Amor à moda antiga
35 Capítulo 32
Notas iniciais
—Eu não queria! Não com ele... Tsc. – falei em minha defesa. Por que é mesmo que eu me casei com o merda de Suigetsu, que Lúcifer o tenha num bom lugar, se tinha Naruto? O que diabo deu em mim? Eu podia ter tornado Suigetsu meu amante e caso resolvido. – Tem que acreditar de mim! Eu já te expliquei.
Naruto parou na escada e suspirou cansadamente. Ele sentou-se nos degraus e eu me coloquei ao seu lado. O mundo dá mesmo várias e várias voltas. Quem diria que seria eu o cara a persegui-lo, engolindo todos os sapos que se tem para engolir.
—Esquece. – ele disse e se levantou dali – Vou tomar um banho e vou comer aquela pizza.
—Naruto...
—Sério, Sasuke, já deu. – ele se virou para mim sorrindo e dano de ombros – Não importa o que aconteceu. Tem mais de seis anos. Vamos tocar para frente, como sempre fizemos.
Fui para um quarto perto da sala de vídeo e me deitei. Minha cabeça doía. Desfazer-me de todas as minhas armaduras para fazer Naruto ver quem realmente eu sou é doloroso demais, ainda mais levando em conta que eu passei a minha vida inteira tratando-o assim. Tomei alguns analgésicos e fechei os olhos.
Acordei com o corpo pesado, eu estava meio perdido entre travesseiros e lençóis, nem era tanto assim, mas eu me sentia miúdo e desorientado. Levantei-me devagar e me vi na cama ainda vestido em calças jeans pretas e camiseta branca, estava escuro e o barulho dos carros lá fora era longínquo e surdo. Eu ainda conseguia ver as luzes acesas dos postes e meu relógio digital me dizia que ainda faltavam duas horas para o amanhecer.
Cansado? Oh sim, eu estava, mas me sentia bem, a cabeça mais leve, o espírito mais tranquilo, sentia-me como um adolescente de novo. Eu ouvi sons abafados de riso e de pessoas conversando. Mais pessoas em minha casa? Quem?
Vinham da sala. Levantei-me e fui ver o que era. Abri só uma brecha da porta e vi que Naruto ainda assistia, acho que era uma comédia, e comia. Suspirei de alívio. Ele ainda está aqui.
Respirei fundo e fui até o espelho do banheiro do quarto. Demorei-me ali, observando-me com atenção. Eu não sou forte, apesar de ter só trezentos já pareço velho por causa de tudo o que já fiz nessa vida, tenho nos olhos as sombras de um assassino, pareço ter saído de um pornô japonês e tenho dinheiro de sobra para todas as minhas vidas. Com certeza eu sou o melhor partido do mundo para Naruto, então por que é que eu não me sinto assim.
O que é preciso para ser o homem certo para ele? Uma pessoa que se importa tanto com os sentimentos das pessoas, que é praticamente uma mãe para os irmãos e viveu a vida inteira dedicada a um único amigo, que tipo de homem essa pessoa merece? Suspirei. Eu devia no mínimo ser agradecido por essa amizade.
Tomei um rápido banho e fui para a sala de vídeo, sentar-me ao lado dele. Ele assistia a um filme antigo da Disney. Mulan. Naruto soltava risos frouxos para as peripécias de Mushu, o dragão que ajudava a Mulan. Fitei-o. Ele é mais moleque, meninão, do que nas minhas alucinações. Ele estava sentado no chão, com os braços entre as pernas e os joelhos flexionados, sua cabeça pendia sobre os ombros e sua cauda acariciava gentilmente o chão.
—É seu filme favorito. – falei de repente, sem mesmo sentir o que eu dissera. Ele me fitou com um olhar cômico de surpresa e abriu um sorriso bobo – Que foi? – ele levou uma mão ao rosto tentando esconder o avermelhamento de sua cara.
—Você é você mesmo! – ele falou me fitando de canto de olho.
—Por que diz isso?
—De todas as pessoas que me conhecem na face dessa terra, você é o único que sabe das minhas infantilidades.
—É claro que eu sei. – estiquei minhas pernas sobre o tapete e busquei o pedaço restante de pizza na caixa. Naruto parou de rir, mas não deixou de ficar vermelho – Eu te conheço melhor do que qualquer um, certo? Eu sou o único que enxerga o verdadeiro Naruto por trás dessa armadura pesada. Um moleque.
—Um moleque... – ele repetiu num sussurro. – Sempre me chamou assim, desde o dia que me conheceu. Na verdade, essa foi a primeira coisa que você disse de mim. “Perdeu alguma coisa, moleque?” e eu levei uma surra na hora seguinte. Meu deus... Quantos anos faz isso?
