Amor por Acaso
7 A Caixa
Notas iniciais

Cristina ficou muito apreensiva. Por mais que não se desse bem com seu pai, mas ele era o seu pai. Seu coração se enchia de angústia só de imaginar que algo pudesse acontecer a ele.
Cris: Amy, avise os outros. Eu quero o meu pai vigiado 24 horas. E tem que ser na surdina, ele não pode perceber.
Amy: Pode deixar, Chris. Mas tome cuidado você também, com esse maníaco solto por aí, você não pode vacilar um segundo.
O dia transcorreu como o previsto. Algumas chamadas, mas nada extraordinário ou fora do comum.
Cristina não conseguia parar de pensar no que Amy havia lhe dito. Seu pai poderia estar em perigo, o assassino poderia usá-lo para chegar até ela é consequentemente ao Rusty.
“Preciso desvendar esse crime e prender esse desgraçado antes que seja tarde.” pensava ela.
***
Apartamento de Cristina.
A professora de Rusty havia acabado de sair, era mais uma aula que se encerrara.
Rusty: Caramba!... Pensei que esse tédio não fosse acabar nunca!
Em: Qual é, carinha! Não foi tão ruim.
Rusty: Porque não era você aqui sentado, vendo cálculos, fórmulas. Juro que se um dia eu descobrir quem foi o cara que inventou a matemática, vou lhe dar um soco bem no meio da fuça!
Em: Ah, não seja exagerado. Sua professora é muito competente, eu pude ver daqui, ela parece saber das coisas.
Rusty: Eu sei o que você tava vendo, tio. Sei muito bem o tipo de competência que o senhor tava avaliando!
Ros: Miguel, olha o respeito!
Rusty: Quer dizer que o tio Emi fica olhando o traseiro da minha professora e eu é que levo a culpa, Rosa?!... Adultos!
Emiliano quase cospe o café fora de vergonha e Rosário não consegue segurar o riso.
Em: Tá bom, “senhor observador”, já que você é tão esperto, por que não me responde uma coisa?.
Rusty: O que quer saber, tio?
Em: Se o seu nome é Miguel, por que chamam você de Rusty?
Rusty: Bom… Vocês já devem ter notado que Rusty é nome de cachorro, né? – disse ele. – Eu sei que notaram, não precisam ficar com vergonha de dizer. A verdade é que, no orfanato onde eu vivia, eu tinha um cachorrinho chamado Rusty, eles maltratavam muito a gente lá, quando eu fugi, eu o levei comigo, mas a carrocinha o pegou e eu nunca mais o vi. – disse ele baixando a cabeça, e esfregando o rosto para limpar algumas lágrimas que caíram. – Daí, nas ruas, eu adotei o nome dele porque assim, o pessoal do orfanato nunca ia me achar, e eu tinha uma lembrança do Rusty comigo.
Emiliano e Rosário se comoveram com a história do menino. Como alguém tão jovem poderia já ter sofrido tanto, e ainda assim, carregar um sorriso no rosto?... Rusty, – ou Miguel – era um garoto como poucos.
***
De volta ao departamento…
O Comandante Hernandez estava em sua sala preenchendo relatórios. Detestava aquela burocracia, para ele a polícia estaria melhor se estivesse fazendo seu trabalho como era para ser: prender bandidos, manter a população segura e sem tanta papelada para dar conta.
Com: Motivação do crime?... E desde quando bandidos precisam de um motivo pra serem bandidos?!... Por Deus, isso é perda de tempo, eu devia queimar esse monte de papel! – disse ele aborrecido.
Cris: E aí, o senhor teria que preencher mais um monte deles pra justificar a fogueira Santa que o senhor faria. – disse ela parada na porta observando seu pai com um leve sorriso.
Com:Filha?... Quer dizer… Capitã Maldonado?... Eu não esperava vê-la aí, parada na porta. – disse ele pigarreando. – Aconteceu alguma coisa?... Alguma novidade sobre o assassino?
Cris: Ainda não. Só o que descobrimos com o corpo, mais cedo. … A verdade é que… O que me trouxe aqui é um assunto pessoal. – disse Cristina se sentando e mexendo os dedos, estava um pouco nervosa.
Com: Pode falar, Cristina. O que foi? – disse Carlos segurando a mão da filha, mas Cristina recua.
Cris: Não, não é nada demais, pai. Calma. É que eu queria te fazer um convite.
Com: Um convite? – disse Carlos estranhando um pouco.
Cris: Sim. Rosário, Rusty e eu vamos sair pra jantar hoje. Ah, sim… O tal de Emiliano também vai, de enxerido. Mas eu gostaria que você nos acompanhasse. Você aceita?
Carlos não pôde conter o sorriso. Era a primeira vez, em anos, que recebia um convite da filha para fazerem algo juntos. Uma aproximação, finalmente.
Com:Claro que aceito, filha.
Cris: Ótimo, saímos juntos então. Até mais tarde, pai. – disse ela sorrindo.
Com: Até, minha filha.
***
Mais tarde…
Cristina e Carlos chegam junto, o que faz com que Rosário e Emiliano fiquem de queixo caído.
