Notas iniciais
Obrigado a todos que acompanharam a história até um final, um beijo à todos! Deus lhes abençoe! Comentem e recomendem.

O primeiro encontro de Soluço e Astrid estava marcado, iam apenas passear pelo zoológico da cidade, e comer algo no meio do caminho. Mas Soluço não fazia ideia do que fazer, então pediu ajuda para Elsa e Jack, que se surpreenderam e ficaram felizes por Soluço ter começado uma relação com Astrid.

—Eu preciso da ajuda de vocês! – suplicou ele desesperado – Meu encontro com a Astrid é amanhã à tarde!

Jack e Elsa deram conselhos a Soluço, ensinaram como deve tratar Astrid, o que deve dizer, como deve dizer, quando deve dizer e quanto deve dizer. Chegaram a quase brigar em alguns momentos, e Soluço ficava confuso enquanto tentava anotar todos os conselhos, e o seu desespero aumentou, mal chegou a dormir à noite.

No dia seguinte, Jack e Elsa foram à casa de Soluço logo de manhã, e o Haddock acordou assustado ao notar os dois grisalhos em cada lado de sua cama.

Fizeram ele ter um café da manhã rápido e mal aproveitado, e logo começaram a prepara-lo.

—Vamos lá Soluço! Tome banho! – disse Elsa com as duas mãos em cada ombro do amigo, o empurrando pelas costas na direção do banheiro.

—Mas espera, o encontro só vai ser daqui a algumas horas!

Fecharam Soluço no banheiro e o obrigaram a se lavar completamente.

Quando saiu do banheiro, foi direto para o quarto aonde Elsa o ajudou a escolher uma roupa.

—Essa não! Está horrível! Muito formal! Muito informal!

Chegou a fazer manicure e pedicure nele.

—Precisa mesmo disso? – perguntou enquanto Elsa lixava as unhas da mão dele.

—Claro! Mulheres notam essas coisas! Notamos a higiene no primeiro e nos próximos encontros.

Soluço olhou Jack, que se sentava numa cadeira encostada na parede, seus pés não tocavam o chão, usava um all star, uma calça marrom e uma camisa branca de botão.

—É por isso que você vai produzido pra escola todo dia? – perguntou para o grisalho – Por causa dela? – gesticulou com a cabeça.

—Óbvio que sim!

—Estou começando a reconsiderar isso tudo.

Elsa o estapeou e disse: “Nem brinque com isso. E outra, ela vai olhar e pensar: ‘nossa! Eu não sabia que o Soluço se cuidava tão bem!’”.

—Ou então ela vai olhar e pensar: “Nossa! Eu não sabia que o Soluço era metrossexual!”.

Elsa o olhou franzindo o cenho.

—Então deixa só dessa vez! Depois você se cuida do jeito que quiser. Mas lembre-se, mulheres podem namorar homens feios, mas também gostamos de homens que se cuidam.

O casal penteou o cabelo do Soluço e brigaram um pouco até chegar em um consenso.

Ainda o forçaram a passar cremes e géis, além de colocar alguns adereços no amigo.

Soluço encomendou ainda uma flor, se lembrava que Astrid gostava muito de rosas, e com todo o seu dinheiro só foi capaz de comprar apenas uma, as entradas seriam pagas com o dinheiro de Stoico.

Finalmente chegou perto do horário combinado, e Soluço ficou no vão da porta, voltado para dentro de casa, a esquerda na sua frente estava Jack, e à direita estava Ela, e disparavam conselhos antes que o Haddock conseguisse processar, e à cada conselho que davam Soluço movia a cabeça, olhando para um deles.

—Ela se produziu toda para você, então não se esquece de dizer que ela está bonita – disse Elsa.

—Mas não elogie ela demais, mulheres não gostam de homens que não entendem o limite dessas coisas – disse Jack.

—Seja atencioso com ela.

—Mas dê um espaço, mulheres não gostam de homens que também não tem limites nessas coisas.

—Lembre-se de sorrir!

—Mas não seja um bobão sorridente, mulheres também não gostam disso.

—Seja engraçado.

—Não seja nojento!

—Chega! – falou Stoico, que surgiu alto e imenso de trás de Jack e Elsa e passou por entre eles.

Pegou o filho pelos ombros e o olhou sorrindo.

—Considere tudo o que eles estão lhe dizendo filho, mas lembre-se, seja você mesmo, e aja naturalmente, como vem agido com ela desde que voltaram da cabana.

—Só que mais romântico – surgiu Valka, também alta.

O mais novo se tranquilizou ao ver o apoio dos pais, e deixou o ar sair de seus pulmões, mesmo que ainda suasse frio.

—Ela chegou – disse Valka.

—Força – sussurraram todos para Soluço.

O mais novo caminhou até o portão em silêncio, carregando a flor na mão. Não conseguia olhar Astrid por trás das grades, pois apesar delas serem grossas, ele estava perdido em pensamentos.

Abriu, saiu e fechou a porta, e quando a olhou, ficou pasmo.

Ela estava com o cabelo preso, usava uma blusa vermelhe e sem mangas, uma calça jeans preta com detalhes em prata, e um moletom na cintura. Parecia mais alta e mais voluptuosa do que antes, também cheirava a perfume feminino e havia um pouco de maquiagem em seu rosto. O mais novo chegou a enxergar flores e luzes vermelhas e cor de rosa ao redor dela.

Soluço corou diante da visão e chegou a abrir a boca arregalando os olhos. Pela primeira vez enxergou Astrid muito mais do que a ex-namorada de seu irmão, ou sua amiga mulher, e a dúvida de seus sentimentos desapareceu completamente, descobriu que estava realmente apaixonado e que realmente queria ser o namorado dela. Ele a amava.

—Oi Soluço – ela disse sorridente e ruborizada ao ver a expressão boba no rosto de Soluço, cujo coração disparava.

—Oi Astrid – disse ainda tentando mudar a expressão surpresa e apaixonada do rosto.

Ele sorria e não precisou se lembrar dos conselhos dos amigos para elogiá-la. Afinal sua mente ficou em branca quando bateu os olhos nela.

—Você está linda.

—Obrigada.

Ficaram um segundo em silêncio e logo depois Soluço olhou a flor em sua mão e disse: “Toma! É pra você!”.

Pegou a flor e disse: “Obrigada...”.

Passaram mais um tempo em silêncio e disse: “Vamos!”.

Começaram a caminhar juntos, Soluço a direita, e Astrid à esquerda, andavam pela calçada do lado da rua aonde ficava a casa dos Haddock.

—Pena que não pude ir busca-la em casa, não queria que andasse essa distância toda...

—Eu sei, só que minha mãe ainda não engoliu bem essa história de terminar com um cara e namorar o irmão dele. Então, vai demorar um pouco para você conhece-la. Mas sabe... Até que ela tem me tratado melhor...

O mais novo sorriu. Lembrando-se da conversa que teve com a senhora Hofferson.