Aproximei-me dele e ofereci o resto da pizza a ele.
Naruto aceitou e depois de comer recostou-se em meu colo.
—289 anos. – falei e eu vi novamente Naruto se assombrar – Faz exatos e longos 289 anos que eu te conheço, moleque.
Ouvi-o suspirar.
—Desculpe pelo meu comportamento idiota de ontem... É que eu...
Peguei duas cervejas e entreguei uma a ele. Naruto aceitou uma e tomou um gole longo, quase metade da garrafa foi para dentro da sua barriga. Fitei-o.
—Obrigado. – falei.
—Pelo?
—Boquete. – respondi tomando um gole – E só para constar, eu não me excito com o sofrimento das outras pessoas. – nos fitamos – Depois que você assumiu os meus cios, eu só consigo ficar duro com você.
—Sério isso?
Assenti.
—Sabe como é transar com uma pessoa e só conseguir ver o rosto de outra pessoa? Sabe o que é você ter a pior transa da sua vida todos os dias? – Naruto negou sorrindo.
—Eu só vou para a cama com você, como é que eu posso saber o que é ter a pior transa da vida todos os dias? – ele falou de um jeito sugestivo que me fez entender exatamente o que ele queria dizer – Caramba, você é mau, Sasuke, coitado do Suigetsu, mal morreu e você fica falando essas coisas.
—O que eu posso dizer? – ergui uma sobrancelha e tomei um gole de cerveja. – Não é porque que eu estou com um cara que significa que eu goste dele, às vezes é uma questão de obrigação, não de querer. – fora isso o que me acontecera. Em minhas alucinações, eu era obrigado a casar com Naruto, quando na realidade eu fora obrigado a estar com Suigetsu. É incrível como os sonhos conseguem burlar nossas censuras e fazer nossos desejos virem a tona em formas distorcidas. – Ele era tão ruim que se quer engravidou, mesmo nos cios.
Naruto riu gravemente. Eu olhei de lado, ainda sério, e me deixei contemplar o riso tão espontâneo dele. Pelo o que eu me recordava, Naruto era um dos meus parceiros fixos bem no começo, mas ao se tornar cada vez mais próximo de mim, foi se tornando o único parceiro, chegando ao ponto de que eu sempre fugia de casa para satisfazer-me com ele.
Quando ele assumiu as responsabilidades pelos os filhos de Minato, então o que já estava atado tornou-se ainda mais intrínseco. Pouco a pouco, eu, como um gato, fui o envolvendo com as linhas de um barbante, prendendo-o egoistamente até chegar a um ponto que Naruto não se veja mais sem mim. Eu sou cruel, eu sei, mas acho que os cruéis também merecem amar e serem amados, e mudar, não creem?
Por isso eu devo tê-lo beijado quando eu despertei, por isso ele me disse para nunca mais deixá-lo, por isso seus sentimentos são indiferentes para com Suigetsu, por isso eu tenho um local especial em seu coração, por isso que só ele pode cuidar de mim.
Não que eu seja convencido – mas já sendo – eu sou mestre e senhor dessa raposa e não há nada e nem ninguém nesse mundo que possa mudar isso.
—Falando em cios... — se voltou para a televisão – O meu será em um dia, Sasuke.
Cuspi a cerveja em cima da mesa de novo.
—Tá de brincadeira comigo, não?
Ele negou e desatinou a rir quando Mushu riu também.
—Naruto. – nos fitamos – Quer dizer que em dois dias você vai estar propenso a engravidar? – ele assentiu de novo – E você ainda não se preparou?
—É claro que eu me preparei. – ele puxou sua mochila e jogou em cima de mim – Olha aí.
Abri o zíper com cuidado e vi o conteúdo. Uma maleta pequena estava ali, no meio das roupas e de alguns cremes. Peguei a maleta e abri os fechos. Havia uma seringa com um líquido azul, uma injeção para doses intramusculares e dois comprimidos vermelhos. Eu reconheci aqueles apetrechos todos. Naruto os usara nas minhas alucinações para me castigar.
—O que pretende fazer com tudo isso?
—Não posso ter meu cio ainda, eu tenho uma missão amanhã.
—Vai para onde?
—Lugar nenhum, se quer saber. – ele suspirou – É uma reunião que seu pai convocou de última hora com os seus parentes chatos. Eu deveria ter te dito isso ontem, mas aí rolou aquilo tudo e eu acabei esquecendo. Você tem o dia de hoje inteiro para se preparar psicologicamente para essa reunião. Yamato e eu vamos com você, ele de conselheiro e eu de segurança. Deus sabe quando essa porcaria vai acabar, por isso as injeções.
—E o seu cio?
Ele deu de ombros.
