Amor e Liberdade [PAUSADA]
3 Capítulo 3
O vestido em que madame Daisy me coloca é de tirar o fôlego: azul marinho, de pregas na saia rodada e alças trançadas. Eu o adoro logo que me olho no espelho e, por um segundo, esqueço o motivo de estar usando-o. Meu coração não desacelera desde que as arrumações para a chegada dos Bjorgman começaram, à tarde. Recebi visitas de minhas amigas Reidi e Vega, que me trouxeram perfumes, joias e fofocas sobre meu futuro noivo.
Aparentemente, o herdeiro Bjorgman era estonteantemente lindo a ponto das mulheres de sua cidade fazerem filas imensas para ter sua atenção, atlético a ponto de ganhar todos os jogos esportivos de sua região e rico a ponto de poder comprar um país. Vega estava extasiada e não parava de repetir o quanto eu tinha sorte. Reidi teve comigo o que ela chamou de a conversa, o que me deixou suando frio e inquieta demais. É claro que eu sabia o que meu noivo e eu faríamos depois de casados, mas ter alguém me lembrando disso me deixava a ponto de explodir.
– Suas bochechas estão quase roxas, Anna – comenta madame Daisy, tirando-me de meus devaneios. – Em que está pensando?
Toco meu rosto por reflexo e olho para ela.
– Eu... só estou nervosa. Papai disse que os Bjorgman levam muito a aparência em consideração – minto.
Madame Daisy sorri e começa a escovar meus cabelos avermelhados. Tenho o costume de trançá-los, deixando tranças penderem sobre meus ombros, uma de cada lado. Mas hoje, não. Hoje, definitivamente não serei eu mesma, serei quem Arendelle precisa que eu seja.
– Você é belíssima, menina – elogia Daisy, trançando minhas madeixas num coque alto e firme. — Tenho certeza de que o rapaz cairá aos seus pés assim que colocar os olhos nesse rostinho.
Eu não tenho toda essa certeza. Ainda espero que meu futuro noivo me ache feia, magra ou pequena demais e desista dessa bagunça toda. É um desejo egoísta, eu sei, mas ainda assim...
– Aí está – madame diz, cheia de emoção assim que termina de me arrumar. – A noiva mais encantadora que esse mundo já viu.
Encaro-me no espelho. Eu não me pareço comigo mesma.
– Você fala, madame, como se meu casamento fosse hoje.
– Imagine então quando o grande dia chegar! – ela bate palmas e eu sorrio torto.
A noite cai devagar e a neve parou de cair há uma hora, mais ou menos. Olho pela janela de meu quarto e suspiro. Posso ver as luzes da vila acenderem-se aos poucos e imagino todas as minhas amigas passeando pelas ruas enquanto carregam cestas de flores silvestres para vender ou dar de presente a quem passa por elas. Amanhã é dia de música na praça principal. Espero poder escapar de todo o caos que minha casa se tornou e dançar pelo menos uma canção com um desconhecido ou com Reidi e Vega.
Rio de mim mesma. É claro que não poderei escapar. Estarei noiva e completamente comprometida. Às vezes sou tão patética.
Ouço três batidas na porta e uma criada coloca metade do corpo para dentro do quarto anunciando:
– Eles chegaram. O senhor seu pai solicita sua presença, senhorita Anna.
Fico apavorada e me sento na beirada de minha cama, tremendo. Madame Daisy nota.
– Não se preocupe, minha flor. Tudo dará certo.
– Você estará lá comigo, madame? – pergunto, chorosa.
Ela estende a mão para mim, sorrindo como a mãe que nunca conheci.
– O tempo todo. Vamos?
Seguro a mão de madame Daisy com força enquanto passamos pelo corredor dos quartos e descemos as escadas, que dão diretamente para o hall de entrada. Ouço as vozes antes de ver os rostos das pessoas. Parecem muitas e meu coração parece prestes a sair pela boca. Aperto ainda mais a mão de Daisy e ela afaga meus dedos, compadecida.
Quando finalmente chegamos ao hall, meus olhos buscam com avidez a figura de meu noivo, mas vejo primeiramente o senhor e a senhora Bjorgman. São ambos altos e louros. Olhos cor de avelã e sorrisos brilhantes. O senhor Bjorgman usa um uniforme militar, decorado com medalhas e ombreiras douradas; a senhora Bjorgman exibe sua boa forma num vestido roxo de seda com mangas compridas e joias belíssimas.
