Amor, em primeira pessoa
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Daqui a uma semana, Isabel e eu completamos um ano de casados. Não foi fácil no início.
Mesmo com tanto amor entre nós, houve um período de adaptação natural. Eu agora morava com meus filhos e queria participar de todos os aspectos da vida deles. Dona Carmem sempre cuidou deles enquanto Isa trabalhava, mas agora nós dividimos essa tarefa.
Minha sogra não gostou quando contratei alguém para cuidar da casa, limpar, cozinhar, essas coisas. Mas a casa agora era grande e eu não queria sobrecarregá-la. No início, dona Carmem reclamou que não tinha muito o que fazer, então, nós a incentivamos a entrar numa academia. Ela topou e logo encontrou outras atividades na cidade. Acho até que ela arranjou um namorado.
Já com Isabel, o problema foi financeiro. Ela sempre viveu do próprio dinheiro e, apesar de não precisar de nada, como ela dizia, sua vida sempre foi mais apertada. Ela estava acostumada a sustentar sua casa e as crianças, era ela quem cuidava das finanças da família, antes de nos casarmos.
Eu tinha mais dinheiro que ela. Mesmo estando com um escritório novo e menor, eu tinha clientes que me pagavam muito bem.. Além disso, durante alguns anos, eu ganhei muito dinheiro e fiz investimentos, então, eu tenho uma segurança financeira e posso proporcionar uma vida confortável a minha família.
Mas Isabel não queria que eu pagasse todas as contas, ela se sentia desconfortável. Então eu acabei concordando em dividir as despesas, proporcionalmente aos nossos ganhos. Ela ficou satisfeita assim.
Eu também precisei me adaptar, como pai em tempo integral. A primeira vez em que eu fiquei sozinho com as crianças, por 3 dias durante uma viagem de Isa e dona Carmem, elas adoeceram e eu quase fiquei louco.
Começou na manhã seguinte à viagem delas. Os dois não queriam levantar-se para ir à escola e eu achei que era preguiça e insisti para que fossem às aulas. Mas quando voltaram da escola, reclamaram que a barriga estava doendo e vomitaram. Eles estavam com febre de 38,5 graus.
Eu entrei em desespero, chorando junto com eles e os levei a um hospital. Quase bati no médico quando ele escreveu uma receita e me mandou pra casa com os dois, dizendo que era só uma virose. Exigi que eles fossem examinados direito. O médico então, pediu para que a enfermeira colhesse sangue para exames. Eu tive que segurá-los, enquanto chorando, eles me pediam para que eu por favor, não deixasse ela machucá-los. Eu os abraçava e tentava acalmá-los, enquanto chorava por vê-los sentindo dor.
Nós ficamos algumas horas no hospital, enquanto eles tomavam soro intravenoso. Os exames ficaram prontos e não havia nada de importante nos resultados. Eu fiquei aliviado, porque no fim, as crianças já estavam se sentindo bem.
Isabel riu quando soube, e me tranquilizou dizendo que no início ela também ficava assim quando as crianças ficavam doentes, mas agora ela já reconhecia os sintomas de uma virose comum e nem costuma levá-los ao hospital.
Quando enfim, todos os problemas resolvidos, todas as adaptações necessárias finalmente feitas, nós tivemos bom ano.
Mas, nas últimas semanas, notei uma mudança no comportamento da minha esposa. Ela andava irritada e impaciente, inclusive com as crianças, mas principalmente comigo. Isabel passava muito tempo no trabalho, e quando voltava para a casa, mal falava comigo, apenas passava algum tempo com as crianças, e logo após o jantar ia para a cama e caia logo no sono. Ela mal comia e parecia desconfortável com tudo. Tentei falar com ela, mas Isabel negou que houvesse algo errado, dizendo apenas que estava muito cansada e que iria ao médico, assim que tivesse algum tempo, pois não vinha se sentindo bem.
—Eu troquei a pílula anticoncepcional, mas acho que esta não está me fazendo bem. Vou tentar tirar um dia na semana que vem para ir à minha ginecologista e pedir para mudar o remédio outra vez. Não se preocupe Carlos, só me deixe quieta, por favor, estou muito cansada.
Talvez fosse mesmo o efeito do remédio novo, mas eu estava preocupado e triste. Eu conhecia Isabel havia muitos anos e nós já tínhamos vivido todo o tipo de relacionamento juntos. Ela sempre foi passional e nunca havia me ignorado como vinha fazendo nas últimas semanas. Eu nunca a tinha visto daquela maneira, tão fria e irritada comigo. Pensei que ela talvez não estivesse satisfeita com a vida que tínhamos, que estivesse arrependida pelo casamento.
Meu primeiro casamento durou pouco e saturou-se antes de completar um ano. É certo que eu não amei minha primeira esposa como amava Isabel e eu não era um bom marido para Liliana. Mas eu achava que era bom para Isa e para nossos filhos, procurei entender onde eu estava errando para tentar melhorar. Mas talvez o amor de Isabel por mim é que tenha acabado. Eu estava com muito medo de perdê-la, porque desta vez, eu sabia que seria definitivo.
