1

Uma grande comoção tomava conta dos sentimentos do Sr. Akanishi quando ele conseguiu, enfim, alcançar a sua propriedade. Ouviu seu nome ser chamado repetidas vezes enquanto atravessava o portão, mas ignorou a todos, aquela voz ainda provocava sensações que ele não conseguia compreender muito bem. Ficar sozinho era tudo o que ele queria e precisava naquele momento.

Adentrou pela espaçosa cozinha, o que não era de seu hábito, muito embora sempre fosse muito cordial com todos os serviçais não tinha o costume de freqüentar determinados cômodos da sua própria casa. Ele passou ignorando as perguntas e os cumprimentos de seus empregados. Apenas disse que não queria ser incomodado por ninguém enquanto estivesse em seu escritório, onde se trancou até o fim do dia e de lá não saiu sequer para se alimentar, não atendeu aos chamados de sua tia, suas primas e nem ao menos os de sua mãe.

Não se importou em deixá-las preocupadas com o seu rosto corado, seus modos agitados e a apreensão evidente em seu olhar. Não se importou com nenhum tipo de decoro social por simplesmente não se lembrar da existência de nenhum deles. Desejou apenas a oportunidade de ficar sozinho.

O tempo em que ficou ali foi gasto primeiro em recuperar seu fôlego, depois a torturar a si próprio com aqueles pensamentos confusos que apenas serviam para lhe encher de agonia. Não conseguia ordenar seus pensamentos e nem acalmar o seu corpo, que andava de um lado para o outro, ora sentava-se, ora folheava alguns livros sem sequer conseguir prestar atenção em uma única linha. Sua atenção totalmente voltada para o que tinha acontecido.

Jin disse a si mesmo que devia se tranqüilizar. Um homem do seu nível social tinha que estar preparado para enfrentar todas as situações, até mesmo e, talvez, principalmente, àquelas tão incomuns na sociedade em que viviam. Parecia-lhe descabido que estivesse tão agitado com o que acontecera e tinha medo de tentar compreender a sua própria reação. Pois tanto medo só se devia a uma razão. Ele correspondia aos sentimentos que lhe fora declarado há pouco.

Ao admitir pela primeira vez tal possibilidade, ele congelou e sentiu como se o ar a sua volta deixasse de existir. Não, disse a si mesmo, seria impossível nutrir esse tipo de sentimento. Era inadmissível que possuísse tal afeto dentro de seu coração. Estava apenas confuso e isso era razoável, visto que foi declarado alvo do amor de... Outro homem.

Amor. O Sr. Akanishi, que até poucos meses atrás desconhecia o significado dessa palavra, agora se sentia completamente envolvido por tal sentimento a ponto de se sentir sufocado. Primeiro foram os sentimentos confusos em relação a sua prima. Depois, descobriu que seu melhor amigo estava se relacionando com outro homem, algo que o deixou escandalizado e nem ao menos conseguiu perceber que ele próprio começava a se deixar envolver pelos gestos cordiais daquele outro rapaz.

Sentindo-se cada vez mais sufocado, teve que desabotoar a sua gola, deixando à vista a camisa branca. Procurava por alguma lembrança que pudesse inocentá-lo do crime de ter incentivado os sentimentos daquele rapaz. No entanto, as horas se passaram e tudo que pode concluir a si mesmo foi de que agiu de modo repreensível. A única resposta que conseguiu diminuir sua parcela de culpa se devia ao fato de que estava perdido na época em que se conheceram e ele não tinha pleno domínio de suas ações.

Sim, ele esteve confuso por muito tempo, ainda estava até agora, e por isso não agiu intencionalmente. Akanishi sabia que estava bastante fragilizado na época da chegada daquele rapaz à cidade. A morte do pai, além da tristeza, pois o amava profundamente e mantinham um bom relacionamento, trouxe ao Sr. Akanishi muitas responsabilidades antecipadas para as quais ele, rapaz de festas e viagens, não estava preparado. Ele foi obrigado a largar os estudos da música, a única coisa que levava a sério até então, para assumir os negócios do pai, dos quais não entendia absolutamente nada. E, como se não bastasse, ainda teria que cuidar das mulheres da família: sua mãe, sua tia e duas primas. Não era de se surpreender, portanto, que ele estivesse se sentindo perdido e desamparado no momento em que o conheceu.

Essa situação fez do Sr. Akanishi facilmente influenciável pelas gentilezas daquele homem que, depois de se tornarem amigos mais próximos, passou a lhe ser útil sempre que possível e a confortá-lo sempre que as dúvidas e inseguranças lhe vinham à tona agora que havia se tornado o chefe de sua família. Era gratidão e, até certo ponto, carinho, mas não podia, não devia ser amor. Era impossível que fosse.

Uma lembrança lhe ocorreu agora que pensava naquele passado. Não podia amar uma pessoa que ele começou odiando. Certamente que havia sido apenas pequenos conflitos e que depois reconheceu a honestidade e a benevolência do caráter dele. O Sr. Akanishi tinha que admitir a sua coragem em tentar ser um pintor quando tal profissão não era bem vista na sociedade também era algo a se admirar. Devia reconhecer que era um homem cuja beleza despertou os suspiros de todas as donzelas da região, incluindo suas primas. Não era o homem mais simpático que já conhecera, ao contrário, era reservado e misterioso, mas era, de certa forma, agradável que fosse essa a sua personalidade. Quantos momentos em silêncio na companhia daquele homem não lhe trouxera tranqüilidade ao espírito?

