Amor no Deserto
2 Capítulo 2 - Primeiros Encontros
Notas iniciais
O telefone toca insistente na casa de Faiçal. Uma mulher baixa e atarracada sai apressada da cozinha e o atende. Depois sai em direção a porta dos fundos. Tropeça nos degraus da escada de pedras, quase caindo. Se dirige a construção que fica na direita do lado do rio. Seu patrão se encontra cuidando dos barcos. Ela lhe dá o recado. Ele coça a barba rala e dá ordens a dois homens que estão com ele. Depois entra com a mulher e atende o telefone. Com semblante preocupado chama seus dois homens de confiança. Iria em socorro de seu irmão de coração Aslan Kemal. Em minutos uma rede de informantes foi acionada. Olhos e ouvidos atentos por todos os lados de Ankara. Até nos arredores da cidade.
Quando a caminhonete de Kemal encostou na frente da casa de Faiçal, no final do dia, as primeiras notícias começavam a chegar. Havia grande movimentação na fortaleza que pertencia a Abdul-Jabbar. Pelo movimento em curso, uma festa estava sendo preparada. Os dois amigos entraram e se trancaram no escritório. Até o meio-dia do dia seguinte, haviam traçado uma estratégia. Os convites estavam a caminho. Aguardavam apenas uma pessoa, que segundo diziam, poderia ajudar a tirar Yasmin e Kemal de dentro da fortaleza.
Ninguém sabia que fora Kemal que ajudara a Yasmin fugir da casa de sua família, portanto sua presença não seria questionada. Ele seria apenas mais um convidado para a celebração. Na tarde anterior uma pessoa providenciara provisões para uma semana e uma nova caminhonete para Kemal, que não pudesse ser rastreada com facilidade. Na realidade foram disponibilizados alguns veículos. Novos celulares. Um que usasse o satélite diretamente, assim poderia se comunicar de qualquer parte da região. Seria feita uma verdadeira operação de guerra para tirar os dois de Ankara
Quando a Mercedes de Faiçal parou diante do grande portão da fortaleza, Kemal respirou profundamente. Antes de descer, precisava de autocontrole. Não sabia o que encontraria lá dentro. Haveria uma pessoa que ajudaria, mas não sabia de quem se tratava e se daria certo.
Foram encaminhados para um grande salão num segundo plano acima do pátio da entrada. Estava todo decorado com flores e enfeites de tecidos. Tudo muito luxuoso com detalhes em dourado. Havia pelo menos umas duas dezenas de pessoas. E outras estavam chegando. Faiçal dissera que não passaria de setenta convidados além de alguns familiares. Por ser às pressas, poucas pessoas haviam sido convidadas para a cerimônia de casamento.
Estavam na tarde do quarto dia e a ideia do que Yasmin poderia estar enfrentando por causa de sua fuga deixava Kemal irritado, inquieto a ponto de não conseguir manter o bom senso e esperar. Mas sabia que da sua atitude dependia a segurança do plano e a possibilidade de tudo dar certo. Desejava ardentemente que em três dias pudessem estar há muitos quilômetros dali numa praia agradável.
Os dois avançaram pelo salão observando todas as saídas e outros cômodos próximos, porém não encontraram a noiva. Alguém comentou que ela estava no piso superior com um batalhão de pessoas convocadas para arrumar seu cabelo, fazer ajustes no vestido, maquiagem e tudo o mais que fosse necessário.
Yasmin não sentia. Era como estivesse fora do seu corpo. Não sentira quando o alfinete da costureira lhe furara no ajuste do vestido. Naquele instante lhe penteavam o cabelo e prendiam, enquanto outras duas mulheres trabalhavam em suas mãos. Olhava através do espelho para a imagem na sua lembrança. Corria pelas ruas estreitas do mercado na parte velha da cidade. Crera que seria mais fácil fugir por ali usando o excesso de gente que sempre enchiam o lugar. Mas não pensara que esse mesmo fato poderia se tornar uma desvantagem por dificultar a passagem. Não soubera se fora sua agonia ou realmente o mercado parecia mais cheio naquele dia.
Seus pés avançavam com dificuldade tentando misturar-se e perder-se entre os corpos que esbarravam nela, mas estava muito difícil. Como pressentindo, olhara para trás e vira a mulher que o pai colocara para cuidar dela desde que aquela ideia absurda de casá-la com um estranho começara. Apressou-se, mas era em vão. Começou então, num gesto de desespero, a correr entre a multidão. Avançava com dificuldade. Mesmo correndo parecia não ir muito longe. Entre correr e olhar para trás, acabou batendo de frente em alguém e caíra ao chão sobre este corpo.
