Amor no Deserto
3 Lembranças
Notas iniciais
Kemal! Por um instante ela perdeu-se naquele olhar intenso. Podia sentir seu calor e um perfume amadeirado que vinha dele. Arrepiou-se e o empurrou. Desculpou-se e saiu correndo antes que ele pudesse responder. Estivera em seus braços mais uma vez. Gostava da sensação de segurança que sentiu nos dois momentos em que estivera nos braços dele.
Ouviu passos atrás dela, mas não voltou-se para ver se era ele ou outra pessoa. Queria fugir. Mas como fugir de um coração que batia como louco!? Uma mão a puxou e fez entrar na saleta a sua esquerda. Era a sala onde em geral as mulheres se reuniam para costurar, bordar e conversar quando não estavam fazendo os afazeres domésticos. Era um dos seus lugares prediletos, pois tinha muitas lembranças de sua mãe, ali naquele lugar.
Sua mãe falecera quando ela tinha uns nove anos. Estava grávida novamente e as complicações dessa nova gravidez a mataram. O médico havia avisado que não deveria engravidar, mas ela queria dar o filho homem, tão desejado pelo marido. Para o marido, um filho homem era uma questão de honra. Era ter sua masculinidade valorizada. Sua mãe abdicou dela e da vida para satisfazer o marido e a família dele.
Yasmin sentia-se ressentida nas poucas vezes que havia alguma referência feita a sua mãe. Se referiam a ela como se fosse uma mulher inferior. A mencionavam com desdém. A nova esposa dera ao pai, um filho varão. E o pai já possuía um filho mais velho do que Yasmin. Fruto de uma relação com uma das empregadas da família. A pobre havia sido mandada para o interior sem o filho, que ficara e fora criado pela avó. Atualmente estudava na Inglaterra. Ele fora sempre um apoio para ela. A protegia dos primos e da maldade dos adultos depois que sua mãe morrera. Ficara com ela e a consolara. Nas noites em que não podia dormir e chorava de saudade, ele vinha até seu quarto e a abraçava. Contava histórias e lhe fazia cafuné até que dormisse. Sentia muito a sua falta.
A mão que lhe puxara era de Elif, sua prima maior que vivia na mesma casa. Após fechar a porta lhe passou um raspa, pois havia presenciado o encontrão com Kemal. E no final lhe dissera algo que ficou em sua mente nos dias que se seguiram. Eles haviam ficado tão próximos que a prima achou que iriam se beijar. Daquele dia em diante passou a sonhar como seria um beijo de Kemal.
Sua cabeça estava perdida nas memórias e não percebera que as moças que cuidavam de suas unhas haviam terminado seu trabalho. O cabelo estava quase pronto, também. Sua prima começou a espirrar seu perfume predileto a base de jasmim. As moças falavam quase todas ao mesmo tempo.. Olhava-se no espelho, mas não havia alegria. Seu coração estava pesado e podia jurar que doía. Desejava estar em outro lugar. Desejava estar com Kemal.
No salão onde a recepção acontecia, um Kemal inquieto e ansioso olhava para todos os lados. O noivo se aproximou para cumprimenta-los. Comentou o seu comportamento. Faisal lhe disse que como o amigo era engenheiro e arquiteto estava sempre atento aos detalhes para aprender e tirar novas ideias. Inspirar-se. Parece que a explicação satisfez ao anfitrião que logo seguiu adiante para cumprimentar outros convidados.
O tempo foi passando e Kemal se refugiou nas lembranças para buscar a quietude de que necessitava. Olhando o gramado que se estendia longe com belos canteiros de flores, lembrou-se do dia em que encontrara-se com Yasmin na casa de uns amigos de Faisal. Ela estava lá acompanhando o pai, a madrasta e a matriarca da família. Ele chegara mais tarde. Ela se encontrava no jardim olhando os canteiros de flores. Ele a cumprimentou e puxou conversa. Conseguiu descobrir o nome dela. Perguntara se estava bem e viu os olhos da jovem encherem-se de lágrimas. Num impulso se aproximara e a abraçara. Ela refugiara-se em seu peito chorando baixinho. Naquele instante a amou. Queria protegê-la de tudo e de todos. Aos poucos os soluços foram se espaçando até desaparecerem. Ficaram assim por alguns instantes.
