Amor e Liberdade [PAUSADA]
9 Capítulo 9
Quando Trudy, uma das criadas, sacode meu ombro, assustando-me, percebo que dormi no sofá da sala de estar durante duas horas. Olha para ela, confusa, e esfrego os olhos. A lareira ainda está acesa e minha caneca de chocolate quente está vazia, caída no tapete.
– Trudy... – bocejo. – Você me assustou. Que horas são?
Ela recolhe a caneca do chão.
– É quase hora do almoço, senhorita. Achei que ia querer estar acordada.
Esfrego os olhos mais uma vez. Meu vestido está amassado.
– Obrigada – digo. – Meu pai já está em casa?
– Não retornou ainda, senhorita. Ele mandou um mensageiro avisar que só volta mais tarde.
Franzo a testa. A reunião devia ser bastante importante para tirar papai de casa em pleno sábado.
– Há uma visita esperando pela senhorita lá fora – Trudy diz, um tanto tímida. Ela é jovem demais para servir e me pergunto se papai me deixaria ensiná-la a ler e escrever algum dia. Toda garota deve saber ler e escrever.
– Desculpe, quem?
Ela dá de ombros.
– É um rapaz, senhorita.
Coloco-me de pé, ajeitando a saia do vestido.
– Kristoff?
Trudy franze a testa e enrola os dedos no avental.
– Não, senhorita. Eu nunca o vi por aqui antes. Ele insiste em falar com o responsável pela casa e como o senhor seu pai está ausente, chamei a senhorita.
Respiro fundo. Este é um dos momentos em que preciso agir com maturidade suficiente para provar a papai e a mim mesma que sou perfeitamente capaz de ir à metrópole.
– Muito bem. Diga a ele que vou recebê-lo.
Trudy morde o lábio.
– Não deveria pedir a Kai que converse com o jovem senhor primeiro, senhorita? Por segurança?
Kai é o braço direito de papai aqui em casa. Ele cuida de tudo enquanto papai está fora resolvendo os assuntos de Arendelle. Eu sempre o considerei um mordomo.
– Kai está aqui? – arqueio as sobrancelhas. – Ele disse que iria a Dunbroch essa semana.
– Ele chegou há pouco tempo, senhorita.
– Certo, certo. Chame Kai e peça que ele me acompanhe até o portão.
Trudy faz o que pedi. Cumprimento Kai com alegria e digo a ele que há alguém esperando para ser recebido. Vamos ao portão alto de ferro e nos deparamos com um rapaz alto, esguio e de cabelos avermelhados num tom mais escuro que os meus. Ele está elegantemente vestido e assim que nos vê, tira o chapéu e o coloca debaixo do braço.
– Bom dia, senhor – diz Kai, cruzando as mãos sobre sua barriga protuberante. – Como podemos ajudá-lo?
– Olá, senhor – ele olha para mim e parece desnorteado por um ou dois segundos – e senhorita. Meu nome é Hans e venho das Ilhas do Sul a pedido de meu tio para tratar de assuntos com o duque de Arendelle.
Kai resmunga.
– Duque de Arendelle?
– Exato. Desejo ver o duque Agdar – o rapaz sorri, simpático.
– Meu pai não é um duque, senhor – eu digo. – Aqui ele governa como prefeito.
O jovem senhor Hans olha para mim e arqueia as sobrancelhas.
– Prefeito? Bem... De qualquer maneira, é importante que eu fale com ele. Meu tio deveria estar aqui, mas houve um acidente que o impediu de viajar. Acabo de chegar a Arendelle e gostaria de voltar para casa o quanto antes possível.
– Lamento, senhor Hans, mas no momento o prefeito Agdar está em uma reunião importantíssima na prefeitura – diz Kai, um tanto ríspido. – Queira ter a bondade de retornar numa outra ocasião.
– Eu... entendo – responde o jovem senhor, baixando os olhos para as pedras da calçada.
Olho para Kai, de testa franzida. O assunto sobre qual o senhor Hans tem a tratar parece importante demais para adiar. Como uma filha responsável, devo cuidar do assunto em nome do meu pai até que ele esteja presente para resolver por ele mesmo.
– Na verdade – digo -, o senhor não gostaria de almoçar conosco e aguardar aqui até que meu pai chegue? Deve estar exausto da viagem...
O semblante do senhor Hans se ilumina, mas ele parece hesitante. Sinto os olhos de Kai pesando sobre mim, mas eu o ignoro.
– Adoraria, senhorita. Mas não devo incomodá-la em suas refeições quando meu único objetivo é discutir negócios com seu pai.
Dou um passo em sua direção.
– Oh, mas não será incômodo algum.
– Entenda, senhorita, o senhor Hans deve ter muitos assuntos a tratar – intervém Kai, forçando um sorriso.
– Ele pode tratar de seus assuntos depois do almoço – dou de ombros.
– Sinto-me honrado – senhor Hans faz uma reverência com a cabeça, sorrindo.
Gosto de olhar para ele. É bonito de uma maneira até comum, mas sua postura e seus trejeitos o fazem parecer nobre. E eu jamais deixaria alguém sair de minha casa decepcionado.
