Notas iniciais
Os títulos dos capítulos cada vez ficam mais curtos : ) . Muito obrigada a toda a gente que comentou! Eu sei que pode parecer que a história avança devagar, mas o objetivo é ficar abaixo dos 20 capítulos. A música-tema é "Os búzios", da Ana Moura.

“À espreita está um grande amor mas guarda segredo

Vazio tens o teu coração na ponta do medo

Vê como os búzios caíram virados p'ra norte

Pois eu vou mexer o destino, vou mudar-te a sorte”

(Ana Moura, Os búzios)

Coimbra, 1 de Abril de 2016

— Tu tá magrinho, menino. Não tá? Ou é esse troço que não tá funcionando direito?

Elano riu com o comentário da irmã. Ele e Maria da Penha sempre tinham tido uma relação mais próxima à de mãe e filho do que apenas o companheirismo de irmãos. Ela sabia da afeição do irmão mais novo.

Vista através da tela do computador, Penha parecia uma estrela de novela ou uma cantora de sucesso. Contudo, Elano sabia como ela cortava um dobrado para conseguir aguentar as despesas da casa, ainda por cima com ele tão longe.

Ela não precisava que ele verbalizasse a preocupação que se traduzia em pequenas rugas em volta dos olhos:

— Aí, menino. Cê só tem que se preocupar com os seus estudos. Do resto, cuido eu.

— Não é justo ter ficado tudo nas tuas costas, Penha.

— O que não é justo é tu ficar remoendo a nossa situação, Elano.

Habituada a entrar e sair do apartamento dos garotos várias vezes ao dia, Cida entrou carregando uma resma de dicionários. Ela se sentiu constrangida por interromper uma conversa particular:

— Desculpa, Elano. Não sabia que você estava ocupado.

Ouvindo a voz da vizinha de Elano, Penha pediu que ela se aproximasse do computador. A irmã do futuro advogado já tinha conhecido a garota algumas semanas antes, da mesma forma que a madrinha de Cida tinha pedido para conhecer Elano. Maria Aparecida acedeu e se colocou do lado do bom moço, se apoiando no ombro dele para se inclinar sobre a tela e cumprimentar:

— Oi, Penha!

— Oi, Cida! Tu tá linda de bonita, menina! E olha que eu que só te conheço pelo computador.

Maria Aparecida ficou envergonhada. Se já lhe custava receber elogios, era bem pior considerar que eles até podiam ser realmente sentidos por quem os proferia. Cida já tinha percebido que Penha era uma mulher de verdades e não de falsas palavras.

— O meu irmão também é um gato, não é Cida? – continuou a irmã do futuro advogado, sorrindo debruçada sobre a tela. – Um menino com um coração do tamanho do mundo.

Dessa vez Cida assentiu vigorosamente, abanando a cabeça em sinal de afirmação. Caracterizar Elano daquela forma era constatar algo insofismável:

— É sim, Penha. O seu irmão é a melhor pessoa que eu conheço. Você tem que ter muito orgulho dele.

Foi a vez de Elano ficar envergonhado. Penha era a sua maior claque de apoio, mas ele sentia que ela não precisava tentar vender o próprio irmão como se fosse mercadoria de luxo.

— Você precisa de alguma coisa, Cida? – perguntou ele, numa tentativa frustrada de afastar o foco de cima dele.

A explicação dela era simples:

— É o contrário, Elano. Você me falou que estava com dificuldade com o inglês técnico daqueles artigos e eu te vinha ajudar, mas eu posso voltar depois.

— Não precisa disso, Cida. Fica.

Ela já tinha tomado uma decisão. Se despedindo de Penha, a estudante saiu, deixando os irmãos Fragoso a sós para terminar a conversa:

— Eu volto depois, Elano. É melhor assim.

Subitamente séria, mal percebeu que Cida já tinha transposto a porta, Maria da Penha não perdeu tempo a aconselhar o irmão perdido em pensamentos:

— Fala com ela, menino. Abre o teu coração. Quem sabe se ela não sente o mesmo?

Um semblante de preocupação voltou a tomar conta de Elano. Um guerreiro noutros aspetos da vida, ele ficava travado quando o assunto envolvia uma certa garota:

— A Cida é a garota dos sonhos de qualquer cara, mas eu não consigo me abrir, você sabe disso. A mãe foi embora quando eu tinha nove anos e o pai não quis olhar para a minha cara quando viu que eu era branco. Eu não consigo falar com a Cida sabendo que ela também me vai abandonar.