—Verdade! Que bom! – falou sorrindo.

Conversaram bastante no caminho para o zoológico, e ao chegar lá, voltaram toda a atenção para os animais, os leões, hipopótamos. Tigres, elefantes, cobras, dragões de komodo, macacos e os peixes do aquário. Raramente falavam um com o outro, mas se divertiam, compartilhando os encantamentos que sentiam com os animais. Houve certo momento em que uma cobra venenosa deu o bote atrás do vidro na direção de Astrid, e ela se jogou em Soluço, foi quando se olharam nos olhos a uma curta distância pela primeira vez e puderam olhar os sentimentos de um pelo outro, puderam notar também as pupilas dilatadas de cada um.

Caminharam bastante e pararam para tomar sorvete enquanto estavam sentados num banco de pedra. Conversavam enquanto tomavam, quando de repente, Astrid bateu na mão de Soluço e o fez suja o queixo com sorvete, e o mais novo revidou, lambuzando o nariz dela com o próprio sorvete, o que a assustou de início, mas logo depois revidou e o manchou de novo, mas dessa vez com o próprio sorvete, e assim fizeram uma pequena guerra por alguns instantes, um lambuzando o outro enquanto riam juntos, até que chegou um momento que Astrid fugiu e Soluço foi atrás dela. Ambos riam.

Minutos depois, se lavaram numa torneira do lado de fora do banheiro, um do lado do outro e se olhando no espelho.

A loira ficou sem qualquer maquiagem no rosto e Soluço falou: “Não tenho nada contra maquiagem, mas você fica linda sem.”.

—Você me vê sem maquiagem todos os dias – opinou.

—Eu sei – ele respondeu sorrindo e balançando a cabeça.

E ela ruborizou de novo diante das palavras do mais novo.

Saíram do zoológico em silêncio, Soluço acompanhando Astrid até em casa. Desfrutavam da companhia um do outro sem falar nada, e sorriam como bobos. E já escurecia, pois o tempo estava pálido.

Ficaram no alpendre da casa de Astrid, e ela pegou a chave e disse: “Obrigada Soluço... Hoje foi muito divertido.”.

—Concordo... Nunca vou me esquecer de hoje.

Depois ficaram em silêncio, e Astrid olhava dos olhos do mais para seus lábios, queria um beijo, e Soluço fazia basicamente a mesma coisa. Engoliu seco, e logo depois a agarrou com força pela cintura e a puxou selando um beijo com ela.

A mais velha pôs as mãos nos dois ombros dele e o castanho abraçava sua cintura, mas suas mãos não tocavam aonde não deviam. Seus corpos se tocaram e um sentia os batimentos cardíacos do outro. O beijo era quente e saboroso, os lábios de Astrid ainda estavam com o sabor do brilho labial, e alguns instantes depois se separaram.

Um garoto inexperiente beijou uma garota experiente, mas o beijo foi até desfrutável.

Permaneceram no mesmo lugar, ele a abraçando e ela com as mãos pousadas leves nos ombros dele, chegando parecer mais viril à ela, e suas testas estavam coladas, e ambos de olhos fechados.

—É a primeira vez que beijamos um ao outro sem precisar sentir culpa de nada – ela disse.

—Eu sei...

—Foi o seu primeiro?

—Foi.

Sorriram, passaram mais alguns minutos assim e depois se separaram. Soluço segurou a mão dela enquanto a mesma se afastava e abria a porta, olhando-o sorridente. Nenhum dos dois queria se separar.

Mas a mão dela se desprendeu da dele, e ela entrou na casa, deixando-o sozinho no alpendre.

Soluço ficou sozinho por um tempo, sorridente, e Astrid se sentou do outro lado da porta, feliz e em paz, por finalmente sentir que havia resolvido tudo, tanto com Soluço, quanto consigo mesma.

O castanho voltou para casa sozinho, caminhando no meio da noite, sorria como bobo enquanto andava. O caminho era longo e o percorreu inteiro a pé, mas não sentiu qualquer dor nas pernas ou fadiga.

Quando chegou em casa, Jack e Elsa ainda estavam lá, e Stoico e Valka pareciam até calmos para a situação, Stoico lia um jornal sentado na poltrona, Valka estava na cozinha, cozinhando.

Soluço chegou em silêncio, e apenas os mais novos voltaram seus olhares para ele, curiosos.

—Então filho, como foi o encontro? – disse Stoico olhando o jornal.

O castanho apenas ficou calado, respirou fundo de olhos fechados e gritou alegre. Na mesma hora, todos correram até ele alegres e o abraçaram, primeiro Jack e Elsa, depois Stoico e Valka.

—Parabéns Soluço!

—Esse é o meu garoto!

Riram juntos por um bom tempo.

O tempo passou, e Soluço e Astrid ficaram mais próximos, saíram outras vezes para se divertirem, mas passavam a maior parte do tempo juntos na casa de Soluço, jogando vídeo game e comendo besteira. Astrid começou a passar mais tempo com Soluço na escola, o que atraiu má fama para ela, mas Soluço sempre a defendia, apesar de ela não se importar.

A loira andava tranquilamente pelo colégio, abraçava os livros e cadernos em frente ao peito e sorria serenamente, quando de repente, apareceu em sua frente, a equipe de líderes de torcidas, todas com seus uniformes, como um exército, tirando o sorriso do rosto de Astrid.

Na frente estava Heather, cabelo moreno e preso, alta, corpulenta e branca, de olhos verdes, olhando a antiga integrante do grupo, sendo basicamente sua valentona, mas Astrid não se intimidava com ela, nem com todo o grupo que a acompanhava.

—Astrid, é verdade que você terminou com o Nolan pra ficar com o Soluço?

—Não. Eu terminei com o Nolan porque ele não me amava, e comecei a namorar com o Soluço porque ele me ama.

—Tá, não é tudo tão preto no branco como você quer dizer, mas... Você realmente prefere o Soluço ao Nolan?

Ela ficou em silêncio, mas seu olhar sério e determinado dizia tudo.

—Eu não acredito! O Nolan é um bom partido, é alto, musculoso, forte, lindo... E o Soluço é pequeno, magricelo, fraco, parece até que é doente! O que se passa na sua cabeça pra trocar o Nolan pelo Soluço?!

A loira revirou os olhos e suspirou.

—Primeiro de tudo, nada disso é problema seu, segundo, o Soluço também é lindo e me trata bem! E vem cá. Por que está me incomodando a respeito disso?! Não era você que queria alguém como o Nolan? Vai lá, você não é tão atraente quanto eu, mas é um bom pedaço de carne pra ele por a mão!

Todas as líderes de torcida arregalaram os olhos, abriram a boca e respiraram por ela ao ouvir as palavras de Astrid, que por mais que jamais gostaram dela e vice-versa, mesmo que fizessem parte da equipe de líderes de torcida, jamais esperariam algo assim saindo da boca dela.

—E pensar que fui sua amiga! – gritou Heather, ofendida.