Mas ele não devia estar pensando nas qualidades daquele homem. Ele o tinha insultado com aquela declaração. Sim, agora que caía em si, ele percebeu que devia estar zangado agora e procurando um modo de restaurar a sua honra e não se lamentando com o ocorrido, perdido em sentimentos que não deviam ser estimulados, e ainda enumerando suas virtudes.

Uma carta foi empurrada pra dentro do cômodo, certamente porque os empregados ainda obedeciam a sua ordem de não incomodá-lo e foi só então que o Sr. Akanishi percebeu que estavam quase na hora do jantar. A noite já havia chego do lado de fora e ele nem tinha percebido que tinha permanecido em uma sala escura. Acendeu algumas velas e uma lamparina, que deixou em sua mesa e se acomodou para a leitura da carta.

Tomou um susto e seu coração se agitou ao ler aquele nome. Yamashita Tomohisa.

Ele ficou indeciso. Sua racionalidade o ordenava que rasgasse aquela carta e que rompesse qualquer ligação com aquele homem. Ele era um perigo para os bons costumes e para sua honra, só podia ser um enviado do Diabo para lhe tentar com o pecado que era aquele amor. Contudo, existia aquela vontadezinha. Aquela que o impediu de sair correndo logo no início da conversa que tiveram mais cedo. Aquela que o deixou parado, escutando as palavras do Sr. Yamashita, e que também o deixou ansioso e com a respiração acelerada. Essa vontade, que até então ele não entendia muito bem do que se tratava e julgava apenas admiração pelo exemplo de homem que havia considerado ser o Sr. Yamashita até então, mas que, na verdade, era desejo e não admiração.

Não podia explicar nem a si mesmo, mas lembrar-se das palavras dele começou a ser agradável. Após o susto, após o dilema e a aflição, ele finalmente pode saborear melhor o que tinha acontecido. Aquelas palavras bonitas e aquela afeição sincera que o Sr. Yamashita tinha por ele encheram o seu coração de calor e, tomado por esta ansiedade, ele abriu a carta ávido por mais incentivos que o fizessem experimentar mais uma vez tal sentimento terno.

Meu caro Sr. Akanishi

Espero que através dos papéis possa pedir ao senhor que se permita informar melhor acerca do que eu quis lhe transmitir na manhã de hoje. Antes, porém, gostaria de realçar os meus desejos de que o senhor esteja bem. A palidez que se seguiu após o rubro tomar conta do seu rosto me deixou preocupado. Sei bem que disse palavras imprudentes, mas nunca quis o seu mal. Faço votos à sua saúde, ainda que sei que voltarei a perturbá-lo nas próximas linhas. Permita-me ser egoísta a este ponto.

Eu de nada sei sobre seus sentimentos, posso apenas levantar suposições, assim, não se ofenda se ler algo que possa vir a discordar.

Akanishi pensou que ele foi discreto e humilde ao dizer que se tratava de suposições quando ele próprio chegou a conclusão de que, ainda de forma inconsciente, havia incentivado tais sentimentos. Sentiu-se grato por Yamashita não acusá-lo dessa infâmia. Voltou à leitura.

Espero que não pense que minhas palavras de hoje cedo foram com a intenção de lhe provocar algum mal. Não se trata de brincadeira, piada ou troça de tipo algum. É a mais pura verdade.

Se puder pedir algum favor, gostaria que me concedesse a sua imaginação por um momento. Gostaria que esquecesse quem somos, deixasse de lado as regras sociais e apenas se concentrasse em meus sentimentos.

Quando cheguei nesta cidade, estava me recuperando de um golpe, do qual o senhor tem perfeita consciência. Meu coração ainda estava cicatrizando, estava suscetível às emoções. Emoções estas que eu sempre busco em minhas telas, minha fonte de consolo desde criança e me tornou um apreciador dos sentimentos e da beleza. Assim, me encanto mais facilmente do que às outras pessoas com aquilo que eu julgo realmente belo.

O nosso primeiro encontro não foi dos mais simpáticos. Reconheço que meu temperamento levou a uma antipatia merecida da parte do senhor. Contudo, nunca tive a intenção de que fosse assim. Desde o primeiro instante não pude negar o quanto é belo o Sr. Akanishi e de que o desejei como modelo para a minha próxima tela. Não me sentiria completo enquanto artista se não pudesse registrar em minha tela a beleza máxima entre todas que eu conheci e hei de conhecer. Sei que isso parece uma frase tola que se diz às mocinhas ainda mais tolas e apaixonadas, contudo, é a verdade e deve reconhecer minha sinceridade, pois falo sobre meu trabalho. O que me fez me aproximar do senhor foi essa inquietação enquanto pintor.

O tempo tratou de dissolver as nossas desavenças e tivemos a chance de conviver um pouco mais. Pude compreender que não foi apenas o seu rosto bonito que me atraiu, pude, enfim, tomar conhecimento das suas aflições e, quando caí em mim, meu principal desejo era poder lhe proteger.

Porque é essa atração que seu rosto falsamente frágil emana sobre as pessoas. Sem conhecer a sua força, desejamos protegê-lo de todos os males. Este é um ponto. Mas não é o principal... Aquele que derrubou de vez as minhas próprias barreiras – não pense o senhor que sou imprudente a ponto de não pensar nas conseqüências de meus atos, se não gosto das nossas regras sociais, não quer dizer que vou ignorá-las, ainda mais se elas são tão importantes para o senhor. Isso talvez seja o fato maior que me faça respeitá-las. – A principal razão que me fez dono dos meus sentimentos foi a sua alegria.

