Amor de Estudante

6 Eu não sei quem te perdeu


Notas iniciais
O capítulo é dedicado à @jiamatter. Não sei se ela um dia o vai ler, mas, por “culpa” dela, a primeira nota que tomei para a fic foi: “Cilano no sofá”. Gosto de cumprir de uma forma torta :). Muito obrigada a quem tem comentado. A música-tema é “Eu não sei quem te perdeu”, do Pedro Abrunhosa, que eu recomendo ouvir na versão de dueto com a Sandra de Sá.

“Quando veio,

Mostrou-me as mãos vazias,

As mãos como os meus dias,

Tão leves e banais.

E pediu-me

Que lhe levasse o medo,

Eu disse-lhe um segredo:

"Não partas nunca mais".

E dançou,

Rodou no chão molhado,

Num beijo apertado

De barco contra o cais.

E uma asa voa

A cada beijo teu,

Esta noite

Sou dono do céu,

E eu não sei quem te perdeu.”

(Pedro Abrunhosa, Eu não sei quem te perdeu)

Coimbra, 19 de Abril de 2016

Com os deveres terminados, Elano planejava dedicar-se ao descanso do guerreiro. Pela primeira vez em muito tempo, ele teria uma tarde livre e o apartamento livre de assombrações.

Ele devia ter percebido logo que a vida tinha um sentido de humor cruel quando, ao chegar na porta do prédio, um funcionário dos Correios lhe entregou uma encomenda com a morada do apartamento 4ºA e Elano percebeu na hora o lapso entre vogal e consoante. Aquela montanha devia ter como destino o apartamento das Sarmento.

Esse já era um ato quase ritualístico. O desporto favorito de Isadora e Ariela continuava sendo o do levantamento das compras por atacado, a corrida a fundo a aquisições desnecessárias.

Contudo, daquela vez isso significava que, em vez de uma desculpa, Elano teria uma obrigação de bater numa porta que tinha evitado nos últimos tempos.

Cida era inocente, mas tinha sido justamente essa crença acérrima na virtude que tinha posto o plano de Werneck em xeque. Suspenso num limbo, ele não tinha conseguido nem avançar, nem recuar do seu propósito.

Conrado se tinha visto na necessidade de pedir Cida em namoro, enquanto procurava uma forma de contornar a resistência da garota e ganhar a malfadada aposta.

Era extraordinário como não existia limite ao que Werneck faria para atingir o ato reprovável a que se tinha proposto. Se ele aplicasse a mesma energia nos estudos, seria um aluno fora de série e não estaria ele próprio prestes a reprovar de ano.

Elano respirou fundo quando saiu do elevador equilibrando a mais recente encomenda de Isadora. Uma pilha de caixas de sapatos. Era profético.

Não foi preciso bater na porta do apartamento das garotas. O bom moço percebeu logo de relance que a porta estava destrancada. Aquelas garotas estavam se habituando à tranquilidade de viver numa pequena cidade da Europa, mas mesmo assim deveriam ter mais cuidado.

Era fácil não perceber uma raposa vivendo no meio de ovelhas.

Silenciosamente, Elano pousou os sapatos do lado do bengaleiro. Com um pouco de sorte poderia sair sem ser notado, deixando apenas um bilhete para justificar a presença da encomenda.

Quando ele se preparava para dar meia volta, reparou que afinal nunca tinha estado só naquele cômodo. Caída no chão de grossas tábuas de madeira de carvalho estava Maria Aparecida, tremendo como varas verdes.

Um burro. Ele tinha sido um asno em não ter percebido antes. Esse era o pensamento do garoto com o coração congelado quando se precipitou para a ajudar a levantar.

Enquanto não conseguisse compreender o que se estava passando, o bom moço não ia conseguir vencer aquele aperto. Ele precisava urgentemente saber o que estava acontecendo com ela.

Cida ardia em febre, aparentemente desacordada, mergulhada num pesadelo horrível que a fazia mover de forma quase espasmódica, encharcada em suor. A expressão na face dela era de dor.

Aflito, Elano se sentou no chão, a embalando nos braços, só se sentindo novamente vivo quando a garota abriu os olhos enormes para ele e começou a respirar de uma forma mais ofegante:

— Cê não tinha que estar na faculdade, meu príncipe?

Ele suspirou de alívio, colocando a mão na testa dela, sabendo em antecipação que ela devia estar pelando de febre.

— Estou exatamente onde tinha que estar, Cida. – explicou ele, se equilibrando precariamente quando a levantou nos braços.

Com Maria Aparecida balançando no seu colo, um dos chinelos da garota se escapou para o chão e, demonstrando uma força física surpreendente, Elano se baixou mesmo segurando carga preciosa e pegou no calçado fugitivo.

Com o corpo da garota bem preso nos seus braços, o bom moço deu as passadas necessárias para a depositar com cuidado no sofá, se ajoelhando para lhe recolocar o chinelo no pé.

