Amor platônico
1 único
Antes de dormir, uma fita rebobinava na mente de Sanji. Costumava exibir momentos do dia que se acabava pra dar lugar ao outro, ele pensava se isso era algum tipo de culpa por ver e não reagir.
Por exemplo, um dia fora anunciado na escola a morte de uma das alunas. Boatos diziam que ela se matou com uma arma direcionada na sua cabeça, como Kurt Cobain fez. Ainda diziam que ela mirou na boca e que aquele fora o seu primeiro beijo na vida. Isso era rebobinado na sua mente como ecos batendo na parede e retornando aos ouvidos.
Tinha vezes que parecia que via seu amor em todos os lugares, costumava pegar no ombro de uma garota que jurava ser ela, mas quando a virava e via o seu rosto, se frustrava por não ser. Uma vez pegando o ônibus de volta para casa, observou suas mãos sobre a mochila no colo. Os ossos sangrados devido a uma briga que se meteu na saída, lembrava-o de que sua irmã se preocuparia quando visse e, portanto, tinha que escondê-los dela. Só não sabia como, provavelmente se trancaria no quarto como sempre fazia, mas sabia que sua irmã se preocuparia mesmo assim. Afinal, era estranho se trancar tanto no quarto, seja porque pensava onde estaria seu amor ou seja porque ganhou o hábito de se machucar depois que ela se foi. Sanji se tornou um garoto de poucas palavras e sua irmã sentia cheiro de cigarro em suas roupas que colocava pra lavar.
Visitava sempre o mesmo pub, acompanhava uma banda de garagem que nem era tão mal assim. Tinha uma pegada post-punk e o baterista era bonitinho, mesmo tendo tingido os cabelos com um verde tão feio. Ele dava uma golada na bebida em sua mão, enquanto observava o marimo no palco atrás dos demais membros. Era mais velho e estudava na universidade, isso lembrava Sanji de que não deveria estar ali. Mas já brigava e fumava, ter uma identidade falsa parecia ser o menor dos problemas.
E tal marimo era intrigante, fazia-o retornar todas as vezes que havia shows.
Às vezes se deitava na cama e não só a fita rebobinava, mas como imaginava coisas que nunca aconteceram, como os dois voltando do pub enquanto bebiam e gritavam nas ruas desertas da cidade por ser tarde demais. Até perguntava se o marimo o pararia para fazer uma oral nele num beco qualquer ou se ele fosse mais contido, talvez não bebesse a ponto de não saber mais o que estaria acontecendo, ele não parecia querer ficar fora de controle.
Era bastante sério, enquanto tocava na bateria. Suas batidas eram matemáticas e repetitivas, não havia improviso ou peso, como o gênero que a banda seguia pedia. Sanji pensava que não combinavam com os seus olhos castanhos e selvagens, ele deveria estar se contendo.
Como ele se continha naquela cidade em que via fantasmas do seu amor que se matou por todo canto, mas com momentos em que as coisas não saiam como queria e se relaxava de forma autodestrutiva. Porém, ainda estava disposto de distribuir amor e talvez o baterista de péssimo gosto para penteados poderia entendê-lo.
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