Permita-me levantar esta questão. O senhor preza as regras sociais, mas, contudo, é culpado por não seguir a todas. Um homem da sua posição social, na situação em que se encontra sua família após a morte de seu pai, é de se esperar que assuma o papel de chefe e zele por todos. Ora, se assim for, o senhor deveria pensar no próprio casamento, além dos de suas primas. E, como bem sabemos, não é bem assim que o senhor procede. Muito pelo contrário. Atrapalhou um casamento bom e certo para sua prima, a Srta. Kitagawa. Esconda esse seu sorriso, pois isto é uma bronca. – aqui o Sr. Akanishi se surpreendeu, pois, estava, de fato sorrindo quando imaginou ambos sentado na sala de estar do Sr. Yamashita onde conversaram muitas vezes sobre este assunto – Está certo, estou mentindo. Não é uma bronca. Apenas quero ressaltar que seus modos, de certa forma livres, misturam certa infantilidade que me é totalmente agradável e necessária. Necessária porque ela me afasta do mundo das impressões, que é a minha arte, e me faz querer voltar para este mundo que dizem ser o real.

Após nos conhecermos, quando me encontro absorto com minhas tintas, é pela companhia do senhor que interrompo minha vontade de passar o resto do meu dia isolado retratando o mundo do qual eu devia estar vivendo.

Não sou uma pessoa que sorri ou gargalha com freqüência, mas o faço com muita facilidade quando estamos conversando. É imenso o meu apreço enquanto ouço-o falar sobre música e o modo como fica encantado quando tem a oportunidade de tocar algum instrumento. Existe algum que o senhor não saiba tocar?

O Sr. Akanishi riu mais uma vez ao se recordar de certa tarde em que ele tentou ensinar ao recente amigo a tocar piano depois de algumas taças de vinho. O Sr. Yamashita não era tão bom nessa arte quanto com a pintura e seus dedos pareciam perder a leveza de quando segura o pincel e desliza sobre a tela, embora, para Akanishi, não devesse haver diferença quanto a isso nas duas artes. Ele errava muitas vezes e parecia encabulado. Seu rosto tímido era encantador. Era divertido zombar um pouco dele e, levado pela embriaguez, talvez tenha exagerado. Mas o Sr. Yamashita não se zangou e agora Akanishi compreendia a razão. Porque ele estava satisfeito com o seu riso. A temperatura em seu rosto aumentou quando chegou a essa conclusão. E era irritante que coisas pequenas como essa pudessem alterar suas reações de tal maneira idêntica às mocinhas casadoiras. Ao mesmo tempo, sentia-se lisonjeado, embora não quisesse admitir, de que era capaz de provocar a felicidade de alguém com gestos tão simples.

O senhor conhece a minha solidão. Além do senhor, tenho próximo de mim apenas, embora o estime imensamente, o amigo Sr. Kamenashi. Mas este ingrato agora quer ir morar com o seu amigo Sr. Tanaka. O senhor pode, então, perceber que este sentimento tão obscuro e imoral quanto prega a sociedade não é tão incomum… Talvez esteja apenas sufocado pela nossa arrogância em presumir o que é certo ou errado ou talvez pela cega confiança que depositamos nas traduções da Bíblia. Em todo caso, não é o momento de levantar uma discussão sobre os valores de nossa sociedade.

Como disse, o Sr. Akanishi está a par de minha solidão. Compartilhou de minhas fraquezas e descobriu meus temores. Passei a confiar em você mais até do que meus próprios pais. E o senhor trouxe calor e luz para a minha vida e essas palavras não são exageros. Como poderia não amá-lo, portanto? Se hoje já não tenho mais aquele gelo em meu coração, só tenho a agradecer ao Sr. Akanishi.

Talvez eu tenha sido ambicioso em me declarar. Deveria sentir-me satisfeito pelos sentimentos que pude experimentar. Mas, por favor, me ofereça àquela piedade destina aos apaixonados. Não estamos completamente donos de nossas razões, apenas o suficiente para distinguirmos o alvo de nosso afeto e somos tomados pela impulsividade.

Mais uma vez peço ao senhor que não pense que tive motivos para querer algum mal ao senhor quando decidi não sufocar mais meus sentimentos. E espero que esta conversa franca não me tenha feito cair no seu conceito...

Não sei em que termos deveria me despedir em uma carta como essa... Por tanto, apenas reforço meus desejos de que fique bem.

Yamashita Tomohisa.

Não podia continuar negando. Diante daquela carta, ele não pode mais se recusar a encarar os próprios sentimentos. Foi capaz de dissimulá-los muito bem face a face com Yamashita porque o medo lhe tomou conta e foi capaz de agir conforme a sociedade havia lhe ensinado. Homens amam mulheres e não outros homens. Agora, contudo, estava a sós com seus sentimentos e, depois de discuti-lo exaustivamente consigo mesmo, estava cansado demais para continuar resistindo. Havia feito isso durante toda a tarde e nada mais conseguiu além de se confundir ainda mais.