Em: Tá… Tá tudo bem?
Cris: Sim. Nana, pelo amor de Deus, não olhe pra gente assim, eu só convidei o meu pai pra jantar conosco.
Ros: Ai, meu Deus!... Você também vai? – disse Rosário. – Eu preciso ir pra casa me arrumar!
Carlos: Não precisa, meu amor. Você está linda assim.
Ros: Oh!... Você é tão gentil, Carlos! – disse ela acariciando o rosto dele. – Só me dê dez minutos.
Cristina e Emiliano observavam à distância.
Em: Eles formam um casal muito bonito, não é Cris?
Cris: Sim. Um casal tão doce que chega a dar cárie. – disse ela com acidez, Emiliano a olha com reprovação. – O que foi?... Ainda tô me acostumando com isso. – disse ela subindo. – Cadê o Rusty?
Em: Assistindo televisão no seu quarto.
Quando Carlos e Emiliano estavam sozinhos, o Comandante resolveu entrar no assunto.
Carlos: Detetive Ruiz?... Acho que precisamos ter uma conversa. – disse ele.
Em: É, Comandante. Precisamos.
Cristina entra em seu quarto e encontra Rusty todo esticadão na cama.
Cris: Que vida boa, né rapazinho?
Rusty: Oi, tia Cris. – disse ele indo até ela e lhe dando um abraço. – Como foi o trabalho, hoje?
Cris: Como sempre, Rusty. Muito estressante, atarefado, chato. Queria ter ficado na cama hoje. – disse ela se jogando na cama, olhando para o teto.
Rusty se deita ao lado dela, e os dois encostam as cabeças.
Rusty: Ser adulto é difícil, né? – disse ele.
Cris: Você nem faz ideia, garoto. – disse suspirando.
De repente, ela se senta na cama.
Cris: Senta aqui, garotinho. Precisamos conversar.
Rusty: O que foi, tia?
Cris: Rusty, eu sei que isso é difícil pra você, e acredite, eu tentei adiar esse momento ao máximo. Mas não podemos mais esperar. Você vai ter que fazer o retrato falado do homem que você viu enterrando o corpo no parque. Desculpe querido.
Rusty: Eu sei, tia. – disse ele de cabeça baixa. – Eu sabia que esse momento iria chegar, mais cedo ou mais tarde. E logo depois, você vai me mandar de volta pro abrigo, não é?
Cris: Mas quem foi que falou isso? Rusty, eu prometi que ia cuidar de você, não foi?... Nós vamos ao departamento, você vai fazer o retrato falado e depois voltamos pra casa. Você, eu e a Rosário. Como uma família.
Rusty fica emocionado E abraça Cristina.
Rusty: Obrigado, tia Cris. … Espera tá faltando gente nessa contagem.
Cris: Quem?
Rusty: O Seu Carlos e o tio Emiliano. – disse ele inocentemente.
Cris: Você gosta deles?
Rusty: O Comandante é meio sisudo, mas é gente boa. E o tio Emiliano é muito legal, e ele também gosta de você.
Cris: O Emiliano te disse isso, Rusty?
Rusty: Não. Mas tem coisas que não precisa dizer, tia. – ele pensa e fala rápido. – Tia já que vamos ser uma família, você vai ser minha mãe e a nana vai ser minha avó? Eu posso chamar você de mãe? – Cristina por um impulso o abraça forte, ele já era seu filho de coração. Ela afirma com a cabeça.
Cristina ficou pensativa.
Um pouco depois, os cinco saíram para jantar. Escolheram um lugar bem familiar, um restaurante que tinha uma ala para crianças, onde Rusty se divertia jogando fliperama. Carlos observava sua filha conversando com Emiliano, e tinha um semblante preocupado.
Carlos: Isso está ficando perigoso, Rosário. Já imaginou se ela descobre…
Ros: Carlos foi um acidente. Ninguém teve culpa. Eu não sou da polícia e entendo que essas coisas acontecem. Deixe nossa menina ter uma nova oportunidade de ser feliz.
Carlos: Vejo que o tempo te deixou mais sábia do que eu, minha flor. – disse ele lhe dando um selinho.
Cristina, ao longe, sorria vendo aquela cena. Percebia que seu pai estava feliz, que sua Nana estava feliz, então, nesse caso, ela também poderia ficar feliz.
Em: Olha só, quem diria!- falou ele olhando a cena tocante. — Você está sorrindo vendo seu pai com a Nana.
Cris: Já te disse pra não a chamar de Nana. Só eu posso. – disse ela.
Em: Você é mesmo possessiva com tudo que é seu, né?
Cris: Não é isso. É que gosto de cuidar daqueles que eu amo. – disse ela olhando para eles e para Rusty. – Já tive perdas demais na minha vida. Não quero perder mais ninguém. – disse ela baixando os olhos.
Emiliano segura em seu queixo levemente, fazendo com que ela olhe para ele.
Em: Você não vai perder mais ninguém, eu prometo. – disse ele.