—Você não era minha amiga, você nunca gostou de mim, e eu nunca gostei de você! – quando se deu conta, o rosto dela estava perto do de Heather.

Olhou por alguns segundos, com certo desprezo, assustando a morena, e depois deu as costas deixando-as sozinhas no corredor.

Depois da aula, foi com Soluço, Jack e Astrid para a sorveteria aonde costumavam ir.

Conversavam e riam, até que Elsa falou.

—O parque veio pra cidade não veio? – perguntou Elsa.

—Sim – respondeu Jack – todo ano ele vem para cá.

—O que acha de nós quatro irmos juntos? Que tal um encontro duplo?

—Aí parece uma boa ideia – disse Soluço.

Olhou a namorada quando disse, mas o sorriso sumiu de seu rosto, pois Astrid estava encolhida enquanto segurava a taça de sorvete, e sua cabeça estava baixa.

Todos a olharam e Soluço perguntou: “Amor, o que houve? Algum problema? Você não quer ir a um encontro duplo?”.

—Não é isso – respondeu ela balançando a cabeça, ela havia ficado muito amiga de Jack e ainda mais de Elsa – É só que... Da última vez que parque esteve aqui, eu fui com o Nolan sabe... E isso me traz lembranças.

O castanho da mesa a olhou, sabendo que ela falava de todas as intrigas que havia causado ao beijá-lo no contexto errado.

—Bom... Não precisamos ir se não você não quiser – falou olhando-a.

Mas ela balançou a cabeça e disse: “Não, tá tudo bem... Foi só uma vertigem, é melhor deixar o passado para trás e seguir adiante, afinal, fora esses momentos, nunca tivemos um encontro duplo!”.

—Então amanhã a noite, está combinado? – perguntou Elsa.

—Claro! – respondeu a loira.

Levantaram as taças de vidro com sorvete e as usaram para brindar e marcar o combinado.

Valka sabia que o tempo de ligar para o filho e falar para ela sobre Soluço e Astrid já havia passado, mas quando o filho e a namorada falaram que iam até o parque, aquilo a fez lembrar de falar com o filho, no começo, ela não simplesmente se esqueceu, mas teve medo de causar mais um desgosto ao filho, e acabou deixando de lado, mas agora, estava disposta a falar.

Pegou o celular, ficou um tempo em silêncio, tomando fôlego e coragem, e ligou.

Enquanto a vida de Soluço se enchia de, luz alegria e coisas novas, a de Nolan se enchia de ressentimento e escuridão, fora matriculado numa escola feita de madeira, e a fama de seus chifres ficou famosa tanto na cidade do avô, quanto na própria cidade, nenhum de seus amigos da capital ligou para ele ou deu qualquer consolo, e no interior, ele não tinha nenhum amigo.

Seus dias eram resumidos a ir à escola, ficar na cabana e caçar com o avô. Em meio a sua humilhação ficava muito tempo em silêncio, e a expressão extrovertida de seu rosto desapareceu completamente, assumindo apenas uma carranca sombria, cujos olhos brilhavam numa malevolência escura. Acabou ficando melhor na caçada devido à frequência com a qual o fazia, imaginava repetidas vezes que o alvo era seu irmão caçula, a quem culpava pela situação em que se encontrava.

Também não falava muito com o avô que não sabia como se aproximar e ajudar o neto, então o deixava à vontade, exceto quando fazia algo que não devia, mas sentia que seu tempo com o neto os havia aproximado.

Nolan estava sentado no sofá da sala, assistia à televisão com um pé deitado sobre a mesa de vidro, e seu celular estava sobre a mesa, ao lado de seu pé. Quando o aparelho vibrou, o atendeu sem qualquer interesse ou animação, e quando viu que era sua mãe, seu rosto permaneceu imóvel.

Atendeu e ficou em silêncio, não sentia a menor alegria em falar com a família, mesmo com a mãe, afinal, foi ela quem o impediu de se vingar de Soluço.

—Nolan? Está me ouvindo – ficou um tempo em silêncio, não houve resposta, mas sabia que o filho a ouvia – Não quer falar ainda, tudo bem, eu entendo, liguei porque falar alguma coisa, é mais fácil se não falar nada.

Ele encostou as costas no sofá, acomodando-se.

—Soluço e Astrid começaram a namorar já faz um tempo. E seu pai e eu demos a bênção.

A sombra rosto de Nolan escureceu ainda mais ao ouvir aquilo, e seu rosto se fechou ainda mais.

—Mas por favor, não odeie seu irmão por isso, a última coisa que ele queria era...

—Eles vão para o parque? – foi a primeira vez que ela ouviu a voz dele depois de tanto tempo.

—O que?

—O parque sempre passa por aí nessa época do ano. E eu ia com Astrid, ela vai com o Soluço para o parque?

Valka ficou em silêncio, relutante em responder, mas depois de um tempo, respondeu:

—Sim, amanhã à noite.

Depois de mais um tempo em silêncio, ele desligou o telefone, algo que Valka já esperava, tirou o telefone do ouvido, um tanto aflita pela revolta de Nolan, mas não havia nada de novo no momento.

No dia seguinte, à tarde, Nolan voltava com Arú da caçada, foram a pé e caçaram patos, estes que carregavam em suas costas. Conversavam e o neto ia atrás do avô, cada um carregando a arma que usaram para caçar.

—Vovô, o senhor caçar a quanto tempo? – perguntou.

—Desde antes de sua mãe nascer filho, quando eu era muito novo, por volta de uns 5 ou 6 anos.

—E quanto tempo levou para o senhor se tornar experiente?

—Não levou muito tempo. Dentro de um mês de prática e foco, você aprende.

—Acha que eu já aprendi?

—Acho. Pelo menos você tem praticado bastante, e posso afirmar sem um pingo de dúvida que você não é o mesmo atirador que era quando o javali o atacou.

—Então, estou mais experiente.

—Sim, mais experiente, mais rápido, e com certeza, não irá faltar comida se você quiser viver como vivo.

—E a minha mira?

—Perfeita.

—Aonde o senhor guarda as munições?

—Na minha estante na primeira gaveta perto da cama por...

Ele começou, mas não terminou sua frase, caiu para frente, derrubando seu chapéu, Nolan o havia golpeado atrás da cabeça com a coronha e o velho caiu desmaiado.

—Obrigado – disse Nolan olhando-o com raiva e frieza no olhar.

Andou para dentro da cabana, largou os patos, deixando-os cair no chão, foi ao quarto do avô, estava trancado, então arrombou a porta com o pé, foi até a estante, que também estava trancada, mas Nolan pegou um cutelo e arrebentou o lado da primeira gaveta, pegando toda as caixas de munição que haviam lá dentro, e o fez em questão de segundos.

Saiu de casa carregando as munições num só braço, pegou a chave do carro do avô, e saiu, jogou as armas e a munição no banco do passageiro. Olhou o avô por um segundo e falou: “Desculpa vô Arú, não é nada pessoal, mas preciso dessas coisas. Garanto que vai vê-las de novo. Talvez não algumas balas.”.