Aquela carta, porém, clareou os sentimentos de Yamashita, os seus próprios, e, de lucro, os sentimentos de Kamenashi e Koki. Era certo que tinha percebido o quão próximo eles haviam se tornado, mas nunca imaginou que a esse nível, imaginava apenas que Koki finalmente estava aprendendo a confiar nas pessoas que não fossem da sua família. Era natural que ele fosse desconfiado, tendo sido abandonado à própria sorte e de forma tão cruel pelos pais e se não fosse o falecido Sr. Akanishi, que de coração tão generoso o trouxe para sua casa e o criou como a um filho, sabe-se lá qual teria sido o destino dele. E, agora, ele estava se jogando novamente a um futuro incerto, mas, porém, dessa vez ele já estava educado e poderia defender-se por conta própria.

Akanishi não pode deixar de pensar nas mulheres de sua família. Se elas descobrissem a razão pela qual Koki partiria daquela casa, certamente que ficariam escandalizadas e ressentidas. Elas considerariam o rapaz um ingrato por jogar fora toda a boa chance que conseguiu ao ser adotado pela família.

Quantas dores de cabeça! Que confusão!

Se ao menos pudesse pedir o conselho do Sr. Kusanagi. Ele era uma pessoa inteligente, sempre o auxiliava em seus negócios, mas certamente teria o mesmo pensamento das mulheres da casa. Aliás, Akanishi duvidava que pudesse encontrar alguém que fosse favorável àquela causa.

Levou os dedos à testa, sentindo-se terrivelmente cansado. Decidiu comer algo e dormir em seguida. No dia seguinte poderia pensar com mais clareza a respeito de Koki com o Sr. Kamenashi e, claro, sobre o Sr. Yamashita também.

2

Nos dias que se seguiram, o Sr. Akanishi continuava apático e amuado. Não conversava nem ao menos com seu confidente Tanaka Koki, a quem observava o comportamento com mais atenção sempre que possível, e apenas dava atenção ao Sr. Kusanagi, pois era necessário continuar com os negócios da família e somente por isso permitia a sua presença em sua biblioteca. Não respondeu à carta de Yamashita. Não sabia como responder tais declarações e, mesmo que soubesse o modo, não sabia o que responder, as indecisões continuavam atormentando a sua mente e espírito.

Naquela manhã, a fim de evitar tomar o desjejum com seus parentes, disse que pretendia cavalgar, o que não seria de todo desagradável, o dia estava convidativo para uma volta no campo. Por isso, ele antecipou o seu café da manhã e depois pretendia seguir para o estábulo quando foi interceptado no caminho por Koki e não teve mais como adiar aquela conversa. Seguiram para o escritório.

Sem cerimônias, não era necessária entre eles que se conheciam desde meninos, o Sr. Tanaka entrou rápido no assunto.

– Recebi uma carta do Sr. Yamashita. – esclareceu o mais velho após a indagação feita por Koki.

– É esse o motivo de sua preocupação que o manteve distante de todos?

– Sim e não... É realmente um assunto confuso. – disse de modo vago – Em todo caso, em um trecho da carta diz respeito a você Koki.

O Sr. Akanishi esperou pela reação do irmão que ficou surpreso em primeiro e, depois, pareceu admitir a situação e mostrou uma expressão convicta, o que foi um golpe de misericórdia no coração já abalado do mais velho.

– Sobre o Sr. Kamenashi... – Akanishi parou de falar, incerto quais as palavras apropriadas àquela situação: – Você e o Sr. Kamenashi. Eu... Quero dizer... Vocês vão... Os dois...

– Pensamos em nos mudar para algum lugar ao Norte. – Tanaka teve dó do modo como dizer aquelas palavras era difícil para o irmão, então interrompeu a sua pergunta. – Manteremos a distância apropriada para não mancharmos o nome da família Akanishi. Não se preocupe, já está tudo acertado quanto a isso.

– Não me preocupar?! Você só pode estar caçoando de mim. Koki, você tem noção do que está dizendo?

O Sr. Tanaka permaneceu em silêncio. Não podia esperar outra reação dele, conhecia-o bem demais para isso, mas não pretendia discutir com Akanishi. Se o mais velho preferisse cortar relações, embora isso lhe fizesse sofrer demais, aceitaria. Estava consciente de que teria que abrir mão de muitas coisas para viver seu amor com Kamenashi. E estava disposto a isso. Por isso, ele deixou que Jin falasse tudo o que desejava sem que isso diminuísse a sua convicção. Ouviu-o recriminar sua atitude contra os desejos de Deus, alertá-lo dos sofrimentos, que eles seriam discriminados e excluídos do convívio social de muitas famílias, certamente existiriam impactos em suas economias, o trabalho e prestígio do Sr. Kamenashi seriam afetados.

A tudo Koki o escutou com paciência e sem se abalar, pois, ele próprio havia refletido diversas vezes sobre aquelas mesmas questões e a resposta para todas elas ele encontrou no sorriso do Sr. Kamenashi, na sua alegria, bondade e inteligência. E, principalmente, na felicidade em saber que era recíproco. Quando ouviu a confissão dele, seria impossível descrever a felicidade que sentiu. Um sentimento poderoso que ele tinha a certeza de que seria o suficiente para passar por cimas das convenções sociais e de qualquer dificuldade financeira que poderiam vir a enfrentar, situação esta certamente duvidosa de ocorrer, visto às posses do Sr. Kamenashi, que não corria o risco de ser deserdado por ser o único membro vivo daquela família que poderia exigir a herança. Seus pais foram filhos únicos e, devido à saúde frágil da mãe, só puderam ter um filho também. Assim, com a morte prematura deles, o jovem foi obrigado a se sustentar sozinho. Tivera uma boa educação e era inteligente o suficiente para conseguir multiplicar sua fortuna em pouco tempo.

