Amor à moda antiga
27 Capítulo 25
Notas iniciais
–Eu não sei o que houve com você... – estreitei meu olhar, confuso, e eu acabei provocando risos nele. Ele moveu levemente sua mão e tomou a minha com aquela mesma delicadeza a qual eu estava acostumado. Sua mão era quente como a de Kyuu-chan, era grande e calejada, como a minha fora – Mas isso é real. Pode ter certeza. E nunca vai mudar.
Não mudou. Aquele mesmo calor, aquele sentimento de que eu precisava estar com ele, que não saberia viver minha vida sem ele, mesmo que meu orgulho não me permitisse admitir a verdade, era o mesmo e eu senti isso com o toque. Suspirei e entrelacei meus dedos nos seus.
Naruto confirmou mentalmente algo.
Devagar foi me soltando, como se temesse que ao fazer aquilo um de nós dois desaparecesse. Fitamo-nos. Kyuu-chan estava ali, sorrindo bobamente com os olhos fechados. Mais velho, mais maltratado e mais forte, mas estava. Naruto disse que me levaria para casa. Contou estar preocupado com as minhas dores de cabeça. Pegou seu colete do chão e saiu caminhando sem pressa, segurando com alguma delicadeza o meu braço.
Primeiro fomos à enfermaria e ali tomei alguns analgésicos para a minha dor de cabeça, nada suspeito, nada que eu não conhecesse. Naruto esperou que tudo fizesse efeito em mim, para só então me levar “em segurança embora”. Naquela enfermaria uma mulher coletou um pouco do meu sangue e da minha saliva, para exames e assim descobrir qual era a causa das minhas dores de cabeça.
O lugar parecia ser uma delegacia, mas me era estranhamente familiar. Contraditório, eu sei, mas tudo nessa merda está pelos avessos, então que se dane. A propósito, aquele Naruto era bem mais sincero. Enquanto andávamos, ele ia me “relembrando” onde eu estava.
Aquele prédio ficava no subsolo de um armazém de materiais de construção, bem abaixo de um canal nos arredores da cidade. Eu mandara construir aquele lugar propositalmente para caso, houvesse a necessidade, implodir os alicerces do canal e assim inundar tudo. Chamava-se Porão apenas. Aquele era o meu local de trabalho. Era ali onde eu “fazia a minha mágica”.
–Você costuma nos tratar como se fôssemos de um Batalhão. – ele me fitou por cima do ombro – Até me deu o cargo de Capitão! Mas geralmente nos chama de escravos.
Algumas das pessoas que por ali passavam me fitavam com alguma curiosidade, pessoas que eu jurava estar tão mortas quanto eu estou vivo: Neji, Shino, Rock Lee, Shikaku, Yoshino, Chouza, Danzou, Jiraya, Konan, Kisame, entre outros tantos rostos conhecidos. Vivos e trabalhavam para mim como Gatos da Noite juntamente com outros Uchihas. Estavam todos ali e alguns sorriam em cumprimento para mim, como se me conhecessem de anos.
De repente nós paramos, isto é, fomos impedidos de prosseguir, e eu vi um rosto me surpreendeu, um rosto que eu conhecia e odiava, mas usava óculos.
–Uzumaki, nós já terminamos as investigações. Todos os exames foram colocados em sua mesa tal como pediu. – ele apenas assentia, com o rosto abaixado para ouvi-lo melhor, enquanto retirava o braço dos meus ombros. – Sobre o caso de hoje de manhã... O criminoso desta manhã tinha ligações com o assassinado. Ambos eram amantes. Não sabemos ainda se isso fazia parte de algum plano da Aldeia do Som ou se foi mero acaso.
–Entendo. – Naruto suspirou – Obrigado por tudo, Pain, procure padrões de outros assassinatos envolvendo pessoas importantes dos Uchihas e parceiros de fora.
Pain fez uma reverência e se afastou rapidamente, deixando um rastro forte de nicotina no ar, até provocou uma breve tosse em mim. Ele era subordinado de Naruto? Como assim? Pain deveria ser de uma máfia rival a minha!
