Amores Distantes
2 Atormentada
Notas iniciais
Acordei 4:30 da manhã. O braço de Erick estava me prendendo ao corpo dele. Ele roncava alto. Me afastei e saí da cama em direção ao banheiro. Escovei os dentes observando-me no espelho. Meus olhos verdes estavam com olheiras e meu cabelo cor de chocolate estava parecendo feno. Fui tomar banho. Prendi o cabelo e fui para baixo do chuveiro. Depois, caminhei em direção ao closet. Vesti uma calça jeans azul clara, um suéter preto e um par de botas bege. Olhei a hora de novo. Já era 5:30.Passei corretivo para disfarçar o arroxeado de meus olhos. Olhei para meu marido dormindo. A vontade de pegar um travesseiro e sufocá-lo era enorme, mas se eu tentasse fazer isso de novo, levaria outra surra. Ele vivia me batendo. Ao lembrar da nossa última briga, passei as mãos pelas minhas costas. Estava cheia de cicatrizes.
Meu quarto era verde claro, tinha uma televisão de 52' em frente a minha cama gigantesca, onde Erick ainda roncava. Saí do quarto. Ao lado da minha suíte estava o quarto das minhas filhas gêmeas Amanda e Natasha e, do outro lado, o quarto do meu filho Ferris. Durante esses 20 anos, os três foram a minha alegria.
Na cozinha, preparei para mim em capuccino. Abri a geladeira de duas portas e fiquei olhando entre as prateleiras, procurando chocolate e...
- Buuu!
- Aaaah!- gritei e pulei de medo.
- Você de assusta fácil mamãe!- disse Ferris. Ele me abraçou, depois puxou uma cadeira, subiu nela e abriu a porta do armário.
- Ansioso para rever seus amigos no primeiro dia de aula?- perguntei.
- Sim.
- Está louco para reencontrar as meninas?
- Demais!
- Pronto para voltar aos estudos?
- Não.
Agora estávamos nós dois sentados à mesa. Eu bebendo capuccino e ele comendo cereal com leite.
- Vou acordar as meninas.- disse e subi as escadas.
Abri a porta do quarto do meio. As paredes eram pintadas da metade para cima de cor salmão e a parte de baixo branca com flores do mesmo tom da parte de cima. Ao lado oposto a porta, tinham duas camas. Fui andando até elas e sentei em uma.
- Amanda, acorde!- ordenei.
Puxei o lençol que estava cobrindo ela toda. O cabelo dela era como o meu. Seus olhos abriram. A mesma cor dos olhos de Erick.
- Mãe por que me acordou? Eu estava tendo um sonho no qual eu me casava num lindo bosque com um príncipe encantado.- falou ela.
- Acho que ela sonha com isso toda noite.- disse Natasha.
Minhas filhas não eram gêmeas idênticas. Natasha era loira com olhos verdes.
O lado do quarto de Amanda tinha um armário com milhares de livros, um violão e uma guitarra. Mas ela também tocava piano e bateria. O lado da Natasha tinha um microscópio, um telescópio, um planetário, livros científicos e várias outras coisas de laboratório.
Uma estudava artes e queria ser atriz. A outra gostava de ciências e queria se especializar na área de astronomia. Apesar das diferenças elas se davam muito bem.
- Se organizem, hoje é a volta as aulas.- falei
De volta à cozinha, vi Margaret, nossa empregada, e Ferris. Os dois dançando a conga. Ela disse:
- Bom dia Liz.
- Bom dia. Ferris vá se arrumar.- falei e ele subiu as escadas.
- Quer que eu prepari panquecas para as meninas?- perguntou ela. Sua pele era bronzeada, olhos bem escuros, cabelo castanho escuro.
- Sim.
- Como você está?
- Bem, eu acho.
Enquanto ela estava no fogão escutei passos vindo em minha direção atrás de mim. Virei rapidamente para ver quem era.
- Elizabeth.- falou Erick.
Meu rosto deve ter ficado muito sério. Ele me olhava com um olhar provocativo. Ficamos nos encarando. Ele estava usando um terno azul escuro. Provavelmente iria só tomar o café da manhã, depois iria trabalhar na empresa do pai dele.
- Vocês nem me pegam!- gritou Ferris. Ele estava descendo a escada e correndo. Se escondeu atrás de mim. Nos degraus estavam Natasha, usando um vestido lilás, e em seguida Amanda, com calça jeans escura, blusa preta e um casaco vermelho. Natasha perguntou:
- Devo socá-lo na barriga ou na cara?
- Faça o que quiser Nat, mas o pescoço dele é meu!- respondeu Amanda
Os três ficaram entre mim e Erick. Ferris pergunta:
- Está acontecendo algo mamãe?
Pensei em responder: "Sim, está sim! O pai de vocês é um homem frio, mau caráter e inescrupuloso que vive me batendo e abusando de mim. Fui vendida pelos meus pais a esse cretino. E agora tenho que passar o resto da vida ao lado dele." Mas eu não podia falar isso, pois apesar de péssimo marido, era um ótimo pai. Então eu só falei:
- Não. Só estou com um pouco de dor de cabeça.
- Cadê o abraço do papai?- disse Erick.
Olhei os quatro se abraçando e sabia que Erick ia se aproveitar da situação. Ele perguntou:
- E o meu beijo amor?
Fui até ele, pus as minhas mãos em sua nuca e puxei-o para mim. Meus lábios se moldaram nos dele. Nessa hora várias coisas vieram em minha mente. Ódio, depressão, tristeza, ira.
E assim foram todos esses anos ao lado de Erick. Eu sendo atormentada e, literalmente, obrigada a parecer feliz. Odeio essa vida.
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