Se houvesse realmente um argumento que colocasse de fato a felicidade de Kamenashi em risco, certamente que Tanaka Koki teria desistido daquela relação. Contudo, não enxergava essa desgraça em nenhuma das argumentações de Jin. E sobre a religião, disse apenas:

– Não tenho certeza se não é da vontade de Deus. Quem há de afirmar com toda a certeza do mundo de que seja? Se for o caso, certamente pagaremos por isso quando a hora chegar. E se não for? Vale a pena perder a pessoa que ama por algo tão incerto?

– Koki, Koki. Você está delirando. Suas palavras são ofensivas... Este amor te levou a descrer na existência do Senhor?

– Meu querido Jin, você vai me desculpar, mas não está escutando o que eu digo. Em momento algum duvido da existência Dele. Contudo, suas vontades nem sempre são claras e homem algum há de poder afirmar exatamente o que elas significam. Neste caso, o que quero dizer é que não estou certo de que meu amor seja proibido apenas porque se convencionou que homens e mulheres devem se casar.

– Essas são as palavras de Deus. Crescer e nos multiplicar. Homens não se multiplicam sem mulheres.

– Essas são as palavras de Deus escritas por homens. É isso o que eu estou questionando. Sim, de fato, para nos multiplicarmos são necessárias as mulheres. Contudo, quem pode afirmar que nossa missão na Terra é exclusivamente essa? E se não descobrimos ainda todos os desejos de Deus para nós?

– Está delirando... – ele sacudiu a cabeça. – Só pode estar delirando para se jogar de cabeça no sofrimento. Não sabe como me dói vê-lo tomar tal atitude.

– Sim muito por isso. Minha intenção nunca teve o seu sofrimento como alvo. Espero sinceramente que possa nos perdoar, Jin. De fato, o seu apoio e aprovação me são importantes e eu ficaria muito feliz em obtê-los neste caso, mas, se não os obtiver, não me deterei por eles. Compreendo perfeitamente se quiser de volta a herança que seu bondoso pai me dedicou. Ainda me esforçarei para pagar tudo o que foi gasto com a minha educação. É o mínimo que poderei fazer.

– Ora, não diga tolices. – ele, então, se zangou – Se estamos discutindo justamente porque estou preocupado com seu futuro e felicidade, como pode lhe passar pela cabeça tal ideia?

– Desculpe... – Koki abaixou a cabeça – Não quis insinuar que você pudesse agir desse modo comigo, mas me pareceu justo que fosse assim se de alguma forma estiverem se sentindo envergonhados com minha decisão. Não quero em hipótese alguma prejudicar os Akanishi.

O tom de voz sincero de Tanaka era algo que sempre derretia o coração de Akanishi. Ele suspirou resignado.

– Você... Realmente... Ama esse sujeito?

– Sim. Como nunca pensei que fosse capaz de amar alguém.

– E você tem certeza de que ele corresponde?

– Absolutamente.

– Como você descobriu que se trata de amor?

– Não é fácil, realmente. No começo, admito que pensei que fosse apenas uma grande amizade. O Sr. Kamenashi é, de fato, alguém que se pode se tornar amigo muito facilmente de qualquer pessoa. Da parte dele, ele realmente nunca suspeitei de que fosse algo além disso, pois e uma pessoa gentil com todos que conhece. Só que para mim... Para mim de repente eu me vi fazendo coisas cujo objetivo era o Sr. Kamenashi. Coisas simples como andar por tais ruas e avenidas que sabia ter maior chance de encontrá-lo para termos uma boa conversa ou ainda comprar tal livrou ou objeto que soubesse que ele estava procurando comprar... Ou a consciência de que seu riso me faz sorrir, sua alegria incentiva a minha... Mas só foi possível me dar conta quando os desejos começaram a surgir, assim como o ciúme. Eu amo o Sr. Kamenashi, Jin.

Havia tanta certeza naquelas palavras e naqueles olhos castanhos que o Sr. Akanishi foi obrigado a se render. Ainda acreditava que seu irmão estava escolhendo um caminho de longo sofrimento e ficava triste por isso, mas, ao mesmo tempo, ele admirava a sua coragem. Coragem essa que lhe faltava.

Disse, por fim, que se essa era mesma a vontade dele e que não estava indeciso sobre a sua escolha, então ele só tinha a lhe desejar toda a felicidade e que, caso necessitasse, estaria sempre disposto a lhe ajudar.

Aquela resposta era o máximo que Tanaka Koki poderia desejar e, por obtê-la, pensou que estava sonhando por um momento. Não conteve a sua demonstração de alegria e foi até seu irmão para abraçá-lo e, no auge de sua emoção, acabou por deixar escapar:

– Espero, meu irmão, que um dia você também possa se entregar aos seus sentimentos e ser feliz da mesma forma como eu estou me sentindo agora.

O Sr. Akanishi ficou tenso, mas Koki parecia não estar se referindo ao Sr. Yamashita e seu desejo era sincero, portanto, o mais velho apenas pode sorrir e nada comentou. Pouco depois deixou Koki alegando que ia cavalgar e foi para o quarto se trocar.

3

Ele sempre amou os cavalos e cavalgar era um de seus passatempos preferidos desde criança. Aprendeu a montar aos dez anos e aos onze já acompanhava seu pai nos passeios pela propriedade. Aos catorze já tinha a liberdade para sair sozinho e por onde desejasse cavalgar, sua habilidade provada na montaria justificava a despreocupação de seus pais.

