Amor à moda antiga
20 Capítulo 18
Notas iniciais
Depois de um final de semana bem animado, Naruto e eu fomos para a casa que nós havíamos ganhado de presente e passamos uma semana de mudança, arrumando e definindo quem ficaria a onde, que cômodo seria o quê e como seriam as regras da casa. Depois de finalmente tudo pronto, levamos as crianças. Fiquei feliz por saber que Sarada viria morar comigo, feliz por ter uma esposa escrota como Naruto, feliz por ter outro filho, Boruto seria meu filho também, e por fim começaríamos a dar fim a uma longa guerra.
Muitos motivos para ser feliz. Pelo menos por hora.
Por causa de uma revolução do universo, minha casa se transformou num hotel muito iluminado, um centro convergente de energias intensas e quentes.
Aqueles tons de amarelo e vermelho que passeavam para lá e para cá em conversas animadas sobre tempos antigos dos quais eu nunca estive presente, obviamente, pois estava em outro lugar, deixavam tudo mais colorido. Mito e sua comitiva de ruivos resolveu passar um tempo na nossa casa, para comemorar ainda mais pela “vitória nunca antes alcançada”.
E mais um fim de semana se esticou por causa deles.
Durante esse fim de semana de pura farra, eu descobri algumas coisas. Por exemplo, eu descobri numa competição de quem bebe mais, que Naruto é uma companhia formidável para mim, só caindo de bêbado quando eu caí de bêbado. Descobri que Naruto tem a mesma idade que eu, que nasceu quase na mesma época que eu. Entre tantas outras coisas.
Era divertido ter Naruto comigo, vivendo comigo, agindo como minha esposa, fazendo coisas para mim de vez em quando. A companhia perfeita. Boruto se comportava como se fosse o irmão mais velho de Sarada e ela adorou a nova ideia. Infelizmente, o máximo de carinho que eu recebia de Naruto eram alguns beijos quando ele estava de bom humor, o que só acontecia antes de ele ir trabalhar. E não sabia o motivo disso.
Sexo? Só com ele bêbado – falei que aquela era uma oportunidade rara – e ele não era de beber muito. O problema é que eu ficava bêbado junto e a oportunidade ia para a pedra.
Aos poucos fomos criando uma rotina para estabilizar as coisas, algo como: Naruto cozinha, eu levo as crianças para a escola, nós dois arrumamos a casa, eu assumo as contas, Naruto cuida da minha agenda, esse tipo de realidade.
Com essa rotina diária, que estabelecemos de maneira amigável, outra coisa eu descobri sobre ele. Mesmo eu entendendo que esse cara adora dançar e se diverte muito o fazendo, ele sempre voltava irritado e prestes a arrancar fora a cabeça de quem lhe olhava torto. Uma fera selvagem muito perigosa. Naruto gosta de dançar, mas não gosta de para quem ele dança.
Vou lhes contar uns casos para exemplificar e assim entenderem o meu problema.
Certa noite eu estava interrogando um cara que estava devendo ao meu pai muito dinheiro por causa de drogas e eu levara alguns de seus amigos drogados para saber onde estava a grana, caso ele próprio não falasse. O cara não falava e eu já estava terrivelmente irritado com isso, de modo que assim que meus olhos se deparam com os Naruto, eu sorri.
–Naruto. – chamei. Seus olhos afilados e bastante brilhantes, quase dourados, de raposa me fitaram instantaneamente – Esse cara não quer falar. Mostra para ele o que pode acontecer se ele não falar. – Naruto estreitou os olhos e alongou suas garras de tal forma que me pareceram navalhas. Veio até mim, me encarou de perto e nós trocamos rosnados ferozes.
–Por que eu faria isso? – rosnou ferozmente me encarando.
–Porque é minha esposa, seu idiota, e tem que fazer o que eu quero. – agarrei sua nuca com força, puxei-o para mim e encarei-o com ainda mais severidade.
Naruto observou-me de cima a baixo.