Ela então se afastou pedindo desculpas. Ele se ofereceu para ouvir sobre o que a afligia. Ela abriu o coração contando sobre o casamento arranjado pelo pai. Falou a respeito de ter objetivos, sonhos diferentes daquilo. Da forma como as coisas estavam acontecendo, ela se sentia um objeto que podia ser negociado.
Ele se encheu de ira que quase não conseguiu controlar e esconder. Como podia em pleno século XXI, essas coisas ainda acontecerem? As mulheres continuavam sendo meras mercadorias. Eram usadas como moeda para firmar acordos comerciais ou outros interesses que envolvessem as duas famílias. Compadeceu-se. Ofereceu-lhe ajuda. Não sabia direito como poderia ajuda-la, mas pensaria em algo.
A empresa para na qual trabalhava estava fazendo negócios com o pai dela. Nas semanas seguintes estaria indo até a casa dela com uma certa frequência para discutirem sobre negócios. Pediu que ela ficasse atenta que pensaria em algo. E pensou.
Nos dias que se seguiram conseguiu conversar com ela quase todos os dias. Na hora em que Kemal saía, os guardas em geral estavam distraídos, ou comendo. Não prestavam atenção. Isso permitia que se encontrassem no jardim, no fim do dia. As mulheres estavam ocupadas na cozinha, o que também ajudava a Yasmin escapar para se encontrar com ele.
Quase duas semanas se passaram e Kemal havia planejado uma rota de fuga. Além de um lugar para onde ela ir. Ele a ajudaria até que ela se estabelecesse e pudesse seguir sozinha.
Não podiam demorar, pois o tal casamento aguardava apenas o consentimento da primeira esposa do noivo e que a ala da casa, onde Yasmin moraria, ficasse pronta. E a cada dia o encantamento que sentia aumentava. Seu perfume era uma doce tortura. Os breves momentos que passavam juntos conversando em sussurros eram mágicos. Vez ou outra, por descuido ou ato falho, em que suas mãos se tocavam ou seus braços se esbarravam, uma corrente elétrica o percorria de uma forma deliciosamente nova e instigante. Evitava pensar na palavra desejo. Mas era impossível não pensar em seus lábios quando estava sozinho, imaginando como seria senti-los em um beijo.
Fora casado. Amara muito sua esposa e durante os cinco anos em que estiveram juntos, fora feliz. Até a tarde daquela tragédia e horrorosa, onde perdera a esposa e o filho de um ano. Sua vida em família havia sido um refúgio de paz e alegrias. Infelizmente a mente perversa de uma prima armara uma armadilha, para que sua esposa pensasse que ele não era fiel. Nadja, sua esposa, no desespero pensando que era traída, pegara o carro com a criança e saíra em alta velocidade. A estrada estava gelada, pois era inverno. O gelo na pista e a alta velocidade a fizeram derrapar e o acidente aconteceu. Vários carros se chocaram. Ele vinha atrás e viu o acidente acontecendo. Ela ainda respirava, quando chegou no seu carro, mas estava muito ferida. Com voz embargada Kemal repetira muitas vezes que a amava e que era inocente, mas não cria que ela tivesse acreditado ou perdoado antes de falecer. O filho resistira por alguns dias, mas também ficara muito machucado e não resistiu. Depois de lutar bravamente pela vida, o pequeno corpinho sucumbiu e seu coração deixou de bater.
A dúvida o atormentara desde a morte da esposa. Será que Nadja o perdoara ou acreditara em sua inocência antes de morrer? Seu olhar de dor antes de sair desarvorada, o atormentava. Não dormira durante dias e depois voltara a comer apenas para que não o perturbassem mais. A prima pedira mil perdões, mas a vida já perdera o sentido. Ele perdera seu bem mais precioso. Sua família.