Eu não dormi direito, tenso com aquela situação, mas também, porque surpreendentemente, isabel começou a roncar durante a noite e a se mexer muito na cama. Ela sempre dormia quietinha e nunca havia roncado, ao menos não quando dormia comigo. Acordei cedo e preparei o café. Estava sozinho à mesa quando dona Carmem chegou da rua e veio falar comigo.
—Você está bem querido?
—Não consegui dormir. Isabel está estranha, não consigo entende o que está acontecendo com ela. Acho que ela se arrependeu de ter se casado comigo.
—Claro que não meu filho, Isabel te ama! Ela sempre te amou. Não precisa ficar preocupado. Isabel já ficou assim antes, nervosa, irritada com todo mundo, trabalhando mais do que devia, sem apetite e sempre cansada. Ela ficou exatamente assim quando estava grávida dos gêmeos. Ela mesma não percebe que está diferente.
—Espera aí. A senhor acha que Isabel está grávida?
—Tenho quase certeza.
Isabel apareceu na sala, ainda de camisola, com os cabelos bagunçados e coçando os olhos, ela parecia um zumbi perambulando pela casa.
—Bom dia. Perdi a hora, eu precisava chegar mais cedo no parque hoje.
—Precisava nada Isabel! Senta aqui filha, preciso falar com você.
Isabel sentou-se e olhou direto para sua mãe, sem nem parecer notar que eu estava ali.
—Você se esqueceu de falar com seu marido!
—Eu dei bom dia mãe!
Isabel parecia uma menininha levando bronca da mãe. Eu achei graça.
—Bom dia Carlos, dormiu bem?
—Dormi sim amor. E você?
—Mais ou menos. Por mais que eu durma, nunca pareço descansada!
—Então filha, é sobre isso mesmo que preciso falar com você. Primeiro — Ela pegou algo na sacola que ela trouxe da rua — vá ao banheiro e faça esse teste de gravidez. Se der negativo, vou te levar agora no psiquiatra, porque se não, vamos enlouquecer por causa desse seu mau humor. Vai filha, agora!
Isabel segurou a embalagem do teste de gravidez e olhou para mim. Eu estava ansioso e com medo, mas ainda não tinha me caído a ficha do que estava acontecendo ali. Isabel levantou-se e saiu.
Dona Carmem e eu ficamos em silêncio por um tempo, até Isabel voltar com o tubo e mostrar para a mãe, que sorriu e abraçou a filha.
—Eu sabia! Só mesmo um bebê, para transformar minha doce filhinha nesse monstrinho insuportável!
Isabel olhou para mim, e parecia assustada. Eu estava incrédulo, sem ter certeza ainda do que estava acontecendo. Dona Carmem veio até o meu lado e me mostrou o tubo, com duas linhas azuis marcadas, que eu não sabia o que significava, mas imaginava.
—Parabéns papai! Mais uma criança para te enlouquecer hein, Carlos?
—A senhora tem certeza? Não pode estar errado?
—Não querido, sua esposa está grávida!
Virei meu rosto para Isabel. Ela estava parada no mesmo lugar, com o rosto impassível, evitando me olhar nos olhos. Eu ignorei sua impaciência dos últimos dias e caminhei até ela. Eu estava tão feliz. Olhei para ela e percebi que ela nunca me pareceu tão bonita antes. Mesmo com os cabelos desgrenhados e o rosto ainda inchado, ela era a mulher mais linda do mundo. Eu a peguei em meus braços e a abracei, apertando-a contra mim.
—Eu te amo tanto Isabel.
—Nós vamos ter outro bebê, Carlos. Como você se sente?
—Eu me sinto estupidamente feliz! 3 filhos, como a gente sempre quis!
—Eu sempre quis! Você só falava aquilo para me agradar e conseguir um pouco de sexo!
Eu ri, encostando minha testa na dela.
—Você sabe que eu nunca precisei de subterfúgios para fazer sexo com você!
Ela riu e me deu um soco no braço. Eu segurei suas mãos, entrelaçando nossos dedos e olhei em seus olhos.
—Eu queria ter 3 filhos com você. Eu queria ter uma casa com você. Eu queria uma família com você. Sempre e só como você! Entende isso Isabel? Eu amo você e sou o homem mais feliz do mundo. Prometo que vou ser o melhor pai para os nossos três filhos e vou me esforçar muito para ser o melhor marido para você, tá bom?
—Você já é, meu amor, o melhor pai e o melhor marido que alguém poderia querer. Eu nunca imaginei que a vida com você pudesse ser tão perfeita! Me desculpe pelo mau humor, eu deveria ter imaginado, eu fico assim na gravidez.
—Pois é, prepare-se para longos meses de má respostas viu, Carlos? — Brincou dona Carmem.
—Vou me preparar. Tenho certeza de que vai valer a pena!
—Mãe, eu prometo que vou tentar me controlar. Não quero ser um monstro!
— Mas você é o monstro mais lindo do mundo, minha linda esposa!
Feliz da vida, comecei a me preparar para novas emoções.
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