Amor e Liberdade
1 Único
Notas iniciais
Não era algo que se poderia explicar. Apenas estava lá. De algum lugar poderia ser visto, no alto de um prédio qualquer, numa sala branca. Janelas grandes, largas, o vidro aberto, uma brisa suave balançando as cortinas de um branco impecável que tocavam o chão.
Um piano de calda, preto e brilhante, refletia o sorriso triste e perdido das estrelas, que ainda apareciam no céu de um azul pálido, perto do amanhecer.
A sala queimava. Literalmente em chamas. Mas isso era só mais um detalhe naquela hora. Não era algo com que precisasse se preocupar.
Ninguém tocava o piano. Ele só estava lá, com as pernas em chamas, sendo aos poucos consumido pelo fogo. As cortinas brancas continuavam balançando com a brisa, o fogo ao chão tomando-a para si.
E por fim, exatamente no centro da sala, que poderia ser o alto de uma torre de contos de fadas, e não um prédio qualquer em algum lugar. Exatamente no centro, um casal, homem e mulher, dançavam apaixonada e lentamente. Como se as estrelas não estivessem sumindo de um jeito triste, e o ambiente ao redor não queimasse, tentando apagar aquele amor.
A garota tinha longos cabelos louros e cacheados descendo pelas costas expostas. Ela era alta, apenas poucos centímetros mais baixa que o homem que a segurava tão protetoramente. Vestia um vestido longo branco e suave como algodão. As costas à mostra. Seus olhos, tão azuis quanto o céu num dia quente de verão, não deixavam por um segundo sequer os olhos verdes e cálidos do homem.
Um olhar que apenas poderia ser compartilhado por amantes verdadeiramente apaixonados.
O homem também vestia branco, ou talvez fosse cinza, ou uma mistura, não poderia dizer mais nada naquela altura da madrugada, ou manhã.
As estrelas sumindo completamente. Tristes. Os amantes continuavam sua dança silenciosamente, e as chamas... Bem, as chamas queimavam.
Nenhuma palavra fora dita. Não precisava ser. Eles sabiam o que deveriam fazer. Só queriam mais alguns minutos nos braços um do outro. As decisões já haviam sido tomadas. A garota abandonou o olhar dele por algum tempo, enquanto tentava se aproximar mais de seu amor. Talvez algumas lágrimas escaparam de ambos. A fumaça os envolvendo, os embalando lentamente. Eles continuavam, ela com os braços envolvendo o pescoço dele. Ele com as mãos firmes na cintura dela. Um beijo calmo. O último. Por enquanto. Eles sorriram. Não era um sorriso triste. Era o sorriso de quem estava disposto a lutar pelo amor, e pela liberdade. Um sorriso livre. Nem as estrelas entenderiam.
Olharam-se uma última vez, fazendo uma promessa silenciosa. O coração batendo rápido no peito, gritando que era hora. E de fato era; o piano, as cortinas, e a sala toda, já estavam quase completamente queimados.
O sol mostrava sua face, surgindo por entre nuvens claras, sorrindo feliz ao horizonte, era enfim a hora. Agora.
O casal caminhou lentamente por entre as chamas, não sentiram queimaduras em suas peles, é claro. Alcançaram a janela. A brisa suave acariciando seus rostos desejosos por amor livre. Suas asas se abriram.
Donos do próprio destino voaram de mãos dadas em direção ao sol. Suas asas brancas e gigantes com vários metros de envergadura, brilhando. Fortes, porém delicadas. Lindas.
Soltaram as mãos.
E qualquer humano que olhasse o céu naquele momento, talvez pudesse ter visto duas estrelas caindo em direções opostas.
Dois pedidos foram feitos.
Amor e Liberdade.
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