Uma coisa que meu pai me ensinou é que todo macho mais forte deve enfrentar qualquer outro independente do momento e agir com superioridade.
Eu não faria diferente só porque Naruto é minha esposa. Ele é fêmea, mas é macho, entendem? Acho que não e não há uma forma fácil de explicar isso. Tipo assim: ele é homem, no sentido mais filosófico e respeitador que existe, por fora também, afinal ele tem um pênis, mas biologicamente falando, e por dentro, ele é mulher.
Ele sorriu de lado, beijou rapidamente os meus lábios com força e me obrigou a lhe soltar.
Naruto foi até o cara sentado ao lado do interrogado e arrancou fora, literalmente, a cabeça dele apenas com as mãos. Sangue respingou para todos os lados e sujou parcialmente a minha esposa. Meus homens se seguraram para não gritar por causa da ação e os outros berraram como doentes mentais ao ver a cabeça ser largada de todo jeito no chão.
–Feliz Scarface? – sua voz me pareceu grave demais, então eu tive que engrossar mais ainda a minha para não “perder a moral com ele”.
–Muito. Vem cá Kyuu-chan. – ele veio e eu puxei sua cabeça para perto de mim novamente, mesmo ele hesitando. Lambi seus lábios e nos beijamos com vontade. Um beijo feroz, ao ponto de morder-me o lábio e deixar um filete de sangue escorrer. Talvez eu tivesse sexo naquela noite. Assim que ele me deixou a sós, eu olhei para os caras amarrados e sorri diabolicamente – Ou falam, ou eu deixo vocês a sós com a minha esposa por cinco minutos, o que me dizem? – eles praticamente cantaram pela meia-hora seguinte.
E só para constar, nós não transamos naquela noite. É, eu me enganei. De novo.
Querem outro exemplo? Vou dar um mais recente. Eu estava trabalhando mais uma vez com a tortura de um cara que cometera a idiotice de roubar joias valiosas da minha mãe um mês depois do meu casamento. Eu soubera que era um dos homens que trabalhavam como empregados na casa de minha mãe, o que a deixou extremamente furiosa.
Mamãe me pediu para cuidar do problema e assim eu o fiz, sequestrando o cara, começando com o interrogatório básico – que geralmente não dá certo – e partindo para a provocação de dor no corpo. Eu dei outro soco no rosto do galego com cara de pintor de letreiro e sorri.
–Vai me dizer onde estão as joias ou eu vou ter que dar um jeito na sua família também?
–Eu... Eu... – ele tossiu sangue, quase pegando em mim – Não digo nada!
–Ah não? Menino mal, muito mal... – caminhei lentamente até uma mesa e pegue um alicate, sorri de lado e fui até a lareira ao lado da mesa. Coloquei minhas luvas de proteção e deixei o aparelho “esquentando” – Tem certeza de que não quer falar, Deidara? Posso te poupar de muita coisa... Sabe que falo a verdade. Já trabalhou para mim antes.
–Eu... Eu... Não vou... Não digo...
Ele estava colapsando. E do jeito que as coisas iam, não ia conseguir nada dele. Maldito Deidara ladrão de joias de meia pataca. Quando eu ia começar a “trabalhar”, Naruto entrou imperiosamente no salão onde eu estava. Franzi o cenho e fechei a cara.
Odeio pessoas que ficam me interrompendo, mesmo que essa pessoa seja Naruto usando uma camiseta branca cavada, calça jeans um pouco apertada e de chinelos, bem à vontade, exibindo meios-sorrisos para todos que quisessem ver e rebolando no ritmo do movimento de sua cauda de raposa.
Droga! Ele me distrai rápido demais.
–E aí Scarface? – ele chegou-se e me mostrou um telefone – É Kiba Inuzuka. Ele quer falar com você e disse que se você não atender, vai estourar as suas bolas. E sua mãe quer saber se você já resolveu o problema... – ele parou e olhou em volta com curiosidade.