Com os cotovelos apoiados sobre a mesa e as mãos cruzadas em tom de oração, mesmo a milhares de quilômetros de distância, Penha sentia na pele a dor do irmão:

— Tu não sabe disso, Elano.

— Sei, sim. Tem o Conrado. Eu não vou abrir para ela o que eu sinto quando eu vejo no olho dela que ela gosta daquele cara. Ela vai falar que eu confundi as coisas, que eu sou só o irmãozinho dela.

Uma irmã mais velha pode aconselhar, mas sabe que tem que deixar um irmão mais novo tomar as decisões importantes por si mesmo. Suspirando, Penha se preparou para a tormenta que estava por vir:

— Tu é que sabe, meu irmão.

Maria Aparecida devia ser a pior jogadora de Pictionary à face da terra. Elano e Danilo já tinham praticamente desenhado um livro de ilustrações com as reais intenções de Conrado para com ela, mas não havia forma de ela entender as pistas.

Por sorte, tanto Elano como Danilo eram praticamente doutorados em driblar Werneck, aguentando o cerco ao castelo da Cida como estrategas versados nas artes da guerra.

Isso tinha segurado nas semanas anteriores a pressa de Conrado em vencer a aposta.

O duo Fragoso-Marra tinha dado um espetáculo ao promover contínuos desencontros entre o vilão e a mocinha da história.

“Você sabe da Cida?” era a pergunta recorrente de Conrado, seguida da resposta negativa de Elano, quase uma running gag de uma sitcom cómica.

Aquilo nunca perdia a graça. Na centésima vez que se repetiu a cena, Elano lia tranquilamente o jornal no sofá da sala, vendo pelo canto do olho a irritação crescente de Werneck, ao ligar incessantemente para o celular de Cida, só para a chamada cair na caixa-postal.

Elano nunca tinha sido tão feliz com uma mentira. Ele sabia perfeitamente que ela estava a salvo na biblioteca da universidade e que, distraída como era, ia demorar várias horas a dar conta da falta do celular, que o bom moço tinha subtraído e colocado em lugar seguro.

Fragoso escondeu o riso levantando o jornal aberto e virando a página. Conrado nunca sonharia que estava tentando ligar para um celular que estava debaixo da almofada do lado de Elano. Ainda bem que o aparelho estava em silêncio e que Werneck tinha a inteligência de uma ervilha.

O elemento mais rico da casa também fez a sua parte naquela comédia de enganos, sempre que Conrado tentava recorrer à sua fortuna:

— Danilo, você me empresta quatrocentos euros?

O Marra encolhia os ombros, em falso tom de lamentação:

— Eu até emprestava, mas não sei onde coloquei os cartões. Sorry.

Not really. Dificultar o acesso a fundos monetários servia para atrasar os ataques do bad boy Werneck. Ele não se conseguia fazer valer com apenas a sua personalidade.

Nos últimos tempos, o pobre Conrado estava continuamente sofrendo ataques cibernéticos que lhe congelavam as contas. Se ele não soubesse ser impossível, pareceria existir um hacker com algo contra ele, que não parava de o perseguir.

Ainda bem que Conrado era fisicamente bonito, porque era tão lerdo que nem se apercebia que, mal virava as costas, Elano e Danilo trocavam um high- five auto congratulatório ou um piscar de olho sarcástico.

Sem o saberem, Elano e Danilo tinham uma aliada involuntária na casa ao lado. Isadora tinha sido mordida pelo bicho da inveja ao ver toda a atenção que Conrado despendia a Cida.

Por isso, ela não se tinha feito rogada e fornecia continuamente a Conrado informações erradas sobre o paradeiro e horário de Maria Aparecida, evitando que os dois se conseguissem encontrar.

A primogénita de Ernani Sarmento quase tinha espumado pela boca ao assistir à atenção que Conrado prestava à filha da arrumadeira. Isadora não iria deixar ficar barato. Já não bastava ter que engolir a recusa de Conrado, depois que ela tentou investir nele, ainda tinha que assistir de camarote ao babaca tratando Cida como uma princesa.