Se deu conta de que na cintura do avô havia uma faca, deu a volta no carro e a pegou, colocando a faca em sua cintura.

Entrou no carro, colocou a chave e a girou, e saiu da propriedade, deixando o avô desacordado no chão, deitado de bruços e com os braços esticados para os lados e para cima.

Astrid e Elsa se olhavam no espelho, se preparando para sair, a loira usava a mesma roupa que havia usado na primeira vez que saiu com o namorado, e Elsa usava uma camisa de botão branca, com saia azul, leve e curta, riam enquanto conversavam, olhando o quanto são diferentes e parecidas ao mesmo tempo, e que a única diferença era que o lado mais maduro da platinada era mais exposto do que o da loira, e que o lado mais extrovertido desta era mais exposto do que o da amiga.

Soluço e Jack também terminavam de se arrumar, davam os toques finais, ajeitando suas gravatas numa roupa que não era social.

—Então, como estou? – perguntou Soluço se aproximando entre elas e se olhando no espelho.

Astrid abraçou o pescoço dele por trás, e olhando-o pelo espelho falou: “Está tão lindo quanto qualquer dia.”.

O mais novo sorriu diante do elogio.

—E eu Elsa, como estou? – perguntou Jack, olhando a namorada.

Seu cabelo estava penteado para trás e revelava seu rosto limpo e branco.

Ela sorriu, vendo que ele também carecia de um elogio de sua namorada.

—Está lindo, parece um príncipe de livros infantis, mas vem cá – falou se aproximando e Jack enlaçando sua cintura, puxando-a para mais perto dele – não são os namorados que deviam elogiar suas namoradas?

—Sim, mas quem disse que homens não gostam de elogios?

—Sei... E o meu?

—Você parece um anjo que Deus me enviou, cheia de uma beleza imaculada, graça e glória...

Ela corou.

—E eu Soluço?

— “Bela e mortal como o aço de uma espada.”.

Astrid riu, porque era um trecho do livro favorito de Soluço, e ela o conhecia bem.

—Vamos. Antes que fiquemos cobrando elogios uns dos outros – disse a loira.

Foram todos juntos para o parque no carro de Elsa, que era branco, de última geração e não era tão grande assim. Jack foi ao lado dela, e Astrid e Soluço foram no banco de trás, mas só o casal de trás podiam dar as mãos, mesmo que em silêncio, e mesmo que cada um olhasse para a janela do lado de seus bancos.

Soluço estava do lado direito do carro, com as costas inclinadas para frente mesmo que usasse o cinto de segurança, estava com o cotovelo sobre a perna direita e o queixo apoiado na mão, que também lhe cobria a boca, olhava para o lado de fora do carro, e as luzes noturnas voavam por ela como vagalumes na escuridão azul, só variando de cores.

Astrid também olhava para a janela, admirava os carros que passavam, os postes de luz, as arvores e as pessoas, e ruborizava porque no banco entre eles, onde poderia ir um passageiro, mas não ia, Soluço estava com a mão em cima dela, um ato bonito, singelo e humilde, mas que a fazia sorrir e ela gostava.

Jack e Elsa iam na frente em silêncio, vez ou outra olhavam para o casal atrás deles, queriam poder dar as mãos também, mas a mais velha precisava das duas mãos no volante.

A loira olhou o namorado, começando pela mão dele e subindo seu braço até chegar em seu rosto, aonde notou a preocupação que iluminava sua face.

—Soluço? Tudo bem? – ela perguntou, e Jack e Elsa voltaram sua atenção para os bancos de trás do carro.

—Sim... Só que... Estava pensando no que você falou lá na sorveteria... Sobre você e Nolan sempre irem juntos ao parque...

—Você... Está relutante? – ela perguntou insegura.

—Não exatamente... É que... Vez ou outra penso em meu irmão, e me pergunto como ele deve estar se sentindo... E se isso é justo com ele...

—Você é maduro e sensível, mas nunca namorou com ninguém antes de mim, eu não escolhi meu código genético, nem minha aparência e nem por isso minha mãe não me tratou como bem quis... Muitas vezes a vida não é justa... Coisas injustas acontecem com a gente e encontramos razões para ficarmos irritados, mas... Acredito que o melhor a se fazer nessas questões é ter paciência... Porque às vezes as flores e o arco íris só vem depois da tempestade.

Soluço arregalou os olhos ruborizado, sentiu seus sentimento por Astrid ficarem humildemente mais fortes, sem entrar no âmbito da malícia, mulheres sábias e inteligentes normalmente enfeitiçavam o mais novo.

O casal grisalho, no banco da frente se olhou, Astrid normalmente era apenas a garota que foi tirada do buraco por Soluço e que estava começando a aprender a viver, e que já estava fazendo isso há um bom tempo. Mas acabou de se mostrar também muito madura e sensível.

Soluço pegou a mão dela e a ergueu para beijá-la, e ela sorriu, depois acariciou gentilmente o cabelo de Soluço e disse: “Tudo que podemos fazer é esperar e rezar para que Nolan também compreenda isso.”.

—Você acha que isso é possível? – perguntou Soluço ainda de cabeça baixa, sorrindo apaixonado.

Astrid ficou um tempo em silêncio, pensativa e falou: “Vamos rezar...”.

Nolan dirigia agora pela estrada em direção à sua cidade, as luzes alaranjadas dos postes aos lados da estrada entravam dentro do carro e iluminavam seu rosto, e passavam assim todas elas. Usava sua camisa preta que ficava justa em seus braços fortes, havia uma sombra em seu rosto e um brilho maligno em seus olhos, olhava estrada de maneira um tanto obcecada em uma cara fechada e perturbadoramente perversa. Ao lado dele estavam as armas com os canos voltados para cima e as caixas de munição espalhadas às coronhas delas. Dirigia com apenas a mão esquerda no volante.

Olhou as caixas de munição pelo canto do olho por um tempo e de repente, num ímpeto, pegou uma delas, e colocou dentro de uma bolsa em suas costas, tudo enquanto dirigia.

No parque, Jack, Elsa, Soluço e Astrid se divertiam, iam em vários brinquedos, esperavam em filas um tanto longas, ansiosos para subir e se divertirem nos brinquedos, foram nos mais radicais, aonde podiam gritar de medo e diversão enquanto seus cabelos voavam ao lado de passageiros que sentiam as mesmas coisas.

Foram em vários outros, românticos, radicais, lentos, velozes, assustadores, divertidos, entre muitos outros, até que finalmente, deram uma parada no tiro ao alvo, primeiro os homens atiraram, depois as mulheres. Haviam outras pessoas lá que disparavam, a maioria sendo homens solitários, poucos acompanhados de mulheres ou mulheres solitárias.

Elsa e Astrid atiravam, e platinada parecia ter um talento natural para o ofício.

