Amor ou ego
1 Vinho e chuva
Tinha acabado de passar por um término, estava vulnerável, instável, fraca e emocionalmente debilitada, me custava ver graça em alguma coisa e muito menos em alguém que não fosse meu ex. No entanto, as tentativas desse novo cara me fizeram mudar de ideia e logo mais me fizeram desejá-lo. Eu o conheci nas aulas de judô, tinha acabado de entrar, quis começar uma nova atividade para sair do estado depressivo em que tinha estado nos últimos meses. A turma era nova mas todos se conheciam, reparei que havia um cara muito bonito, era o engraçadinho que fazia comentários irritantes a todo instante, pessoalmente, me fazia revirar os olhos por dentro, nunca gostei de pessoas tentando chamar atenção pra si. Contrariando as expectativas, ele foi muito simpático comigo, e alguns momentos parecia até que tinha algum interesse em mim. Aquele papo torto de elogiar meu cheiro, meu cabelo, minha luta, e a minha beleza, frequentemente, me tirou da defensiva e fez com que não o achasse mais tão insuportável.
Seus pedidos, quase implorados para que eu comparecesse aos eventos do grupo e a sua necessidade de só escolher a mim pra treinar eram constantes e essas coisas me fizeram reparar o quanto ele era, na verdade, lindo e muito interessante, havia algo no olhar dele que começou a me atrair. Ele era alto, praticava luta há um tempo, então era muito forte e definido, tinha descendência asiática, pele branca e cabelos lisos muito negros, olhos amendoados um sorriso incrível. Ele passava a me olhar com desejo e qualquer comportamento do seu corpo referente ao meu eram convertidos em flertes, seu sorriso era realmente admirável e foi aí que eu passei a querê-lo, a qualquer custo. Deixei de ir largada às aulas, ia mais cheirosa, maquiada, escolhia melhor minhas roupas e tentava repetir o padrão de vestimenta que ele costumava elogiar: meus vestidos leves e floridos que acentuavam minhas curvas. Ele dizia que adorava o cheiro do meu cabelo e meus lindos cachos, então eu os valorizava e dizia a mim mesma que tudo isso não era por ele, era por mim, mas no fundo, sabia da verdade: queria a sua aprovação.
Comecei a repará-lo mais detalhadamente e me surgiram um milhão de dúvidas a respeito da sua orientação sexual, ele se movimentava de um jeito muito suave pra quem faz tantos esportes, e suas piadas tinha um cunho homossexual, além de apresentar militância relacionada à gênero...esses argumentos não significavam muito, mas juntos eram cruciais para sustentar minha dúvida. Olhei suas redes sociais: muitas admiradoras, alguns admiradores e uma amiga em comum que elogiava todas as fotos, mas isso tudo era irrelevante comparado a pose afeminada, agora eu estava com um nó na cabeça. Nada disso tinha qualquer significado, "puros rótulos", pensei, mas não conformada, decidi consultar um amigo gay e ele me deu razão: o cara tinha muitos traços homossexuais, mas pra quê tantos elogios? será que eram só admiração sem qualquer atração e me enganei por pura carência? essas perguntas nunca tinham respostas, quando me parecia sexualmente desinteressado, conversava comigo tão perto da minha boca, olhando tão descaradamente para os meus lábios que parecia que iria me beijar, ali mesmo, em qualquer lugar que fosse. Logo mais, eu o observava de longe me observando discretamente, quando eu o olhava, ele sorria timidamente. "Ele deve ser bissexual", pensei, é o único jeito. Não era... o único jeito era eu perguntá-lo: "quem você é?, o que você é? e o que você quer?" mas eu não tinha a menor coragem de me prestar ao papel de parecer interessada demais e, possivelmente levar um fora, eu teria que conviver com a rejeição toda vez que olhasse nos seus olhos, mas a dúvida era uma tortura e eu precisava ficar por perto, era mistura de curiosidade com vontade de me aproximar.