O senhor Hans, Kai e eu entramos e somos recebidos por Layla no hall. Ela recolhe o casaco e o chapéu de senhor Hans, e eu o convido a se sentar na sala de estar. Kai permanece o tempo todo ao meu lado, como um cão de guarda pronto a dar o bote a qualquer momento. Não sei por que motivo ele está se comportando desse jeito.
– Diga-me, senhor Hans, como é o lugar de onde o senhor vem? – pergunto, ignorando propositalmente a presença de Kai. Sento-me numa poltrona ao lado da lareira.
– Por favor, cara senhorita, chame-me apenas de Hans – diz ele, sentando-se no sofá que fica de frente para mim.
– Oh, como quiser – rio. – Meu nome é Anna.
– É um prazer conhecê-la.
– Igualmente.
Hans dá uma rápida olhadela para Kai, que está parado feito um pilar ao meu lado, e tenta sorrir.
– As Ilhas do Sul – diz Hans, ansioso por preencher o silêncio com algum assunto. – É um lugar maravilhoso, senhorita Anna. Um conjunto de cinco ilhas paradisíacas das quais meu próprio pai é herdeiro.
– É mesmo? – arregalo os olhos.
– Sim, tudo lá é fascinante.
Imagino-me visitando as Ilhas do Sul com Kristoff daqui a uns anos.
Trudy de repente irrompe na sala de estar, sorrindo.
– O almoço está na mesa.
– Oh, maravilha – digo.
Seguro minha saia quando me coloco de pé e quase tropeço. Kai me apoia pelo cotovelo e me lança um olhar zangado. Não entendo o que há de errado com ele hoje. Kai sempre está sorridente e é uma das pessoas mais gentis e simpáticas que conheço. Teremos que conversar sobre isso depois.
Hans também se coloca de pé e eu peço que ele me siga em direção à sala de jantar. Kai não deixa meu lado por nem um segundo.
– Permita-me dizer que tem uma casa adorável, senhorita Anna – diz Hans, observando o teto e os batentes das portas cheios de detalhes. Mamãe sempre cuidou para que nossa casa fosse a mais bonita da cidade e quem ficou encarregada de manter tudo assim depois que ela se foi, foi madame Daisy. Minha casa é mesmo muito bonita.
– É bondade sua dizer isso – respondo e logo chegamos à sala.
O almoço corre muito calmamente e Hans conta a mim e a Kai sobre sua viagem até aqui, sobre alguns costumes das Ilhas do Sul e sobre sua família grande e conflituosa. Ele tem doze irmãos mais velhos que vivem brigando pela herança do pai.
– Não gosto de ver como os membros da minha família tratam uns aos outros – diz ele, como se fosse um desabafo, uma confissão. – Às vezes desejo que toda a herança seja, de alguma forma, revertida a outra família.
Arregalo os olhos.
– Verdade? Mas... mas isso o privaria de todos os privilégios que tem.
Ele foca os olhos esverdeados em mim e suspira.
– Sim, eu sei. Mas tudo o que quero é ter uma família, senhorita. Uma família da qual eu possa me orgulhar. – Ele me fita com intensidade. – E eu faria qualquer coisa para conseguir isso.
Baixo os olhos para meu prato já vazio. Não sei o que dizer. Após o falecimento de mamãe, minha família resume-se em papai, madame Daisy, Kai e as criadas. Não sei o que é ter irmãos ou ter tios próximos. No entanto, a maneira com que Hans fala sobre a família dele me faz valorizar muito mais as pessoas que tenho aqui.
– Desculpe-me se a aborreci – Hans estica a mão para tocar a minha.
Estremeço. Tiro minha mão de debaixo da dele suavemente, para não ofendê-lo. Não quero ser tocada por outro rapaz que não seja Kristoff. Eu sou praticamente dele agora. É errado desviar-me disso.
– Está tudo bem, senhor – sorrio.
Kai suspira, sentado ao meu lado, e olha para o relógio de parede.
– Vejam só, como a hora voa, não é mesmo? – ele se levanta. – A senhorita não deveria preparar-se para o evento desta noite, senhorita Anna?
Cubro a boca com a mão. Como pude me esquecer? É noite de música na praça!
– Oh, bem lembrado, Kai – levanto-me, trôpega. Então olho para Hans, que parece constrangido. – Lamento a pressa, senhor Hans, mas tenho um compromisso muito importante esta noite e preciso me preparar.
Ele sorri.
– Por acaso é a noite de música e dança da qual todos na vila estão falando?
Sorrio de volta, empolgada.
– Exatamente!
– Mas essa é uma feliz coincidência, senhorita Anna – Hans afasta a cadeira e coloca-se de pé.
– Coincidência?
– Sim. Pois eu estava mesmo pensando em convidá-la para me acompanhar – ele ri e seu riso é musical.
– Oh.
Olho para Kai, que parece prestes a explodir de raiva.
– Mas – diz Hans, fazendo-me voltar a encará-lo -, talvez a senhorita já tenha um acompanhante.
– Não – digo impulsivamente. – Eu... não tenho.
Hans sorri calorosamente e aproxima-se de mim, pegando minha mão e levando-a suavemente aos seus lábios.
– Agora já tem. Venho apanhá-la às seis com minha carruagem.
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