Amor e Ódio
6 Mágica, fascinante, encantadora e perigosa
— Você é um maldito traidor, John Roxton!— Benjamin estava enfurecido. O arquiteto tentava se equilibrar e assumir uma postura defensiva, mas, o historiador não lhe dava oportunidade para isto. — Eu abri as portas da minha casa achando que você era meu amigo e na primeira oportunidade você rouba o amor da mulher pela qual dedico minha vida. — John sabia que o amigo tinha razão, ele mesmo já tinha presenciado em várias oportunidades a devoção com a qual Ben cultuava Marguerite. Entretanto, no amor na guerra tudo é válido, e Roxton estava exatamente sobre essa linha tênue. Seu coração gritava para que ele se entregasse a essa paixão sem reversas, porém, sua consciência lhe mandava veemente ser fiel a sua promessa.
— BENJAMIN! — Marguerite gritou do alto da escada. — O que pensa que está fazendo? — A mulher desceu os degraus e se colocou entre os dois homens tentando separá-los.
— Solte-me, Marguerite! Isso não lhe diz respeito.— Benjamin tentava se livrar das pequenas mãos que tentavam contê-lo.
— Marguerite, ele tem razão. Este é um assunto de homens, não se envolva. — Roxton se incomodou com a proteção de Marguerite, ele era bem capaz de se defender sozinho, só não o tinha feito em respeito aossentimentos do amigo, mas, agora estava disposto a enfrentá-lo.
— Como não me diz respeito? Vocês estão agindo como duas crianças e eu não serei o prêmio de tal disputa.
— Marguerite, John foi um traidor, abusou da minha amizade... espreitou-se como um criminoso, desrespeitou nossa casa e nossa família.
— Isso não é verdade! Você sabe que não é. John e eu nos apaixonamos desde o primeiro momento que nos vimos. Ele pediu permissão ao meu tio para que namorássemos, e, tio Arthur concedeu. — Era duro ter que dizer palavras tão cruéis a Benjamim. Marguerite o amava como a um irmão, mas, não podia iludi-lo, era absurda aquela briga.
— Ela tem razão, Benjamin. Eu pedi permissão ao seu pai... eu lamento, mas, não mandamos no nosso coração. — John levou a mão esquerda ao queixo dolorido tentando aliviar a dor. Pensou se havia mentido no que acabara de dizer. Se não houvesse a vingança, ele abriria mão de estar com Marguerite apenas pelo sentimento do amigo? Benjamin estava pronto para golpeá-lo novamente quando uma voz autoritária soou em toda a sala.
— Benjamin, pare com isso, imediatamente.— Arthur sabia ser enérgico quando era preciso, e, embora desejasse do fundo do coração que o filho colocasse o arquiteto no seu devido lugar, sabia que Benjamin estava errado. Marguerite e John estavam namorando, sob sua benção, e, ninguém pode fazer nada respeito. — Essa foi uma escolha de sua irmã, você tem que aceitar. — O homem loiro recuou diante das palavras do pai. Olhou a mulher que amava com desprezo e mágoa. Isto a feriu profundamente. Depois, desviou a atenção para seu ex amigo que ainda se recuperava dos golpes, sendo amparado pela namorada.
— Escute bem, John Roxton... se você a fizer derramar uma lágrima, eu juro, eu vou lhe encontrar e fazê-lo se arrepender de ter entrado nesta casa. E você, Marguerite, ainda vai se arrepender de rechaçar meu amor. Ele não a merece, não como eu.
— Já basta, Benjamin! — Arthur não suportava ver o filho naquele estado. O homem obedeceu ao pai e saiu com a cabeça baixa, derrotado. Em seu coração tinha amargura e uma vontade incontrolável de destruir John.
Marguerite tinha os olhos rasos de lágrimas não derramadas diante daquela situação. A garota se sentia péssima por fazer sofrer a quem amava como família. Sabia o quanto Benjamin a considerava, mas, o que mais lhe feria era ter consciência que rejeitando Ben, ela também estava fazendo seu amado tio infeliz.
— Querida, leve seu namorado até a cozinha e cuide desses ferimentos. Eu tratarei de fazer com que cenas assim não se repitam. Sei que vocês não têmobrigação de se esconderem, são livres, jovens e não devem satisfações sobre suas decisões, mas, falo como pai... sua presença nessa casa é bem vinda, Sr. Roxton, entretanto, gostaria de pedir aos dois que dessem tempo e espaço a meu filho. Ele é um rapaz sensível e... apaixonado... tenho certeza de que se dará conta, mais cedo ou mais tarde, que os sentimentos que Marguerite sente por ele são puramente fraternais.— Havia tristeza, mas também bom senso nas palavras de Summerlee.
A jovem foi a primeira a se compadecer do pedido do tio, em seguida, John também concordou com apelo do senhor. Ele tinha um certo sentimento de culpa por ter traído a confiança do amigo, e, se fazer presente expondo seu relacionamento com a amada do rival seria no mínimo muita falta de caráter. É verdade que ele havia infringido muitos de seus valores desde que chegou a Londres, mas, preferia acreditar que não havia se tornado um total canalha, embora, em alguns momentos chegasse a pensar que era o que Marguerite merecia de si.