–Quase. – olhei para Deidara – Estou quase conseguindo.
–Kiba disse que quer conversar com você sobre um acordo. – ele falou empurrando o telefone contra o meu peito – De quê é o acordo é que eu não sei.
–Por que é que eu não matei esse Kiba ainda? – resmunguei pegando o telefone. Fuzilei meus capangas e sussurrei, tapando o telefone – Como é que vocês deixam ele entrar?! Eu pedi para não ser interrompido!
–Senhor... – Yamato sussurrou desesperado – Ele foi bem convincente!
–Convincente como?!
Yamato apontou para trás de mim e eu fitei-o. Naruto estava com o meu alicate arrancando cada dente da boca de Deidara e sempre que o cara ia gritar, ele esmagava a cauda do cara com uma prensa de ferro que havia ali.
–Eu ouvi dizer que você roubou as joias da avó da Sarada. Essa menina é minha filha e me contou que algum “sujeito mal” levou as coisas da “vovó querida”. – ele começou sentando do colo de Deidara, que até aquele instante estava acorrentado em uma cadeira – Isso é verdade?
Ouvi a palavra “filha” e deixei a conversa sobre acabar com o contrato depois que Naruto tivesse dois filhos, como exige as regras da minha família, de lado. Eu conseguia ouvir Kiba resmungando palavras no outro lado da linha, mas ver aquela cena de interrogatório gritava por minha atenção acima de qualquer coisa. Foquei meus sentidos naquela raposa sagaz.
Deidara assentiu, respondendo a pergunta de Naruto, sem os quatro dentes da frente. Naruto suspirou e se levantou, espalmou suas mãos num talco que tinha na mesa e colocou luvas cirúrgicas, buscou um bisturi bem afiado e uma enorme pinça de mão. Cravou os dois objetos nos ombros de Deidara, sem que uma gota de sangue descesse e depois buscou uma marreta.
–Onde as escondeu? – perguntou. A marreta tocava de quando em quando o pé dele.
–O quê?! – ele gemeu sorrindo.
Naruto sorriu também e acertou uma marretada digna de um perfeito minerador no pé direito de Deidara. Seu grito fora longo, estridente e muito interrompido por crises de golfadas de sangue escuro, que fez Yamato se contorcer de pé e Kiba calar a boca no telefone. Naruto se apoiou na marreta e esperou que o loiro, de cabelos longos, sentado se acalmasse. Demorou-se uns dois minutos assim, Naruto observando atentamente o rosto esgotado de Deidara.
–Eu posso passar o dia todo aqui... Vai falar onde as joias estão? – a voz dele estava tão serena e calma, que eu nem conseguia acreditar que ele estava torturando alguém e nem consegui diminuir o meu sorriso. Deidara negou rapidamente.
O cara revirou os olhos, claramente emburrado, e acertou outra marretada ao outro pé de Deidara, iniciando outra sessão de gritos e golfadas de sangue, de tal modo que eu achei que ele iria sufocar. Os dois pés de Deidara estavam completamente roxos e esmagados, parecendo pés de elefantes. E lá se foram outros dois minutos de espera por o acordar dele, pois o loiro desmaiara vomitando sangue. Deidara acordou, mas muito fraco, quase desmaiando novamente. Sorri de lado esperando a próxima atitude dele.
Naruto sentou em seu colo novamente e retirou bem devagar os apetrechos médicos que outrora foram fincados em seus ombros.
–Olha só... – ele apontou o bisturi para um dos olhos de Deidara – O Scarface ali – ele apontou para mim com o polegar e depois deu de ombros – Pode te matar e matar sua família, que não vai adiantar de nada, sabe... Vocês podem morrer e nunca dizer onde estão as joias e tudo certo. Quero dizer, quem vai incomodar vocês depois de mortos?
–O que... O que... O que... quer dizer... com isso?!
Naruto respirou fundo e com o bisturi ergueu o queixo de Deidara.
