Amor, em primeira pessoa
18 O jantar
Isabel foi atrás dos filhos e me deixou sem respostas. Ela agiu como se não esperasse me ver de novo, mas parecia assustada, com medo mesmo.
Agora que eu sabia que aquelas crianças eram de Isa, eles se pareciam muito com ela, tinham os mesmos olhos e cabelos, eram crianças lindas.
Os clientes foram deixando o restaurante, que ficou vazio. Eu resolvi comer alguma coisa, planejando esperar Isabel sair para tentar falar com ela de novo.
Alguns minutos depois, uma senhora entrou no lugar e eu a conheci imediatamente. Levantei-me da cadeira do balcão e fui cumprimentá-la.
—Dona Carmem? Lembra de mim?
—Carlos? É você mesmo? O que faz aqui?
—Sou eu mesmo. Vim conhecer o paraíso pelo qual sua filha me trocou anos atrás. E confesso que estou achando que ela fez um bom negócio.
Eu a convidei a se sentar para conversarmos e ela aceitou.
—Você já falou com Isabel?
—Rapidamente. Ela teve que entrar correndo para cuidar dos filhos.
—Ah, então você conheceu os gêmeos.
—Gêmeos? Por isso eles são tão parecidos em tamanho. São muito bonitos. Mas eu só os vi correndo para lá e para cá.
Ela riu.
—Eles são lindos mesmo! E muito espertos, agitados. Eles são a vida da Isa, desde que nasceram.
—Eu imagino. Mas e o pai das crianças? É alguém aqui do parque? Ela se casou?
Dona Carmem me olhou de forma estranha, então suspirou antes de falar.
—Minha filha não se casou, ela não teve sorte no amor. Desde que ficou grávida, ela nunca mais namorou ninguém e só vive para o trabalho e para os meninos. Por que você não vem jantar conosco essa noite? Assim você conhece os gêmeos melhor e a gente conversa mais. Agora, tenho que levar as crianças para casa.
Dona Carmem me pediu para esperar um pouco, foi lá para dentro e voltou com as crianças.
— Venham aqui, deixa a vovó apresentar um amigo para vocês. Esse aqui é o Carlos, ele vai jantar conosco essa noite. Digam olá para ele.
—Olá Carlos! — Disseram ao mesmo tempo.
—Oi crianças. Como se chamam?
—O meu nome é Raquel e o dele é Raul.
—Ah! Muito prazer. Não vejo a hora de ir jantar com vocês essa noite. Será que vai ter sorvete?
—Não, lá em casa não tem sorvete. -— Falou Raul, decepcionado.
—Hum, então eu acho que eu vou levar um pouco, o que vocês acham?
As crianças sorriram animados e Dona Carmem me entregou um papel com seu endereço anotado. Eu voltei para o hotel, já que tinha perdido o resto do passeio com o grupo. Fiquei curioso para saber mais sobre os gêmeos e o pai deles. Eu queria saber o que aconteceu entre ele e Isabel, se ela o amou, e por que ele a abandonou com os filhos. Eu precisava saber se ela sofreu e se ainda sofria por ele.
Na hora combinada, cheguei ao endereço de dona Carmem. A casa ficava no meio do caminho, entre o parque e o centro da cidade, há uns 20 minutos do meu hotel. Toquei a campainha e o portão eletrônico foi aberto. Já estava escuro, mas eu vi que havia um quintal bem grande, com árvores e uma horta. Não era um sítio, mas uma pequena chácara, como Isa sempre quis. Bati à porta da frente e Isabel veio me atender. Ela sorriu formalmente e me cumprimentou.
—Boa noite Carlos. Seja bem-vindo a nossa casa. Pode entrar e ficar á vontade.
—Boa noite Isabel, obrigado por me receber. Você está linda.
Entrei na casa e a decoração era simples e agradável. A casa não era muito grande mas era confortável. E o cheiro da comida vindo da cozinha estava maravilhoso.
Dona Carmem me cumprimentou carinhosamente, ao contrário da filha. Ela me abraçou e me puxou pela casa, mostrando-me cada cômodo. As crianças também vieram me cumprimentar timidamente. Então eu disse a eles que tinha levado sorvete.
—Eu não sabia de qual sabor vocês gostavam, então eu trouxe um de morango, um de chocolate e um de creme.