Na cozinha, a mulher desinfetava os ferimentos do namorado com delicadeza, mas, nem o toque suave de seus dedos eram capazes de abrandar os gemidos dolorosos de John cada vez que o antisséptico tocava sua pele. Embora triste pelo que ocorreu minutos antes, ela não conseguia conter a graça ao notar como um homem robusto temia a leve ardência de um curativo. Para aliviar o desconforto, a moça assoprava suavemente a pele dele conforme limpava as feridas. Isso era muito excitante para John, Marguerite era sensual de uma maneira despretensiosa, e, ele precisava se afastar dela antes que a tomasse nos braços ali mesmo e saciasse o desejo que o consumia desde que a conheceu.
— Você parece estar se divertindo. — Disse ele com sarcasmo que nem foi notado por ela.
— Não é isso, mas... é um pouco engraçado, um homem do seu tamanho ter medo de um curativo. —Não pode conter a risadinha. Ele sorriu também, era lindo vê-la sorrir, queria ser capaz de fazê-la feliz para sempre, mas, sua missão ali era outra.
— Bem, do jeito que você é bonita, não deve ser a primeira vez que dois homens se engalfinham buscando sua atenção. Isto deve ser parte do seu cotidiano. – Sabia que tinha sido cruel, ele mesmo tinha observado as lágrimas de lamentação nos olhos dela, era claro que não estava satisfeita com tudo o que aconteceu, mas, ele não podia perder a oportunidade de feri-la, mesmo sabendo que também doía nele tal atitude.
— Por que diz isso? — Ela largou a gaze, que usava para limpar os machucados, dentro da bacia. — Você acha que eu me alegro ou sinto prazer com o que acabou de acontecer? — Marguerite era surpreendente, a meiguice se transformava facilmente em fúria diante do que ela jugasse absurdo. — Eu já lhe falei uma vez, repetirei e espero que agora você entenda, caso contrário, essa relação não tem propósito para continuar. Eu amo a Ben como a um irmão. Jamais lhe dei esperanças de algo além disto. Se me acha tão vazia e superficial, capaz de ferir minha família a troco de uma vaidade medíocre, não deveria ter me proposto namoro. — Ela se preparou para deixá-lo ali mesmo, ia virando-se para sair quando ele a impediu, segurando sua mão.
— Desculpe-me, essa não era a minha intenção. Não quero magoá-la novamente. E nem deixarei que fuja de mim como fez em Avebury, eu corri toda a estação de trem a sua procura, se isso se tornar rotina terei que melhorar meu condicionamento físico. — Elebrincou. Notou que a expressão severa de Margueritese abrandou diante da confissão que havia feito. Ela parecia realmente se incomodar com dois homens disputá-la a tapa, será que sua capacidade de dissimular chegava a tais níveis de fingimento?
— Você foi mesmo atrás de mim na estação?
— Sim... logo depois de percorrer todo o estacionamento. Estava preocupado com você, se algo lhe acontecesse eu não me perdoaria.
— Obrigada... — Ela tocou suavemente os lábios de John, o pegando de surpresa. Ele não pode resistir aquela carícia inesperada. Sua mão esquerda se entrelaçou pelos cachos negros e macios puxando-a mais para perto e aprofundando o beijo. Ela não se esquivou, acariciou seus cabelos curtos enquanto saboreava aquele momento. Sentiu o corpo do homem retesar e imaginou que tal contração fosse devido ao corte no canto direito da boca. Ela sequer tinha se dado conta que o namorado tinha os lábios feridos. Interrompeu imediatamente, deixando-o esperando a continuidade. — Sinto muito, eu não queria machucá-lo.
— Acho que existem coisas pelas quais vale a pena sentir um pouco de dor. — Levantou as sobrancelhas arteiramente. Marguerite sorriu envergonhada, estava disposta a beijá-lo novamente, muitas vezes na verdade, mas, lembrou da promessa que fez ao tio e o melhor a fazer era almoçar em outro lugar evitando assim novos confrontos.
— Precisamos encontrar um lugar paraalmoçarmos.
— Você tem razão. Alguma sugestão?
— Existe um lugar, em Stockwell, não é muito sofisticado, mas a comida e o atendimento sãoespetaculares, chamasse The Three Lions, o que acha?
— Se é uma sugestão sua, eu já estou de acordo.
O restaurante de esquina não era o que John imaginava. Quando ela mencionou que o lugar não era sofisticado não estava mentindo. Uma marquise vermelha, o cardápio do dia escrito em giz em um pequeno quadro negro e dezenas de pequenas placas indicando se estava aberto ou fechado e as credenciais bancárias aceitas completavam a peculiar fachada do prédio.
Assim que entraram, ele pôde notar que suaacompanhante não era uma desconhecida ali. Surpreendeu-se com a forma carinhosa com a qual os garçons a tratavam, aliás, surpreender-se com Marguerite estava se tornando hábito comum.