–Talvez não se lembre, – Naruto esperou que eu ficasse ao seu lado e apontou para alguns homens – Mas a Akatsuki trabalha com os Gatos da Noite. Pain é a nossa conexão com eles. Antes era seu irmão, mas... – virou num corredor e eu o segui – Tivemos alguns problemas, então quando meu primo Nagato assumiu, ele colocou o... – Naruto sorriu de maneira safada e baixou o rosto – Não espalha para o resto da companhia, mas apesar de Yahiko ser casado com a Konan, ele dá uns pegas no meu primo. Enfim... Pain é o nosso contato agora.
–Quer dizer que a Akatsuki trabalha para a Matilha Vermelha?
–Mais ou menos. – continuamos caminhando – De primeiro era só um grupo de mercenários, mas depois que Nagato entrou e assim eu pude intervir, a Akatsuki se tornou uma parte da Matilha Vermelha, um grupo de combate, algo assim. Eu não sei mais o que rola por lá porque está fora da minha jurisdição, por assim dizer.
–Sei... Então Pain é o Intercambista. – falei e me surpreendi por me lembrar de algo como aquilo num momento confuso como aquele. Naruto assentiu.
Por Deus, queria que alguém me explicasse o que está acontecendo comigo, com a minha cabeça. Aos poucos, com a caminhada pelo prédio, eu me recordei de cada lugar, de cada situação que eu vivera ali e, principalmente, eu me recordei em parte da minha convivência com Naruto. Eram flashes perdidos na minha memória que aos poucos iam se conectando, como anéis de uma corrente, recontando a minha vida. Respirei fundo e continuei caminhando a passos firmes, decidido a descobrir o que ocorrera.
Fomos para uma sala mais confortável, no fim do corredor.
–Sua sala. – ele falou. Sim, era ali mesmo onde eu sempre resolvia a minha vida. A Construtora Uchiha não era a minha praia, a OGN era. Apesar de Itachi ser o mais velho, eu assumi os Gatos da Noite. A aliança entre com a Matilha Vermelha fora feita graças à amizade que tenho com Naruto, curiosamente, uma amizade proibida de infância, mas que veio a calhar.
O loiro foi até a porta e sorriu para mim de lá, como se dissesse que tudo ficaria bem. Abriu-a e ficou com apenas o rosto do lado de fora, observando quem ia e quem vinha na enorme sala à frente que a gente acabara de passar, apinhada de pessoas e pilhas de papeis. Fitei aquela sala pela janela da porta. Pessoas vivas, pessoas que deveriam estar mortas, gente de terno preto e gente com uniformes militares de mesma cor.
–Neji! – o homem veio rapidamente, Naruto sussurrou algumas coisas no ouvido dele com brevidade e escancarou a porta permitindo que o outro entrasse. – Fique com ele enquanto encerro o caso. Ajude-o e seja gentil. Ele acabou de perder o esposo.
Naruto saiu rapidamente, praticamente correndo, e Neji revirou os olhos.
–Não vou ficar aqui com você nem fodendo. – ele disse secamente. Estranhei aquele comportamento, era o mesmo que provocara a própria morte. Ele foi até a porta e segurou com força o braço da primeira pessoa que passou por ali. Eu reconheceria aquela cabeleira rosa até no inferno. – Sakura. Fique com o maluco aí.
–Eu? – ela foi empurrada para dentro da sala aos tropeços e me fitou. Seus olhos se arregalaram imensamente e eu a vi suar, nervosa por estar em minha presença. Continuei sério, observando o comportamento dela.
Sakura carregava algumas pastas de várias cores nas mãos e parecia ter muita pressa. Usava um terno cinza típico das secretárias, mas com uma vulgar abertura lateral na saia. O distintivo estava preso no bolsinho do paletó, diante dos pequenos seios. Estreitei meu olhar, me perguntando por que ela trabalhava para Naruto.
–Nem pensar! Eu tenho que entregar essa papelada toda para Tsunade e se não fizer isso, ela me degola! – os dois se encaram com raiva – Fique você!
Neji tomou as pastas das mãos dela e a empurrou para uma cadeira que ficava perto da mesa de escritório da minha sala.