Dispensou o criado e ajeitou ele mesmo o seu fiel companheiro Yamato. Tratava-se de um belo Mustangue negro, domado pelo próprio Sr. Akanishi há dois anos, quando regressou para casa por conta do estado de saúde de seu pai. Domar aquele cavalo foi sua terapia para aquele período difícil e mesmo para superar a morte que se seguiu.

Colocou a manta sobre o cavalo e ajeitou a sela, colocou o estribo e o cabresto e finalmente pode montar e partir. Devagar, até que saíssem do estábulo, para depois que atravessassem o portão e estivessem livres, então eles pudessem correr ao máximo pelos campos. Precisava sentir o vento em seu rosto, precisava desse alento, desse momento em que conseguia esvaziar sua cabeça e sentir apenas o vento. Ele sabia que Yamato também estava sentindo falta da sensação de liberdade, então seguiu pelo caminho mais livre de obstáculos.

Não poderia, obviamente, correr para sempre. Diminuiu a velocidade quando estavam próximos do rio em que se encontrou com o Sr. Yamashita pela primeira vez. Aquele lugar que era o seu refúgio e tinha sido invadido pelo novo e petulante vizinho. E foi justamente ele que saiu por de trás de uma árvore, que o tinha escondido de sua visão, e se dirigia em sua direção.

O Sr. Akanishi entrou em pânico. Ainda não se sentia preparado para um encontro, ele nem ao menos tinha coragem de encarar um papel para responder-lhe a carta quanto mais encontrá-lo pessoalmente. Desejou dar meia volta e fugir dali, mas já não era possível. O Sr. Yamashita tinha escutado o cavalo e era óbvio que ele tinha lhe reconhecido, pois estava caminhando em sua direção. Pensou que se o ignorasse seria uma grande descortesia e, se fugisse, uma ainda maior covardia.

Não tinha alternativa. Então esperou. Podia ter ido até ele, mas lhe dava algum conforto esperar ali parado evitando o máximo possível para que eles conversassem. Assim poderia controlar o batimento do seu coração e pensar nas palavras que deveriam ser ditas, de modo que na hora certa elas não faltassem e ele gaguejasse e isso seria extremamente constrangedor.

Contudo, não estavam realmente a uma grande distância e, então, ele o alcançou. O primeiro olhar do Sr. Akanishi recaiu para o peito à mostra do Sr. Yamashita. Enquanto estava pintando, ele sempre desabotoava a sua gola sem perceber, de modo a se sentir mais confortável enquanto desenhava. O Sr. Yamashita era natural do Sul e, por isso, tinha uma pele mais escura que do Sr. Akanishi. Uma cor bronzeada que lhe caía muito bem e que atiçava algumas vontades no mais velho. Ele devia estar pintando a algum tempo considerável, já que seus cabelos estavam desalinhados e seu rosto estava manchado de verde e azul. Ainda assim, esse ar de desleixo era encantador para Akanishi porque revelava o quanto Yamashita se entregava a sua obra.

Aos olhos do Sr. Yamashita, Akanishi estava igualmente desleixado e igualmente encantador. O vento havia bagunçado seus cabelos cheios e cumpridos, deixando que eles caíssem de forma irregular sobre o rosto corado e suado pela corrida. Era possível perceber que ele respirava com alguma dificuldade, certamente por causa do exercício, Yamashita concluiu, não se considerando digno de tal impacto no outro rapaz.

Cumprimentaram-se com cordialidade.

– Um belo dia para cavalgar, espero que tenha aproveitado bem o seu passeio, muito embora esteja parecendo à caminho de salvar uma donzela em perigo.

– Não vou admitir crítica de uma pessoa que usa o próprio rosto como tela de seus desenhos. – ele devolveu e não pode deixar de rir quando o outro passou a manga da camisa para esfregar o rosto – E agora é a sua roupa que se tornou a sua tela.

– Vejo pelo bom humor que não esteve doente esses dias.

– De fato, a minha saúde esteve bem. Agradeço a preocupação.

– Então devo supor que tenha sido trabalho que o impediu de me proporcionar uma resposta.

O Sr. Akanishi foi surpreendido pelo modo bruto e direto que o outro usou parar entrar no assunto. Desviou o olhar para o outro lado.

– O senhor me acusa de algo injusto. Obriga-me a uma resposta de uma carta que foi enviada pelas suas vontades, relatando sobre seus sentimentos, e me força a falar sobre os meus sem considerar a minha disposição sobre... Essa questão.

– De fato, sou um monstro.

– E ainda diverte-se às minhas custas?

– Acontece, Sr. Akanishi, que o senhor não me dá opção. Se não forço que confesse seus sentimentos, jamais esclareceremos esta situação e o senhor continuará fugindo de mim para o resto da vida.

– Não sabia que uma de suas qualidades seria a clarividência.

– Bom saber que meus sentimentos não o fizeram perder a sua ironia que me é tão atraente.

O Sr. Yamashita se deliciou com a cor que viu surgir no rosto dele. O Sr. Akanishi novamente desviou seu olhar e, em seus pensamentos, xingou a si próprio por ser tão transparente. Então, Yamashita deixou de sorrir e se mostrou sério.

– Jin... Vamos conversar direito. É tudo que lhe peço.

