Amora

6 Capítulo 6 - Em queda livre


Notas iniciais
Erros nas cartas são propositais, ok? AVISO: NÃO LEIA SE NÃO QUISER ENTRAR EM UMA BAD PROFUNDA "I was alone, falling free, Trying my best not to forget What happened to us? What happened to me? What happened as I let it slip? I was confused by the powers that be, Forgetting names and faces. Passersby were looking at me As if they could erase it Baby did you forget to take your meds?"

As palavras recusavam-se a sair, presas em um nó sufocante em minha garganta. Na verdade, por mais que eu quisesse falar milhares de coisas a ela, eu nada tinha a dizer realmente.

— Amora? – minha voz soou fraca, trêmula.

Ela olhou-me com profunda confusão, franzindo os cantos dos lábios para baixo como sempre fez. Então encarei seus olhos e meu coração estilhaçou-se em trilhões de pedaços. Ela não me reconhecia.

E não reconheceria.

Nesse momento, todo o ar fugiu dos meus pulmões. Meu corpo parecia superaquecer enquanto a visão enturvecia. Não conseguia mover um músculo, apesar de fazer toda a força que possuía para tal.

Ouvi gritos e caí rapidamente dentro de uma escuridão infinita.

***

Imagine o que é o momento em que o ser humano descobre que sua vida, já no fim, foi desperdiçada. Cada dia, cada hora, cada segundo foi vivido da forma errônea e não há mais volta. Cinquenta anos sobrevivendo, que outrora pareciam uma eternidade, agora representam apenas uma folha de papel em branco em poucos segundos amassada e jogada ao fogo.

Conhecera o amor apenas para perdê-lo. Conhecera a felicidade para nunca mais sentí-la. O que o mantinha vivo era apenas uma utopia. Também, pudera. Humanos e sua mania de achar que tudo é recíproco na mesma intensidade.

Estudamos as Leis de Newton apenas para descobrir, no fim, que baseamos nossas vidas em pseudo-verdades universais. Balela! “Actioni contrariam semper et aequalem esse reactionem” (a toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade) uma ova, não se aplica às pessoas.

Não que Amora não o houvesse amado realmente, talvez até fosse verdade. A questão é que ela seguiu com sua vida, coisa que Adolfo não conseguira. Outra mentira em que somos obrigados a acreditar — essa idealização idiota do amor verdadeiro que dura a vida inteira. Só amamos realmente uma vez, e não se pode livrar-se de tal sentimento nunca mais. Isso se aplicou a Adolfo, mas... e à sua “alma-gêmea”?

Como não considerara esta possibilidade uma vez sequer? Estivera mesmo tão cego assim? Amora podia muito bem estar casada e cheia de netos, contudo Adolfo acreditava que ela ainda o amaria. Pobre coração dos homens, ludibriado a tal ponto.

Volte a imaginar que tudo o que você acreditou durante toda a sua vida não passa de uma mentira deslavada, uma tentativa desesperada de se manter vivo. Você nunca mais experimentará o gosto da felicidade, aquele pelo qual tanto esperou.

Idiota, maldito seja, agora vês que de nada adiantou tua vã esperança. A vida não é boa para aqueles que são bons para ela. A vida é uma puta que gasta o teu tempo, faz-te em frangalhos e cospe na tua cara enquanto definhas.

Parabéns, você está morto! Condenado a assistir à reprise da sua medíocre vida infinitas vezes pela eternidade. Gosta do que vês? Uma pena... pois não há devoluções, muito menos S.A.C. Sê muito bem-vindo.

***

— Senhor Adolfo? – a voz de Erick ecoando ao longe me despertou.

Meus olhos demoraram-se para conseguir discernir onde estava. Um hospital. Bipes, tubos, máquinas, cheiro de morte. Por sorte, o asilo ficava no mesmo edifício e rapidamente recebi socorro.

— Onde ela está? – a aspereza de minha garganta engatilhou uma crise de tosse que deixou os aparelhos escandalizados.

Enfermeiras entraram no pequeno cubículo para conferir se eu ainda estava vivo. Tive vontade de rir, pois queria mais é que me deixassem aos corvos*. Por um instante, preocupei-me com o fato de Erick estar pagando todo aquele tratamento caro para uma pessoa que não queria viver.

(*Quando um corvo consome um cadáver, tem por hábito comer os olhos e outras partes moles da vítima, antes de rasgar o abdome com seu bico forte.)