Eu estava na aula, faculdade de design industrial, quando eu encontrei seu número no grupo da turma, então o perguntei se sabia o local do evento do Judô e ele ignorou completamente a minha pergunta e só deu ouvidos a minha saudação, e assim, quis saber como eu estava e nisso, ficamos conversando por mais de uma hora. Quando ele foi se despedir, disse o local do evento que eu havia pedido e então pedi uma carona a ele, animado, respondeu prontamente que sim e insinuou que fosse um encontro, mas logo retirou dizendo que era apenas uma brincadeira, eu fiquei feliz e me esqueci de qualquer pergunta que deveria fazer a respeito de sua orientação sexual. No dia do evento, fui preparada para um encontro, me vesti bem e me deixei cheirosa, quando me dou conta, já sai de casa e esqueci meu celular, me dei o trabalho de ligar para minha tia trazê-lo a mim, se não lá se vai meu primeiro beijo com o Miguel, o moço bonito. Recuperei meu celular e mandei mensagem, querendo saber o horário e ponto de encontro, ele me disse que não sabia mais se iria porquê sentia muita preguiça. Fiquei muito chateada, havia pensado nesse encontro o dia todo e agora ele cogitava não aparecer por pura preguiça, decepcionada, desisti e fui para faculdade, fazer meus trabalhos. Quando menos espero ele me liga, dizendo: “vamos? Aonde eu posso te buscar? ” Fiquei meio feliz mas continuei decepcionada por ele ter me feiro esperar e mudado de ideia em cima da hora, eu planejava arrumar meu cabelo e retocar a maquiagem, que estava um desastre, mas não o fiz, combinei um horário e o esperei, na chuva.
Quando eu o vi, estava maravilhoso, seu cabelo molhado da chuva e seu corpo levemente respingado, sua voz era rouca, o carro estava muito quentinho e isso tudo era muito charme, ele sorriu, me cumprimentou com um beijo no rosto e perguntou como foi meu dia, me derreti e lá se vai qualquer desapontamento, fui muito simpática, mas vez ou outra ele me chamava de “amiga” e isso me deixava inteiramente perdida. Chegamos mais cedo que todos e ficamos na roda de amigos, alguns perceberam que estávamos juntos e fizeram alguns comentários, no sentido de ele precisar me agradar de alguma forma. O evento começou eu queria pegar algumas coisas no carro mas estava chovendo, eu falei com ele e fomos juntos, ele me fazia rir enquanto a água da chuva nos banhava, nós ríamos das nossas piadas ruins, ele me fazia cócegas, então eu tropecei numa pedra e quase cai nos seus braços, ele ria, o som era lindo, som de risada com som de chuva, e no fundo havia som de festa fina, música e vozes, éramos muito refinados. Eu peguei o que precisava, quis encostá-lo no carro e beijá-lo, sua boca parecia tão gostosa, seu cheiro era tão bom, sua voz era tão sexy, grossa, rouca. Eu não estava apaixonada, só incrivelmente encantada e cheia de desejos. Voltamos a festa e era regada à dança, música, comidas finas e vinhos. Tomei um pouco de vinho e dançamos juntos, pertinho, sorriso colado, dançamos também com outras pessoas e por um momento eu senti que éramos um casal. Eu insisti para ficar mais e ele cedeu, como um namorado impaciente faria, no fim eu fui correndo, peguei água para nós dois e sorrimos.
— Amiga, você dança muito bem – ele disse, me lembrei das minhas dúvidas e isso mexeu com meu interesse. Começamos a fazer brincadeiras bobas de dar más respostas um no outro e ficou um pouco fora de controle, na volta ele me disse que eu era chata e que não devia ter me dado carona. Fazia parte das más respostas, mas eu fiquei ofendida por ter acreditado que, em parte, teria sido verdade, mas ele deixou bem claro que era brincadeira. Depois me chamou para sair para dançar algum dia e num outro momento mencionou que mesmo eu tendo um corpo] muito magro, poderia fazer tantos esportes quanto ele. O fim da noite foi triste, por que essas informações reunidas me fizeram sentir que ele realmente poderia não ser heterossexual e se fosse, não sentiria a menor atração por mim.
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