O Sr. Akanishi condenou-se novamente por ser fraco e deixar seus olhos caírem no rosto de Yamashita. Ele era realmente débil diante daquele rapaz. Era fácil se deixar levar pela sua voz, pela sua tranqüilidade, pelo seu modo sóbrio. Foi convencido, então, de que realmente precisavam conversar sobre o assunto, muito embora não soubesse o que dizer de sua parte. Mas deixou que Yamashita guiasse Yamato até uma árvore, onde o prendeu, esperando em seguida que Akanishi desmontasse.

Quando ele o fez, surpreendeu-se com a proximidade de Yamashita. A voz rouca do rapaz praticamente murmurou colada em seus ouvidos e Akanishi não pode não estremecer:

– Vamos caminhar pela beira do rio.

Ele fez que sim, incerto de que poderia deixar sua voz sair sem demonstrar algo de desejo. Caminharam juntos e, obviamente, Yamashita o primeiro a dizer alguma coisa.

– Sem resposta à minha carta, confesso que passei alguns dias com aflição. – E riu com alguma timidez. – E quantos dias mais eu teria que sofrer se não houvesse esse encontro inesperado?

Agora que estavam lado a lado, o Sr. Yamashita tinha um poder ainda maior sobre o Sr. Akanishi, ainda mais quando se tornava o alvo direto do olhar intenso do rapaz. Por isso, evitou virar o rosto em sua direção quando respondeu:

– Ainda me pressiona por uma resposta rápida? Não me divirto com o seu sofrimento, se é o que pensas.

– Não, eu não penso que se divirta com isso, mas, em algum momento percebeu que eu poderia sofrer pelo seu silêncio?

A resposta era que não. O Sr. Akanishi de fato não considerou como o outro rapaz estaria se sentindo após declarar seus sentimentos, ocupado que esteve em condenar tais emoções, tanto da parte dele quanto da sua, e, ao mesmo tempo, tentar entender o que acontecia dentro de si. Ainda há de se levar em conta a sua preocupação com Koki. Não, de fato não houve espaço para considerar que seu silêncio apenas poderia afligir o pintor.

– Este era um dos riscos de que corria a sua... Ah... Declaração. – ele levou o indicador até a ponta de seu nariz, ato que sempre fazia automaticamente quando estava sem jeito.

– Sim, tem razão.

Caíram no silêncio e andaram algum tempo assim. O Sr. Akanishi, tenso, sabia que era a sua vez de dizer alguma coisa, mas não conseguia raciocinar com clareza, não foi capaz de fazê-lo a sós, agora que estavam juntos seria impossível. Assim, sua atenção era desviada pelo rio, pelas árvores, pelos pássaros... E nenhuma palavra se formava em sua cabeça. Foi novamente o outro que teve que reiniciar o diálogo.

– Então... O que sentiu quando me confessei e, depois, quando leu a minha carta? Acho que eu posso fazer as perguntas, percebemos que o senhor não dirá nada por conta própria.

– A minha vontade é a de chutar o traseiro desse meu vizinho petulante. – confessou. – Me acusa de não pensar em como você se sentiria com o meu silêncio e agora sequer cogita como estou me sentindo pressionado dessa forma.

– Ora, vamos. Pare de arranjar desculpas para qualquer coisa que eu diga.

O Sr. Akanishi parou de andar, derrotado.

– O senhor quer de fato escutar o que estou sentindo com tudo isso?

– É o que eu tenho lhe pedido desde o começo.

– Pois bem... A minha vontade é de nunca mais voltar a ver o senhor.

O assombro nos olhos de Yamashita foi verdadeiro e causou uma dor profunda em Akanishi, que, sem coragem de continuar encarando-o, voltou-se para o rio.

– Sempre que penso na possibilidade de nos encontrarmos, minha boca seca, minhas mãos se agitam e eu já não consigo sequer pensar com clareza. Por essa razão, seria melhor que nunca mais nos vejamos novamente.

– Isso quer dizer que o senhor.

– Isso não quer dizer nada. – ele reagiu – Isso só quer dizer que eu não sei nada sobre meus sentimentos. Que se eu fiquei dias em silêncio é porque não consegui refletir sobre tudo o que tem acontecido.

– Jin. – ele deu um passo na direção do outro, que pareceu notar a sua aproximação e se afastou.

– Sr. Yamashita.

– Jin. – ele insistiu na intimidade – Se está confuso, devemos tentar descobrir o que se passa em seu coração. Diga-me honestamente o que mais sente quando estamos juntos? Por acaso seu coração se agita tanto que tem a impressão de que todos podem escutá-lo?

Não respondeu, porque se sentia exatamente do modo descrito. Até antes da confissão, julgava apenas uma admiração excessiva pela independência e segurança que o Sr. Yamashita sempre demonstrou possuir.

–... E que o meu calor lhe despertar a vontade do contato físico? – e ele se aproximou, apenas para se deliciar ao notar que o outro se afastava novamente, mas, com alguma hesitação.

– Esse tipo de coisa não deveria ser descrita de forma tão espontânea... – ele ruborizou e continuou recuando, de costas, sem ver para onde se dirigia.

– Você já se sentiu estonteado com a minha aproximação? Pois eu sinto a tudo o que lhe digo.

– O senhor está sendo muito indiscreto!

O Sr. Akanishi o olhou com zanga, como se isso pudesse fazê-lo parar de dizer tantas tolices, que somente eram tolices a ele por serem exatamente o que sentia, mas queria, precisava continuar a negar tais sentimentos. A conversa estava tomando um rumo perigoso e ele se desesperava porque não conseguia mudar o rumo daquelas palavras.

