Notas iniciais
Baseado na história real de Delphine Lalaurie, já a seguir, Amor e Ódio: De que lado você está?

Tranquilidade e paz eram palavras que definiam a pequena cidade de Bower Village. Pessoas conversando, risadas descontraídas, essa era a trilha sonora daquele lugar. Mas tal sossego estava prestes a acabar. No dia 22 de Agosto de 1969, os hippies chegaram na cidade. Dentre eles os irmãos Carlota e James Cotton. Pareciam com Bonnie e Clyde, renascidos das trevas. Além de irmãos, eram cúmplices e fugitivos da polícia. Haviam cometido diversos furtos e assaltos em outros estados e como forma de despistar os tiras, juntaram-se aos hippies.

Bower Village era parada e o fato de não ter nada de valor para roubar ali, deixava Carlota impaciente, entediada. Encheu-se de alegria quando soube que partiriam dentro de poucos dias. Mas seu animo fora reduzido a uma frase inesperada:

— Eu não vou, Carlota. – Disse James olhando diretamente nos olhos da irmã, sério.

— Como assim, do que você está falando? – Carlota sorriu, achando se tratar de uma brincadeira.

— Estou falando que estou farto de viver dessa forma, de viver como um nômade.

— Não, você não pode estar falando sério. Você não pode fazer isso comigo.

— Tão sério quanto a notícia que eu vou te dar agora. – E chamou a jovem Antonela para que viesse estar presente diante deles.

— O que essa vagabunda está fazendo aqui?

— Eu e a Antonela estamos juntos e decidimos nos casar.

— Casar? Mas que piada! Você nem tem onde cair morto.

— Eu dou um jeito. Mas essa vida de criminoso eu não levo mais.

Carlota podia ouvir o palpitar de seu coração, tentando controlar o impulso diante daquela notícia. Deu um passo a frente olhando nos olhos de Antonela e apontou-lhe o dedo na face.

— Que tipo de feitiço você fez para o meu irmão, sua bruxa?

— Não há feitiço algum Carlota. Isto se chama amor. – Ela respondeu.

Diante da resposta sábia e serena da rival, levantou a mão para dá-lhe um estalo, mas James a impedio, segurando seu braço.

— Se você encostar um dedo em Antonela, Carlota, eu nunca a perdoarei. Eu não quero me separar de você mana. Por isso se você quiser vir comigo...

Na face pálida de Carlota escorriam lágrimas de tristeza e de ódio. Antes que James pudesse terminar ela recolheu abruptamente o braço. Virou de costas e caminhou em direção a saída, mas antes de prosseguir, voltou-se para os dois olhando para cada um fixamente. Seguiu embora com os hippies, dançando e cantando como se nada houvesse. Era o fim de uma parceria de anos.

Enquanto James era consolado pela nova parceira de vida, Carlota seguia seu destino. Chegara na Califórnia. Após alguns dias, voltou a furtar, desde pequenos objetos a dinheiro. Ao ser pega em flagrante roubando o dinheiro da venda das bijuterias que eram fabricadas pelos hippies, fora expulsa do grupo. Sem ter ideia de onde se esconder, passou dias e noites nas ruas. Pediu esmolas e quando isso não mais chegava, começou a se prostituir. Chegou ao seu limite. Humilhada, derrotada. E quando pensava em por um fim definitivo naquele martírio, alguém lhe estendeu a mão.

— Olá moça. – Cumprimentou o homem que aparentava ter por volta dos sessenta anos. Era rico, a notar pelas roupas que usava. – O que faz aqui sozinha?

— Sai fora velhote, acabou, eu não estou mais a venda! – Esbravejou.

— E daí? Eu não estou aqui pra te comprar. Queria apenas conversar com você. Você acha que vale a pena? Eu não sei qual foi o mal que te fizeram – Notou as marcas rochas nos braços, pernas e rosto de Carlota. Haviam também marcas de queimaduras produzidas por pontas de cigarro. — ... mas você acha que é justo terminar assim? Enquanto os outros que te fizeram chegar a este estado vivem as suas vidinhas felizes. Eu não acho!

Carlota estava de pé na beirada da ponte Golden Gate. Apoiada em algumas barras, com o vento a esvoaçar os cabelos, voltou-se para o homem. Não mais parecia a jovem bela de antigamente.

— Nota-se que você não sabe o que é sofrer. O que é ser abandonada duas vezes seguidas e ter que se virar sozinha.

— Ai é que você se engana. Todos temos problemas. Não é por ser rico ou pobre e isso nos diferencia. Sabe, eu posso te contar a minha história – Ele se aproximou ao notar o recuo da jovem para a morte. — mas para isso terá que desistir de fazer isso.