–Ordens do Uzumaki. – ele falou sombriamente e ela estremeceu – Não quer ver o capitão furioso, não é? – ela negou rapidamente – Então fique aqui, faça companhia ao doente e eu entrego a papelada para Tsunade. Se ela perguntar por você, eu digo que foi ocupada por outra coisa de última hora e contra a sua vontade.
Ele saiu rapidamente da sala e desapareceu pelo corredor. Sakura bufou e cruzou os braços, irritada por estar ali. Estreitei meu olhar e fiquei quieto, assistindo a sua crise contida de pelanca por não fazer o que queria. Ele se levantou da cadeira e foi até uma parede, deslizou o dedo pelo sofá macio que havia de frente a minha mesa e deteve-se num porta-retratos no meio da estante de arquivos que compunha uma parede. Sorriu, corando um pouco o rosto, para só então aproximá-lo do coração.
–Eu podia ser mulher dele, sabia? – ela comentou com ares apaixonados. – Mas você existe. – aquele tom de voz era puro desprezo e ao virar o porta-retratos, eu vi que era uma foto minha e de Naruto. Nós dois estávamos em algum lugar com montanhas, ele fazia uma pose de fisiculturista, com os braços estirados, somada a uma careta tentando ser sensual e eu estava ao seu lado, com a cara um pouco emburrada, mas ainda sim, eu sorria.
Cadê o respeito que eu tinha? Que ousadia é essa? Franzi o cenho e resolvi atiçar um pouco mais, pois eu estava em plena investigação sobre a minha própria vida. Sakura não parecia ser aquela louca de antes. Ela me parecia mais com Hanami, meio atarantada meio menininha idiota, mas continuava igualmente insuportável. Fitei minhas mãos. As alianças de meu casamento com Hanami não estavam ali e não havia marcas insinuando que um dia elas estiveram, isso poderia indicar que eu nunca me casara com ela.
Fitei Sakura novamente.
–E qual é o problema? – eu perguntei com calma.
–O problema? – ela fez uma cara de vadia que pensa que é muita coisa – Você é o problema, se isso que quer saber! Você, seu Uchiha de merda! Você é a porra do problema!
–É mesmo? – impliquei. Certas coisas não mudam. Meu nojo por ela é uma delas. A raiva que ela tem por não ser a mulher dele é outra.
Sakura rangeu os dentes e colocou o quadro de volta para a estante. Veio até mim irritada, segurou-me pela gola da camisa e me suspendeu bruscamente. Ela acertou uma tapa na cara ao ponto de eu cair sentado e ficar sem acreditar que alguém como ela me batera.
Ela iria me bater de novo se, repentinamente, Naruto irrompesse a aura do ambiente ao abrir a porta e fizera ela parar no ato. Nós dois fitamos ele e ele cruzou os braços furiosamente, eu vi aquele Naruto bobo e alegre que eu estava comigo na sala de interrogatório desaparecer completamente. Seu peitoral inflou dentro de seus braços.
–Sai. – ele ordenou com a voz baixa. Sakura ficou desconcertada, mas obedeceu, saindo apressadamente, quase tropeçando nos próprios saltos. Ele saiu também. Naruto fechou a porta calmamente. – A senhora está de sacanagem comigo, senhora Haruno?! – ele gritou.
–Não senhor! – ela respondeu alto e com a voz de quem estava chorando.
–A senhora entende que acabou de bater na cara do homem que paga suas contas, senhora Haruno? – ela nada disse – Entende que eu poderia te matar só por causa disso? Mas que porra era que você fazia nessa sala sem permissão, senhora Haruno?
–Neji disse que o senhor mandou que eu ficasse com ele e...
Houve um minuto de silêncio e então, uma explosão.
–Senhor Hyuuga! Poderia vir aqui, por gentileza!!!
Parece que praticamente Neji brotou onde Naruto estava. Eu só via as sombras através do vidro fosco das portas da sala. Quer dizer que aqui eu ainda exerço um tipo de força sobre ele e que todos ali o obedecem piamente. Então Naruto ainda é o cara perigoso que todos diziam ser para mim. Naruto se tornou, no fim das contas, o Alpha que deveria ser.
Aquele comportamento dele me recordou bastante quando eu fora preso e conhecera o responsável pela prisão, o linguajar e a autoridade praticamente explodindo e derrubando as pessoas ao seu redor. Como um monstro de patente.