–Digamos que eu posso fazer coisas que o Scarface não pode. Por exemplo... – ele sorriu que nem o diabo – Posso inventar alguns crimes e mandar prender seus pais em locais que eu sei que eles não aguentariam um mês. – os olhos dele se arregalaram – Eu poderia mandar sua irmãzinha para um reformatório por ela se prostituir e consumir drogas...
–Mas minha irmã não é...
–Eu poderia dizer que seu irmão matou um homem esfolando a pele dele e que a causa do crime fora uma crise psicótica de ciúmes! Imagine quantos tratamentos experimentais poderiam ser feitos num adolescente de quinze anos!
–Não pode fazer isso... – Deidara chorava – Você nem é policial!!!
–Não sou? E o que é isso? – Deidara chorou ao ver o distintivo. Eu não vi exatamente o que Naruto fez, porque seu corpo ficou na frente, mas eu entendi que um olho havia sido arrancado da órbita, pois eu o vi na mão dele – Você precisa enxergar melhor as coisas... Porque, caso não saiba, sua família é conhecida por ser mentora de muitas implosões não autorizadas de prédios... Dezenas de pessoas perderam a vida por causa de sua arte. – outro olho rolara e novos gritos esganiçados de dor ecoaram pelo galpão. – Se me disser onde estão as joias, eu poupo sua família de um futuro promissor cumprindo penas torturantes na cadeia.
O cara se levantou do colo do outro e esperou a resposta. Afastou-se devagar para onde ficavam as minhas “ferramentas de trabalho”. Essa demorou, pois Deidara desmaiara de dor.
Naquele meio tempo eu conversara com Kiba. O Inuzuka disse que iria iniciar uma guerra contra mim se eu não aceitasse o acordo que ele propusera, só que é claro que eu não iria aceitar uma porra de acordo de merda desses! Só pode está de sacanagem que eu vou deixar o cara que eu amo por causa de umas exigências babacas de um moleque mimado e de cabelo esquisito. Eu simplesmente desliguei na cara dele.
Dez minutos depois, tempo que durou meu amigável diálogo com Kiba, Deidara tornou, ainda mais amedrontado do que antes por estar cego.
Naruto empunhava um machado de cabo longo dessa vez e estava apoiado nele, com um braço cruzado sobre o cabo e uma mão apoiando o queixo por cima do braço cruzado, encarando calmamente a pobre alma ensanguentada sentada diante de si.
–E aí? Vai falar? – Naruto perguntou com calma.
Deidara assentiu com pressa, fazendo o cara sorrir.
–Diz.
Sua resposta fora tão baixa que nem Naruto, com aquelas orelhas enormes, ouvira.
–Como é, cara pálida? Não ouvi.
–Eu engoli... Ontem... – ele arfou, cansando.
–Sei. – Naruto sorriu e só deu de ombros.
Com um movimento rápido, a cadeira fora empurrada e Deidara gritou de susto. Ele caíra com as costas no chão e Naruto contornou-o, arrastando a lâmina do machado como a morte faz com sua foice. Deidara tremia-se completamente.
–O que... O q-que vai fazer?!
–Ora mais o que?! – Naruto riu meneando a cabeça enquanto erguia a arma no ar, bem acima das suas orelhas, como quando se vai cortar madeira em cima de um tronco – Vou pegar as joias de volta! Seu babaca!
Um minuto, três litros de sangue e sete machadadas depois, Naruto veio até mim com um saco plástico, onde estavam as joias de minha mãe de valor inestimável por serem antigas e únicas. Ele retirou sua camisa branca, que a essa altura do campeonato estava vermelha, limpou os braços do sangue e pegou o telefone de volta. Finalmente eu me lembrei de que tinha que respirar e piscar, aliás, acho que todos os presentes passaram pelo mesmo problema que eu, tornando a realidade depois de um demorado pesadelo.