— Madge! Que surpresa! Achei que havia esquecido os velhos amigos. – Uma senhora simpática saiu de trás do balcão e abraçou a morena com entusiasmo.
— Cindy, eu estava com saudades também. Jamais esqueceria vocês, tampouco a sua comida deliciosa.
— Você é muito gentil, querida. E esse bonitão? Não me diga que finalmente alguém conseguiu conquistar esse coração de ouro? — A mulher examinou Roxton com curiosidade e sorriu satisfeita como se conseguisse ver uma alma boa embora repleta de tristezas.
— Não seja indiscreta, Cindy. Mas, sim. Quero que conheça John, ele e eu estamos namorando.
— É um prazer conhecê-la, senhora, John Roxton para lhe bem servir. – John cordialmente beijou a mão da agradável mulher.
— Madge, minha querida, você sabe que eu torcia pelo rapaz loiro que sempre vinha aqui com você, mas, esse lorde já está ganhando meu coração. — Disse Cindy de forma divertida.
— Você sabe que Benjamin é um irmão para mime...
— Não querida, não falava de Ben, ele é um bom rapaz, mas estava claro que vocês não têm nada em comum... falo daquele seu colega, que vinha com frequência com você.
— William? — A moça perguntou espontânea. Não imaginava que a pergunta despertou uma chama de ódio dentro de John.
“Então ela vinha aqui com meu irmão. Ele, assim como eu, provavelmente se encantava com a simplicidade e simpatia dela e era assim que Marguerite conseguia tudo o que queria. Como eu posso ser tão bobo a ponto de cair na mesma armadilha” pensou.
— Esse mesmo, um ótimo rapaz. Nunca entendi por que vocês não namoraram.
— Isso é simples, Cindy. Não namoramos porque éramos apenas amigos. E agora deixe de ser indiscreta e arranje uma mesa para mim e Sr. Roxton, estamos famintos.
— Claro querida. Por aqui...
Depois de acomodados, Marguerite notou que John estava mais quieto do que o normal, pensativo e alheio ao que acontecia a sua volta.
— Ofereço um centavo pelos seus pensamentos. – Ela brincou.
— Garanto que eles não valem tanto...
— O que Cindy disse o incomodou? Não leve em consideração, ela gostava muito de William e...
— Você fala muito deste rapaz, ele deve ter sido importante na sua vida. Concordo com Cindy, não seria surpresa se fossem perguntar. – John precisava perguntar.
— Novamente esse assunto? Eu e William éramos amigos, os melhores amigos, trabalhávamos juntos e almoçávamos aqui, que mal há nisso? Não me diga que você é antiquado a ponto de não compreender uma amizade entre um homem e uma mulher.
— Claro que eu compreendo... eu mesmo e minha sócia somos bons amigos... — John preferiu omitir seu relacionamento prévio com Danielle, ele não sabia bem o motivo ter feito isso, apenas o fez.
— Você percebe?
— Percebo o que?
— Você sabe quase tudo da minha vida e eu sequer sabia que você tinha uma sócia. Que tal, para variar um pouco, você me falar sobre sua vida. Apenas sei que você nasceu em Avebury.
— Minha vida não é tão emocionante assim, eu fiquei órfão de pai ainda criança, minha mãe se casou novamente, mas, quando eu era adolescente ela e meu padrasto morreram em um trágico acidente. Eu fiquei sobre a tutela do melhor amigo de meu padrasto, um bom homem que me ensinou e incentivou. Depois fui estudar na Itália, me formei e abri um escritório de arquitetura com uma amiga da universidade. Depois de alguns anos eu recebi uma herança na Escócia, uma destilaria de uísque e estou em Londres acertando algumas coisas para tocar esse novo empreendimento... fim.— Ele temeu que ao mencionar a destilaria a faria desconfiar de algo, mas, ela reagiu como se não houvesse feito nenhuma relação.
— Não achei tão monótono como você sugeriu, ao contrário, me parece muito emocionante trocar tão drasticamente de ramo.
— Imagino que será apenas por um tempo, quero honrar a memória da pessoa que me deixou essa herança. Provavelmente, quando meus objetivos seremalcançados voltarei a Milão.
— Sabe, John. — Ela tocou a mão do namorado com carinho. Ele se recusava a admitir, mas o toque suave da pele dela contra a dele e forma como ela falava seu nome, eram maravilhosos. Tentava não imaginar que outras sensações suas carícias seriam capazes de lhe proporcionar. — Nossas histórias têm semelhanças, eu também tive a convivência com meus pais biológicos ceifada por uma tragédia, fui acolhida pela família Summerlee e sou muito grata por isso.
— Eu tenho certeza de que sim, e sei que eles lhe amam muito. Percebi isso pela maneira como seu tio e Benjamin me confrontaram diante do meu interesse por você. — Ele sorriu e levou a mão ao queixo dolorido, fazendo-a rir também. — Existe algo em você que é mágico, que fascina, encanta e atrai. — Ele estava sendo sincero, e sabia o quanto isso era perigoso, a cada segundo ao lado de Marguerite se sentia mais preso a ela e esperava ter consigo a chave para soltar-se.
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