Amora
5 Capítulo 5 - O Halo
Sorvi lentamente a água que me fora oferecida enquanto tentava controlar a respiração. O pai pobre rapaz era jardineiro de confiança da família de Amora, que trabalhara lá durante muitos anos. Fora-lhe dada a casa para morar desde que se mudaram. Ele entregou-me um pequeno pedaço de papel com um nome e uns rabiscos indicando como chegar ao local.
Asilo Nido Koala Giallo.
Por que ela estava em um asilo? Os filhos e o marido a haviam abandonado desse jeito? Por que não vivia sozinha? Milhões de hipóteses corriam pela minha cabeça, e nenhuma delas era minimamente boa.
Erick agradeceu a bondade do homem, que disse sentir muito antes de pegar o copo que lhe devolvi e fechar a porta atrás de si. Olhei desesperado para meu amigo, que não me dirigiu uma palavra sequer após tomar o papel de minhas mãos trêmulas.
Andamos a passos acelerados nas direções indicadas, e o único som que proferíamos era o dos sapatos batendo contra o concreto e o de minha respiração alterada. Não absorvi informação nenhuma: a vizinhança, as ruas, ou o tempo que andamos.
Eu precisava vê-la, saber o que havia acontecido. A ansiedade queimava tão profundamente que temia entrar em combustão espontânea. Cada segundo era uma tortura, até que um enorme prédio branco despontou. Apertei o passo ao máximo que minha idade permitia até alcançá-lo.
A construção era toda feita em mármore branco, e as inscrições acima das portas de vidro indicavam que ali funcionava um hospital e um asilo. Sem mais tempo para contemplar o edifício, adentrei-o com urgência.
Havia uma enorme sala de espera de piso frio claro sobre o qual várias cadeiras azul-bebê eram ocupadas praticamente em sua totalidade. No fim do amplo ambiente iluminado naturalmente, havia um balcão comprido ao lado dos elevadores.
Nervoso demais para falar, lancei a Erick um olhar de súplicas para que ele tomasse a frente. E assim ele o fez, perguntando à recepcionista sobre visitas ao asilo. A moça, muito branca e com cabelos escuros brilhantes cuidadosamente enrolados em um coque, pegou o telefone e falou brevemente na linha, desligando logo em seguida.
— Por sorte, chegaram nos últimos minutos do horário de visitas. Podem subir, nono andar. – ela sorriu apontando com a cabeça para o elevador.
Cada andar que aparecia no visor daquele maldito prédio de milhares de pisos era uma agonia maior para mim. Meus joelhos tremiam, as palmas de minhas mãos suavam e eu não conseguia focar em mais nada. Esperar, após as portas se abrirem, aquele amontoado de pessoas sair de dentro do elevador era torturante, mas, como tudo na vida, os ocupantes acabaram-se.
Primeiro andar, segundo, terceiro, quarto... Parecia que precisávamos parar em todos eles para as malditas pessoas descerem. Impaciente, eu precisava fechar os olhos e me concentrar em minha respiração. A adrenalina não me permitia sentir, mas minha coluna e meus joelhos estavam em frangalhos.
Finalmente saímos do cubículo infernal e claustrofóbico. Outra maldita recepção mostrou-se à nossa frente. Desta vez, adiantei-me e proferi, sem ar:
— Amora... Amora Tomielo.
A nova recepcionista estudou-me por sobre os pequenos óculos pretos por alguns segundos, e em seguida percorreu Erick de cima a baixo com os olhos. Ela aparentava mais velha e menos simpática do que as do térreo, com as rugas conferindo-lhe um ar de irritação constante.
— Ela não recebe visitantes, senhor — sua voz áspera parecia um atravessar meu peito arfante.
— Eu... preciso... vê-la... — minha visão começava a enturvar, devido ao esforço de meu corpo de evitar a hiperventilação.
— Senhor, não entendeu? Ela não irá recebê-lo. Sua condição a impede.
— Que condição? O que quer dizer? — Bradei, Erick passou o braço por trás de minhas costas, amparando-me.
A mulher franziu o cenho e apertou um pequeno botão laranja no telefone:
— Senhor, já lhe disse que não pode vê-la. Por favor, solicito que se retire, está incomodando os presentes.
Olhei ao meu redor e absorvi o que via, vários idosos encontravam-se no ambiente. Estavam sentados confortavelmente em poltronas com seus acompanhantes ou transitando para a varanda ensolarada que se abria à direita de onde eu estava.
E, no canto, entre a recepção e a varanda e banhada pelo sol, havia uma pequena figura em uma cadeira de rodas. Os olhos cinzentos arregalados encaravam-me, e os totalmente prateados cabelos, iluminados pelos raios solares, brilhavam como um halo ao redor de seu rosto. Este, com a pele pálida e fina enrugada, mas com os mesmos traços lindos de sempre.
Reconheci-a em uma fração de segundo.
Fale com o autor