Eu ainda sorria. Minhas mãos tremiam e meu corpo pulsava. Disparei atrás de Naruto, quando este parou para analisar os chinelos que usava, agarrei-o pela cintura, icei-o no ar com um braço e com o outro o obriguei a me beijar. É o cara perfeito para mim, sem sombra de dúvida, porque quem melhor para me completar do que o outro lado da moeda? Eu sou o caos, ele é a ordem, eu sou a sanidade, ele é a loucura, eu sou um gato e ele uma raposa. Perfeitos!
Naruto cravou suas unhas em meus ombros, o que me fez largá-lo e rir.
–Perdeu a noção das coisas, playboy? – ele falou enquanto eu olhava os buracos na camisa preta que eu vestia – Vir me agarrando e me beijando depois daquilo? – ele apontou para os restos mortais de Deidara. Eu não consegui parar de rir, o que causou estranheza nele.
–Cara... – falei depois de me controlar – Eu estou tão feliz que você se casou comigo.
Minhas mãos foram aos meus cabelos e eu encarei-o, analisando cada detalhe de seu corpo seminu e de sua cara de confusão.
Não, Naruto não tem o porte atlético, nem músculos incríveis ou qualquer outro detalhe físico que denunciem alguma força ou suas capacidades físicas que eu achava que ele tinha quando eu o via em roupas mais bonitas. Roupas enganam mesmo dependendo da forma como elas são colocadas e combinadas no corpo. Que coisa, não?
Na verdade ele tem o corpo magro de um cara normal, desses que você encontra em qualquer lugar sem precisar de esforço. Gente que se vê todo dia. Naruto é bem simples, apesar das pessoas loiras chamarem atenção, isso se você comparar a mim: eu, “rato” de academia, trabalhado no músculo definido, de olhar penetrantemente sedutor, com a pele macia de japonês e os cabelos escuros iguais ao céu noturno. Eu sou de tirar o fôlego – gatos são egocêntricos, se você não sabe – ainda mais quando estou de terno ou de preto.
Naruto é o tipo do cara que parece não fazer exercícios, que come todo tipo de porcaria e que fica de boa até os 45 anos, idade da calvície, barriga de chopp e pouca resistência corporal. E, como sempre... Eu me enganei completamente, porque – por causa desse seu momento “nu sem perceber” – eu corri atrás dele e ele, naturalmente, fugiu de mim.
Eu estagnei diante de um prédio. O cara colocou o Homem-Aranha no bolso quando escalou habilidosamente cada andar até chegar ao topo. Lambi meus lábios e bati palmas para ele: seria a melhor perseguição em anos. E foi mesmo. Naruto é rápido, muito rápido, além de esguio e muito flexível. Não havia muros, nem buracos, nem cercas, nem casas, nem carros, nem portas, nem janelas, nem prédios, nem nada que ele não pudesse atravessar facilmente, me fazendo babar de admiração enquanto eu vinha atrás dele na medida do possível.
Sei que ao chegarmos a minha casa eu ofegava e ele ainda tinha pique para brincar de pega-pega com Boruto e Sarada. Ele disparou para os jardins, rosnando que nem um monstro infantil atrás de Sarada, que de vez em quando saltitava de um lado para o outro, provocando risos esganiçados em Boruto e encantando a minha mãe, Yamato e a Senhora Mito.
Pessoas adultas são realmente admiráveis quando estão perto de seus filhotes. Eu não teria coragem de fingir que eu sou um monstrinho só para impressionar Sarada, ou faria?
Sentei-me no batente e aceitei uma garrafa de água que Yamato trouxera depois de muito correr para nos acompanhar. Naruto jogou os chinelos em qualquer canto do jardim e disparou atrás de Sarada, numa brincadeira tão infantil que eu achei que ele regredira mentalmente. Até Boruto concordou comigo nessa questão.
–Acho que sou o gangster mais sortudo de todos os tempos. – falei rindo. – Posso conquistar qualquer coisa que eu quiser, se eu conseguir conquistar plenamente Naruto para mim.
