Amor fotografado - Primeira Temporada
21 Capítulo 20 - Vaca loira
Notas iniciais
Depois que o gelo derreteu, Tyler foi embora. O inchaço tinha diminuído e quase não dava para ver o roxo. O plano era ele dormir lá em casa, no quarto de hóspedes, como sempre, mas ele preferiu ir para casa. Não protestei.
Não voltei pra festa. Depois da confusão que eu causei, a última coisa que eu queria era colocar a cara na rua. Dou graças a Deus por amanhã não ter aula. Holly chegou em casa depois de 1h da manhã. Eu estava acordada vendo um filme de romance adolescente, daqueles bem clichês. Daniel a acompanhou até a porta e depois voltou para a festa.
– Cadê a Mary?
– Não faço ideia. – Ela respondeu. – Depois que você foi embora, ela e Gustavo sumiram.
– Hum... – Murmurei. – E Will? Onde ele vai dormir?
– Na casa do Silas. A maioria vai dormir ali. Sem falar nos que caíram bêbados em qualquer canto.
– Ok. Já vai dormir? – Perguntei quando ela começou a subir a escada.
– Não. – Disse. – Pensei em assistir algum filme e conversar um pouco. O que acha?
– Por mim tá beleza. Vou pegar a pipoca e o chocolate.
– Não esquece do refrigerante. – Gritou já lá em cima.
– Nunca. – Gritei em resposta.
Fiz 2 sacos de pipoca de micro-ondas, peguei uma garrafa de 2 litros de refrigerante, barras de chocolate que eu sempre tenho (olá vício) e um pote de doce de leite. Subi com um pouco de dificuldade, já que estava com preguiça de fazer duas viagens. Quase caí 3 vezes da escada.
Ficamos o resto da madrugada vendo filmes, comendo e conversando. Por volta das 3h da manhã ouvi barulhos vindos lá de baixo e subindo. Supus ser Gustavo voltando pra casa. Se fosse um ladrão teria entrado no meu quarto quando subiu as escadas, certo? Enfim, de qualquer maneira, o importante é que estamos vivas. Dormimos lá pelas 7:30h, vencidas pelo cansaço.
Acordei 12h. Eu sei, cedo pra caramba, mas eu estou acostumada a dormir pouco, então, sem problema. Holly ainda estava dormindo. Tomei um banho quente, escovei os dentes, me vesti e prendi o cabelo num coque. Desci as escadas sentindo o cheiro de carne. Cheguei na cozinha e me surpreendi com um clone do Gustavo fazendo o almoço.
– Quem é você e o que fez com Gustavo? – Perguntei pro ser na minha frente.
– Haha... Engraçada você. – Disse debochando.
– É sério. O que deu em você pra resolver cozinhar? E a Mary? Sabe dela? – Joguei todas as perguntas de uma vez só.
– Acho que a resposta para todas essas perguntas é a mesma. – Disse se virando pra mim.
– Bom dia! – Diz uma voz feminina atrás de mim, que eu tenho certeza não ser a da Holly.
Mary estava vestindo uma blusa cinza do Gustavo que eu dei de presente no seu aniversário do ano passado. Então, minha ficha caiu e tudo começou a fazer sentido.
– Vocês...? – Não consegui terminar a frase. Olhei para Gustavo. Ele estava com um sorriso no rosto. Assentiu. – Mas vocês usaram...? – As palavras simplesmente sumiam. O sorriso no rosto de Gustavo se desfez e eu deduzi que a resposta fosse não. – Iiih... Quero nem saber onde essa história vai dar. – Disse me sentando na mesa.
– Vira essa boca pra lá, Jennifer. – Disse Mary se sentando do meu lado.
Gustavo terminou de fazer o almoço e nos serviu. Eu posso fazer isso quantas vezes for, mas nunca vou me acostumar em comer arroz e feijão na primeira refeição do dia. Sempre vai haver aquele incomodo. Mas, como eu estava morrendo de fome e com preguiça de fazer alguma coisa pra comer, não iria rejeitar a comida que meu irmãozinho fez com tanto carinho.
– Bom dia. – Disse alguém da sala que eu logo identifiquei sendo Holly.
– Bom dia. – Disse uma voz irritante logo em seguida. Me virei para ver quem era já que, até onde eu sei, ninguém mais dormiu aqui em casa.
– Amber? – Perguntei. – Gustavo, o que ela tá fazendo aqui? – Indaguei.
– Ah, eu não te contei? – Fiz um sinal negativo com a cabeça. – Ela vai ficar uns dias aqui. É que ela se mudou pra longe e tem meu aniversário ainda... Então, eu a convidei pra passar uns dias aqui em casa.
