Isabel foi a minha grande paixão, o amor da minha vida. Ela foi a mulher que me fez pensar em casamento e a única com quem eu considerei ter filhos um dia. Até hoje eu me pergunto como eu pude perdê-la.

Nós namoramos por quase um ano. No começo era tudo maravilhoso, nós éramos muito amigos e ótimos amantes. Nossos corpos se combinavam de uma maneira incrível. Nossa sintonia era absurda, inigualável.

Estava tudo bem, até eu começar a ficar ciumento demais.

Isabela era uma menina simpática, carinhosa e atenciosa com seus amigos. Ela os abraçava, beijava. E tinha muitos amigos.

Eu comecei a querer tudo dela só para mim. Sua atenção, seu carinho, seus beijos, pertenciam a mim. Eu não queria dividi-la com mais ninguém.

Eu tentava não brigar por causa disso, mas todas as vezes que eu a via com alguém, eu ficava irritado e impaciente. Ela notava, mas não falava nada, apenas se aproximava de mim, beijava meu rosto e sussurrava no meu ouvido: "eu te amo".

Isso aplacava o meu ciúme, mas não me impedia de senti-lo.

Um dia, o telefone de Isabel tocou e era Daniel, seu ex-namorado. Ela atendeu sorridente e falou com ele, com a voz irritantemente doce.

— Passa lá em casa mais tarde. Eu vou daqui direto pra lá. Mamãe vai gostar de te ver.

Ela desligou o telefone e eu não tentei disfarçar meu mau humor.

— Por que o seu ex vai para a sua casa hoje?

— Ele está na cidade, faz tempo que não nos vemos.

— Deve ser porque vocês terminaram né?

Ela riu

— É sim. Nós deixamos de namorar, mas ainda somos amigos. Eu tenho um namorado muito melhor agora.

Isabel me desarmou. Principalmente quando me deu um beijo apaixonado. Eu não ia perder tempo brigando come ela, eu tinha coisas mais agradáveis em mente.

Mais tarde em casa eu não conseguia parar de pensar no encontro entre a Isa e seu ex. Eu fiquei pensando que foi ele quem terminou o namoro e que Isabel não queria isso. Eles namoraram por anos e não estavam separados há tanto tempo, então, se ele quisesse voltar, talvez ela o quisesse de volta. Eu fiquei imaginando os dois juntos, os beijos, que agora me pertenciam, na boca de outro homem. Não me contive.

Peguei a moto do meu pai e fui até a casa dela. Parei a moto do outro lado da rua e vi Isabel e o ex namorado abraçados. Desci da moto e caminhei irado até eles. Tirei o capacete e o ameacei:

— Solta ela agora!

Isa abriu os olhos, enquanto Daniel virou-se para mim, sem entender. Ela parecia assustada.

— O que você tá fazendo aqui Carlos? E por que você está gritando?

— Por que? Ora, eu chego aqui a essa hora e encontro a minha namorada agarrada em outro homem e você queria que eu fizesse o quê? O abraçasse também? Ou fosse embora como se não estivesse acontecendo nada?

— Cara, não tá acontecendo nada, a gente só estava se despedindo!

— Cala a sua boca imbecil, eu não estou falando com você!

— Carlos, para com isso! Não tem nenhum motivo para você ficar com ciúme.

— Ah, não Isabel? Será que eu não tem mesmo nenhum motivo? Por acaso você tá ficando com ele? Matando a saudade? Fala Isabel, não me faça de idiota!

— Quem está se fazendo de idiota é você Carlos! E está me ofendendo muito. Você devia ir embora agora.

—Não Isabel, eu não vou sair. Não vou facilitar as coisas pra você. Se você quer ficar com ele, vai ter que falar na minha cara!

Eu estava louco, desesperado. Minha cabeça me pedia calma, mas eu estava sendo guiado por minha alma. E sentir com a alma nem sempre é o melhor caminho. Eu comecei a acusar Isabel de estar mentido, de ainda gostar do ex-namorado. Daniel ficou por perto, sem dizer nada, e eu vi que ele tentava protegê-la e isso apenas me deixou mais furioso. Isabel percebeu e pediu para que Daniel fosse embora, garantindo a ele que ficaria bem. Quando estávamos sozinhos, ela começou a chorar.