–É um bom plano, senhor. – Yamato falou depois de folgar sua gravata.
Lembrei-me de algo. Meti a mão no bolso e retirei o saco plástico lá de dentro. As joias.
–Limpe-as e depois as leve para minha mãe.
–Sim senhor.
Ele se levantou doloridamente e seguiu para dentro de casa. Pobre Yamato, é um cão de caça da raça Rhodesian Ridgeback – conhecidos por caçarem leões no sul da África — um pouco velho e sem as antigas forças, mas incrivelmente leal e gentil. Um bom mordomo. Alguns minutos depois mamãe apareceu chamando as crianças para almoçar, ela aproveitou para me chamar também e convidar Naruto para o almoço, mas nos demoramos mais um pouco no jardim. O motivo? Os chinelos de Naruto. Não ria, foi sério. Os chinelos.
Vi-o de cócoras, buscando algo entre os arbustos. De vez em quando ele coçava a cabeça e olhava em volta, para voltar a vasculhar a folhagem com cuidado. A cara de “Cadê meu chinelo?” que ele fazia era tão engraçada que eu tive que rir. Levantei-me, percebi que estávamos sozinhos no jardim e fui até Naruto.
–Hei Kyuu-chan. O que foi? – abaixei-me ao seu lado.
Ele me fitou de lado, meio que com o olhar baixo.
–Se me agarrar de novo na frente das pessoas, do nada, eu dou na sua cara. – ele falou sério e eu assenti rindo – Acho que perdi meus chinelos...
–Que coisa ruim de acontecer. – comentei por alto.
Naruto me fitou e sorriu meneando a cabeça com descontração. Ele se levantou e foi procurar em outro canto do jardim, caminhando relaxado, perdendo completamente aquela postura de cara mau de minutos antes. Acompanhei-o e, sem que ele pedisse, eu comecei a procurar também pelo par de chinelos. Ficamos assim, investigando e admirando jardim de minha mãe até que a fome atacou os nossos corpos desprevenidos, mesmo assim Naruto insistia em continuar procurando por seu par adorado de chinelos.
–Onde diabo eu os coloquei? – ele fez uma pose de investigador no meio do jardim e me fitou, como se a pergunta houvesse sido direcionada para mim.
Eu dei de ombros e ele olhou em outra direção. Como eu posso saber tão pouco sobre uma pessoa, ter convivido em dias tão sombrios com ele e ainda sim sentir sentimentos tão intensos, tão estranhos, tão incomuns? Acho que nem com todos os meus anos de vida eu vou conseguir entender o que se passa comigo. Eu fitei outra direção e de repente, assim, sem querer, embaixo do balanço que eu fizera para Sarada, eu vi os chinelos dele. Sorri. Eram verdes e se mesclavam absurdamente bem com a grama.
–O que eu ganho se eu encontrá-los para você?
–Minha gratidão. – ele respondeu com desdém.
Sorri e me aproximei, encaixando meu indicador no cós de sua calça e assim puxando-o para perto de mim, provocando um choque entre nossas cinturas.
–Se me der um beijo, eu encontro seus chinelos. Um beijo parecido com o que eu roubei.
Naruto estreitou o olhar e virou um pouco a cabeça, desconfiado. Ele se mostrou pensativo por alguns segundos e então enlaçou o meu pescoço com delicadeza, me mostrando um olhar que eu nunca vira antes. Um olhar azul e sereno como o céu sobre nossas cabeças, com um brilho todo especial, eu senti que aquele olhar era só meu e só para mim.
Aos poucos seus lábios foram se chegando aos meus, procurando a melhor forma de começar e sem que eu percebesse meu sorriso de satisfação, Naruto e eu nos beijávamos como se houvesse amor. Talvez houvesse e ele ainda não soubesse, pois eu o amava.
