🌸Amor que Resiste ao Tempo🌸
7 Trabalho de História
Notas iniciais

Escola Raimon, 08:15
Era um dia frio. Com ventos fortes e gelados que espalhavam correndo folhas e gravetos pelo chão e uma garoa fina que permanecia desde a madrugada, era quase impossível de se lembrar que o tempo se mostrara estável avia poucos dias atrás. Tentando proteger seus corpos do frio crescente, os habitantes de Inazuma haviam sido praticamente obrigados a se agasalhar, usando suas vestimentas de inverno em plena primavera.
No interior calmo e aquecido da pequena biblioteca da Escola Raimon, vários estudantes ocupavam as mesas localizadas a frente das estantes, confortáveis abaixo dos aquecedores de ar pregados as paredes. Conversando enquanto liam ou realizavam as atividades que seus professores haviam mandado, os alunos agiam de forma descontraída, esquecendo o clima ameno que dominava a manhã fora dos cômodos escolares.
Em uma das mesas Yumei folheava vários livros, procurando informações para um comprido trabalho de História. Tendo como objetivo fazer com que os alunos ganhassem conhecimentos concretos sobre a história do Japão, o professor da matéria escolhera uma determinada época histórica para cada um dos alunos, sendo que cada trabalho deveria de ser apresentado individualmente para toda a turma. Yumei havia recebido como tarefa pesquisar sobre os principais acontecimentos ocorridos no Período Sengoku, o que aparentemente não estava sendo nada fácil.
Reunindo todos os livros que encontrara sobre o assunto, havia formado um grande amontoado sobre a mesa, ocupando uma boa quantidade de espaço. Yumei sempre possuíra facilidade em aprender História, sendo esta uma de suas matérias favoritas. Mas particularmente estava sentindo certa dificuldade em encontrar informações que realmente fossem úteis para realizar o trabalho. Em toda a sua vida de estudante se empenhara ao máximo para sempre passar com boas notas no final do período escolar, e não seria diferente naquele ano; por isso, cada nota e trabalho era importante. Tudo o que tinha de fazer seria muito bem feito.
Lendo as páginas de um exemplar grosso e de aparência antiga, a morena suspirou com um pequeno mal humor. Fechou o livro que segurava em mãos, em seguida olhando para o grande amontoado a sua frente. Já havia lido e folheado cada um dos livros que estavam sobre a mesa, e pelo que vira nenhum trazia uma boa quantidade de dados que fossem úteis para a realização do trabalho. Isso a estava deixando desanimada, será que não havia nenhum livro que prestasse?
Começando a empilhar os livros a sua frente, procurou em vão por algum título que ainda não houvesse analisado. Não acreditava que havia pesquisado em todos os livros. Não, tinha que haver ao menos um que ainda não tinha visto. Empurrando sua cadeira para trás, estava prestes a levantar para procurar novamente nas estantes quando parou, focando seus olhos no garoto calado que se localizava na ponta da mesa.
Com a cabeça apoiada em uma das mãos, Masaki Kariya olhava pela janela ao lado, mostrando um grande tédio em sua expressão. Yumei olhou brevemente em sua direção, mas não era realmente o garoto que ela fitava. Exatamente abaixo do braço em que Kariya se apoiava, estava um livro do qual não identificara o título.
Apertando um pouco os olhos, a morena se esforçou para visualizar o exemplar abaixo do braço do garoto. Possuía uma capa dura de coloração vermelho escura, enfatizando o título escrito em grandes letras brancas na lombada: “Owari: Província da Unificação”. Somente pela aparência, Yumei deduziu que aquele provavelmente seria um livro em que valeria a pena dar uma olhada. Se os outros não possuíam os dados necessários, esperava que ao menos aquele fosse ao contrário.
Ainda olhando para o livro lembrou que como estudava na mesma turma que Kariya, provavelmente este também fora escolhido para pesquisar sobre o Período Sengoku. Hum... Não seria uma má ideia pedir uma ajudinha, seria? Pigarreando de leve, a morena se aproximou e chamou a atenção do garoto de cabelos azuis esverdeados, falando educadamente.
– Kariya, você também tem que pesquisar sobre a Era Sengoku pra fazer o trabalho de história?
O azulado virou seus olhos dourados para fitá-la brevemente, em seguida os desviando novamente para a janela. Yumei piscou, será que ele não havia ouvido direito?
– Kariya... – tentou novamente, apontando a capa avermelhada abaixo do braço do garoto. – Você já fez a pesquisa pro trabalho de história que o professor mandou? Porque eu queria muito dar uma olhada nesse livro.