—Não sabia que atirava tão bem – comentou Astrid, olhando a amiga.

—Não é como seu nunca houvesse ido para um estande de tiro – falou enquanto recarregava a arma – nem como se eu nunca tivesse ido à cabana do senhor Arú e caçado com ele...

Astrid sorriu para ela, mirou em um alvo pequeno, e atirou, mas errou. Ela suspirou insatisfeita diante do erro, e Soluço falou: “Quer um conselho?”.

—Diga – ela respondeu.

—Tente mirar em algo pequeno – ele disse.

—É o que eu estou fazendo!

—Não... – ele disse – Quero dizer, não tente mirar no prêmio, mas em algo menor ainda que está no prêmio... Sabe, como tentar acertar o peito de um homem, mas mirar no botão da camisa dele, ou como mirar tentar acertar um javali, mas mirar numa linha da cicatriz dele.

Ela olhou o namorado, compreendendo o que ele queria dizer, e mirou no pingo do “i” que estava escrito no prêmio, e acertou bem em cima de onde queria.

O casal sorriu diante do feito, chegou a aplaudir.

Depois disso, pararam um pouco de brincar nos brinquedos, e tomavam sorvete novamente, todos juntos, só que em casquinha. Andavam um do lado outro, enquanto riam e conversavam, Soluço foi incapaz de não sentir um mal pressentimento.

De repente, ao longe, notou uma figura conhecida. Era Nolan, e estava com uma bolsa nas costas, a bandoleira de uma arma atravessava seu peito, o cano de uma arma se sobressaia atrás de suas costas à esquerda acima de seu ombro, e segurava outra em suas mãos, e a apontava para Soluço.

O rosto de Nolan demonstrava ódio e sadismo, ele olhava o irmão de longe, e apontava a arma para ele.

As pessoa começaram a correr ao ver alguém que não era policial andando armado pelo parque e com uma expressão assustadora.

Os quatro pararam enquanto todos no parque corriam para longe, e Soluço olhava o irmão incrédulo e assustado, seu rosto ficou morto diante da visão, já Astrid olhou do namorado atual ao antigo repetidas vezes, assustada, mas crédula, na verdade, já esperava algo tão extremo de Nolan. E o casal grisalho ficou apenas surpreso, não ficaram tão sensibilizados quanto Soluço, mas com certeza empalideceram, sentindo-se até responsáveis pela situação, afinal, eles motivaram Soluço a ir atrás de Astrid.

Nolan passou os olhos nos quatro e sua raiva aumentou quando viu que Astrid estava com o irmão, o que o motivou e o fez ranger os dentes, colocou a mira da arma diante dos olhos.

Nesse momento, aqueles que não correram antes, quando viram Nolan preparando-se para atirar, correram depois.

Ele mirou em Soluço, que congelou diante da mira, mais por incredulidade do que por medo, e Astrid, notando o estado no qual o namorado se encontrava, o puxou no último segundo, e Nolan errou o tiro, mas acertou num homem que corria atrás de Soluço e que caiu morto logo depois.

Nessa hora, os quatro se dissiparam, Astrid puxava Soluço pela mão e Jack empurrava Elsa para o outro lado, correndo atrás dela, buscando se esconder com ela atrás de uma barraca.

Na propriedade dos avô de Soluço e Nolan, Arú ainda estava desacordado e na mesma posição, quando de repente acordou. A primeira coisa que fez foi colocar a mão atrás da cabeça, sentindo a ardência da dor, se virava sobre o chão enquanto isso e se apoiou no outro braço, demorou para recuperar parte da lucidez, ficou um tempo em silêncio, pensativo, e quando se deu conta de que seu carro que devia estar ao lado dele naquele momento, havia sumido, ele logo se levantou e correu para dentro da cabana. Chamou pelo neto mais velho, que não respondia, olhou em seu quarto, e notou que o lado de sua estante estava destruída e suas caixinhas de munição haviam desaparecido. O que o deixou mais aflito e desesperado.

Pegou o celular e ligou para a filha.

—Oi pai – ela atendeu, estava sentada sobre a mesa da cozinha e tomava chá, Stoico assistia ao jornal na televisão.

—Valka! – gritou, sua mente ainda não estava funcionado em sua plenitude – Nolan despareceu!

—O que?! – falou se levantando, arregalando os olhos e sentindo um tremor de preocupação em seu corpo – Como assim? O que aconteceu?

—Nolan me acertou por trás, levou me carro, minhas armas e munição desapareceram!

A mulher se sentiu perdida diante das palavras do pai, empalideceu sombriamente, e seus olhos perderam a cor, um frio consumiu sua alma e ela sentiu medo, mais do que em qualquer outro momento de sua vida.

—Meu Pai Santo... – ela sussurrou rezando enquanto desligava o telefone e o tirava do ouvido.

Quando Stoico viu a expressão no rosto da esposa, correu até ela e perguntou: “Valka? Querida! O que houve?”.

—Nolan fugiu da cabana do meu pai, roubou o carro e as armas dele. Ele vai matar o Soluço...

—Como assim! Ele sabe aonde Soluço está?

Ela empalideceu de novo enquanto se sentava na cadeira e não respondeu, mas sua expressão dava a pista.

Stoico a olhou compreendendo a situação.

—Por favor não me diga que você não disse ao Nolan que Soluço foi ao parque com a Astrid...

Ela empalideceu novamente e Stoico suspirou. Valka pegou o telefone e disse: “Eu vou ligar pro Soluço e mandar ele voltar pra casa.”.

Ela falou já procurando Soluço nos contatos, mas de repente a atenção de Stoico se voltou para a televisão que estava ligada e aumentou o volume.

No aparelho passava o jornal com a repórter falando e a seguinte frase passando: “Jovem chega disparando em parque.”.

—Não dá mais – disse Stoico – Rápido, eu pego o carro!

E correram até a garagem.

No parque uma viatura de polícia havia chegado, um pequeno grupo de jornalistas conseguiram chegar antes dos dois policiais.

Haviam pessoas mortas no chão de areia do parque, e os únicos que ainda estavam lá eram Soluço, que não queria ir embora, Astrid, Jack, que não sairiam de lá sem o castanho e Elsa que ficava lá mais pelo namorado do que por Soluço. Estavam espalhados e escondidos, apenas o casal grisalho estava junto, Soluço havia se separado de Astrid para protege-la.

Nolan estava do lado de uma fileira de barracas e ainda segurava sua arma, e um policial se aproximava dele com as palmas abertas e baixas em direção à ele.

—Acalme-se filho! Acalme-se! Só estamos querendo te ajudar!

—Se querem mesmo me ajudar, saiam do meu caminho e deixem eu me vingar do meu irmão!

Bem atrás do policial e de frente para Nolan há vários metros de distância, estava o outro policial que apontava uma arma de cano longo na direção dos dois, Astrid estava à esquerda dele há alguns metros e prestava atenção em Nolan, se sentia culpada pelas coisas terem chegado a tal situação e seu coração acelerava, preocupada com o namorado.

