Amor e Liberdade [PAUSADA]
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Estou correndo por um labirinto de árvores frondosas e altas. Está frio, mas mesmo assim o suor escorre pela minha testa. Não visto nada além de minha fina camisola, que por algum motivo está rasgada na bainha. Corro desesperada, à procura de uma saída, de um caminho de volta para casa. Ouço, de repente, um som estrondoso de explosão e olho por cima do ombro a tempo de ver as árvores atrás de mim pegarem fogo. Esse fogo furioso se espalha numa velocidade incrível e, se eu não continuar a correr, me alcançará. Minhas pernas doem, mas não param. Subitamente, quando dobro uma esquina do labirinto, trombo com ninguém menos que Kristoff.
“Oh! Kristoff! Você me encontrou!”
A presença dele estranhamente aumenta meu medo, como se ele fosse mais perigoso que o fogo que se aproxima. Sua mão segura meu pulso com força demais e ele rosna para mim, zangado.
“Eu mandei você ficar em casa. Você é minha. Você me deve obediência.”
Antes que eu consiga protestar, Kristoff me agarra contra a minha vontade e me joga sobre os ombros, como se eu fosse um saco de batatas. Grito, dizendo que ele está me machucando, mas ele não responde. Começa a caminhar em direção a um casebre negro que surge do nada. O fogo desaparece atrás de nós. Kristoff entra na construção precária e me lança no chão de madeira. Ódio brilha em seus olhos.
“Terei que corrigi-la, querida. Você vai aprender da pior maneira que não pode me desafiar.”
E então eu acordo. Aos gritos. Suando frio. Madame Daisy irrompe no quarto, segurando um candelabro com duas velas acesas. Está de camisola e touca de dormir cobrindo os cabelos grisalhos. Quer dizer que ainda é madrugada.
– Anna! – ela deposita o candelabro sobre minha cômoda. – Minha querida, o que está acontecendo?
Papai chega ao quarto, ainda usando as roupas do jantar.
– Você está bem, minha filha?
Salto da cama e corro para os braços de meu pai. Choro. Não consigo tirar aquelas imagens de Kristoff de meus pensamentos. É mais do que posso suportar.
– Eu... e-eu tive u-um... – soluço, sem fôlego.
– Teve um pesadelo? – meu pai pergunta, afastando-me para me encarar.
– Fo-foi mais do-do que um pesadelo – choramingo. – E-estou com me-medo de me casar, papai. Estou com medo dele.
Papai olha para madame Daisy.
– Deixe-nos, madame.
Ela assente e sai do quarto, fechando a porta atrás de si. Papai me ajuda a sentar na beira da cama e segura minhas mãos.
– Não precisa ter medo, querida. Eu sempre estarei aqui para você, não importa o que aconteça. Mesmo que eu tenha que cruzar meio mundo para achá-la, eu o farei, porque você é minha menina – ele me abraça. – Você não precisa temer Kristoff. Ele é um bom rapaz, vejo nos olhos dele.
– Mas... – mio. – E se ele acabar se tornando outra pessoa quando casar comigo? Como posso ter certeza de que ele será bom e gentil sempre?
– Você não terá, querida. Ninguém é bom e gentil o tempo todo. Mas precisamos acreditar no melhor das pessoas e buscar isso nelas. – Ele me abraça outra vez e coloca-se de pé. – Sempre estarei aqui para você, não se esqueça. Mas está na hora de você mesma enfrentar seu destino, Anna. Você é forte e corajosa. Você consegue.
Enxugo as lágrimas e assinto. Tento me acalmar. O que há de errado comigo, afinal? Foi apenas um pesadelo. Kristoff não me deu motivo algum para pensar coisas ruins dele. Não posso deixar que meus medos me assustem.
– Está se sentindo melhor? – papai pergunta.
– Sim – confirmo com a cabeça.
– Ótimo – ele sorri. – Boa noite, Anna.
– Boa noite, pai.
Assim que papai deixa o quarto, salto outra vez da cama e corro a abrir meu guarda-roupa, onde escondo pertences de minha mãe de quando ela era jovem em um fundo falso. Desde que ela se foi há oito anos, sempre que estou assustada, com medo das tempestades ou acordo aflita após um pesadelo, pego suas coisas e fico admirando, tentando fazer alguma conexão com quem ela era. Isso me dá a breve sensação de que um pouquinho dela ainda está aqui comigo. E meu medo se vai.
Acabo adormecendo abraçada ao primeiro cobertor de tricô que minha mãe costurou. Os bordados são tortos e espaçados demais, mas é um trabalho das próprias mãos dela e isso vale mais do que o mais caro dos enxovais.
Acordo com madame Daisy me chamando à porta de meu quarto da mesma maneira irritante de sempre. Hoje, porém, há uma estranha empolgação em sua voz. Curiosa, levanto-me, esfrego os olhos e abro a porta para ela, que entra igual a um furacão. Há um buquê de rosas do inverno e uma caixa enorme de chocolates em seus braços.
– Olhe só o que o mensageiro acaba de trazer, Anna! – Daisy deposita os presentes em meus braços. – O senhor Kristoff mandou isso para você. Ele não é um rapaz adorável?
Afundo meu rosto no buquê, cheirando as rosas de inverno – flores raras encontradas apenas em Arendelle – e suspiro. Flores e chocolates, como nos livros. Mal consigo pensar no pesadelo que tive.
– Envie um cartão a ele, madame – peço, sentindo-me flutuar. – Diga que sou muito grata pelos presentes.
Madame Daisy abre um sorriso capaz de derreter toda a neve da vila.
– A senhorita pode agradecer pessoalmente! – ela bate palmas. – Ele está nesse momento lá embaixo, falando com o senhor seu pai!
– O quê?
Tropeço no pé da cama e caio de joelhos não chão. Kristoff aqui? Sem que eu esteja devidamente apresentável? Essa não.
Levanto-me cambaleante e jogo os presentes sobre minha cama. Começo a andar de um lado para o outro, procurando um bom vestido, fitas de cabelo, sapatos bonitos e...
– Oh, acalme-se, Anna – repreende madame Daisy. – Uma boa moça não age dessa maneira destrambelhada. Venha lavar-se. Já preparei suas roupas. O senhor Kristoff não vai a lugar algum até que veja a senhorita.
Franzo os olhos para ela.
– Sou quase uma senhora, madame.
Ela revira os olhos.
– Mas ainda não é, menina tola. Ande depressa. Só porque seu noivo está disposto a esperá-la, não quer dizer que deve deixá-lo esperando.
– Isso não faz sentido – rio, sacudindo a cabeça.
– Ande, ande, ande!
Fale com o autor