Suspendi-o no ar e o levei até o balanço, sentando-o ali sem descolar a minha boca da sua, causando alguns estalos que me faziam sorrir. É oficial: nunca mais eu quero beijar outra boca que não seja a desse loiro desgarrado e teimoso. Eu consegui sentir a pele arrepiada dele em contato com o tecido macio na minha camisa quando nossos abraços se apertavam. Mas tudo que é bom, dura pouco: o fôlego acabou e nos soltamos.
Ficamos alguns segundos nos fitando e eu vi seu lindo rosto corar sutilmente abaixo dos olhos.
–Então, Sasuke... – ele sussurrou – Meus chinelos...
Abaixei-me e do jeito que o duque fez no desenho da Cinderela, eu coloquei os calçados nos pés macios daquele cara, que corou ainda mais com a minha atitude repentina. Beijei a frente de cada pé, depois de calçado, e me levantei, rumando para dentro de casa. Saí sem dizer nada, fazendo charme para ele.
Eu esperei uma reação estrambólica dele, mas tudo que Naruto fez foi arregaçar as pernas da calça e lavar os pés numa torneira perto da entrada, além de tirar as últimas manchas de sangue que estavam em seu corpo.
Fiquei sem chão.
–Sacanagem. – retruquei calçando os meus sapatos.
–Achou que ia ser um conto de fadas? – sua voz soou perto demais dos meus ouvidos, de modo que eu me desequilibrei e caí sentado no piso frio. Ele estava de pé e com as mãos na cintura – Sasuke, deixa eu te mandar a real: não sou uma donzela em perigo e você não é meu príncipe, aqui não tem a magia do amor. Estamos casados por causa de uma obrigação. – ele deu de ombros e entrou.
Ergui-me rapidamente e fui atrás dele. Segurei-o pelo cotovelo e nos fitamos com seriedade, como inimigos mortais. Eu odeio ser contrariado e, pelo visto, Naruto também.
–Naruto! Quando vai aceitar os meus sentimentos?! Eu estou sendo verdadeiro com o que sinto por você e em momento algum eu tive a intenção de te ferir! Desde que a gente se casou que eu estou tentando amenizar essa coisa de casamento obrigado, mas você não está ajudando, nem um pouco. Eu sei que posso não ser o melhor das companhias para você, mas eu sou a única pessoa que está realmente do seu lado.
Ele ficou um pouco boquiaberto e eu aproveitei para beijá-lo rapidamente, empurrando contra a parede do corredor de acesso à cozinha. Dessa vez ele gemeu baixo, o que deixou meu ego incrivelmente inflado. Espalmei minhas mãos em suas nádegas e ele abarcou minhas costas, escorregando uma das mãos até o meu abdômen, começando uma carícia leve ali. Eu entendi de imediato o que ele iria fazer e segurei sua mão, empurrando-a contra a parede.
–Você disse uma vez que aceitava o desafio de ser minha esposa e mãe dos meus filhos, então eu aceito o desafio de conquistá-lo. – beijamo-nos de novo, com furor. Soltei-o e agarrei seus pulsos com força, empurrei-os contra a parede e afundei suas mãos ali. Naruto gemeu e sua cauda se enroscou apressadamente na minha – Você vai ser meu, Naruto, de corpo, de alma e de mente, você vai ser só meu. Eu vou acabar com essa sua maldita dor e esse seu luto infernal que esmaga o seu coração. – respirei fundo, encostando a testa na dele e empurrando sua cabeça contra a parede de madeira – Sempre que fizermos amor, sempre que eu te beijar, sempre que eu te abraçar, eu estarei agindo como o gangster que sou, conquistando o que eu quero por todos os meios que eu puder.
O texto do Quarto Passo rondou a minha mente. “Papai é um homem bastante violento por ser doente e odeia ser contrariado, mas jamais recusa um desafio, e quando um inimigo a altura aparece e aguenta sua loucura explosiva, ganha o eterno respeito do meu pai. Irritá-lo é coisa de idiota, mas incitá-lo é coisa de gênio. Quanto mais desafiador você for, mais meu pai vai te respeitar”. Naruto tentou se soltar de mim, mas eu não deixei, expandindo os meus hormônios e obrigando-o a me obedecer e ficar ali.