– Hum... – Murmurei. Minha vontade era levantar da mesa, gritar e bater em Gustavo por ele ser tão estúpido a ponto de convidar uma estranha pra dormir aqui em casa sem a mamãe saber.
Holly me abraça por trás e sussurra no meu ouvido: “Amber?”. Eu não entendi de primeira. Esse nome não me parece estranho. Meu cérebro começou a puxar algumas coisas relacionadas à esse nome. Minha cabeça se encheu de nomes: Genevive, Judite, Catrina, Beatrice, Giulia, Thalia e Amber. AMBER!! Esse loira oxigenada é a ex mais recente do meu namorado! Olho pra Holly com os olhos arregalados. Ela me lança um olhar como se perguntasse: “Você não sabia?”. Balancei minha cabeça negativamente num movimento quase imperceptível. Amber se sentou numa cadeira na minha frente. Ficou aquele clima tenso na mesa. Pelo menos no meu ponto de vista.
Uns minutos depois Tyler entrou na cozinha e me deu selinho. A mesa é de 6 lugares. Mary estava sentada à minha direita, Holly cabeceira à minha esquerda, Amber na minha frente e Gustavo na cabeceira da direita, perto da Mary. Só tinha um lugar vago, ao lado da Amber, de frente pra Mary, que foi onde Tyler se sentou. Uma onda de raiva me atingiu e quase pulei da cadeira e enforquei aquela vaca loira. Observei aqueles dois durante todo o almoço. Eles conversavam e brincavam como se fossem amigos de infância. Embora não estivesse comendo, permaneci na mesa. Eles contaram histórias de quando eles “estavam juntos”. Gustavo e Mary foram os únicos que riram. Quando senti minha paciência se esgotando, resolvi sair dali antes que fizesse alguma besteira.
– Com licença. – Disse com uma frieza na voz. Essa não era a intenção. Eu não queria que eles soubessem que eu estava incomodada com aquilo. Me levantei da mesa.
– Não vai terminar de comer, amor? – Perguntou Tyler. Nessa hora eu estava de costas pra ele, colocando meu prato na pia. Me virei lentamente, respirei fundo. Todos na mesa estavam me olhando.
– Não, amor. Perdi a fome. – Disse, com ênfase no “amor” e saí andando.
Antes de bater da porta da sala, ouvi Tyler perguntar:
– O que deu nela?
Atravessei a rua e fui pro último lugar em que eu queria estar: a casa do Silas. Antes que vocês me apedrejem, eu vou procurar por Will. Holly disse que ele dormiu aqui. Bati na porta. Ninguém atendeu. Olhei para a esquerda e vi uma campainha. Toquei um, duas, três vezes. Ninguém. Abaixei a maçaneta. A porta estava aberta. Entrei e fechei a porta atrás de mim. Olhei para a sala me sentindo a pessoa mais idiota do mundo por estar ali. Ouvi o barulho de alguma coisa caindo no chão. Deve ter vindo da cozinha. Atravesso a sala, que ainda está uma bagunça por causa da festa, vou até lá e me deparo com Silas cozinhando. O que deu nesses homens pra resolverem cozinhar hoje? Ele estava todo sujo de molho e tentava limpar desajeitadamente o chão que estava cheio de carne. Ele estava abaixado de lado pra mim, mas ainda não percebeu minha presença.
– Você, definitivamente, não leva jeito pra cozinhar. – Ele me olha, um pouco surpreso, mas logo dá uma risada fraca do meu comentário e se levanta.
– Vai ficar parada aí, ou vai me ajudar a limpar isso aqui? – Me aproximo, coloco a mesma luva que ele e começo a catar a carne do chão.
Eu não faço ideia do porque estou fazendo isso, mas pelo menos é um motivo pra ficar longe de casa. Era pouca coisa e acabamos rápido. Me sentei numa cadeira da mesa da cozinha.
– Não vai falar por que veio aqui? – Perguntou depois de um tempo. – Despois de ontem, achei que nunca mais iria querer olhar pra minha cara e tal. – Quando ele disse isso, me lembrei do soco que dei nele.
– Ah, me desculpa pelo soco de ontem. – Ele riu.
– Isso é sério? Eu bato no seu namorado sem motivo nenhum, xingo ele, falo um bando de mentiras sobre você pra todo mundo e você vem me pedir desculpa por ter me dado um soco? – Diz e ri de novo. – Fala logo o que eu você quer, Jennifer.
– Eu não posso ter consciência pesada por ter batido em alguém, agora? É isso? – Digo indignada.
– Não precisa ficar com a consciência pesada. Não doeu nem nada.
– Ah, fala sério! Eu sei que doeu. Nem que seja um pouquinho. – Ele balançou a cabeça negativamente.