Agindo como se não tivesse a ouvido, o azulado fez pouca questão de sua pergunta, ignorando-a. Uma pequena irritação chegou ao peito de Yumei, seguida de pontadas de confusão. Desde o seu primeiro dia de aula, Kariya não lhe dirigira a palavra uma única vez, sempre se mantendo calado e distante quando estava por perto. Mesmo quando a própria morena tentava conversar e fazer amizade ele se recolhia, indiferente. Yumei tentava entender o porquê de agir assim. Claro, ele podia ser tímido e até um pouco anti social, mas havia por acaso algum motivo para que a ignorasse daquela maneira?
– Kariya. – chamou novamente, sem resposta.
Mantendo a paciência, a garota continuou, tentando não soar de forma arrogante.
– Kariya, por favor... Posso ler esse livro? Pode ser o único que tem alguma coisa importante sobre a Era Sengoku... – mas o garoto não lhe respondeu uma única vez, continuando a olhar entediadamente pela janela. Yumei respirou fundo, controlando a irritação que teimava em crescer dentro de si. Simplesmente odiava que a ignorassem.
– Olha Kariya. – tentou ser direta. – Eu preciso desse livro pra fazer o trabalho. Pode não ser importante pra você, mas pra mim é. Então, se você não se importa, poderia dar esse livro aqui na minha mão? – estendeu uma das mãos, esperando que o garoto reagisse de alguma forma. Mas este não lhe lançou nem um único olhar. A morena sentiu que não conseguiria mais segurar a irritação. – Kariya!
– Aconteceu alguma coisa Yumei? – ouviu uma voz atrás de si, virando-se.
Na mesa ao lado, Kirino e Ichino Nanasuke a fitavam confusos, assustados com seu aumento de voz repentino. Corando levemente por chamar a atenção, Yumei agitou as mãos em sinal negativo, tentando mostrar despreocupação.
– Ah, não é nada não. – sorriu de leve. – Não precisa se preocupar.
Kirino a fitou brevemente, em seguida olhando desconfiado para Kariya. Seu olhar se demorou um pouco no garoto, antes de mostrar estar pouco convencido com a resposta ao soltar um pequeno “Hum...”. Em seguida, voltou sua atenção novamente para o livro que tinha em mãos.
Assim que os dois garotos viraram-se novamente para suas leituras, Yumei respirou fundo, se recompondo. Voltou a fitar o rosto do azulado, que se mantinha calado, o olhar vidrado na janela. Aquilo era inexplicável. Por que Kariya estava agindo assim?
– Kariya, por que está fazendo isso? – a morena vasculhou sua mente em busca de algo que ela mesma tivesse feito, mas não conseguiu se lembrar de nada. — Eu fiz alguma coisa pra você? Te magoei alguma vez sem notar?
Novamente, não recebeu uma palavra se quer. Baixando os olhos, Yumei tentou pensar. Sabia que não adiantaria insistir, que Kariya não lhe cederia o livro nem se começasse a implorar para que o fizesse, algo que estava completamente fora de questão. Suspirou, aquele modo de agir chegava a ser ridículo, não valia a pena se estressar por tão pouco. Por isso, desistiu. Não se importava mais em tentar ler aquele livro idiota, alias, era por causa dele que tinha se irritado daquela maneira.
Virando-se, Yumei começou a se afastar na direção da pilha de livros que havia formado minutos atrás. Voltaria a folhear os mesmos livros de antes, procurando o que não havia e provavelmente não haveria de encontrar. Aquilo era tão entendiante...
– Hum... Não, pra mim você não fez nada. – ouviu uma risada baixa, parando de andar no mesmo momento. – Mas pro Shindou, ah você fez muita coisa.
Yumei olhou novamente para Kariya, surpresa por este finalmente lhe dirigir a palavra. Fitando-a com seus olhos afiados, o garoto revelava uma personalidade que não aparentava possuir, com um sorrisinho provocador acompanhando o olhar dourado, baixo e humilhante. Yumei engoliu em seco, aquela expressão não mostrava um bom comportamento.
– O que... Quer dizer com isso? — não conseguiu entender, o que Shindou tinha a ver com aquilo tudo?
Kariya pegou o livro que estava abaixo de seu braço, analisando-o sem interesse ao folhear as páginas brancas.
– Ouvi vários boatos sobre você. – passou os dedos pela lombada vermelha, em seguida fechando o exemplar. Olhando novamente para a morena a sua frente, mostrou certa zombaria. – Dizem que é igualzinha a uma garota que o Shindou conheceu no passado. Por que está aqui? Você é um clone dela ou só voltou pra atrapalhar a vida dele?