–Por algum acaso você tinha algo mais importante para fazer, senhor Hyuuga? – a voz dele estava perigosamente baixa. Eu quase conseguia ouvi-lo rosnar – Você está com o deslumbre de autoridade, senhor Hyuuga?!
–Não senhor! Eu só estava...
–O senhor pode me explicar, senhor Hyuuga, por que a senhora Haruno estava no seu lugar?
Silêncio. Eu acabei sorrindo de lado ao me levantar e voltar a me sentar no pequeno sofá da sala, me deliciando com aquela exibição de brutalidade que eu já estava acostumado por ter que lidar com tantos homens idiotas ao meu redor. O silêncio continuou.
–Quem manda nessa porra de batalhão?! – Naruto gritou furiosamente.
–Capitão Uzumaki, senhor! – todos os presentes gritaram em uníssono.
–E por que eu não estou vendo a porra das minhas ordens serem cumpridas na caralha dessa merda de lugar?! – o silêncio continuou. Eu vi a sombra dele se mover e ele foi até o homem a sua direita, de cabelo longo, deveria ser Neji – Eu espero que você me obedeça, senhor Hyuuga, ou eu vou pessoalmente te levar para inferno! Estamos entendidos?!
–Sim senhor, Capitão Uzumaki! – eu podia vê-lo tremer.
Realmente Naruto impunha medo em seus subordinados como eu o fazia aos meus.
–Saiam da minha frente, antes que eu atire em cada um, seus merdas! – ele gritou e todos se dispersaram numa carreira só. – Você não, senhora Haruno! – ouvi Naruto bufar e abrir a porta. Ela entrou e ele entrou por último, fechando a porta atrás de si.
Ela sentou-se novamente na cadeira onde ela estava antes e esperou, com o rosto apertado numa expressão de medo, a bronca que Naruto lhe daria, com certeza. El caminhou para o sofá e jogou-se ali cansadamente.
–Só me dá um motivo para eu não dar na tua cara, Sakura. – ele falou com cansaço. Ela apenas meneou a cabeça devagar e se segurou para não chorar, mordendo os lábios – Você entende a gravidade da sua ação? Eu tenho certeza que ele só não te matou ainda porque ele passou por momento bem complicado. – sua voz realmente parecia cansada. Acho que Naruto estava de saco cheio de lidar com ela – Quer saber de uma coisa?
Ele pegou o celular e discou rapidamente. Alguns segundos depois, Naruto foi atendido.
–34, 23, 07, agora. – ele desligou, guardou o aparelho e se levantou, dando passos na frente da minha mesa, indo e voltando, repentinamente parou e cruzou os braços, a cara abaixada, claramente incomodado com alguma coisa.
Sakura arregalou os olhos, preocupada com os códigos que ele dissera, mas não conseguiu expressar todo o seu desespero, apenas ficou inquieta, sem conseguir saber exatamente o que fazer naquela situação. Continuei quieto, apenas ouvindo e observando o desenrolar da situação. Realmente Naruto era duro na queda, como ele próprio sempre fora. Eu o vendo parado ali, com os braços cruzados e os músculos sobressaltados, ele parecia um godzilla, um monstro poderoso que mandava e desmandava só com o olhar, senti que ainda faltava algo para eu entender porque ele me obedecia, sem ser minha esposa.
Eu nem percebi, por isso me sobressaltei, quando Shikamaru entrou na sala fumando e estremeceu com o olhar de reprovação de Naruto para o seu ato. Largou o cigarro do lado de fora e recompôs-se como pode da encarada. Sakura arregalou mais uma vez seus olhos ao ver a presença do outro e dessa vez algumas lágrimas desceram.
Shikamaru fez uma reverência para mim, colocando-se ereto e eu retribuí com um aceno de cabeça. Naruto se voltou para mim. Eu vi seus olhos mudarem lentamente do dourado para o azul a cada piscada que ele dava.
–O que pretende fazer com ela? – ele me perguntou. Ela se levantou desesperadamente.
–Por favor, Capitão! Deixe-me ficar! – Naruto apenas suspirou e virou a cara, fitando Shikamaru com a mesma impaciência que o moreno exibia – Eu... Eu... – ela estava atarantada – Eu te amo, Naruto! Me deixa ficar!