A futura primeira dama do império Werneck nunca poderia ser aquela empreguete que, ainda por cima, estava ficando respondona.

Como uma vilã de novela mexicana, Isadora dava por si deambulando pelo apartamento vazio, comentando em voz alta num tom sinistro:

— Homens como o Conrado se divertem com as Cidas, mas se casam com as Isadoras. Você vai pagar bem caro por ter sonhado tão alto, Maria Aparecida.

Um herói com limitações financeiras tem que ser prolífico no multitasking da vida. Cida nunca saía do pensamento de Elano, mas o bom moço não esquecia as suas obrigações, fosse na faculdade ou no trabalho.

Aquele podia ser tradicionalmente o dia das mentiras, mas, atrás do balcão do restaurante, preparando aperitivos, Elano esperava sinceramente não ter que atender clientes brasileiros.

Ele ainda estava pensando em como é que iria explicar que o prato especial do dia se chamava punheta de bacalhau. Certo era que se tratava de uma inocente receita de bacalhau salgado cru, desfiado e temperado com cebola, azeite e vinagre, mas as diferenças linguísticas entre os povos irmãos poderiam causar alguns mal-entendidos.

Era engraçado como, apesar de todos falaram a mesma língua, era tão fácil passar a mensagem errada.

Um alarido vindo do lado de fora da porta do restaurante chamou a atenção de todos. Era a hora de almoço de uma sexta-feira, mas não fazia sentido que se concentrasse tanta gente naquela zona, muito menos fazendo tanto barulho quanto uma betoneira funcionando a pleno vapor.

O motivo para a comoção tinha que ser muito especial, atendendo ao burburinho que se levantou entre os clientes do restaurante que estavam próximos das janelas e que se levantaram com a câmara do celular pronta para disparar.

António, gerente extraordinaire, saiu em passo apressado dos fundos da cozinha para perceber o que se estava passando, quase caindo para trás no final do processo.

Se segurando no braço de Elano, António viu o ícone loiro, a musa de milhões conhecida em todo o mundo, entrando no seu humilde estabelecimento acompanhada pelo seu mais novo marido.

Ao pobre gerente faltou concentração, oxigênio e quase batimento cardíaco. Não era todos os dias que a maior atriz da sua geração, a intangível protagonista de muitas fantasias masculinas de muitos garotos dos anos 90, se sentava numa das mesas de um pequeno restaurante no coração de Coimbra.

António era de novo um garoto de quinze anos, pulando de alegria:

— Mas é a….Pamela Parker! No meu restaurante! A Pamela Parker está no meu restaurante!

O português poderia estar constatando o óbvio, repetindo a mesma informação sem parar, mas Elano compreendeu a comoção.

Ele tinha tido a oportunidade de conhecer Pamela uns dias antes e, mais do que fascinado pela diva, tinha ficado sinceramente comovido com a forma como ela e o marido, o empresário Ernesto Avelar, interagiam.

A princesa Shelda e o quase desconhecido Ernesto pareciam um par improvável, de mundos opostos e fadados a nunca se cruzarem. Todavia, o destino os tinha juntado e eles tinham reconhecido um no outro a chance de felicidade.

Era absolutamente ternurenta, a forma como eles se olhavam, sempre atentos um ao outro, como não existisse mais nada em redor.

Enquanto António se tentava recompor do seu ataque histérico, o ícone sorriu e levantou a mão num aceno de reconhecimento ao que Elano, constrangido, retribuiu o gesto, lhe acrescentando um sorriso adorável.

António simultaneamente estranhou e teve ciúmes daquela familiaridade:

— Espera aí. De onde é que conheces a princesa Shelda?

O bom moço explicou sucintamente:

— É que ela foi casada com o tio do meu colega de casa. Aquele é o novo marido dela, Ernesto Avelar. Eles estão pesquisando locações para o próximo filme, enquanto decidem se a Pamela aceita um papel na nova novela das nove, aquela com um nome esquisito, sabe?

No meio de tanta informação, António só tinha retido um fragmento que o intrigou:

— Tu vives com um Marra?

— Eu sou um poço de surpresas. – brincou Elano, recolhendo os menus para se poder dirigir à mesa dos Parker-Avelar.