Sentindo sua agonia aumentar Yumei arqueou as sobrancelhas, confusa. Já sabia que provavelmente era quase idêntica a essa tal garota de quem tanto comentavam e que esse fato havia feito com que Shindou passasse uma semana inteira deprimido. Mas aquele problema já havia sido solucionado a vários dias; sendo que depois de se desculparem um com o outro, os dois se cumprimentavam e trocavam algumas palavras todas as vezes em que se encontravam.
– Não estou entendo. – a morena respondeu. – Eu e o Shindou já nos desculpamos, está tudo bem entre nós agora. Ele só me confundiu com outra garota, não foi nada de mais...
Kariya soltou uma pequena risada, sarcástico. – Ah, pode até ser. Mas eu nunca vi o antigo capitãozinho agir daquela maneira só de ver uma garota que tinha recém acabado de entrar na escola. Não acha isso um pouco estranho? Mesmo que essa tal garota que ele conheceu fosse mesmo igualzinha a você, dificilmente ele agiria daquela maneira. Pelo menos é isso o que eu penso.
Yumei baixou os olhos, pensativa. Realmente, Shindou agira de forma estranha ao vê-la pela primeira vez, o que havia a deixado extremamente confusa e assustada. Mas... Ele deveria de possuir motivos para ter feito aquilo. E se a pessoa que conheceu fosse alguém muito importante emocionalmente para ele, alguém que não via a muito tempo ou de uma região muito distante? E se fosse alguém que pensava jamais poder ver? Até mesmo ela, Yumei, teria agido daquela forma se estivesse no lugar dele.
Decidida, a morena abriu a boca pra se defender, mas foi cortada antes que qualquer som saísse de suas cordas vocais.
– Antes que diga qualquer coisa... – Kariya se apoiou na mesa encarando-a com atenção, o sorrisinho estampado em seu rosto. – Você já pensou no porquê de ele já saber o seu sobrenome antes mesmo de te conhecer?
Imobilizando-se por alguns segundos, Yumei abaixou a cabeça. “Por que o Shindou sabe o meu sobrenome?” Aquela havia sido a primeira pergunta que surgira em sua mente no dia em que conheceu o garoto, a pergunta que, na verdade havia apagado propositalmente de seus pensamentos na tentativa de fugir da confusão.
– Não quero pensar sobre isso... – murmurou, a voz mais séria do que antes. – Chega Kariya, por favor.
Ao ouvir seu novo tom de voz, o azulado parou de sorrir. Ainda encarando-a, suspirou com certo mau humor. — É, eu sabia... – respondeu.
Um longo silencio se instalou a volta dos dois. Sem saber mais o que dizer, Yumei simplesmente ficou ali parada a frente do garoto, refletindo sobre os comentários que acabara de ouvir. Alguns minutos se passaram desse modo, até ouvirem um som agudo e estridente sair das caixas de som pregadas as paredes. A biblioteca seria fechada, eles tinham de sair.
Levantando-se, Kariya olhou brevemente para Yumei, em seguida desviando o olhar para o livro que trazia em mãos. Folheando o livro com uma expressão de pouco caso, encolheu os ombros, colocando o exemplar na mesa ao lado da morena. Yumei fitou o livro confusa, lançando um olhar interrogador ao garoto.
– Não vai usar o livro?
Kariya mostrou não se importar. — Não. Já fiz o meu trabalho.
A garota piscou. — Então... Por que fez tudo isso?
O azulado parou por um momento, parecendo pensativo. Aquele mesmo sorrisinho voltou ao seu rosto.
– Hum... Porque eu quis. – cruzou os braços atrás da cabeça, mostrando uma expressão calma. — E também pra fazer você pensar um pouco. Nem eu estou entendo isso direito.
Fitando-o, Yumei não conseguiu entender. Estava intrigada com aquele comportamento. Então... Era assim que Kariya conversava com as pessoas? Irritando-as para depois fazê-las pensar em assuntos de que nem ele próprio entendia direito? Que insolência, se meter nos problemas dos outros, como se soubesse o que estava fazendo. O que será que se passava na cabeça daquele garoto?
Girando nos calcanhares, o azulado lhe deu as costas e seguiu na direção da saída, dando um pequeno aceno. — Bom, então tchau. – sorriu, sumindo ao passar pela porta.