Soluço estava escondido atrás da última barraca da fileira ao lado de Nolan, e também estava a metros de distância do irmão, se escondia enquanto escutava o diálogo dele com o policial.

—Olha filho, eu lamento por qualquer coisa que tenha acontecido para você tomar essa atitude, mas as coisas não se resolvem dessa maneira.

Enquanto falava, soluço colocou a cabeça dele para fora, o que chamou a atenção de Nolan e na mesma hora, o fez apontar para o irmão, e apertar o gatilho, mas um “click” foi tudo o que aconteceu, gastou toda a munição errando tiros e acertando pessoas que não conhecia.

Foi quando um brilho passou pelos olhos do policial a frente dele, que reagiu, agarrando a bolsa do mais novo, ele sabia que estava cheia de munição. Nolan e o policial se atracaram por alguns instantes, mas o oficial se saiu melhor, conseguiu arrancar a mochila de suas costas. E os quatro jovens que assistiam a tudo escondidos ficaram aliviados quando viram que o policial havia resolvido tudo.

“Sem munição, sem tiros, sem tiros, missão cumprida.” pensou o policial.

Chutou o garoto, que caiu sentado e atirou para longe a bolsa cheia de caixas de munição.

—Jake! Tá tudo resolvido? – perguntou o homem atrás dele, que apontava a arma de cano longo.

—Sim! – respondeu o companheiro, olhando para trás e sorrindo – Eu já resolvi tudo!

Mas Nolan rapidamente pegou a outra arma em suas costas, o policial não sabia que aquela estava carregada, apontou para ele, sem olhar pela mira, e disparou. A arma brilhou por um instante, saiu fumaça e o som dela trovejou alto na noite.

O homem mal havia se virado direito quando Nolan disparou, e não esperava por aquilo.

A bala o atingiu na barriga, no canto esquerdo, e o policial gritou alto, com a mão sobre a ferida. Soluço, Astrid, Jack e Elsa se jogaram um pouco para trás surpresos quando viram, arregalaram os olhos e se assustaram.

O oficial caiu para trás, mais ainda estava vivo, colocava a mão sobre a ferida e se levantou com dificuldade, fugindo do garoto armado. O outro homem, de longe, atirou, mas como o criminoso estava no escuro, como o atirador da polícia estava emocionalmente instável, preocupado com o amigo, e como o outro policial também atrapalhava a mira, tentando se levantar, acabou-se errando o tiro, acertando-se o chão, fazendo um punhado de terra subir.

Nolan rolou para o lado, se escondendo do lado da primeira barraca, e olhando os dois oficiais.

O segundo homem atirou de novo, mas errando, e o delinquente apontou a arma também, mas não para o policial, para a parede que cobria seu corpo, disparou mais de uma vez, e a bala atravessou o cimento, atingindo o policial em cheio, que caiu gritando e levando consigo a arma.

Nolan se colocou de pé, e olhou o primeiro policial, que já havia corrido uma longa distância, e que provavelmente havia perdido o senso de direção e agora engatinhava, deixou uma trilha de sangue por onde passou, mas havia percorrido uma longa distância, tanto que passou por Soluço sem perceber e foi para bem longe dele.

O oficial estava de quatro quando levou outro tiro pelas costas e perdeu a consciência.

O delituoso caminhou para frente, sabia onde Soluço estava escondido.

—Oi, irmãozinho... – disse quando o encontrou, sorria, mas ainda tinha ódio em seu rosto.

—Não... – sussurrou Astrid com medo, enquanto já chorava.

—Soluço! – sussurrou Jack, preocupado, queria ajudar o amigo, chegou a se jogar para frente num ímpeto, na intenção de ajudar o amigo, mas Elsa o segurou.

Soluço se assustou por um segundo, e Nolan apontou a arma para ele a uma curta distância, mas quando puxou o gatilho, houve apenas outro “click”, o que fez o assassino arregalar os olhos e fechar o sorriso, tendo raiva da dificuldade que encontrava para matar o próprio irmão. Olhou para trás, procurando a munição, e viu que a bolsa estava longe, foi quando um brilho de esperança inevitavelmente surgiu nos olhos de Soluço e desapareceu no mesmo instante, mas ainda assim, ele correu.

Nolan se deu conta de que Soluço corria na direção do policial, havia uma entrada do outro lado do parque, foi por onde os policias entraram e era também por onde se filmava a cena pelos repórteres. Ele suspeitou que o irmão queria fugir de lá, por um segundo, cogitou recarregar sua arma e depois matar Soluço, mas desconsiderou a ideia porque percebeu que assim daria tempo de sobra para Soluço fugir. Então o perseguiu.

Para a surpresa e desgosto do mais velho, Soluço corria mais rápido, afinal, passou a acompanhar Astrid em seus exercícios, e Nolan parou de malhar há bastante tempo. Mas atirou a arma nas pernas de Soluço, o que o fez cair de bruços no chão. Nolan viu a chance, e tirou a faca do avô do cinto enquanto andava num passo acelerado, mas Soluço caiu perto do corpo do policial, que também estava de bruços, e sangrava, viu a pistola em sua perna, e era o que procurava. Rastejou até ele, enquanto Nolan andava irritado e já estressado na direção do irmão.

O mais velho puxou o irmão, fazendo-o ficar de costas sobre o chão, se ajoelhou sobre o mais novo, colocando uma perna de cada lado, e levantando a faca para matar Soluço, nem imaginava o que o braço do mais novo buscava alcançar, mas o Haddock caçula conseguiu pegar a arma do policial, e no último segundo, apontou ela para o irmão, encostando o cano em seu queixo.

Foi quando todos se tranquilizaram, Astrid, Jack, Elsa, Soluço – mesmo que relutante – e até Nolan, que pode parar naquele momento com todo aquele caos em sua mente.

E tudo ficou em silêncio, Jack, Elsa e Astrid olhavam Soluço e Nolan aliviados, enquanto o assassino permanecia de joelhos sobre sua vítima, segurando a faca para cima, apontada para o pescoço de Soluço, cujo braço estendido encostava e apontava o cano de uma arma em seu queixo.

Os dois estavam suados e ofegantes, o peito dos dois subia e descia, o mais novo apontava com a arma, só precisava apertar o gatilho, e tudo acabaria, mas relutava em fazê-lo, olhava o irmão preocupado, o susto de antes já não existia, só restava a preocupação para com o outro, e a discussão muda de certo e errado, de dois irmãos estarem apontando uma arma um para o outro.

—Vai! – disse Nolan – Atira! É tudo o que resta! É a única coisa que falta você fazer! – Soluço não entendia – Você tirou tudo de mim! Minha fama, meus amigos, minha reputação, minha namorada... Só resta tirar isso de mim! Minha vida!

O mais novo olhou o irmão, e se dava conta do ponto de vista dele, chegando a sentir pena, olhava no fundo dos olhos dele, e percebia que ao mesmo tempo que Nolan queria morrer para acabar com sua vergonha, ele também queria viver para se vingar, uma parte contradizia a outra.