–Um dia você vai entender, Kyuu-chan, vai sim... – ouvi-o chorar silenciosamente. Lambi suas bochechas e seus olhos, molhando minha garganta com suas lágrimas salgadas de dor e sofrimento. Beijei sua boca com vontade, tentando diminuir sua dor. – Vai ver que pode ser feliz, pode fazer outras pessoas felizes e que o mundo não é uma merda tão grande assim.
Soltei suas mãos, escorregando meus dedos até o seu tronco e massageando suas costas, ele me abraçou com força e afundou seu rosto na minha clavícula. Respirei fundo e sorri com seu gesto de entrega. Ouvi sua voz embargada gemer em meu ouvido algo como “Obrigado”, eu abarquei com precisão seu corpo e o suspendi no ar, na posição de princesa salvada.
Naruto seria meu, estava começando a ser meu. Levei-o de volta para o jardim, para o balanço e o sentei ali, deixando que ele chorasse o quanto podia chorar, enquanto eu o fitava de baixo, sentado na grama, acariciando suas pernas e sua cauda macia. Poderíamos ter feito amor ali mesmo, mas eu fui impedido pelos olhos vigilantes de Mito. O que ela queria me observando, o que ela queria provar? Eu não sabia e não esperei para saber, peguei meu celular e liguei para um de meus homens, ordenando a mudança dos Uzumakis da minha mansão.
Não quero mais saber de ninguém controlando a vida da minha esposa que não seja o seu macho, ou seja, eu.
Naquela mesma noite ela estava de mudança, mas estava extremamente contrariada.
–Eu não admito ser tratada assim! – gritou Mito – Eu sou avó do Naruto e quero o respeito que eu mereço ou vou...
–Vai o quê?! – rosnei alto – Vai fazer o quê?! Naruto me pertence agora e ninguém mais pode manipulá-lo, ele é meu, minha esposa, meu amor, a única razão por você estar viva! Não ouse abusar da minha paciência e da minha boa vontade!
Ela saiu da minha casa furiosamente, sendo observada por Naruto do meu quarto. Suspirei e farejei o ar, buscando traduzir a áurea que ele poderia estar emanando. Boruto fazia o mesmo, quieto em seu quarto ao lado de Sarada, protegendo-a, nós dois sentimos que Naruto estava tenso, acuado e muito perigoso, a qualquer momento ele poderia atacar. Alguém teria que enfrentá-lo e dentre todas as pessoas daquela casa, somente eu tinha peito para isso.
Fui para o meu quarto e entrei com cuidado, observando meu loiro respirar fundo para conter as próprias lágrimas. Suas garras cravavam em seu rosto e abriam novamente as três cicatrizes já fechadas, então eu entendi o que ele me dissera com marcas que não queremos ter por causa do significado que elas têm. Corri até ele e segurei suas mãos, impedindo-o que ele continuasse se arranhando e puxei-o para um beijo com força.
Nos beijamos com desejo, com saudade, com carinho e num gesto estranho de carinho, Naruto me empurrou e me deu um chute de policial bem no peitoral, seus olhos estavam cheio de lágrimas, um brilho intenso de amargura e dor, eu caí estirado sobre a cama e ele saltou sobre mim, com o punho fechado.
–Me perdoe, Sasuke... – ele sussurrou erguendo bem no alto o seu punho e engolindo as próprias lágrimas – Me perdoe... Eu ainda não estou preparado... Eu... Estou...
–Com medo? – sorri e fechei meus olhos – Vá em frente, Naruto, dê um fim ao seu medo e entregue-se, que eu vou te proteger.
Não sei o que foi mais forte: o punho de Naruto contra o meu queixo, ou o sentimento de alívio por saber que talvez, só talvez, as coisas estivessem mudando.
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