E então eu o vejo.
Ele é louro, forte e alto. Tem um rosto gentil, olhos castanho-claros e um nariz um pouquinho torto. Seus ombros são largos como daqueles personagens heroicos de romances épicos e o meio sorriso que ele exibe quando seus olhos encontram os meus dá a seu rosto uma beleza sobrehumana.
Pisco três vezes, sem reação. Meu coração dá um salto triplo.
Quase não ouço meu pai quando ele diz:
– Esta é minha jovem Anna, minha preciosidade.
O casal Bjorgman sorri alegremente para mim e eu retribuo assentindo em saldação. O filho dá um passo em minha direção e toma minha mão nua entre as suas. Eu estremeço, mas tento não transparecer o quanto estou uma pilha enorme de nervos.
– É um imenso prazer conhecê-la, senhorita – ele sussurra contra as costas de minha mão e dá o mais suave dos beijos.
Sorrio, sentindo as bochechas arderem.
– Igualmente, senhor...
– Kristoff – diz ele, assentindo uma vez com a cabeça. Por um segundo, parece tão envergonhado quanto eu. – Creio que posso chamá-la de Anna, já que somos... bem...
Rio como uma boboca.
– É claro.
– Venham, senhores – papai interrompe, todo risonho. – Jantemos agora.
Madame Daisy sai de meu lado e aproxima-se de papai.
– Devíamos deixar o senhor Kristoff e Anna a sós por um momento, não? – indaga ela, cheia de segundas intenções. Então olha para o casal Bjorgman. – Acompanhem-me, senhores, até a sala de jantar.
A senhora Bjorgman acena com a mão para mim enquanto todos deixam o hall de entrada. Estou tão nervosa que nem me dou conta de que devia ter acenado de volta.
Olho para Kristoff e flago-o olhando para mim. Ele é tão grande e forte que me sinto minúscula ao seu lado. Seus cabelos dourados estão pentados para trás e quase chegam aos ombros, brilhantes. Ele é muito bonito. Seu queixo é um pouco rígido, menos quando ele sorri. Pergunto-me se ele também está me avaliando e se gosta do que vê tanto... bem, tanto quanto eu gosto do que vejo. Poderia ficar admirando-o por horas.
– Isso é tão constrangedor – ele diz, e suas bochechas ficam coradas.
– Desculpe – sussurro rapidamente. Onde estou com a cabeça? Ficar encarando rapaz como uma maluca? Ora, teremos a vida toda para olhar um para o outro.
A vida toda.
Estremeço.
– Não se desculpe. Não fez nada de errado, Anna. É toda... essa cerimônia que deixa tudo estranho.
– Terei que concordar – sorrio. – Meu pai me contou hoje pela manhã.
As sobrancelhas grossas dele arqueiam-se.
– Hoje?
– Sim. Mas não vamos falar sobre isso, tudo bem?
Kristoff sorri.
– Por mim tudo bem. Temos apenas uma semana e não quero desperdiçar nem um segundo. Quero saber tudo sobre você.
Franzo a testa.
– Uma semana?
O sorriso de desculpas de Kristoff quase parte meu coração.
– É, uma semana. Meu pai e eu temos negócios importantes no reino vizinho ao meu, Corona, e receio ter que deixá-la esperando por mim. Sinto muito.
Ele soa tão honesto que me derreto.
– Eu... eu entendo. Bem – rio – vamos fazer bom uso de nosso tempo então.
– Já tem algo em mente?
– Talvez.
Ele se aproxima de mim a ponto de eu poder sentir sua respiração em meu rosto e toma minhas mãos nas suas.
– Querida Anna de Arendelle, sei que acabo de conhecê-la e para você não passo de um estranho que veio virar sua vida de cabeça para baixo. Mas lhe prometo, como seu noivo daqui para frente, que farei o possível e impossível para fazê-la feliz. Não sou perfeito, mas farei meu melhor para que isso – ele aperta minhas mãos suavemente e beija uma de cada vez – dê certo. Você tem minha palavra.
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