Seus olhares se encontram. Um pode ver o reflexo do outro. Cristina sente seu coração acelerar e sua boca ficar seca.
Cris: Eu vou ver o Rusty. – disse ela se afastando.
“Droga, Emiliano!... O que você está fazendo?!” pensava ele.
Já era hora de irem. Diferente de outras ocasiões, Cristina abraça seu pai ao se despedirem.
Cris: Boa noite, pai. Vai com cuidado.
Carlos: Você também, filha. – disse ele sorrindo.
Cris: Cuida dele, Nana. – disse ela.
Ros: Como sempre, minha menina.
Cris: Juízo vocês dois, e me liguem assim que chegarem em casa.
Os três chegam em casa. Rusty está esgotado, Emiliano o carregava.
Cris: Quer ajuda com ele?
Em: Não, pode deixar. Ele não pesa tanto. Vou colocá-lo na cama e já desço. – disse ele olhando a cena familiar.
Enquanto Emiliano caminhava com o garoto nos braços para o quarto, Cristina vai atender a porta.
Cris: Quem é?
Port: É o Joaquim, senhora. O porteiro.
Cris: Oi, Joaquim, boa noite. – disse ela abrindo a porta. – O que deseja?
Port: É que chegou esse pacote pra senhora, agora há pouco.
Cristina acha estranho, pois não tinha remetente. Ela agradece e vai para o escritório, ao chegar lá e abrir a caixa, ela toma um susto.
Um tempo depois, Emiliano desce e encontra Cristina na sala, andando de um lado para o outro.
Em: Cris, o que houve?
Cris: Ele quer me enlouquecer, Emiliano!
Em: Do que está falando? Que caixa é essa? — ele olha o conteúdo da caixa. — Jesus Cristo!... Esse cara é um doente! – disse ele.
O que havia na caixa eram fotos de todos os integrantes da equipe de Cristina, todos que trabalhavam com ela no departamento. Havia também uma foto de Rusty e do Comandante Hernández. Cada uma delas tinha um símbolo escrito com algo que parecia ser sangue.
Em: Eu sei que sua amiga Amy é a especialista, mas acho que isso é o alfabeto grego.
Cris: Alfabeto?... Quer dizer que ele colocou uma ordem que diz quem ele vai atrás primeiro, é isso??
Em: Pode ser. Mas você tem que ficar calma, Cristina.
Cris: Ficar calma, como quer que eu fique calma?!... Esse maníaco está por aí, ameaçando meus amigos, minha família, e eu aqui sem poder fazer nada, sem nem, ao menos, saber quem ele é!
Em: Nós vamos descobrir quem ele é, vamos pegá-lo juntos. Mas temos que nos acalmar e pensar.
Cris: Eu estou tão cansada! – disse ela desabafando, enquanto olhava pela janela. – Essa vida de policial, essa armadura que eu tenho que usar o tempo todo, essa frieza que tenho que demonstrar. Eu não aguento mais! – disse ela derramando algumas lágrimas.
Emiliano se aproxima e a abraça. Um abraço de aconchego, de proteção. Ele queria que Cristina soubesse que ela não estava sozinha.
Em: Calma, Cris. Não fica assim. Eu estou aqui, com você. Não vou deixar que nada de ruim te aconteça e nem a ninguém que você goste, eu juro. – disse ele segurando o rosto dela, fazendo com que ela olhasse para ele. – Você confia em mim?
Ela podia ver sinceridade nos olhos dele, sabia que podia confiar nele, que ele não a desapontaria.
Cris: Sabe?... – disse ela. – Faz muito tempo que eu sinto isso.
Em: O quê?
Cris: Essa sensação de ser cuidada, de ser protegida. E sentir isso outra vez é bom. – disse ela olhando fixamente para Emiliano.
Os dois vão aproximando seus lábios até que se beijam lentamente. Um beijo que ambos queriam, desejavam, necessitavam, era a palavra certa. Era incrível a sensação que o beijo de Emiliano causava em Cristina. Ela sentia seu corpo se acender, sua alma ganhar vida outra vez. Emiliano sabia que aquilo era errado, mas não podia mais negar ou esconder. Estava apaixonado. Porém, de repente, ouve-se um “clic”. Eles cessam o beijo.
Em: Eu não acredito que caí nessa! – disse Emiliano, que estava algemado no aquecedor da sala.
Cris: Me perdoe por isso, Emiliano, de verdade. Mas não quero que se machuque. Como eu disse antes, não quero perder mais ninguém. – disse ela acariciando o rosto dele e saindo. – Não faça barulho pra não acordar o Rusty.
Em: Espera!... Onde você vai?!... Vai me deixar algemado aqui?!... Cristina! Cristina!
Mas ela já havia saído. Emiliano estava furioso. Não conseguia acreditar que caira como um “patinho” naquele golpe.
Em: Mas isso é culpa sua, Emiliano!... Tudo porque não controla seus desejos e o seu amiguinho entre as pernas!... Se deixar levar pela cabeça de baixo, é nisso que dá!... Ah!... Mas ela vai me pagar!
Fale com o autor