Amor, singelo amor

1 Amor, Singelo Amor


“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar”, Sophia Andresen.

Ao terminar a minha última obra, que será sofrer e perpetuar amor, escavarei e dedilharei as nuvens, e os azulejos desconfortáveis se tornarão veludo para minhas costas, tudo indica que ela não apareça para me buscar, todavia indicia que estarei lá.

Todos os resquícios de humanidade ficaram para trás, não guardei em um baú e nem fiz de adubo para as plantas, a minha reserva de água regou as flores, a claridade do meu sorriso trouxe a luz onde predominava trevas, e a minha pele serviu de cobertor para todos os enamorados que não pude ser. Sempre fui aquele que voltou sem nunca ter ido, a contradição dos sonhos de amor.

Fui irlandês e simultaneamente jamaicano, namorei estrelas e beijei constelações, e quando requisitaram minha presença para apedrejar nossos salvacionistas, chamei-os de libertadores. Assinei meu exílio e parti junto às estrelas do mar, para que quando estivesse perdendo a consciência em baixo de tanta água, elas acariciassem minha pele em um gesto humilde para não deixar os fluídos se tornarem meus pulmões.

Perguntaram-me sobre saudade, disse humildemente ou nem dotado disso, pois se fosse humilde veridicamente, não estaria dizendo isso. “A saudade é uma palavra esperando definição”.

Vi palmeiras e plantei amores, clamei e poucas vezes fui clamado, mas se uma centelha de minha luz atingiu um indivíduo entre esse oceano de almas, a minha vida valeu a pena, e essa última carta não foi escrita com sangue e sim com uma cordialidade nas proximidades de Jesus.

Fui nas conferências de Albuquerque, aprendi palavras inventadas, neologias confessas e tomei do suor dos trabalhadores, senti as paredes e os tijolos, e quando toquei o dinheiro, corrompi-me, após banhar-me no poço dos desejos, atingi a plenitude em pele de cordeiro.

Se me perguntarem se me arrependo de algo, diria com a voz rouca e o peito seco: “Arrependo-me de nunca ter surfado, de jamais ter dormido sem coberta e de perder a chance de morrer de amor”.

Sendo anjo você se esquece de como ser humano, pois quando se pratica vingança, você cultua a humanidade, quando se perdoa o agressor, então você é angelical.

Não desarmei bombas me afastando delas, as Mecas que explodiram esperaram atenciosamente uma alma que abraçasse-as, para que com o calor sublime, a explosão se tornasse espólios de uma guerra santa.

Mesmo que exista fatos no meu subconsciente que me arrependo amargamente, há também indubitáveis escolhas que faria novamente. Rir até não conseguir mais, acordar risonho e jocoso após uma bela noite de sono, estar dois dias com a pessoa que mais me afeiçoei em tantos anos vivo.

E quando aquele esperava morrer, eu dizia as vantagens de se ligar a natureza.

Havia tantos por trás das telas, rindo ou chorando, muitos se escondendo da vida real através de LED’s e televisões anatómicas, porém o que sempre gostei, foi de sentir o hálito e a respiração de almas ambulantemente amáveis. Peco ao dizer, entretanto se pudesse retornar por um segundo ao passado, não impediria o holocausto, e nem me reteria para não cair nos mesmos buracos, rebobinaria a mais faustosa gargalhada que dotei em toda a minha encarnação.

Deram-me um microfone universal, para resumir em uma fala tudo que desejava para a Terra: “Não cometam o mesmo erro que eu, se for para trazer a paz e morrer vilmente, que faça, lembrem-se do Mestre, que andou entre juízes e doutores e morreu entre dois ladrões, o mal não vale nem as suas calças”.

Enviei a minha carta para os cantos do mundo. Abaixei-me, pus o lençol na cama, ajeitei o travesseiro, deitei, joguei com os pés o cobertor no chão, fechei os olhos, suspirei calmamente limpando meus pulmões e fui me encontrar com o mar. Para buscar o que não vivi, num pedido imortal por paz.

FIM
20/01/15

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