— O que você pensa que está fazendo Carlos? Eu já te disse que eu te amo, mas isso não significa que eu seja sua propriedade. Eu tenho amigos e uma vida além de você. Você não tem o direito de tentar me isolar, eu não vou ficar com um homem que não respeita meu espaço. Eu quero que você saia e não volte a me procurar. Preciso de um tempo.

—O que? Não! Não faz isso amor. Eu me excedi e peço desculpas. Por favor, não termina comigo!

—Por favor Carlos, vai embora. Estou muito magoada, não consigo nem olhar pra você agora.

Isabel não quis falar comigo por muitos dias. Ela estava magoada e tinha razão para isso. Tentei me desculpar, mas logo descobri que teria que esperar o tempo dela.

Fiquei sem vê-la por duas semanas, até que ela me procurasse. Nessas semanas, eu pensei sobre a minha obsessão por Isabel e me assustei ao perceber a dependência emocional que eu tinha dela. Eu a amava sim, mas me assustei com a maneira que isto estava me afetando.

Resolvi que eu deveria parar de sentir tanto com a alma e mais com a cabeça. Quando nós voltamos, eu estava diferente. Eu estava certo de que precisava me livrar da dependência por Isabel.

O resultado dessa tentativa, foi eu acabar me afastando da minha namorada. Eu passava menos tempo com ela, sempre tinha uma desculpa para não encontrá-la ou para ir embora cedo. Comecei a olhar para outras mulheres e me interessar por elas.

No fundo, eu estava com medo do que eu sentia pela Isa. Foi muito ruim quando ficamos separados, então eu tinha que passar o maior tempo possível sem ela, para ver se meus sentimentos diminuíam.

Isabel, se notou meu distanciamento, não reclamou. Todas as vezes que eu não podia ficar com ela, Isa dizia que entendia e que sempre estaria por perto. E de fato, ela sempre estava.

Nós ainda nos dávamos muito bem fisicamente, mas, por causa do meu distanciamento, nossa amizade enfraqueceu. Como eu não estava sendo muito honesto no relacionamento, evitava muitas conversas, para não cometer atos falhos e acabar me entregando.

Um dia, Isabel me ligou na hora do almoço. Eu estava no escritório onde fazia estágio. Ela me chamou para sair mais tarde, já tinha muito tempo que não fazíamos nada juntos.

— Hoje eu não posso Isa, preciso terminar um trabalho até a noite.

Não era mentira, eu tinha mesmo que entregar um trabalho, mas eu já estava quase terminando e certamente estaria livre a noite. Mas eu já tinha outros planos, eu iria a um bar com uns amigos. Ela ficou decepcionada, mas compreendeu.

— Vamos sair amanhã, ok? — Falei, sentindo culpa.

— Claro meu bem. Até amanhã.

Já no bar, eu me sentia culpado por ter deixado a Isa sozinha, por mentir para ela. Acabei bebendo um pouco além da conta, e para esquecer a culpa, flertei com outras mulheres. Acabei ficando com uma menina linda: cabelos negros, pele clara, olhos azuis, baixinha, como a Isa. Não me lembro do nome dela.

Eu já estava meio bêbado, então achei que era a minha imaginação, quando Isabel entrou no bar. Ela estava com os nossos amigos da biologia.

Eu abri meus olhos enquanto beijava a menina, e dei de cara com o rosto decepcionado da minha namorada a poucos metros de mim.

Eu não sabia o que dizer. Estava consciente de que não havia desculpa para o que eu fiz, mas, ainda assim, eu precisava fazer alguma coisa.

Eu soltei a garota que estava comigo e fui atrás de Isabel. Ela ficou parada, exatamente onde estava, não se moveu, não desviou o olhar, nem derramou uma lágrima. A falta de reação dela me deixou ainda mais perdido.

— Isa, eu sei que eu vacilei, vamos conversar?

Ela afastou-se, como se eu não estivesse ali. Os amigos dela me olhavam de cara feia. Ela apenas virou-se e começou a falar com eles, ignorando-me completamente.

— Isabel, fala comigo, por favor!

— Você é um imbecil Carlos! — Foi Carolina quem falou, depois abraçou Isabel e afastando-se para o outro lado.

Eu fui atrás deles, desesperado.

— Por favor amor, não me ignora!

Então Isabel saiu do meio de seus amigos, virando-se para mim como um furacão, furiosa.

— Você mentiu para mim! Você disse que estaria no trabalho! Eu não vim até aqui por você, mas para ficar com meus amigos. E eu não vou deixá-los para trocar mais nenhuma palavra com você. Agora me deixa em paz!