Parada no mesmo lugar, Yumei olhou brevemente para a porta por onde Kariya acabara de sair. Sim, Kariya podia ter se intrometido em um assunto pessoal, mas... Com o que dissera, ainda não deixava de ter certa razão. Desde o começo, Yumei tentara fugir daquela situação somente porque não queria somar mais problemas e dúvidas aos que já possuía. Ela tinha de pensar mais sobre o que havia acontecido, encontrar respostas para suas perguntas.
– Tá tudo bem com você? – uma mão tocou seu ombro, assustando-a.
– O que? – virou-se para trás, dando de cara com a expressão um tanto preocupada do rosado. Suspirou, se acalmando. — Ah, Kirino. Sim, esta tudo bem.
– Por que está assim? O Kariya disse alguma coisa pra você?
Baixando os olhar brevemente, a morena esfregou a mão em um dos braços mostrando certo desconforto. — Bom... Disse. – confessou. — Mas isso não tem importância agora. Não precisa se preocupar.
A expressão de Kirino mostrou certo mal humor ao pensar em como Kariya podia ser irritante e gozador quando queria, sabia por experiência própria que muitas vezes o garoto podia chegar a ser quase insuportável. Olhou para Yumei, que se esforçava para mostrar uma expressão mais alegre.
– Certo. – respondeu, suavizando sua expressão, olhou para a saída. — Vem, a biblioteca já vai fechar.
Yumei concordou com a cabeça. Indo até a pilha de livros que havia formado para realizar sua pesquisa, pegou alguns exemplares, em seguida começando a seguir o rosado. Antes que se distanciasse da mesa, fitou a coloração vermelha viva. A cor da capa dquele mesmo livro que lhe causara tanta irritação.
Leu o título, pensando brevemente. Suspirou. Pegando o exemplar e apertando-o contra o peito, seguiu com Kirino até a porta da biblioteca, se retirando do local.
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O clima era o mais frio possível. Decaindo cada vez mais com o começo da tarde, a temperatura diminuta trazia nuvens densas e negras que cobriam o céu, anunciado a terrível tempestade que ameaçava cair á qualquer momento. Folhas, gravetos e sujeira voavam rapidamente com o vento gelado, que castigava impiedosamente os corpos dos ousados que saiam para a rua. E um desses ousados era Takuto Shindou.
Com a decaída contínua da temperatura, o treino que o Clube de Futebol realizavam após as aulas havia sido cancelado, permitindo com que os garotos saíssem mais cedo para suas casas. Quem voltava para casa de carro ou ônibus até que tinha sorte, mas quem voltava a pé como no caso do moreno, tinha de sair e enfrentar o clima.
Ao passar pelos primeiros quarteirões, Shindou contara com a companhia e apoio de Kirino para vencer o frio. Mas após se despedir do rosado continuou o caminho sozinho, andando com dificuldade por entre os ventos que teimavam constantemente em tentar empurrá-lo para longe.
Tentando aquecer suas mãos geladas nos bolsos da jaqueta que usava, o garoto amaldiçoou o fato de estar pouco agasalhado, estremecendo a cada lufada que o atingia. Podia sentir que o frio aumentava a cada passo que seus pés conseguiam dar, sendo que os ventos tornavam-se cada vez mais fortes.
Olhou a calçada a frente, faltavam menos de três quarteirões para que chegasse em casa. Apurou o passo, conseguindo algum progresso. Se continuasse daquela forma, provavelmente chegaria á mansão antes mesmo da chuva começar. Sentiu uma pontada de confiança, apesar de ainda possuir dificuldade em andar por causa do vento, estava indo bem.
Repentinamente, escorregou. Batendo os joelhos fortemente contra a calçada dura e escorregadia, ofegou com a dor, encolhendo-se momentaneamente ao tocar o asfalto. Tentou se levantar, mas uma dor ardida no joelho esquerdo o impediu, fazendo com que gemesse. Sentou-se com dificuldade, sentindo uma forte lufada de vento pegar-lhe pelas costas.
Com o pano da calça rasgado, Shindou pôde ver um filete de sangue escorrer do ferimento causado pelo impacto com a calçada áspera. Tocou-o de leve, sujando os dedos com o líquido vermelho.
Tentou descansar um pouco, mesmo sem sucesso. Esforçando-se para se levantar novamente após alguns minutos, sentiu o ferimento dar várias pontadas a medida que apoiava seu peso sobre as pernas. Quando finalmente conseguiu voltar a ficar de pé, sentiu o primeiro pingo, depois o segundo, e o terceiro. Olhou para o céu escuro, assustado com sua aparência tenebrosa. E de uma só vez, a terrível tempestade caiu violentamente sobre si.
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