Ele não a queria deixar adormecer de novo. Elano sabia que Cida nunca parava para descansar durante o dia. Nunca. E agora, lá estava ela, deitada no sofá de olhos fechados, às três horas da tarde de uma terça-feira.

Negada a oferta de a carregar para o quarto, o bom moço foi buscar um edredom para a cobrir e um médico para a observar, mesmo sob protestos da garota.

— Relaxa, o que não falta nessa cidade são médicos. — explicou ele, preocupado com a despreocupação dela pela sua saúde — Mora um no segundo andar e eu vou pedir para ele passar por cá.

O doutor Antunes não tardou a fazer a consulta com a paciente resistente. O diagnóstico foi conciso: uma infeção pulmonar que poderia ter sido debelada facilmente se Cida tivesse pedido ajuda mais cedo.

Com a prescrição e as indicações de tratamento nas mãos, Elano agradeceu e se despediu do clínico que não quis aceitar o pagamento que o estudante lhe ofereceu.

Mal o bom moço tinha virado costas para acompanhar o médico à porta, já a paciente rebelde se tentava levantar.

Maria Aparecida se tentou erguer de uma forma exageradamente rápida e brusca, mas ficou tão tonta que teria caído e batido com a cabeça na mesinha de café se Elano não a tivesse segurado pela cintura.

Abraçada a ele, Cida deixou tombar a cabeça no ombro do bom moço, murmurando:

— Vamo dançar, Elano?

Os lábios dela estavam sem cor e ela continuava tremendo. Parecia fraca demais para fazer qualquer coisa, mantendo apenas a verticalidade graças à força com ele a segurava.

— Depois, Cida. – dizia ele enquanto a obrigava a se deitar de novo no sofá – Agora, a senhorita vai ser uma boa garota e vai ficar aqui quietinha enquanto eu dou um pulo na farmácia aqui do lado, sim?

Em menos de cinco minutos, da rua vieram o antibiótico, os analgésicos, os anti-inflamatórios, os antipiréticos e uma sacola do supermercado. Se ela tivesse perdido o seu apetite de formiguinha, então Elano saberia que Cida estava mesmo às portas da morte.

Era importante hidratar e baixar a temperatura da garota. Dar um banho em Maria Aparecida estava acima da capacidade de autocontrolo de Elano.

Fechando um olho e encarando o teto, o bom moço procurou tatear pouco na hora de tirar o vestido de Maria Aparecida e voltar a vesti-la com uns shorts e camiseta limpos. Ela se deixou manipular, sentada no sofá como uma boneca, enquanto o bom moço usava compressas frias para combater o calor excessivo do corpo da garota.

Não foi difícil a Elano descobrir o mecanismo para abrir o sofá numa confortável cama de casal e acomodar a garota, compondo o edredom, depois de tomados os comprimidos regados com um cacau bem quente.

O corpo do bom moço bem lhe pedia para fugir, sabendo que nada mais havia a fazer por ela, mas Cida lhe pediu com tanta insistência que ele se instalasse do lado dela, que ele não conseguiu resistir ao apelo, mesmo considerando que podia ser apenas fruto do sentimento de fraqueza da garota.

Eles estavam deitados debaixo do mesmo edredom e Elano conseguia sentir o calor e o cheiro muito próprio do corpo dela, que só o faziam sofrer ainda mais. Também ele se sentia febril.

Eles estavam tão perto um do outro, praticamente colados desde o dedo mindinho do pé ao ombro, conseguindo ouvir as respirações compassadas, mas sem ele a poder tocar, sem poder mostrar fisicamente o que sentia dentro dele.

Elano também se sentia doente. O sintoma e a doença do bom moço partilhavam o mesmo nome: febre de amor.

— Como é que você me achou aqui? – perguntou ela.

Em poucas palavras, Elano explicou a troca do destino da encomenda, olhos fitos nos dela, rematando:

— Um monte de sapato salto quinze. Se não fossem de uma de vocês, o Danilo ia ter que me explicar muita coisa.

Ela sorriu no meio de um ataque passageiro de tosse:

— A vida não é um filme de comédia romântica, sabia?

O bom moço ficou em suspenso, surpreso com a opinião da garota:

— Estranho, você dizer isso.

Cida se soergueu para beber um pouco mais de cacau e murmurou num tom de voz rouco:

— Elano. Posso pegar seu ombro emprestado?

Sem esperar resposta, ela encostou a cabeça no ombro dele, qual almofada improvisada.

Deitada de lado sobre o tronco do estudante, ela levantou os olhos, encontrando os dele, imóvel com aquela proximidade rara.

Cida nunca tinha percebido antes como os olhos de Elano eram bonitos. Amendoados, apertados por alguma razão que ela não conseguia descortinar, naquele momento eles estavam mais escuros que de costume, mas brilhavam do mesmo jeito de sempre.