—Vai! Atira!

Soluço ficou dividido em sua decisão, então decidiu não cumprir com qualquer vontade de Nolan.

Jogou a arma para o lado, que quicou várias vezes no chão, levantando areia fina que reluzia às luzes como cristal.

—Não – falou Soluço sussurrando – eu não sou um fratricida.

—Não – sussurrou Astrid de longe – Soluço...

—O que ele está fazendo? – sussurrou Elsa.

Nolan se sentiu um tanto aliviado ao sentir que a arma gelada já não encostava nele, e falou: “Sempre o melhor de todos não é? Sempre o moralista, o certinho... Não se engane Soluço, não é porque você poupou minha vida que eu vá poupar a sua.”.

Falou ainda outras coisas, mas quando Astrid ouviu Nolan, se deu conta de que precisava fazer algo, pensou em várias coisas, chegou a cogitar oferecer-se para Nolan, para que o mesmo poupasse soluço, mas a resposta ficou clara quando ela viu a arma do policial caído, olhou dela a Nolan repetidas vezes, e correu em direção à ela, Nolan não viu porque estava com a cabeça baixa, olhando Soluço.

Ela viu que a arma era a mesma que aquela que ela usou para caçar. Pegou a arma, e apoiou o cano em sua parede enquanto começava a mirar, estava suada, tremia e engolia seco.

Nolan ainda falava com Soluço, e se incomodava com a dignidade que havia no rosto do mais novo, que estava com os braços estendidos para os lados, o corpo relaxado, o coração desacelerado e um olhar serenamente frio em seu rosto inexpressivo, havia até parado de suar, não sentia qualquer medo, e aquilo com certeza pressionava Nolan.

Astrid ainda apontava a arma, a mira dançava no peito de Nolan, e a loira respirou fundo e lentamente, ninguém via o que ela estava fazendo, nem os repórteres, nem Nolan, ou mesmo Jack e Elsa, que olhavam preocupados com os irmãos Haddock. A loira havia parado de suar e se concentrava naquilo, olhava pela mira enquanto seu dedo encostava no gatilho, estava pronta para disparar, quando de repente, ouviu-se um grito.

—Nolan! – aquilo assustou a todos, que se viraram para a dona da voz.

Era Valka, que estava suada, com os cabelos bagunçados e cujo casaco estava mal vestido, seus estavam arregalados e ela estava pálida, visivelmente desesperada com a situação e ofegava, seu peito subindo e descendo. Atrás dela estava Stoico, não tão desconstruído quanto a esposa, mas igualmente aflito.

—Não faça isso! – ela gritou.

O filho mais velho a olhou e aquilo teve peso em suas atitudes, tentou abaixar os braços para enfiar a faca em Soluço, mas não conseguiu e se irritava por causa daquilo.

Já Astrid, olhou a mãe misturando relutância e compaixão, se deu conta de que estava prestes a matar o filho dela, que apesar de todos os erros que ele comete, e que já cometeu, ela ainda o amava. Olhou o namorado, que se via dividido em sua decisão, e todos voltaram a olhar Nolan naquele momento.

A loira conhecia o ex-namorado, sabia que seus momentos de moralidade e de lucidez não eram mais do que isso, momento, e que em breve, mesmo com os apelos da mãe, não retrocederia. Então voltou a mirar, mas baixou a mira, e novamente, outro tiro trovejou na noite, assustando a todos.

Uma fumaça esguichou da cintura de Nolan indo à esquerda do mesmo, e seu corpo teve um sobressalto, na verdade um espasmo, que o fez soltar a faca e cair para o lado esquerdo.

Foi só depois daquilo que Valka viu Astrid com a arma, mais a frente, e à direta dela, correu em direção aos filhos rapidamente, e Stoico foi atrás. Se jogou sobre eles e se ajoelhou pegando ambos e os abraçando.

Soluço estava um tanto tonto e abalado devido à toda a pressão da situação, e Nolan estava pálido, com os olhos arregalados e dizia: “Mãe... Mamãe, eu não sinto minha pernas... Eu não sinto minhas pernas...”.

Soluço olhou Astrid de longe, e ficou sem palavras, Valka olhou-a também e em seu rosto havia uma expressão que misturava gratidão e raiva. Raiva por ela ser a responsável por aquilo tudo, e gratidão por ter resolvido tudo se, matar nenhum deles.

Jack e Elsa correram na direção dos Haddock naquele momento, e uma multidão de testemunhas e repórteres os cercaram, vários flash de câmeras foram disparados e meio a perguntas, e as sirenes de polícia e ambulância brilharam na noite.

Nolan foi preso, os dois policiais sobreviveram, para o alívio de suas famílias, mas tinha uma longa caminhada pela frente para se recuperarem nos hospitais. O criminoso ficou paraplégico, os médicos até tentaram salvá-lo, mas a bala havia acertado sua espinha e não puderam fazer nada, em consequência disso, sua pena foi reduzida, e ao invés de o mandarem para uma prisão normal, mandaram para um asilo, numa cela só para ele.

E o relacionamento dos Haddock, de Astrid, e mesmo de Jack e Elsa ficou bem complicado. Stoico e Valka culpavam Astrid pelo ocorrido, Jack e Elsa se culpavam por terem motivado Soluço a ir atrás de uma namorada e Soluço estava sem voz diante dos fatos.

Passado algum tempo, as coisas começaram a se resolver.

Astrid andava por um corredor cinzento e escuro, usava uma jaqueta de couro preta que ela mesma havia comprado com o próprio dinheiro e carregava um bolo sobre as mãos, dos lados delas haviam celas e pessoas andando por todos os lados, mas ela caminhava bem no meio do corredor, e ninguém encostava nela. Um policial ia a sua frente, guiava ela ao lugar aonde os detentos podiam encontrar seus familiares.

Entrou numa sala grande, cinzenta, quadrada, e com cerâmicas grandes e sem cor no chão. Haviam várias mesas redondas de metal e cinza e ao redor delas, mesas de mesma cor e material, uma sala extremamente sem vida. E nos cantos da sala haviam alguns policias segurando armas de fogo.

—Pode sentar em qualquer lugar – disse o policial que a escoltava, alto, robusto e marrento.

Ela entrou procurando aonde sentar, e escolheu a mesa do meio. Passado um tempo, houve o som de uma porta de metal elétrica sendo aberta. E dela saiu um policial, empurrando uma cadeira de rodas, e na cadeira se encontrava um Nolan pálido, com olheiras sombrias, pele pálida, ridiculamente magro e usando a roupa laranja do asilo e uma expressão revoltada em seu rosto.

Quando olhou Astrid, seu rosto não mudou, apenas continuou na mesma, antes ele não a culpava por estar namorando Soluço, mas agora, ele a odiava, afinal, ela não o deixou se vingar, e lhe tirou as pernas, de certa ótica era até justificável.

