Notas iniciais
Espero que essa história, por mais simples que seja, venha a ser útil a alguém.

Mariana costumava tirar a aliança quando estava longe de Luís e apesar de soar frívolo para os demais mortais, nada lhe dava mais prazer que olhar para os dedos livres daquela pequena algema comprada numa joalheria. Toda vez que escutava a maçaneta da porta principal se mexendo, recolocava a joia.

Fugir dos próprios medos não fortaleceu o caráter, não houve abertura para aprender o que aquelas situações pretendiam ensiná-la, era mais cômodo tramar a própria morte e acreditar que o sono eterno a livraria de toda dor. Logo na noite em que recebeu a primeira mensagem do admirador secreto, houve um imprevisto que a impediu de apagar o histórico do computador que usava na firma porque Luís viu aquelas postagens no Tumblr, onde a moça usava um pseudônimo para desabafar e teve a brecha que precisava para se apresentar como o salvador.

Os progenitores continuavam se atacando por ninharia e transformando a hora da refeição num pandemônio, as disciplinas da faculdade seguiam maçantes, o trabalho de conclusão de curso lhe roubava as noites, mas aquelas mensagens de um destinatário até então sem face fizeram-na dissuadir da ideia de dar cabo da própria vida. Por ora.

Não que naquela noite triste Mariana estivesse imbuída de fugir das investidas de Luís se atirando da janela do prédio onde eles moravam. Ela entendeu a verdade dolorosa, a de que nunca encarou os problemas, sempre buscou alternativas mais fáceis, cômodas, nunca se aceitou a ponto de se amar sozinha e não necessitar da aprovação alheia para validar-se como pessoa.

Mariana já tinha idade suficiente para fazer as próprias escolhas, discernir certo e errado, terceirizar a culpa pelos sucessivos fracassos que se somavam em sua existência era isentar-se da realidade, negá-la outra vez sem nada aprender. Enquanto esse padrão doente se repetisse, atrairia sucessivos salvadores oportunistas de ocasião, viveria sempre o mesmo dia, a mesma história, presa dentro de um roteiro macabro em que passava longe do papel principal.

Os monstros apenas teriam nomes e faces diferentes e insistiriam em abrir as feridas mais profundas cravadas no coração dela. Chegava o momento de dar um basta naquela situação. Enquanto Mariana não soubesse ser feliz com a própria companhia e apreciar as miudezas da vida sem se colocar em patamar comparativo com as demais, nunca poderia oferecer amor sincero a ninguém.

A vida era deveras preciosa para se desperdiçar tantos anos apenas reclamando, sem tomar atitudes para modificar o que lhe desagradava, sem ter maturidade para aceitar aquilo que se encontra além do entendimento, o que não pode ser modificado. Entre os altos e baixos da caminhada, os aprendizados, as graças e o mais importante de tudo: o progresso.

A Mariana de dez anos teria orgulho da Mariana que chorava naquele cômodo silencioso? A Mariana dos próximos dez anos merecia ser sombra de um sujeito egocêntrico, egoísta, narcisista, manipulador e cumprir uma rotina que odiava?

Se pudesse saltar das páginas do livro e tomar um café com Mariana, o que a destemida Soraya Arantes lhe diria?