– Kristoff? – arquejo, encarando-o. Seus cabelos louros parecem cinzentos à penumbra. – O que faz aqui?

Ele segura minha mão e uma onda de calor atravessa todo o meu corpo, fazendo-me perceber o quanto estive com frio desde que saí de casa. Aperto seus dedos levemente.

– Fui até sua casa agora a pouco – diz ele, quase sussurrando. Sua voz parece rouca, trêmula. – O senhor seu pai me disse que você estaria aqui, então eu vim buscá-la.

– Buscar-me?

Kristoff ri e algo em meu peito se derrete. Quero que ele ria outra vez e que corra seus dedos por meu rosto. Quero-o mais perto.

– Tenho uma surpresa, Anna.

Arqueio as sobrancelhas.

– Uma surpresa? Para mim?

– Basicamente – ele confirma. – Vem comigo?

Estou prestes a desaparecer pelas árvores com Kristoff, mas algo me detém. Hans deve estar na praça, à minha procura, imaginando onde raios eu me meti. Não é certo deixá-lo me esperando feito um bobo.

– Eu... preciso fazer uma coisinha antes – digo a Kristoff, apoiando uma mão em seu ombro. – Por favor, espere aqui. Estarei de volta em dois tempos.

Ele confirma com a cabeça, sem sorrir e sem dizer nada. Agarro minha saia e saio a longas passadas em direção a praça, procurando pela cabeça ruiva de Hans. Ele, porém, não está em lugar algum. Estou prestes a voltar para as árvores e para Kristoff, quando uma carruagem belíssima para e todos – inclusive eu — a encaram, admirados.

Cubro os lábios, completamente chocada, quando é Kristoff quem desce dela. Seus olhos percorrem toda a praça, ávidos por encontrar algo. Quando pousam em mim, finalmente, sua testa enche-se de vincos e ele caminha até mim com ar decidido.

Mas o que Kristoff estava fazendo naquela carruagem se eu o deixei ali atrás há menos de dois minutos?

As pessoas abrem passagem para ele e, quando finalmente está a dois passos de mim, vejo algo sombrio em seu semblante. Mágoa.

– Kristoff? – sibilo, totalmente confusa. – Como... como você...?

Ele fecha os olhos e respira fundo, como se tentasse ficar calmo.

– Onde ele está? – Kristoff pergunta, de modo que só eu posso ouvir.

– Quem? – minha voz estremece.

– Príncipe Hans, das Ilhas do Sul. O homem que a trouxe para cá.

Quero cobrir meu rosto e me esconder em minha saia. Reidi estava certa, eu não devia ter vindo, não devia ter saído de casa acompanhada de um homem que não é meu noivo. Kristoff estava furioso. E Hans é um príncipe?

– Eu... Kristoff, e-eu... – gaguejo. – Sinto muito.

Ele enlaça minha cintura com o braço e me aperta contra seu peito. Pega de surpresa, não posso evitar corar.

– Pensei que estivesse machucada – Kristoff sussurra, os olhos vidrados nos meus. Minha testa roça seu queixo e eu fecho os olhos. – Onde estava com a cabeça, Anna?

Não há acusação ou raiva em sua voz, apesar de sua expressão estar dura e fechada.

– Kristoff, me desculpe – sussurro de volta. – Não achei que haveria problema se um dos senhores que negociam com papai me acompanhasse à noite de música... já que você não podia.

Ele suspira.

– Precisamos conversar sobre isso, mas não aqui.

Assinto, totalmente de acordo.

– E a surpresa? – pergunto.

A testa de Kristoff enche-se de vincos.

– Que surpresa, Anna?

Afasto-me dele para olhá-lo.

– A surpresa que você acabou de dizer que queria me mostrar, ora – sorrio. – Ali atrás, nas árvores.

– Eu... Não, Anna, eu acabei de chegar. Não me viu descer da carruagem agora mesmo?

Sinto algo frio agitar-se dentro de mim. Não era Kristoff nas árvores. Definitivamente não era Kristoff nas árvores. Quem era, então?

– Venha, Anna, vou levá-la para casa. Você não parece bem.

Kristoff passa o braço por meus ombros de maneira protetora e enquanto caminhamos em direção a carruagem, continua percorrendo a praça com os olhos, procurando algo. Ou alguém.

Minha mente está dando voltas e voltas para tentar entender o que realmente está acontecendo. Se Kristoff, o meu Kristoff, meu noivo, está aqui comigo agora, quem era aquele encoberto pelas sombras? Se eu tivesse ido com ele ver a “surpresa”, onde estaria agora? Como... como ele podia ser tão parecido com o verdadeiro Kristoff?

– Anna, você está bem? – Kristoff pergunta, assim que nos acomodamos na carruagem. Ao contrário de Hans, ele se senta ao meu lado e não tira os olhos do meu rosto. Esse é o verdadeiro Kristoff.

– Eu... não sei. Algo muito estranho aconteceu...

– Foi Hans? Ele a aborreceu?

Encaro Kristoff.

– Vocês dois já se conhecem, não é mesmo? – pergunto, esfregando as mãos. – Conte-me.

Kristoff suspira e olha pela janela. Pequenos flocos de neve começam a cair.

– Minha família e a de Hans têm uma antiga rixa causada pelo casamento dos meus avós – diz ele. – Minha avó deveria se casar com o avô de Hans para unificar as riquezas. No entanto, ela conheceu outro homem, por quem se apaixonou e com quem fugiu uma semana antes do casamento. Toda a família das Ilhas do Sul ficou perplexa e sentiu-se traída por minha família. Foi aí que a rixa começou.

– E quanto a sua avó? – pergunto. — Ela... ela não tentou apaziguar as coisas? Explicar o motivo pelo qual fugiu com outro homem?

– Sim, ela tentou. Retornou à casa dos Bjorgman em Trollstone e contou tudo aos pais, apresentando o novo marido a eles.

– E os pais dela aceitaram?

– Sim, sim – Kristoff assente. – O homem escolhido pela minha avó mostrou-se muito mais íntegro e honesto do que o antigo noivo dela.

– Só que a família do avô de Hans ainda guardava rancor – eu completo, assentindo. Hans citou o nome dos Bjorgman com uma raiva que não parecia pertencer a ele, realmente.

Kristoff confirma. Seguro sua mão, imaginando o que minha saída com Hans deve ter significado para ele, levando em conta toda essa história do passado das famílias dos dois. Será que ele pensou que eu o trocaria, como fez sua avó com o noivo dela? Será que ele não vê o quanto eu quero estar com ele e somente com ele?

– Você está bem com tudo isso? – pergunto. – Porque, sabe, eu não vou a lugar algum, se é com isso que está preocupado. Não vou deixá-lo.

Os olhos de Kristoff encontram os meus. Ele afaga meu ombro com a mão que não estou segurando e seus dedos traçam uma trilha de carícias até chegarem ao meu rosto. Inclinamos-nos um para o outro, nossas testas se tocando.

– Eu confio em você – ele sussurra. – Confio em você e te dou meu coração.

Solto uma risadinha e meu coração dispara.

– O meu coração você já tem, Kristoff.

– Acho que vou beijar você agora — ele sussurra.

– Acho que quero muito que você faça isso.

Ele me toma em seus braços e beija meus lábios com tanta ternura e carinho que penso que vou explodir. Nada pode ser melhor do que o roçar de sua pele na minha, seu calor aquecendo meu corpo, sua boca contra a minha e seus braços ao meu redor. Isso é tudo o que eu preciso para ser completa e feliz: Kristoff, só Kristoff.

Notas finais
O que acharam?? Continuem acompanhando!