Carlota virou de costas e olhou para baixo. E imaginou-se. A queda duraria aproximadamente quatro segundos até atingir a água, a uma velocidade de 120 km/h.

— Venha comigo. – O homem lhe estendeu a mão.

Como que subitamente entrasse em um estado letárgico, Carlota desmaiou e teria concretizado aquilo que havia ido fazer se o homem não a tivesse segurado com um abraço. Pessoas que estavam assistindo correram para ajudar.

Quando Carlota acordou havia se passado um dia desde o ocorrido.

— Onde estou? – Ela perguntou meio tonta, ainda sob efeito dos anestésicos.

— Não se preocupe, você está no hospital.

— Você deveria ter me deixado morrer.

— Eu jamais deixaria isso acontecer. Sua vida é especial. Você é especial.

Havia um brilho no olhar daquele desconhecido. Era como uma luz no fim do túnel para Carlota. Ele foi chamar o médico e este pediu que o homem se retirasse.

— É minha jovem, você teve muita sorte. – Disse o doutor, cujo jaleco tinha seu nome bordado: Edward Cotrim.

— Eu ainda estou viva, que sorte há nisso? Depois que sair daqui nada vai mudar. Vou continuar sozinha no mundo, vagando feito um zumbi.

— Não pelo que depender do senhor Johnson. Sabe, é de praxe quando recebemos pessoas que tentaram de alguma forma tirar a própria vida, encaminha-las para um profissional especializado. Mas o senhor Johnson se comprometeu a te ajudar. Ele até pagou as suas despesas aqui do hospital. Acho que esse anjo da guarda que apareceu na sua vida não foi a toa. Aproveite esta oportunidade que a vida está te dando para seguir um outro caminho. E a propósito, você receberá alta logo.

E assim aconteceu. Na manhã seguinte, Carlota recebeu alta. Ainda meio desconfortável em relação ao tal senhor Johnson, aceitou tomar o café da manhã com ele.

— Afinal, quem é você? O que quer comigo?

— Quero ajudá-la. – A garçonete o interrompeu. Ele pediu dois cafés extrafortes e prosseguiu. – Sabe, mesmo você não tendo segurado minha mão aquele dia, eu irei contar minha história. Não quero te forçar a receber a minha ajuda, afinal somos estranhos um para o outro. Mas depois do que eu te contar, vou deixar que faça sua própria escolha.

Carlota não respondeu, apenas esperou que ele começasse.

Johnson Arnold Carter era o seu nome. Dono de uma das maiores empresas de exportação do país. Apesar da vida lhe parecer atualmente fácil, vivera um drama durante boa parte de sua juventude. Quando tinha quatorze anos, seu pai separou-se de sua mãe e fugiu com outra mulher muito mais jovem. A partir daí sua mãe entrou em depressão profunda e suicidara meses depois. A avó ficou com sua guarda, mas esta, assim como a vida, não lhe dava trégua. Humilhava-o, dizia-lhe que este não seria ninguém. Determinado a provar o contrário, Johnson estudou e começou a empresa do zero. Infelizmente sua avó não sobreviveu para ver sua vitória, seu sucesso.

— Então você é...

— Sim, sou milionário.

— Eu já devia imaginar. – Sorriu ironicamente. Afastando a cadeira, levantou-se. — Eu não estou interessada no seu dinheiro, nem em ser sua vadia de luxo.

— E nem foi essa a minha intenção. Eu te ajudei por que – Johnson hesitou. Aquele era um assunto muito difícil pra ele. — foi daquela ponte que minha mãe se jogou. Eu não queria que você fizesse o mesmo que ela fez comigo. Deixar pra trás alguém que te ama e que não quer te perder. Da minha ajuda, nada vou querer em troca. Nada além da sua amizade.

Como o calor do sol, aquelas palavras derreteram o orgulho e a arrogância de Carlota. Envergonhada, pediu-lhe desculpas e segurou sua mão.

— Eu nem sei o que te dizer, eu.

— Diga apenas que seremos bons amigos.

— Está bem. Seremos bons amigos. – Ela pela primeira vez desde que o havia conhecido, deu um sorriso puro e verdadeiro.

Com o passar do tempo, Carlota ganhou novas cores. Mesmo não querendo o dinheiro de Johnson, aceitou que ele lhe desse uma mesada todo mês. Cada vez mais próximos, os dois casaram e viveram felizes...

Até o dia em que um obstáculo se cruzou no caminho de ambos: A falência da empresa.

Com o ocorrido, Johnson não resistiu, teve um ataque cardíaco e morreu.

Ao menos era isso que Carlota queria que parecesse.

Notas finais
Dedicado à mim, por nunca desistir dos meus sonhos. Este é o caminho.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.