O silêncio que se seguiu ao disparo foi ensurdecedor.

Na cabeça de Ken, o silêncio se convertia em um longo e ininterrupto silvo, agudo e que incomodava-o ao ponto de tentar bater com o seu crânio contra uma parede ou algo do gênero, se isso fizesse aquela sensação estranha passar.

Momentos depois, o assassino percebeu por que aquilo era tão desconfortável, tão ruim: era o barulho que as máquinas de um hospital faziam quando o paciente morria.

Sem pestanejar, o moreno se levantou do chão e se lançou com violência contra o guarda que havia acabado de disparar a arma, rasgando-lhe o peito da altura do pescoço até a cintura com um único movimento.

O outro homem caiu ao chão, morto. A sua arma se desprendeu da sua mão e saiu rodando pelo piso mal encerado, parando aos pés de Ken. Um sorriso sinistro tomou conta do bonito rosto do ex-jogador de futebol, que se abaixou e tomou o revólver na sua mão direita, retraindo as afiadas lâminas da suas luvas.

Ken caminhou de volta até onde ele estava, caindo de joelhos ao lado do corpo ferido a bala poucos segundos antes. Olhos azuis pareciam ligeiramente desfocados, mas ainda estavam lúcidos; o moreno sabia que a outra pessoa ainda vivia, embora na sua cabeça, o alarme que indicava que ela havia morrido já estava soando há muito.

Ele ergueu devagar a arma do guarda, e viu o outro homem tentar esboçar um sorriso, não completando a tarefa em função da tosse que se seguiu. No entanto, ele tentou de novo e foi bem sucedido, conseguindo um reflexo dele no rosto de Ken.

Mas não era a mesma coisa; o moreno sabia que a sua versão do sorriso estava carregada de tristeza, dor e sofrimento por antecipação. O mesmo não acontecia no rosto sereno do outro homem.

O ex-jogador de futebol fez menção de levantar a arma e apontá-la contra a própria cabeça, mas um aviso claro e enérgico brilhou nos olhos azuis da figura estendida. Ken rapidamente jogou a arma para longe, concedendo ao homem caído um último desejo.

O silvo continuava na sua cabeça, mais alto que tudo, superando o barulho que vinha do seu comunicador, um misto de estática com alguns diálogos cortados pela mesma. Em uma ação que nem ele entendeu direito, Ken desceu a cabeça e pressionou seus lábios contra os do outro homem, as duas bocas se abrindo num gesto automático, reagindo à presença uma da outra com sincronia perfeita.

Aquela era uma dança que havia sido praticada até a exaustão pelos dois. Ken sentia o sangue, sentia o cansaço do outro homem na sua boca; acima de tudo, sentia algo dentro de si, que misturado ao longo silvo que não parava, começava a feri-lo e machucá-lo de um jeito que ele não imaginava possível.

De repente, o beijo foi quebrado. Os dois homens se separaram, os lábios do assassino moreno manchados de vermelho. Manchados com o sangue daquele que estava partindo aos poucos e escapando das suas mãos, sem que ele pudesse fechar os dedos para impedir aquela fuga.

— Alles... Schwarz. [1]

Um último lampejo de consciência passou pelos olhos azuis-claro antes deles se focarem no teto, encarando o que havia em cima de ambos para sempre. Mordendo o lábio inferior, Ken sentiu seus olhos queimarem; lágrimas logo cairiam dos seus olhos para aliviar aquela sensação.

— E quando é que foi diferente?

A voz de Ken soou fraca, baixa, mas não havia necessidade alguma de ser ouvido.

O silvo havia parado.

[1] Tudo é... Preto.

Continua...