– Não, nem um pouquinho. Você bate igual uma garota.
– Eu sou uma garota. – Digo. – E qual é a sua desculpa? – Ele se levantou e me olhou sério.
– Você não disse isso. – Me levantei também, tentando parecer intimidadora. Sem sucesso, já que perto dele eu sou uma anã.
– É, eu disse sim. – Dei um passo em sua direção. Só nos encaramos por um tempo.
Num movimento rápido, ele me pegou no colo e me levou para um lado da casa que eu não tinha explorado na noite anterior. Não pude ver muito, mas vi que tinha uma piscina. Comecei a gritar e me debater, mas nada o parou e ele pulou na água.
– Seu filho da mãe! – Gritei. Ele se acabando de rir. – Como eu vou voltar pra casa agora?
– Você mora do outro lado da rua. – Disse revirando os olhos.
– É, mas tem pessoas dentro da minha casa do outro lado da rua. – Disse, como se fosse óbvio. – Tem a Mary, a Holly, meu irmão, meu namorado – Suspirei. – e a ex dele. – Disse num sussurro.
– Ok. Já entendi. Eles não podem saber que você tava aqui. Vem, vou pegar uma toalha pra você se secar.
– Ah, não. Agora que você já me jogou aqui, eu só saio mais tarde. – Ele abriu um sorriso.
– Tá bem. Vou comer alguma coisa. – Disse saindo da piscina.
– Vai me deixar aqui sozinha? – Perguntei antes que ele entrasse.
– Eu já volto.
– Mas e se o assassino do machado aparecer e vier me matar. – Ele gargalhou escandalosamente.
– Assassino do machado? – E riu mais. Eu fiz uma cara emburrada, o que só o fez rir mais ainda. Quando conseguiu se controlar, disse: — De qualquer forma, eu vou estar na cozinha. Vou escutar se alguém entrar em casa.
– Eu entrei e você não escutou.
– Aff... Alguém já disse que você é muito chata às vezes?
– Uhum... Várias vezes.
– Relaxa, ruivinha. Ninguém vai te matar enquanto eu estiver aqui, tá bem? – Piscou pra mim e entrou.
Parei pra olhar o lugar direito. É bem agradável aqui. A piscina é enorme. Tem vários coqueiros pelo lugar, uma rede no canto direito, espreguiçadeiras, uma mesinha branca com 3 cadeiras da mesma cor e uma churrasqueira na parede da esquerda. Mergulhei várias vezes, boiei, saí da piscina e pulei. Eu amo piscina, mas já estava ficando chato. Tudo muito quieto. Silas já havia saído a não sei quanto tempo e não deu sinal de vida. Não preciso me preocupar, certo? Ele só deve estar comendo alguma coisa. Mergulhei de novo. Levantei pra respirar, tirei o cabelo e a água do meu rosto, abri os olhos e gritei. Um ser se materializou na minha frente. Fiquei descontrolada por um minuto gritando “Socorro! Silas! O assassino do machado! Silas, socorro!”, mas depois eu percebi que era só o Will.
– Seu idiota, você assustou. – Disse jogando água nele. – E para de rir. Eu to falando sério! – Disse emburrada.
– Desculpa. – Disse, evidentemente, se segurando para não cair na gargalhada de novo. – O que você tá fazendo aqui?
– Jennifer, o que... – Silas chegou, antes que eu pudesse responder. – Ah, oi Will. – O que aconteceu?
– Ah, nada. – Disse. – Por sorte foi engano, porque se não fosse eu já estaria morta a essa hora. Ai você ficaria com a consciência pesada pro resto da vida, se culpando por não ter chegado a tempo.
– Eu tava pegando seu chocolate, sua louca!
– Eu não iria precisar de chocolate se estivesse morta! – Gritei.
– Tá. Não quero nem saber do que vocês estão falando. Jennifer, você não respondeu. – Disse Will.
– Ah, sim. Eu vim procurar você pra contar que a ex do meu namorado tá dormindo lá em casa por causa do Gustavo e dando mole pro Tyler e eu quase voei no pescoço dela na hora do almoço, mas eu me controlei, porque eu sou uma boa menina. – Disse tudo muito rápido e os dois demoraram um pouco pra entender.
– Nossa! – Disse Silas.
– E o que você tá fazendo na piscina? Porque, até onde eu sei, eu não estou ai.
– Isso é culpa dele. – Disse apontado pra Silas.
– Ela provocou. – Se defendeu.
– Que seja! – Disse Will. – E o que você vai fazer agora? Quer dizer, você não pode ficar fora de casa pra sempre.
– Você pode ficar aqui se quiser. – Disse Silas.