Além disso, se tornou ainda mais difícil pensar com o Sr. Yamashita cercando-o daquela forma. Quando ele se descuidava, aquele rosto moreno, normalmente impassível, estava diante do seu, fitando-o com curiosidade e intenções. Intenções estas que deixavam Akanishi ainda mais apreensivo.

– Você já... Quis me beijar?

Os olhos do Sr. Akanishi se arregalaram e ele recuou mais alguns passos e Yamashita tornou a avançar. Balbuciou palavras incompreensivas, que nem ele próprio saberia explicar o que queria dizer com elas. Estavam agora tão próximos que era possível sentir a respiração do mais novo e, de repente, sentiu a sua mão em seu braço.

Bruxo. Estava diante de um feiticeiro, era a única explicação que ele conseguiu pensar naquele momento. Ele dissera todas aquelas palavras que nada mais eram do que um feitiço para fazê-lo sentir, naquele momento, todos os sintomas descritos. Seu coração estava pulando, sua boca estava seca, não sabia onde colocar as mãos. Notava vagamente que seus pés continuavam a fugir sem saber para onde e...

Um desequilíbrio. O Sr. Akanishi tentou se segurar no braço do Sr. Yamashita, mas era mais alto e mais pesado e, ao cair no rio, acabou apenas por levar o outro rapaz junto. Aquela parte era rasa e tudo que fez foi apenas molhar a ambos sem grande risco à vida, talvez, apenas com alguns arranhões a mais, que foram apenas ignorados pelos dois devido à posição que agora se encontravam.

O Sr. Akanishi estava sentado no rio, as pernas abertas e as mãos apoiando-se em pedras. Entre suas pernas, o Sr. Yamashita estava ajoelhado, o corpo inclinado sobre o de Akanishi e suas mãos, também tentando manter o equilíbrio, próximas as de Akanishi debaixo da água.

– Olha o que senhor fez! – Akanishi resmungou, abrindo os olhos que tinham se fechado automaticamente durante a queda e só então percebeu a verdadeira situação: – Agora... Nós...

Ele estava ainda mais atraente aos seus olhos. A camisa branca estava transparente e marcavam os músculos de seu corpo. As gotas de água escorriam lentamente por seu rosto, uma delas imprudentemente deslizando pelos lábios grossos e que atraiu o olhar do mais velho.

– Nós... Agora...

A visão do Sr. Yamashita era ainda mais sedutora. Akanishi estava mais encharcado por ter sido encoberto na água por inteiro. Seu casaco, embora grudasse ao corpo dele, manteve-o discreto por ser de cor escura, mas, contudo os cabelos escorriam para trás, mostrando seu rosto por inteiro. Ele ainda estava em uma mistura de zanga, timidez e desejo e, por este último, o Sr. Akanishi olhava fixamente para os seus lábios. Era a confirmação de que ele precisava para ter certeza de que seus sentimentos eram correspondidos.

– Estamos... Ensopados... E... Sr. Yamashita... P-are. – a voz foi enfraquecendo e sumiu completamente quando os dedos de Yamashita tocaram seu rosto.

Ele não atendeu ao seu pedido e o Sr. Akanishi teve os lábios tomados. A sua primeira reação foi a de surpresa, embora estivesse esperando pelo ato, seus olhos se arregalaram com a ousadia. Contudo, o movimento suave, o calor e maciez da outra boca trataram de lhe embaralhar a mente e ele não foi capaz de resistir. Sua moral, seus medos e preocupações desapareceram diante o estímulo ao desejo que recebia. Não se lembrou da família, nem da Igreja. Sua mente estava dominada pela névoa e seu corpo paralisou por alguns instantes e depois ele, finalmente, correspondeu ao beijo.

Já não havia mais volta. O beijo estava acontecendo e lhe pareceu desperdício manter os pudores em tal situação. A sua mão subiu involuntariamente até a nuca do Sr. Yamashita e segurou-se ali, com força, para impedir qualquer tentativa de interrupção do beijo antes que estivesse satisfeito.

Aquilo era uma loucura, mas uma loucura deliciosa! E só terminou quando ambos se afastaram quando se lembraram de que deviam respirar. Ao mesmo tempo em que recuperava o ar, a razão também retornava à sua mente e ele empurrou o mais novo para o lado.

– Isso... Isso nunca aconteceu. – foram as suas primeiras palavras. – Isso não podia ter acontecido.

– Jin! Espere, Jin!!

Ele se levantou mais rápido do que Yamashita e correu em direção a Yamato. O pintor tentou ir atrás dele, mas, quando o alcançou, ele já estava em cima do seu cavalo.

– JIN!!

O Sr. Akanishi não se voltou em sua direção e saiu à galope. Yamashita permaneceu ali, parado, também confuso com o que tinha acontecido, mas de uma forma diferente a de Akanishi. Confuso por ter realizado algo que ele imaginou que jamais acontecesse. Confuso por não saber como agir para incentivar os sentimentos do outro rapaz, mas contente porque agora sabia que eles existiam. Contudo, havia também a preocupação de que o Sr. Akanishi se esconderia para sempre dentro das regras sociais depois que o assustou com este gesto sincero e insensato.

Ele o observou partir, a sua figura esbelta desaparecendo no horizonte, sabendo que Akanishi estava regressando para suas dúvidas, para a certeza de que tal amor não deveria existir. Para o seio do Preconceito...

... E também do Orgulho.

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