Fazia tudo mecanicamente. Depois de quase dois meses de desespero, angústia, raiva e solidão, decidira voltar a trabalhar. Pegara dois projetos grandes fora da Turquia. Queria estar o mais afastado possível. Não conseguia voltar para casa, onde fora tão feliz e olhar pro lar vazio agora. O trabalho tinha sido sua salvação. Trabalhava até estar completamente esgotado e depois desmaiava na cama. Mas não pela noite toda. Os pesadelos o atormentavam. Nunca mais tivera uma noite inteira de sono e tranquilidade. Revivia aquelas horas de desespero. Até a noite com Yasmim no deserto. Aquela noite curara suas feridas, lhe devolvera a paz.
Marcaram a fuga para a noite que o pai de Yasmin iria se encontrar com investidores no centro da cidade. Ele dera a desculpa de que precisava cuidar de assuntos pessoais em Istambul. Ninguém questionou, pois a maioria conhecia sua história ou parte dela. Sabiam que era viúvo. Tinha perdido esposa e filho e fora embora do país sem querer saber mais de nada. Isso o ajudaria a levar Yasmin em segurança, acomodá-la e voltar sem levantar suspeitas.
Na noite marcada, refugiara-se numa reentrância do muro no jardim, após se despedir. Esperou até que tudo estivesse quieto. Subiu as escadas externas para o andar, onde ficava o quarto de costura. Entrou e esperou por Yasmin lá. Quando tudo ficou quieto ela apareceu. Trazia apenas uma pequena sacola. Eram documentos, suas joias pessoais que havia herdado da mãe e algum dinheiro que estivera economizando. Umas peças básicas de roupa para emergência. Estava deixando tudo para trás.
Ouviram passos no corredor. Alguém estava testando as portas. Trancaram a porta com um móvel pesado. E decidiram por pular a janela, pois não criam que haveria outra chance para escapar. A janela dava para um pátio atrás do prédio principal. De lá saíram para a rua por uma porta estreita. A viela estava vazia, mas ouviam gritos dos seguranças. Dentro de pouco tempo estariam em todos os lugares. Correram por um tempo. Não havia como sair agora. Kemal resolveu levar Yasmin para o hotel, onde estava hospedado. Teriam que esperar.
A fez entrar escondida no seu quarto. Ali permaneceu por três dias. Kemal deu uma desculpa sobre não ter viajado. Viajariam de carro no final da semana. O aeroporto estava sendo vigiado. Assim como a estação rodoviária. Havia barreira nas estradas. Precisariam usar estradas alternativas. Mas cria que tudo daria certo e deu. Até a manhã que acordou e Yasmin havia se ido. Por que ela voltara? Tinha duas certezas: ele a amava e era retribuído. Precisava salvá-la.
Um arauto chamou os convidados para o salão principal porque a cerimônia iria começar. O desespero tomou conta de Kemal. Faisal teve dificuldade para mantê-lo ao seu lado. O fez compreender que assim tirava todas as suspeitas de cima deles. E que não se preocupasse. Ela fugiria. Estava tudo resolvido.
As damas de companhia entraram e depois uma noiva com um vestido deslumbrante parecendo ter sido bordado com ouro, e Kemal não duvidava que fosse mesmo, apareceu. Não era possível ver o rosto. Estava coberto. A noiva desceu a enorme escadaria e foi recepcionada embaixo pelo noivo, que a conduziu até o representante legal, que iniciou o tramite do casamento. Kemal ficou destroçado ao ouvir o sim da noiva. A voz parecia menos melodiosa e mais rouca, talvez um pouco trêmula. Os planos não haviam dado certo.
Uma hora depois um Kemal completamente arrasado saía da fortaleza e se dirigia para o carro. Faisal o fez acelerar o passo. Informando que precisavam sair urgente dali. Seguranças passaram correndo por eles. Kemal queria saber o que estava acontecendo, mas era empurrado para dentro do carro que saiu em disparada. Lágrimas enchiam os olhos dele. E não entendeu quando o amigo o fez levantar-se e começou a mexer no assento do banco. Foi com surpresa e assombro que viu o que estava dentro do assento.
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