Levantei-me devagar e contornei a mesa, passei por Naruto e me coloquei de frente Sakura, fitando-a com alguma pena. Aos meus olhos, uma mera criança chamando atenção de quem ela gosta, sem se importar com as consequências. Fitei o quadro na estante e fiz um sinal para que Naruto o pegasse para mim. Ele o trouxe e eu observei a foto com indiferença. Sakura tremia claramente sentada ante mim.
–O ama, certo? – meu tom soou frio demais. Pela visão periférica, eu vi Naruto engoli em seco, provavelmente esse tom de voz o preocupa – Qual é o seu cargo?
–Sou secretária da senhora Tsunade. – ela respondeu praticamente gaguejando. – Eu a ajudo no setor de Pesquisas Médicas.
–Interna. – Shikamaru completou.
Lentamente eu fechei meus olhos e depois os abri. Pelo reflexo do quadro, eu vi que meus olhos estavam vermelhos. Fitei-a como se só com aquele olhar eu pudesse chegar até a sua alma, pegá-la e rasgá-la em milhões de pedaços, fitei-a como se enfiasse facas em seu interior e a destroçasse completamente. Eu vi Sakura mover seus olhos em várias direções antes de me encarar e então seus olhos se revirarem numa convulsão repentina. Ela começou a espumar pela boca e a se debater sobre a cadeira até cair.
Por fim desmaiou. Shikamaru saiu rapidamente e retornou alguns minutos depois com alguns homens de preto e levaram Sakura dali. Fitei a foto em minha mão.
–Não vou matá-la. – falei absorto pelo sorriso idiota que Naruto exibia na foto – Apenas enviem-na para a família. Ela não vai se recordar de nada. Eu destruí a mente dela. – Naruto apenas assentia ao meu lado. Entreguei a foto a ele e voltei para minha cadeira.
Naruto suspirou cansadamente e deslizou para o sofá.
–É por essas e outras que eu adoro meu trabalho. – ele comentou esticando as pernas sobre a mesa de centro e dando de ombros – São essas coisas que te fazem se sentir vivo e funcional.
–Eu pensei que odiasse “esse tipo de trabalho”... – comentei.
–Quem? Eu? – ele riu gostosamente – Eu amo meu trabalho. Por isso estou na posição que estou atualmente, Scarface.
Arregalei meus olhos e senti meu rosto esquentar. Naruto parecia não ter tristeza com a vida, nem parecia sofrer com qualquer coisa, ele parecia “livre, leve e solto”, tranquilo e de bem com a ideia de que ele poderia morrer a qualquer momento. Ainda sim ele tinha um tom misterioso em seus olhos e um pouco de cafajeste em seu corpo. De certa forma, me agrada.
–Tem algo que eu quero lhe perguntar, Naruto. – ele assentiu pendendo a cabeça sobre o sofá.
–Fique a vontade. – falou num suspiro. Por um segundo pensei que ele dormiria ali.
–O que dizem sobre as raposas puras é verdade?
–Depende.
–De? – arqueei uma sobrancelha.
–Do que dizem. – ele riu bobamente e deu de ombros – Dizem muitas coisas sobre nós. Dizem verdades e dizem mentiras. Do que fala realmente?
–Raposas machos podem engravidar. – cruzei minhas mãos na frente do rosto. – Ouvi dizer...
Eu vi um sorriso safado brincar nos lábios dele e então Naruto veio até mim por trás, girou a minha cadeira e sentou sobre meu colo. Franzi o cenho. Naruto é mais pesado do que eu esperava, porém mais quente do que eu estou acostumado. Ele foi se curvando devagar, apoiando as mãos no recosto da cadeira, seus lábios tocaram os meus e eu senti novamente o sabor delicioso da boca da pessoa que eu queria para mim. Aqueles lábios quentes e macios despertaram em mim uma quantidade absurda de memórias relacionadas àquela prática.
Memórias de todas as fases da minha vida. Memórias nada puritanas. Memórias tórridas que seria um pecado mortal esquecê-las.