Ele sabia que Pamela preferiria que fosse ele a tomar conta do seu pedido. Havia algo de maternal na forma como ela falava com ele.

Rindo intimamente, Elano só esperava que eles não perguntassem pelos pratos de bacalhau.

Felizmente, o casal estava mais interessado em pratos vegetarianos. Pamela e Ernesto já tinham ganhado afeição pela personalidade de Elano e o tratavam como um velho amigo. Foi por isso que, no final da refeição, Pamela fez questão de, para além de deixar uma gorda gorjeta, oferecer também dois ingressos para uma peça de teatro:

— Well, eu ia dar os ingressos para o primo Danildo, mas ele levou chá de chouriço.

— … de sumiço. – corrigiu de uma forma quase automática Ernesto, mantendo os olhos de cachorro pidão na sua musa, com a mão direita entrelaçada na dela.

Elano estava reticente quanto ao presente:

— Obrigado, mas não sei se posso aceitar…

Pamela não era mulher para aceitar um não:

— Of course you can. A companhia de teatro é ótima. É Romeo and Juliet, you know. Daquelas histórias que não conhecem fronteiras.

A loira fenomenal colocou os ingressos sobre a bandeja com a conta, pondo um ponto final na conversa, com o mesmo sorriso travesso que a filha tinha quando queria servir de cupido:

— So, my dear, aproveite e leve a sua special someone. Sei reconhecer um homem apaixonado a léguas.

Depois da hora de almoço, o restaurante entrava num marasmo do qual só recuperava na hora de jantar.

Elano acabava de limpar uma mesa, tendo saído os últimos clientes, quando reparou que Pamela tinha retrocedido ao restaurante, onde ele agora estava só.

Estranhando o fato, ele deixou o que fazia e se aproximou dela:

— A senhora se esqueceu de alguma coisa?

Ela sorriu, retirando os enormes óculos escuros:

— No, sweety. Queria falar com você.

A atriz passou a Birkin para o outro braço, procurando as palavras certas. O seu coração de mãe tinha ficado mexido com aquele garoto. Talvez ela o conseguisse ajudar:

— Você sabe que o Ernesto é o meu terceiro marido, right? Já sofri muito por amor, mas também já fui muito feliz. Não me arrependo de nada.

Elano percebeu imediatamente o que ela queria dizer. Era impressionante como Pamela o tinha conseguido ler corretamente. Ela continuou, gesticulando em movimentos suaves:

— A vida is like that. Se você fechar o seu coraçãozinho, não arriscar, nunca vai saber o que poderia ter acontecido. Fale para ela o que você está sentindo.

Pamela se sentiu satisfeita com a reação que viu nos olhos do bom moço. Se atrevendo a se inclinar para o afagar na face, ela se despediu em tom de encorajamento:

— Good luck, my boy.

Terminadas as obrigações do trabalho, Elano praticamente saltitava como uma criança no caminho para casa. O alívio de tomar uma decisão depois de tanto tempo sofrendo com o peso de uma indecisão tinha colocado asas nos seus pés e a urgência de ver uma determinada pessoa.

Com o elevador ocupado, ele subiu correndo os degraus que o separavam do quarto andar, só parando quando encontrou Maria Aparecida no patamar.

Eles acabaram falando o mesmo a uma só voz:

— Tenho uma coisa para te contar!

Ambos riram da coincidência, mas Elano fez questão de que Cida usasse da precedência que as boas maneiras obrigavam:

— Fala você primeiro.

Ela não se fez de rogada e falou aos borbotões, contente por partilhar a noticia:

— Elano, cê não vai acreditar! Lembra que eu adoro Shakespeare? O Conrado conseguiu ingressos e amanhã vai me levar para ver Romeu e Julieta.

Cida estava toda iluminada, mas Elano teve que engolir em seco ao ver o seu entusiasmo enquanto um par de ingressos para o mesmo espetáculo permanecia intocado no bolso de trás da sua calça-jeans.

Notas finais
Na madrugada do dia 8 de Março de 2015 comecei a teclar violentamente uma história que precisava recontar. Um ano depois, descobri que tinha muitas mais histórias para contar. Melhor ainda, que existia quem as quisesse ler. Obrigada a todas as pessoas que têm estado do outro lado. No próximo capítulo: vamos todos ao teatro.