Entre o primeiro beijo de Luís e Mariana e a mudança dela para o apartamento dele foram dez dias. Noivado meteórico, aliança de compromisso, redes sociais chovendo de curtidas e comentários felicitando o mais novo casal do momento.
Resignada de que estava próxima dos trinta anos e era a prima solteirona levaram-na a perder a virgindade sem conhecer o verdadeiro prazer de se entregar por amor. Era a “recompensa” pelos suntuosos buquês de flores endereçados todas as manhãs para a mesa dela, pelas caixas de bombons importados e os inúmeros presentes que aquela tão acostumada a ser invisível jamais recebia.
Para um rapaz que dizia nunca ter sido beijado ou tocado, notável era a experiência com que conduzia as relações nas quais apenas ele se saciava e ela era apenas um objeto.
Talvez eu aprenda a gostar com o tempo, iludiu-se Mariana, crente de que apenas em filmes pornográficos e livros eróticos as pessoas atingem o orgasmo em todas as relações e têm um desejo desmedido pelo outro. A questão não era a aparência de Luís, mas o fato de ele não ter levado em consideração que ela também tinha desejos e fantasias, curiosidades, gostaria de ser tratada com mais carinho por quem tanto dizia amá-la. Com pesar se recordava daqueles tempos tão ingênuos em que se tocava sem ter um alvo aleatório e no escuro do quarto conhecia aquela sensação que nunca chegou a ter nem quando o noivo a possuía.
Não tardou para que Mariana pescasse incoerências entre as falas do “conquistador anônimo” e do verdadeiro Luís. O rapaz que tinha medo de relevar a própria identidade demonstrava ser tão frágil e inseguro quanto ela, temeroso de tomar iniciativas e dizia nunca ter sido beijado, ser o “amigo feio”, o rapaz que poderia estar no patamar mais elevado na vida profissional, ter posses e tudo o mais não fazia sucesso com o sexo feminino em virtude da aparência destoante dos padrões.
Luís deixou escapar que teve duas noivas, mulheres essas as quais amaldiçoava, bradando que eram fúteis, vulgares e interesseiras, merecendo ser maltratadas.
Ansiando tanto por proteção e carinho, Mariana não se deu conta de que era a brecha perfeita para Luís tomar posse da voz dela e anulá-la dentro do relacionamento, ele sempre tinha a palavra final, as vontades dele prevaleciam, sem contar que quando se iniciaram as discussões, o contador lembrava-a sempre de que era o salvador dela, que se os dois rompessem o noivado, ninguém decente se interessaria.
Luís vivia a tratar Mariana como se ela fosse uma incapaz, diminuía os gostos musicais, literários e televisivos dela, não aceitava ser contrariado, se uma mensagem demorava a ser respondida, a moça se preparava para as acusações, para as crises de ciúmes. Apesar de nunca ter havido agressão física, não havia um pedaço dela que não estivesse em retalhos.
Aquele livro não acionou gatilho algum, apesar das cenas fortes vividas por Soraya, apenas encorajou Mariana a enfim ouvir o próprio coração.
Fale com o autor