Beijamo-nos com necessidade. Senti seu quadril se mover devagar sobre meu colo, sua cauda fazendo um sugestivo movimento de subir e descer na minha, enquanto sua língua se rendia, submissa, aos desejos da minha. Nossos lábios estalavam e eu me sorrindo por causa disso, satisfeito pelo fato dele ter uma boca deliciosa não ter mudado.
De repente ele me puxou meus cabelos, obrigando-me a me afastar de seu rosto.
–Oye! – resmunguei apertando sua cintura. – O que foi isso?
Naruto afagou minhas orelhas, como se eu fosse um cachorro, e saiu do meu colo, caminhando de um jeito que me fez olhá-lo com atenção. A forma como ele dava os passos e mexia os ombros, bem como os quadris, parecia com um tipo de dança. Ele se virou num giro, ergueu os braços com os punhos fechados e balançou a cintura de um lado para o outro, o que me fez arregalar os olhos. Parecia comemorar algo.
Só naquele momento eu o vi de fones de ouvido. Ele rodopiava com os braços ainda erguidos e rebolando seu traseiro como se ele fosse uma dançarina de hula. Isso é muito real, eu tenho certeza, não tem como eu me enganar com uma situação séria dessa. O fato do traseiro dele ter vida própria e ser perfeito é real!
Ele subiu no sofá, de frente para mim, apoiou no recosto e continuou movendo como uma cobra em câmera lenta, abrindo e fechando as pernas. Ele saiu dali de cima e deslizou um pouco pelo tapete, parecendo um dançarino pop ou algo assim. Parou fazendo uma careta nada sensual e desatinou a rir sozinho. Louco? Com certeza.
Naruto sentou-se no sofá de novo e me fitou.
–Isso não responde a minha pergunta. – pigarrei me recompondo do breve momento estranho por rever Naruto dançando e me levantando.
–Nem todos podem. – ele disse observando as próprias unhas. – Pouquíssimos machos nascem com um útero parasita no intestino grosso. – seu tom de voz me dizia que era a coisa mais natural do mundo, apesar de claramente não ser – Mas eu já havia lhe dito isso.
–Sério? – sentei-me ao seu lado e vi que ao lado de Naruto havia alguns papeis.
Ele se demorou um pouco e me fitou, entregando-me aqueles papeis. Eram os meus exames, aliás, os resultados dos meus exames. Pelo o que eu entendera, era um exame antidoping e ali constava positivo, isto é, eu estivera drogado quando Suigetsu fora assassinado. Havia uma quantidade exorbitante de alucinógenos de todo tipo em meu sangue.
Estiquei-me sobre seu colo e praticamente ocupei o resto do sofá.
–Scarface... – ele sussurrou, afagando a parte do cabelo que puxara, e fitou-me com carinho. – Você deve estar bem triste pela perda do Suigetsu...
–Triste? Eu odeio aquele cara! Eu estou aliviado que ele esteja morto! – falei apressadamente, quase alterando o meu tom de voz.
–Se odiava ele para que se casou? – Naruto franziu as sobrancelhas.
–Mas eu não me casei com ele! – aí eu alterei a voz de vez.
Naruto se levantou, quase me derrubando, e foi até a minha mesa, abaixou-se para vasculhar algumas gavetas. Depois ele retornou e me entregou uma folha de ofício. Era uma certidão de casamento oficial. Uma certidão que confirmava a tese de Naruto que eu me casara com Suigetsu há mais de três anos com separação parcial de bens.
Deitei o papel sobre meu peito e suspirei entristecido.
–Ainda não entendo...
Ele franziu o cenho, claramente confuso.
–O que houve com você? – ele estreitou os olhos e se colocou de cócoras ao lado do sofá, me fitando com preocupação – Não é do seu feitio agir dessa maneira.
Eu quis ter conversado mais, explorado mais sobre esse passado o qual não condizia com o que eu realmente recordava, mas não pude, pois Naruto fora chamado para uma ocorrência importante. Ele saiu me dizendo que quando retornasse, iríamos para casa. Parece que alguns poucos escravos agem como policiais de verdade por aqui e um deles é o próprio Naruto.
–O que houve com a minha vida? – murmurei fitando outra vez o documento – O que eu perdi?
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