– E correr o risco de você me estuprar de noite? Nem pensar. – Respondi.
– Você não vai parar de falar nisso, não é?
– Não. – Disse simplesmente.
– Vocês parecem duas crianças, sabiam? – Disse Will. Eu e Silas nos entre olhamos e começamos a rir, não sei do que. Will bufou. – Jennifer, sai da piscina.
– Por que?
– Você tem que ir pra casa.
– Aaahhh... Não. – Disse manhosa. – Não quero sair agora. – Fiz biquinho.
– Jenn, isso não é hora de fazer pirraça. Vamos logo.
– Ah, qual é, Will. Aproveita e entra na piscina também. – Disse Silas enquanto tirava a camisa molhada. Eu fiquei hipnotizada por um momento. Nunca o tinha visto sem camisa e que visão maravilhosa que é.
– Jennifer. Jennifer! – Will me chamava.
– Oi. – Disse. – Que foi?
– Você vai agora ou não? – Perguntou e Silas pulou na piscina.
– Pode ser. – Disse ainda meio distraída com aquela imagem na cabeça.
– Deixei uma toalha pra você ali na cadeira, pequena. – Disse Silas. Desde quando ele tem a liberdade de me chamar desses nomes? Ruivinha, pequena... Não me lembro de termos tanta intimidade...
Peguei a toalha e sequei meu cabelo que, a essa altura já estava solto do nó que eu havia feito mais cedo. Me enrolei na toalha e disse pra Silas.
– Depois eu trago de volta. – Ele assentiu e mergulhou. – Vamos. – Disse pra Will, que assentiu.
Não sei o motivo de tanta tensão e nervosismo. A verdade é que não tem motivo. É tudo coisa da minha cabeça. Beleza, a ex do meu namorado tá lá em casa, mas isso não vai desencadear a Terceira Guerra Mundial.
Atravessamos a rua e entramos em casa. Tyler estava sentado no sofá com a vac... Quer dizer, com a Amber. Eles estavam rindo. Não tinha mais ninguém na sala e, aparentemente, nem na cozinha. Estavam sozinhos aqui.
– Jennifer, onde você tava? – Perguntou Tyler. – Por que tá toda molhada? – Perguntou de novo depois de me olhar direito. – Eu tava preocupado com você. – “Aham... to vendo sua preocupação.”, era o que eu queria dizer. Fiquei um tempo em silêncio pensando direito no que responder. Eu poderia mentir sobre o lugar onde eu estava ou dizer:
– Estava na casa a frente. Se você, com toda a sua preocupação, apenas olhasse pela janela que está na sua frente – Eu já estava gritando a essa altura. – você saberia! – Completei e subi. Eu sou muito escandalosa, eu sei.
Will veio atrás de mim. Quando ia abrir a porta do meu quarto, Holly saiu de lá e Gustavo e Mary botaram a cabeça pra fora do quarto pra saber o que estava acontecendo.
– Ei, o que houve? – Perguntou Holly. Passei por ela e entrei no quarto puxando Will comigo.
– O que houve? Você sabe o que houve! – Gritei em resposta. Suspirei. – Desculpa. Desculpa. Eu não devia ter gritado com você. – Suspirei. – Eu to ficando louca! – Disse e me joguei na cama afundando minha cara no travesseiro.
– Jenni, não fica assim. – Disse Holly. – É só por alguns dias. – Fez uma pausa. – Ou semanas. – Olhei pra ela.
– Não tá ajudando. – Disse.
– Quer que eu pegue chocolate pra você. – Perguntou Will.
– Não dá. Acabou. A gente comeu tudo ontem. – Resmunguei.
– Eu compro pra você. – Ele disse.
– Sério? – Abri um sorriso. Ele assentiu. Pulei em cima dele e ele caiu no chão. – Obrigada. Obrigada. Obrigada.
– Calma. – Will disse rindo. – É só chocolate.
– Não. É a minha droga. – Disse e eles riram. – Posso ir com você? – Perguntei fazendo beicinho.
– Pode. – Respondeu.
– Ah, todo mundo vai, eu vou também.
Tomei um banho rápido, vesti um short jeans, uma blusa azul com desenhos abstratos e coloridos e meu all star de sempre. Deixei meu cabelo solto. Descemos as escadas silenciosamente. Will e eu paramos no meio. Holly foi na frente e saiu deixando a porta aberta. Eu desci o resto dos degraus e saí correndo me juntando à Holly no meio da rua. Will fez o mesmo, só parando pra fechar a porta. Quando ele estava chegando perto de mim e de Holly, Tyler abriu a porta e nós saímos correndo. Não pergunte porque fizemos isso. Apenas saiba que somos loucos.
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