Desconcertada percebera que se tratava de um homem. Agora pensando... foram apenas alguns segundos, mas parecera muitos minutos. Olharam-se nos olhos. Seu coração parecia bater na garganta. Poderia dizer que fora a corrida e a adrenalina, mas aquele contato a perturbara. Talvez instinto ou não, ele a enlaçara em seus braços. A sensação de proteção era incrível. Tivera vontade de ficar ali. Mas os passos apresados atrás deles e gritos de "Está aqui!" a tiraram do devaneio naquele instante. Desculpou-se e procurou levantar-se. Era algo complicado. Sua túnica comprida e a capa que usava, deixavam tudo mais difícil. Por fim, rolara para o lado e ele levantou-se estendendo-lhe a mão. Seus olhos mantinham-se presos nos dele. Garras de aço se fecharam ao redor de seu braço. Estava tudo acabado. Lágrimas, agora começaram a rolar em seu rosto, assim como naquela noite chorara durante muitas horas.
Depois de muitas lágrimas resolveu que não havia mais nada que pudesse ser feito. Subiu para o terraço, que ficava na parte mais alta da casa e de frente para a ruela nas costa da fortaleza que era sua casa. Olhara a lua enorme e branca no céu. Quantas brincadeiras e momentos mágicos passara ali. Momentos felizes com sua mãe. Sentia tanta saudade. Duvidava que se ela estivesse viva, concordaria com aquilo tudo. Tinha certeza que seu pai a estava entregando para obter vantagens no mundo dos negócios. Era só nisso que pensava. Seu irmão mais velho, que poderia apoiá-la estava fora do país. Subiu pela beira da floreira e com cuidado deslizou seu pé até a beirada. Só mais um passo e estaria tudo acabado. A brisa da noite fazia com que fios do seu cabelo esvoaçassem, assim como sua camisola branca. Não tinha ideia de como estivera linda e perfeita para alguém que a vira lá embaixo da viela. A figura etérea contra o manto escuro da noite e a lua cheia e branca, bordada logo acima. Parecera um anjo de cabelos negros. Mas um anjo que desejava por fim a própria vida. Pensara ter visto alguém nas sombras da estreita viela. Mas devia ter sido só impressão.
Fechou os olhos e pensou em estender os braços. Aproximou os pés mais um pouco da beirada e nesse instante alguém a puxou para trás. Braços muito fortes a seguravam naquele instante e a impediam de por os pés no chão. Se tratava do novo capanga, que até então não sabia se estava a serviço do seu pai ou do futuro marido. Ela esperneou e gritou, mas foi levada escada abaixo pelo sujeito bruto. E depois jogada sobre as almofadas ao chegarem embaixo. Estava desorientada e todos falavam e gritavam ao mesmo tempo. Não sabia quanto tempo passou até que alguém a segurou pelo braço e a tirou daquele lugar. Foi trancada num quarto que não era o seu. Permaneceu trancada por pelo menos três dias.
Numa manhã após receber seu desjejum, percebeu uma movimentação diferente em sua casa. Logo a esposa jovem de seu pai entrou aos brados. Sua tia tinha escorregado na cozinha, caiu batendo a cabeça numa quina da porta. Estava desmaiada e com um corte sangrando. Sentiu pena da moça. Estava pálida e sem saber o que fazer. Yasmin saiu correndo e já encontrou o tio e outros dois seguranças carregando sua tia. Na porta estava encostando uma ambulância. O tio ordenou que ela acompanhasse a tia.
No hospital, foi indicado para que esperasse num corredor imenso e branco. Todo aquele branco lhe deu a sensação de frio. Enquanto aguardava um homem de costas no balcão lhe chamou a atenção. Quando se virou e a fitou nos olhos seu coração disparou. Era o mesmo do mercado. Seus olhares se encontraram e, como se um ímã o puxasse até ela, em algumas passadas ele estava ao seu lado. Viu-o colocar a mão no bolso e de lá tirou algo. Depois pegou sua mão e nela depositou seu prendedor de cabelo que havia perdido no dia da fuga no mercado. Olhou para aquele rosto que desejara tanto rever nos dias anteriores, desde o encontro no mercado. Havia um leve sorriso no canto da boca. Seus olhos eram incríveis. Ele se voltou quando alguém chamou por Kemal. Naquele momento descobriu seu nome.
No retorno do hospital foi-lhe permitido voltar para o seu quarto. Ali passou horas repassando os dois encontros com aquele homem misterioso e gentil que agora tinha um nome, Kemal. Perdida em seus devaneios na noite seguinte, ouviu uma voz desconhecida do lado de fora de seu quarto. A pessoa deveria estar no celular. Ficou curiosa. E resolveu sair e investigar de quem se tratava. Saiu meio rápido do quarto e acabou dando um encontrão na pessoa do lado de fora. Braços fortes a ampararam antes que batesse no chão. Os olhos... o perfume... os braços e aquele peito...
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