Ele até tentou ir até ela sozinho, girando suas rodas, mas era tido como um psicopata, e o policial não deixou.

Foi colocado do outro lado da mesa, de frente para Astrid, olhava ela em silêncio e com ódio, expresso em seu olhar, já a loira, apenas o olhava inexpressiva, mas não tinha qualquer medo ou nervosismo em seus olhos, sequer vergonha ou preocupação. Senhora de si.

Depois de um tempo se falar nada, ele disse: “O que está fazendo aqui?”.

O bolo estava sobre a mesa, perto de Astrid, na frente dela, empurrou-o na direção do ex-namorado e disse: “Sua mãe me pediu que eu te trouxesse isso, ela disse que é seu favorito.”.

—Por que ela mesma não trouxe? – perguntou.

—Você disse que não queria ver ninguém da sua família, por isso eu vim até aqui. Não sou da sua família.

—Veio aqui só pra isso?! Pra me trazer um bolo?! – questionou indignado.

—Como você está? – perguntou.

—Preso e paraplégico... Por sua culpa, sua e do Soluço.

—Minha culpa?! Eu não coloquei uma arma na sua mão, não fiz você pegar uma faca pra tentar matar o Soluço, tudo que eu fiz foi proteger seu irmão, por causa do que você estava fazendo!

—Se você não tivesse me traído nada disso teria acontecido.

—Ah, claro, e se você não tivesse me tratado como um pedaço de carne isso nada disso teria acontecido, se não tivesse chegado em mim nada disso teria acontecido, se não estudássemos na mesma escola nada disso teria acontecido, se eu não fosse tão boba quando te conheci nada disso teria acontecido, se eu não tivesse nascido nada disso teria acontecido! – parou para respirar enquanto olhava Nolan um tanto insultada – Tudo isso é verdade! Podemos entrar em retrocesso com relação à minha e à sua história e dizer que se várias coisas não tivessem acontecido não teria dado no que deu, mas importa agora?! De quem é a culpa?!

—Fala sério! – respondeu Nolan batendo na mesa e se afastando, sentindo mais indignação ainda – Não acredito que você puxou essa mania do Soluço de ficar argumentando desse jeito...

A loira olhou pelo lado, percebendo o comentário dele, chegou a ruborizar, e falou: “Olha, se quer que eu peça desculpas por ter traído você, até por ter atirado em você, tudo bem, eu peço. Me desculpe, eu lamento.”.

—Não aceito suas desculpas – respondeu.

—E o que espera que eu faça?! – comentou Astrid – Comece a chorar porque você disse não às minhas desculpas?!

Ele a olhou surpreso e um tanto decepcionado por não ficar por cima na relação.

—Nolan, eu já me perdoei pelo que fiz, e eu posso viver sem seu perdão, mas você não pode viver sem ele.

—Ah, sei, aquele velho papo de que no perdão o mais beneficiado não é o perdoado, mas aquele que perdoa.

—E é mentira? – ela perguntou se inclinando sobre a mesa – Olhe nos meus olhos e me diga que consegue viver em paz enquanto me odeia.

Os olhos azuis e fortes dela brilhavam pálida e serenamente sobre a mesa, e Nolan ficou um tanto intimidado, tanto que desviou o olhar ainda profundamente frustrado.

—Não importa – disse pegando o bolo e o colocando sobre o colo, depois olhou para baixo balançando a cabeça – eu não perdoo você, não quero saber dessas coisas, não me importa se você está arrependida...

—Arrependida? – ela interrompeu – Do que? De atirar em você? Olha, eu até estou arrependida de não ter terminado com você antes de beijar o Soluço e começar a namorar com ele, mas nada relativo à noite que atirei em você.

Nolan a olhou surpreso de novo, mais surpreso do que já esteve em sua vida.

—Você ia matar o Soluço, e a única maneira de impedir você de fazer aquilo era atirando em você, e eu não me arrependo do que fiz. Só sei que... Se eu voltasse àquele momento mil vezes, estivesse com a arma você prestes a matar o Soluço de novo, mil vezes eu teria atirado em você.

Ele arregalou os olhos diante das palavras da loira, que o olhava com certa frieza, misturado com uma humanidade de alguém que busca deixar viver aqueles que ama.

Ficaram em silêncio de novo, e Nolan ficou em choque por um bom tempo, as palavras dela atingiram até os policiais que escutavam o dialogo deles.

—Eu me tornei muito amiga da sua mãe, ajudei ela a preparar o bolo, ela me mandou dizer que ama você, e que quer que você perdoe o Soluço e a mim, disse também que deseja ver você, mas só se você deixar.

—O horário da visita acabou! – disse um policial, que puxou Nolan e começou a leva-lo, enquanto estava de cabeça baixa.

Astrid repensou um pouco as palavras e disse enquanto levavam o delituoso: “Nolan, quando você cumprir sua pena, ou sair por bom comportamento, saiba que... Conheço algumas garotas que ainda gostam de você, e... Eu gostaria de ser só sua amiga, mas ainda pretendo ser a namorada do Soluço... Por favor, considere as coisas que eu falei.”.

Nolan olhou Astrid pouco antes de fecharem a porta. Ela saiu andando do asilo, desceu as escadas por onde subiam e desciam várias pessoas. Foi até seu carro novo, que também comprou com o próprio dinheiro, era grande e preto. Havia se passado pouco tempo desde todo o problema com Nolan, mas Astrid arranjou outro emprego que pagava melhor, e juntando com o dinheiro que já tinha no banco, comprou todas aquelas coisas.

Entrou no carro, e o banco do passageiro estava Soluço, com a cabeça baixa, as mãos no rosto, a coluna curvada para frente e suspirando em altos níveis de estresse.

—Oi amor – ela disse e beijou o rosto do namorado.

—Como foi?

—Tenso – ela respondeu – Um pouco pior do que pensei que seria...

—Você acha que ele vai querer ver a gente?

—Vai – ela respondeu – Talvez não agora, mas vai sim, ele levou um duro golpe. E os outros, como estão?

—Bom... Meus pais se sentem menos incomodados com sua presença, e eu convenci o casal das neves de que eles não tem a responsabilidade de nada... E eles aceitaram fazermos um encontro triplo. O que nos resta agora? – perguntou.

A loira pegou a mão dele, olhando para frente, e respondeu, sendo aquela a saber a resposta para a pergunta do mais novo.

—Seguir em frente.

Ele sorriu para ela, e ela respondeu com outro, ligou o carro e entraram na estrada. Se tornavam um casal que estimavam um ao outro, e amadurecidos, sendo compreensivos e parceiros um do outro, se apaixonavam cada vez mais.

Soluço e Astrid trocavam olhares enquanto sorriam como bobos; adultos, jovens e infantis ao mesmo tempo. O carro parou no semáforo, se inclinaram e selaram outro beijo.

Notas finais
Até outra história! Agradeço à todos que leram, inclusive aos leitores fantasmas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!