— Vamos conversar, me deixa explicar. Eu estou muito confuso ultimamente. Se a gente conversar, tenho certeza que você vai entender. Eu também sou seu amigo!

Isabel baixou a cabeça e suspirou, depois ergueu a cabeça e soltou o ar com força, olhou para mim e falou calmamente:

— Eu sei que você está confuso. Eu te dei espaço. Eu te dei a chance de falar comigo muitas vezes, mas você não quis. Você preferiu se afastar de mim e mentir. Eu não sou idiota. Nem acho que somos amigo. Acho que não somos mais nada. — Ela virou-se para os amigos — Desculpa gente, eu vou pra casa.

Tentei falar com Isabel depois disso, mas ela se recusou. Eu a conhecia bem o bastante para saber que ela falaria comigo no tempo dela. Eu estava apavorado. Meu medo de perdê-la era tão grande, que todos os outros medos desapareceram, eu só queria que ela me perdoasse.

Isabel me ligou quase uma semana depois do bar, disse que estava pronta para conversar. Nos encontramos na graminha, na hora do almoço.

Quando eu cheguei, ela já estava lá, encostada em uma árvore, com os fones de ouvido, olhos fechados e cantando baixinho.

You give me, you're giving me the sweetest taboo/Too good for me/There's a quiet storm/ And it never felt like this before/ There's a quiet storm/ That is you

Parecia que a música falava de mim. Isabel sempre parecia escolher a música certa. Eu me aproximei devagar e permaneci de pé, até que ela abrisse os olhos. Ela suspirou e os abriu devagar, erguendo-os para olhar no meu rosto. O dela estava sério, impossível de ler.

Ela tirou os fones dos ouvidos enquanto eu me abaixava para ficar à altura dos seus olhos, então eu segurei sua mão e apertei, ela não disse nada.

— Eu te amo. — Comecei — E eu nunca amei ninguém antes. Eu estava com muito medo desse sentimento e tentei fugir dele. Agora eu só tenho medo de perder você.

Isabel continuava séria, olhando para mim como se esperasse algo mais. Eu enfiei a mão no bolso e tirei a caixinha que eu trazia comigo.

Faltava pouco tempo para completarmos um ano de namoro. Eu comprei o presente dela havia algumas semanas.

Eu vi um colar em uma joalheria e ele me fez pensar nela. Era uma corrente fina, em ouro branco, com um pingente delicado em forma de meia lua. Eu o comprei imediatamente e guardei para dar a ela no nosso aniversário. Agora, eu estava com medo de não ter essa oportunidade, então resolvi dar a ela naquele momento.

Isabel pegou a caixinha, sem dizer nada. Ela abriu e retirou o colar, ela o ergueu para ver o pingente e sorriu.

— É lindo. Eu vou guardá-lo para sempre.

Ela colocou o colar no pescoço e eu sorri ao perceber que tinha acertado, pois ele combinava perfeitamente com ela.

— Ficou perfeito em você. Linda!

Ela sorriu timidamente. Eu continuei.

— Então, você acha que pode me perdoar? Eu prometo que não vou mentir para você assim outra vez.

Isabel suspirou, então segurou o meu rosto com as duas mãos, depois inclinou-se para mim e me beijou. Foi um beijo doce, como o primeiro que demos, naquela mesma graminha. Eu a abracei possessivo e aliviado. Mas ela se afastou de mim, mais rápido do que eu gostaria, então começou a falar.

— Está tudo bem, eu também te amo. Mas acho que não podemos mais namorar.

Eu me assustei.

— O quê? Porque não?

— Porque sua amizade é muito importante para mim. Eu adoro passar tempo com você, conversar e rir com você. E nosso namoro acabou com isso.

— Não. Não mais. Eu não vou mais me afastar de você, eu juro!

— Espero que não Carlos. Eu sinto falta do meu amigo. Não quero mais namorar você, mas eu não quero te perder.

Eu estava sofrendo, mas eu a conhecia muito bem para saber que ela não voltaria atrás. E eu também não queria perdê-la. Seríamos amigos, e quem sabe um dia, eu voltaria a merecê-la.

— Você não vai me perder nunca!

Ela sorriu e me abraçou, encostando a cabeça no meu peito. Eu a apertei em meus braços, apertando a bochecha contra sua cabeça, e fechei os olhos, resignado