— Ela ficou muito assustada e pediu para ser levada para seu quarto.

Não consegui sentir mais nada, apenas o mais profundo vazio. Observei as paredes do quarto pintadas num salmão alegre.

— Disseram-na meu nome? — novamente entrei em acesso de tosse e as enfermeiras exasperaram-se, pedindo que me calasse.

— Sim, meu amigo. Sinto muito dizer-lhe nestas condições, mas... – ele suspirou – Amora sofre de Mal de Alzheimer familiar há muitos anos.

Ele estudou-me por alguns segundos e, uma vez que não consegui esboçar reação alguma, continuou:

— Ela estava muito agitada. A doença avançou tanto que já não consegue falar, mas gesticulava e gritava desesperadamente quando o senhor teve o enfarto.

Enfarto. Por que o Diabo não havia me levado de uma vez? Eu já estava no inferno.

— Amora tinha um caderno guardado no cofre do asilo. Nunca deixou alguém ler e ficou lá durante séculos sob estritas instruções. Primeiro, ninguém deve ler, nem mesmo ela. Segundo, o dono voltará para buscar um dia.

Erick depositou em meu colo um pequeno embrulho em papel pardo muito fragilizado pelo tempo. Em seguida, ele e as enfermeiras deixaram-me sozinho no quarto com o que restava de minha amada.

Eu mantinha anormal calma, parte por conta dos medicamentos e parte por conta do buraco negro que havia em minha alma. Eu já aceitara a morte.

Abri o pacote e lá estava um caderno encapado com papel dourado cujo brilho se fora havia muito, e um enorme coração desenhado em caneta preta. Dentro, lia-se um desgastado “A + A” e desenhos de pequenas amoras espalhavam-se por toda a capa.

Respirei fundo.

(https://www.youtube.com/watch?v=HMs_HfTU8Zc)

30/08/65

Querido Adolfo,

Ele tem batido muito em mim e em mamãe. Estou sendo forte porque preciso ser, por nós dois e por ela. Penso em você durante todos os segundos da minha existência, e não desistirei de lutar até que estejamos juntos novamente.

Tenho feito pequenos bicos para juntar dinheiro: cozinho, faço faxinas, tomo conta de filhos de amigos de minha mãe, até costuro. É difícil fazer tudo isso sem o conhecimento de meu pai, mas acredito que dentro de poucos anos terei o suficiente para voltar ao Brasil. Não me importo de morar debaixo da ponte, contanto que seja com você.

Eu entenderei se você encontrar alguém aí que te faça feliz nesse meio tempo, mas prometa para mim que jamais deixará de me amar. Minha vida não faz mais sentido. Nunca fez até encontrar você, e agora eu perdi tudo. Pensei em suicídio algumas vezes neste mês, mas, só de imaginar que em breve voltarei para os teus braços, a ideia afasta-se imediatamente.

Bem, tenho que ir agora, estou fazendo lasagna para os vizinhos. É bom saber que as pessoas aqui amam essa “maravilhosidade” quase tanto quanto eu (porque como eu é impossível, haha).

Escreverei novamente em breve.

Sono innamorato per te, ti voglio bene, ti amo,

Amora.

***

15/12/65

Meu amor,

Ele arrumou um marido para mim. “Um homem digno”. Tradução: rico, formado. Casaremo-nos em breve e será um evento gigantesco com um vestido mais caro que a passagem para o Brasil. Chega a ser irônico se comparar ao nosso casamento dos sonhos, não?

Perdoe-me por não ter protestado, não quero que meu pai desconfie dos meus planos e muito menos que me deixe com olhos roxos pouco antes do fatídico dia.

Casarei meu corpo temporariamente, mas minha alma será eternamente tua. O rapaz não é uma pessoa ruim, mas temo a Lua de Mel. Será outra parte de minha vida que terei perdido graças ao demônio que engravidou minha mãe. Por favor, não deixe de me amar por algo assim. Prometo a você que estarei apenas sendo uma atriz, sou só e toda tua.

Perdoe-me.

Sono innamorato per te, ti voglio bene, ti amo,

Amora.

***

20/02/66

Meu amor,

Está cada vez mais difícil escrever, meu marido mantém o olho em mim constantemente. Retiro o que disse sobre ele não ser uma pessoa ruim. Ele é um demônio, como meu pai. Sinto-me como minha mãe. Ele me espanca e abusa física e verbalmente.

