumar meu cabelo e mais uma vez diante do espelho analiso minha vestimenta. Essa insegurança com o guarda-roupa advém do fato de que eu não estou em condições de usar roupas de boas marcas, sendo assim, comprei tudo de segunda mão, e obviamente as peças não são feias, mas serei hipócrita se não admitir ser estranho me olhar e no reflexo ver que estou usando algo que não seja de grandes estilistas como "Moschino".
Me perdoem pelo modo elitista, peço desculpas por isso, é que às vezes se torna difícil desapegar de algumas coisas fúteis, porém, é como dizem os mais velhos e experientes com os problemas da vida: "Para alcançar o que se deseja há de se prescindir temporariamente dos luxos" e nas condições financeiras que me encontro renunciar a luxar é o mesmo que tirar de minha boca para colocar na boca de meu bebê.
A porta do banheiro se abre e eu vejo uma montanha de cabelos negros ondulados adentrar, parando em frente ao espelho, ficando lado a lado comigo. Finjo me arrumar, mas, na verdade estou olhando meticulosamente para a moça e definitivamente que garota bonita e de beleza única e pelos meus conhecimentos, britânica não é.
Nunca me envolvi com meninas e possivelmente não farei, mas sei reconhecer uma mulher bonita e essa morena é uma delas. Com certeza é uma das "patricinhas egocêntricas" existentes por aí, porque sendo branca de olhos verdes, estilosa, possivelmente popular e rica é pouco provável que viva fora da bolha do filme "Mean Girls"
O olhar dessa garota é muito peculiar. Não digo as cores dos olhos, mas a forma como olha para as pessoas, é como se escondesse mistérios. Deixo minhas análises mentais sobre a desconhecida de lado e finalmente me dirijo para a saída da toalete.
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Por ironia do destino ou sacanagem divina minutos depois descubro que a desconhecida que estava ao meu lado na toalete tempos antes é minha colega de turma e não o bastante fizera questão de sentar-se ao meu lado. Não que eu esteja causando uma rivalidade feminina imaginaria, mas alguma coisa nessa moça me chama a atenção e faz manter-me de olhos atentos.
Sinto dedos me cutucando e ao olhar para o lado observo a garota de olhos verdes me encarando misteriosamente. Encaro-a de volta perguntando mentalmente o que ela deseja e logo vejo um sorriso saindo de seus lábios e a morena dispara:
— Oi!? pode me emprestar um lápis? — A morena me pergunta com um sorriso simpático.
— Claro! — Digo sorrindo educadamente. — Aqui está. — Finalizo entregando-lhe o lápis preto de escrever.
A desconhecida batia o lápis em cima da mesa e isso causava-me irritabilidade, mas faço de conta que não sou uma loura chata e me mantenho calada esperando que o professor ou professora entre na sala para enfim a aula começar.
Tempos depois um rapaz jovem e muito bonito, diga-se de passagem, adentrou na sala de aula com um semblante simpático e não, não estou cometendo os mesmos erros novamente, ou me encantando por alguém apenas por ser bonito demais, mas é fato, não pude deixar de notá-lo, e nem venham me julgar por isso, pois não estou sendo a única a perceber a beleza desse homem.
O professor tem os cabelos lisos num corte remetente ao visual do John Mayer, sua blusa está num tom azul com algumas flores desenhadas, é apertada aos braços e na metade está dobrada dando um toque sexy, não sendo suficiente seu peitoral está a mostra e como complemento a calças social marca sua bunda e as pernas visivelmente torneadas, entretanto, o que me chama mais a atenção são os cabelos do peitoral à mostra e sua jovialidade, eu dou 30 anos para esse homem. Enfim, me ajeito na cadeira para dar uma boa impressão e logo o rapaz gatíssimo se apresenta.
— Bom dia! Eu sou Juan Henrique Richter e vocês serão meus alunos na disciplina "Direito Penal". Não sei o que fizeram para merecer isso, mas aqui estou para "puni-los", minha disciplina é chata e eu sou um professor legal, mas não tentem me fazer de bobo, porque eu vou saber quando tentarem me sacanear.