—Essa substância me dá uma semana de adiantamento, depois disso... Vem duas vezes pior por causa do atraso. Quanto mais eu atrasar, pior fica.
Assenti e algumas ideias me ocorreram.
Terminamos de assistir ao filme e eu praticamente empurrei Naruto para o meu quarto para que ele fosse dormir. Fui ao meu escritório, eu tinha que fazer uma lista de passos, algo parecido com o que Boruto fizera para mim. Revi várias e várias fotos em meu computador, revi alguns vídeos informais – não os pornográficos – que ele fazia de nossos passeios, pesquisei um pouco na internet sobre raposas.
Também assisti a alguns filmes com a temática romântica, filmes de época, coisa do século passado mesmo, eu relembrei-me da conversa que tive com Naruko e de algumas memórias que eu tenho sobre Naruto.
Fechei as portas do meu escritório, busquei uma lousa e coloquei de frente a televisão, procurei pinceis de quadro e comecei a fazer alguns diagramas parecidos com o que eu fizera em meu caderno de notas. O nome de Naruto estava bem ao centro ao lado do meu e ao redor estavam os nomes de pessoas que nós conhecíamos, as linhagens de parentesco, as supostas amizades, entre outras tantas coisas.
—Sasuke Uchiha... – falei sorrindo ao terminar de colar as fotos e as imagens que eu imprimira para o diagrama. – Está de volta ao páreo. – observei todo o quadro. Parecia algo como um diagrama policial sobre um crime desafiador envolvendo gangues – Eu sou foda!
Pela manhã, algo em torno das sete, eu já estava pronto, mas um defunto ressonante ainda dormia em meu quarto. Fui até lá e sorri de lado. Depositei o que eu levara na mesa de centro e ativei o despertador para tocar em dez minutos. Saí com calma depois de buscar uma gravata e fui para a cozinha. Yamato já mandara preparar o café da manhã e trazia o relatório que descrevia os assuntos que seriam tratados durante a reunião.
Eu li enquanto tomava o café. Parece que eu vou ter muitas dores de cabeça. Yamato aproximou-se com uma caixa e colocou ao meu lado.
—O que é isso? – indaguei baixando os papéis.
—A coleira do capitão Uzumaki, senhor Uchiha.
—Coleira? Para que é que eu vou por uma coleira nele? – abri a caixa e vi o objeto ali: era preto fosco e tinha pequenos sparcks ao redor, como à coleira típica de cães ferozes.
—Senhor? – Yamato pareceu-me um pouco preocupado – Sabe como o capitão se sente perto de outros felinos. Ele transforma-se em fera se não estiver de coleira e o senhor terá que intervir de novo, como já ocorreram tantas outras vezes. Por favor, senhor Uchiha, pelo bem de sua mãe, eu acredito que seja mais prudente por a coleira nele.
Eu iria rebater aquele argumento, mas um grito vindo do andar de cima impediu-me de falar, não um grito de medo ou de raiva, ou luxurioso, um grito de surpresa. Sorri de lado e voltei a ler o relatório. Parece que alguém teve uma surpresa logo cedo. Ouvi passos pesados e apressados pelos corredores até chegar à escada e vi até a cozinha. Esperei sem esboçar nenhuma reação, ao contrário de Yamato, que mal conseguia sustentar-se de pé.
Lentamente virei-me para trás e me deparei com uma pessoa ofegante apoiada na entrada da cozinha, carregando entre as mãos, cobertas por luvas pretas incompletas até os dedos, uma singela acácia amarela com uma fita preta amarrada ao redor do talhe. Naruto chegou correndo, o rosto corado e a respiração ofegante. Já estava vestido em seu uniforme preto de soldado, que lhe caía muito bem por sinal, e parecia envergonhado com alguma coisa. Ele se aproximou com o rosto baixo, buscou um copo, encheu com água e colocou a flor dentro.
—Bela flor, capitão Uzumaki. – comentou Yamato servindo Naruto. – Quem lhe deu?
—Não sei... Apareceu ao meu lado hoje de manhã. – seu rosto estava muito corado. Ele estava muito constrangido. Sorri minimamente.
—É uma flor com um significado especial, sabia senhor Uzumaki?
—Sei sim. – ele ergueu discretamente o olhar para mim – Quer dizer “Amor Secreto”. – pisquei um olho para ele e Naruto estremeceu na cadeira.
—Parece que o capitão tem um admirador secreto.
—Um bem ousado, por sinal... – ele quase gaguejava – Porque entrou na casa de Sasuke só para me deixar uma flor...
—Deve ser uma pessoa muito apaixonada. – comentei cruzando as mãos ante o rosto. Eu estava me divertindo com Naruto tentando esconder o óbvio. – Quem será? Suspeita de alguém?
—Não... – ele virou o rosto e começou a comer.
Fale com o autor