Mas não é só isso que tem acontecido. Episódios estranhos, querido, muito estranhos... Fico agitada o tempo inteiro, esqueço-me das coisas, queimo a comida... E sofro punições por isso. Tenho anotado tudo para não esquecer, mas não consigo lembrar-me nem mesmo de ter escrito!

Talvez seja só o estresse, vai ficar tudo bem em breve. Mas sinto tanto a sua falta que dói. Minha alma sangra. Você me mantém respirando, lutando. Não desista de mim, meu amor, não desista...

Sono innamorato per te, ti voglio bene, ti amo,

Amora.

***

17/04/66

Estive prenha, mas o demônio matou sua própria prole.

Precisei ir ao médico, tenho repulsa de mim mesma pelo aborto, já não bastassem as violações.

Precisei escrever para não esquecer.

Eu esqueço de tudo.

Eu comecei a esquecer de nós.

Tenho medo, amor, muito medo.

Eu me esqueço de minha mãe.

Mas não me esqueço do monstro.

Eu esqueço as palavras.

Eu esqueço-me de como segurar um lápis.

Mas não me esqueço das surras.

Porque ele me lembra o tempo inteiro.

Ti amo,

Amora.

***

25/05/66

Fui internada por demência. Eu me esqueço de tudo. Tenho breves momentos lúcidos como agora. Levaram todo o meu dinheiro da volta para o Brasil. Não posso sair daqui. Tomo remédios o tempo inteiro. Eu estou com medo. Não quero esquecer de nós. Não posso. Eu preciso de você.

***

??/??/??

EU NÃO AGUENTO MAIS

TIRA-ME DAQUI

QUEIMA

DÓI

AMO VOCÊ

VOLTE PRA MIM

***

??/??/??

Querido Adolfo,

Não sei que dia é hoje, mas me deram um remédio que teve um efeito positivo. Estou num momento lúcido muito forte.

Desculpe-me por não ser mais tão boa com palavras, eu sinto dificuldade em encontrá-las. Fico na cama o dia inteiro porque não sei fazer mais nada sozinha. Sou uma inútil, Adolfo.

Condenei-te a amar alguém que usa fralda aos vinte e poucos anos e que não se lembra nem do próprio nome. Perdoe-me, por favor. Os minutos de lucidez são como se eu me chocasse contra uma enorme parede rochosa de culpa e horror pelas lembranças.

Estraguei nosso sonho. Estraguei sua chance de ser feliz, já que eu não mais a mereço. Espero de todo coração que encontre alguém que te ame tão plenamente como eu amo. Espero que ela te faça feliz como eu jamais serei sem ti.

Eu tentei lutar, juro, mas eu não fui forte o suficiente. A doença venceu-me. Eu não consegui manter minha promessa de voltar para o Brasil, ter nosso lindo casamento em casa , construir nossa vida feliz juntos e ter os sonhados filhos – cujos nomes perdoe-me por não conseguir lembrar.

Você merece mais do que uma vida triste e vazia por minha causa. Só espero que Deus seja bom e faça aqueles dois pagarem por tudo. Já os momentos de lucidez são minha condenação, a dor esmagadora que sinto neles é a minha punição por ter sido fraca.

Esta é a última vez que escrevo. Espero que você nunca chegue a vir aqui buscar este embrulho de sofrimento. Se o fizer, que seja quando eu não mais tiver “momento” algum. Ah... Deus o permita não sofrer tanto a esse ponto, meu amor, você não o merece.

Você foi a melhor coisa que eu podia ter pedido a Ele. Desde a alfabetização até os séculos que você demorou a dizer que me amava. Do nosso primeiro beijo ao dia de minha partida. Você é, foi, e sempre será meu melhor amigo e o amor da minha vida, meu anjo da guarda.

Protegeu-me contra todos os males, manteve-me viva nos mais turbulentos momentos, impediu meu suicídio mais vezes do que imagina, fez-me a mulher mais feliz do universo.

Obrigada por ser a luz da minha vida, por me salvar de mim mesma, por dar sentido à minha existência.

Perdoe-me pelo estrago causado, meu amor, saiba que, mesmo doente, mesmo morta, eu te amarei com toda a minha alma e por toda a eternidade.

Infelizmente, jamais serei amada novamente, Adolfo, jamais serei feliz. Porém, eu preferiria morrer amanhã a viver um milhão de anos sem ter te conhecido.

Sono innamorato per te, ti voglio bene, ti amo.

Addio,

Amora.

Notas finais
Sinto muito.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!