A apresentação foi rápida e logo o tal Juan iniciou de fato o conteúdo, porém, eu não estava muito de modo a ouvi-lo, porque a fome estava batendo na porta e como tenho me alimentado por dois, tudo se potencializa. Enquanto fingia ouvir o monólogo feito pelo professor Juan, a morena de olhos verdes misteriosos voltou a me cutucar.
— Está apreciando a aula? — A morena me pergunta.
— Estou com fome. — Respondi. — Não estou pensando direito, porque há uma criança faminta dentro de mim. Isso não é da sua conta, obviamente, mas é a única coisa que tenho para lhe dizer.
— Eu me chamo Carla Camila Hanna, mas pode me chamar Hanna, porque é assim que os países de primeiro mundo reagem com uma mulher latina... Renega suas origens e verdadeiros nomes.
Arregalei meus olhos, porque, agora faz todo o sentido a beleza de Hanna sendo completamente distinta das mulheres britânicas e americanas.
— Você é latina? Bem que eu percebi que seus traços são diferenciados, não me entenda mal, te acho super bonita.
— Sou cubana-mexicana. — Hanna me respondeu educadamente. — Os professores sempre fazem as mesmas palestrinhas no primeiro dia de aula, e esse aí é pior ainda, vai por mim.
— Não estou acostumada com "palestrinhas", afinal, é a minha primeira faculdade, mas esse parece interessante.
Hanna deu um sorriso debochado como se dissesse que eu estava errada e continuou: — Alguns lecionadores são um porre, mas geralmente Oxford é maravilhosa e não tem um viés doutrinário como demais universidades mundo afora.
— Como sabe sobre tanta coisa se começamos o curso hoje? — Questiono curiosa.
— Estudo em Oxford há algum tempo, eu estava fazendo medicina, mas percebi que não é o que realmente quero como profissão, apesar de ter aprendido alguns macetes teóricos. Enfim, me transferi de Medicina para Direito e cá estou, além disso, também tenho fugido de um ex-namorado babaca que me persegue desde sempre. — Hanna solta um riso indecifrável e prossegue: — O sexo é gostoso, ele é gostoso, mas eu quero algo mais que isso e Benicio não me entende.
Engulo seco, porque nem sei o que dizer. Hanna aparenta ser uma boa pessoa e uma garota de energia poderosa, mas não me sinto confortável em me abrir. É hipócrita de minha parte ficar receosa, pois, muitas das vezes fui burra igual uma parede de tijolos a ponto de confiar e me envolver com pessoas ruins e me dar demais em relações vazias, entretanto, estou em outro, pais, vivendo numa realidade completamente nova e lidando com desconhecidos que não sei se são confiáveis, então, é melhor confiar, mas desconfiando.
— Entendo. — Respondo tentando manter o assunto, porque, Hanna parece querer desabafar com alguém e eu preciso de uma companhia, sendo assim, nada mais justo que continuar o papo estranho com uma "colega de classe aleatória".
De repente somos interrompidas com o vocal grave do professor proferindo: — As duas marias fifis podem dividir comigo e o restante da turma o assunto tão bom e importante que estão falando? Nós estamos curiosos!
Hanna volta a sorrir encarando o homem de igual para igual fazendo-me pensar que ela está encarnando a aluna rebelde do ensino médio que desafia o professor mais bravo para ganhar popularidade com a sala.
— Nós estamos conversando sobre latinos imigrantes, ou melhor, eu estava dizendo para minha colega que sou Cubana-mexicana e que abandonei a medicina, enfim, isso é interessante, não?
Ao ouvir a forma calma e petulante carregada no vocal de Hanna perante o professor percebo uma semelhança com outra conhecida de meu passado e de modo involuntário começo a reconsiderar nossa amizade.
Por mais "acolhedora" que Hanna está aparentando ser não posso e nem quero me enfiar em confusão, porque aqui é Oxford, não o Upper East Side.
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