As crianças gritaram animados e correram para a mãe. Eu entreguei as sacolas para Isabel e comecei a conversar com Raul e Raquel. Eles eram crianças maravilhosas, tão inteligentes e divertidas. Os dois me mostraram seus brinquedos e me fizeram prometer que voltaria durante o dia, para conhecer suas galinhas. Antes mesmo do jantar, eu já me via apegado aquelas crianças, filhas da mulher que eu amei a vida toda.
Depois do jantar e do sorvete, as crianças ainda estavam agitadas e reclamaram quando a avó os levou para o banheiro, para lhes dar banho. Ela disse que ia colocar as crianças na cama e sugeriu que Isa e eu fôssemos para a sala, conversar.
Nós nos sentamos na poltrona e Isa me serviu um licor delicioso, fiz uma anotação mental para comprar um desses para levar comigo quando voltasse para casa. Então Isabel puxou assunto.
—Eu soube que se divorciou.
—Sim, faz alguns anos. Infelizmente não éramos as pessoas certas um para o outro. Como você soube do meu divórcio?
—Lembra-se da Tatiana, da minha turma da faculdade? Ela namora o irmão de alguém que trabalha na sua firma. Ela me fala de você, de vez em quando.
—É mesmo? E o que mais ela te contou sobre mim?
— Ela me contou que você tem uma namorada e está apaixonado.
—Ah, sim, Valéria. Nós ficamos juntos por quase 3 anos. Ela é maravilhosa, me ajudou a me tornar um homem mais centrado sabe? Menos impulsivo e fútil.
—E por que vocês terminaram?
—Acho que nosso relacionamento era ótimo, mas ficou estagnado. Valéria não queria se casar de novo, ela só vivia por seu filho e eu acho que chegou a um ponto onde eu não tinha nada a lhe oferecer, então nós terminamos. E eu vim para cá.
—Aham. E o que você veio fazer aqui?
—Eu vim te ver. Eu precisava te pedir desculpas. Eu não esperava, e não espero que a gente volte a ser amigo depois de tantos anos, mas eu precisava saber se você ainda guardava alguma mágoa de mim e se poderia me perdoar.
Ela sorriu e eu me lembrei de como seu sorriso lindo iluminava meu mundo. Sempre foi assim e ainda era.
—Eu não guardo mágoa. Na verdade eu não tenho espaço para isso na miha vida. Meus filhos e minha mãe são minha prioridade. Já é difícil criá-los sozinha, não posso me perder em sentimentos ruins.
—O que aconteceu com o pai delas? Por que ele te deixou sozinha com os dois? —perguntei sem rodeios.
Isabel suspirou, baixando a cabeça por um instante, então falou triste:
—Ele não sabe sobre elas. Eu nunca contei a ele que tinha engravidado.
—Por que não?
—Eu — Ela olhou para mim quase desesperada—Ele… Eu achei que havia amor entre nós, que ele me amava. Mas ele me enganou.
— O que ele fez?
—Ele não me disse que era casado. Ele sabia como eu me sentia em relação a ele, então me escondeu o fato de que tinha esposa até me levar para a cama.
Eu fiquei ansioso. Aquela história se parecia com outra que eu conhecia. Continuei em silêncio, esperando ela terminar, mas meu coração batia descompassado, esperando pelo resto da história.
—Quando ele me contou, eu fui embora. Eu estava tão magoada que jurei não falar com ele nunca mais e pedi a ele que nunca me procurasse. Algumas semanas depois, eu comecei a passar muito mal e fui ao médico, então descobri que estava grávida de gêmeos. Minha mãe insistia que eu devia contar tudo para o pai, mas eu ainda estava com raiva. E com medo. — Ela virou-se e me olhou nos olhos, eu ainda não estava entendendo, minha ficha demorou a cair.
—Quando eu soube que você tinha se separado, pensei em te procurar. Mas então eu pensei que meses haviam se passado desde o divórcio sem que você me procurasse. As crianças já estavam com um ano e nós estávamos bem sem você, eu não quis te envolver. Acho que tive medo da rejeição. Não por mim, mas por elas.
Então um clique estalou na minha cabeça e minha ficha caiu. Ela continuou falando, com o rosto molhado pelas lágrimas que insistiam em cair dos seus olhos.
—Principalmente quando soube que você estava namorando e apaixonado. Eu me culpei pelo seu primeiro divórcio e não queria atrapalhar sua vida de novo. Decidi que os gêmeos seriam só meus.
—Você está me dizendo que… Os gêmeos… Eles são meus filhos?
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