Elano não tinha os traços que se atribuíam à beleza clássica, mas, de um jeito muito próprio, era um homem muito bonito. Dos mais bonitos que ela tinha visto na vida.

Pela primeira vez, ela percebeu como ele era um homem e não um menino. Sem o controlar, já Maria Aparecida corria o dedo indicador por aquela mandíbula máscula que se travou com o susto.

Só naquele momento, reparou Cida que, ao contrário do costume, Elano não se tinha barbeado nos últimos dias. Ficava-lhe bem. A aspereza leve da barba de três dias devia ser agradável ao toque.

Ela o tocou na face com um dedo, depois dois, depois com toda a palma da mão espalmada para se certificar disso.

Até aquele nariz desproporcional de Elano tinha um charme inusitado. Era a moldura de um par de lábios convidativos que a hipnotizavam naquele momento.

Cida se pegou pensando como seria o beijo de Elano. Ela não tinha pensado nisso antes, mas ele levava jeito de ter uma pegada forte. Melhor conduzir o pensamento mais para norte.

Os dedos da garota caminharam na direção dos cabelos do bom moço, bagunçados pela posição de decúbito dorsal. Aquela floresta amazónica de fios de cabelo levantados para o alto tinha ar de ser fofa.

Elano continuava em silêncio, sem se mexer, quando ela resolveu enfiar com vontade as duas mãos pelos cabelos dele, massageando o couro cabeludo. Ela nunca tinha percebido antes como ele tinha uma cabeça grande.

Crânio grande, nariz grande, até mesmo pés grandes, pensava ela, olhando de soslaio para a protuberância que se via na porção terminal do edredom. Que mais é que Elano tinha grande?

Elano tinha uma grande inquietação. A respiração cada vez mais superficial o denunciava, ainda que Maria Aparecida estivesse demasiado distraída para o notar.

Se ela continuasse com aqueles carinhos inusitados, ele não seria capaz de responder por si, mesmo sabendo que ela também não o conseguiria, com aquela febre que lhe fritava o cérebro.

A boca entreaberta da garota era um convite a ser beijada. Resistir à incitação era uma tarefa ingrata.

Mesmo com o nariz vermelho pingando e a face ruborizada pela febre, Cida era a criatura mais adorável que ele já tinha visto na vida.

A ideia de ver um filme foi o único plano que lhe ocorreu para adiar o dilema.

Escolher o clássico Sabrina foi tarefa de Maria Aparecida enquanto Elano se refugiava na cozinha. Ele sabia que ela estava enjoada de pipocas e foi mesmo na base de batata frita, biscoitos e chocolates que o bom moço preparou um tabuleiro, sacudindo pensamentos de esperança da cabeça.

O bom moço aproveitou para ir buscar uma almofada ao quarto antes de regressar ao sofá onde estava Cida. Não lhe ia dar uma desculpa para ela continuar pendurada nele.

Com os dois novamente deitados lado a lado, a doente carregou no botão do comando para dar início à película, reparando que Elano olhava fixamente para ela:

— Que foi?

Ele tinha notado uma semelhança entre ela e a protagonista do filme, o que o intrigou:

— Acho você parecida com a Audrey Hepburn. A mesma elegância, o mesmo rosto de boneca.

Cida achou o elogio indevido, cutucando com vontade o bom moço:

— Que é isso, Elano? Eu devo estar um lixo.

O filme contava a história de uma Cinderela moderna, filha de um pobre motorista, apaixonada por um pseudo-príncipe que era na realidade um sapo e que, por isso, não conseguia ver o homem certo que estava na sua frente. Muito adequado à ocasião.

Elano já estava com pouca vontade de ver o final, desconfiado de que era impossível que o filme tivesse sessenta e dois anos e não apenas uns meses. Involuntariamente, o estudante acabou verbalizando a sua opinião sobre a personagem-título:

— Parece que ela não sabe o que quer.

Cida deixou de olhar para a televisão para focar em Elano na hora de responder:

— Ela sabe o que quer. Ela não sabe é onde o encontrar.

Eram dez da noite quando o celular de Elano vibrou, o acordando de um sono pesado. Abrindo os olhos devagar, o bom moço leu a mensagem. Danilo queria saber se ele ainda estava vivo. Respondendo de uma forma irônica, Elano voltou a pousar o aparelho.

Ele não se lembrava bem como, mas ele e Cida tinham adormecido no sofá durante os créditos do filme. Ignorando boas maneiras, ela se tinha enrolado em volta do bom moço e feito dele um animal de pelúcia.

Dez horas da noite. Se Elano não a tivesse encontrado antes, ela teria estado desamparada no chão aquele tempo todo. Aquele pensamento era incomportável.

Maria Aparecida continuava dormindo placidamente em cima dele. Os medicamentos estavam fazendo efeito. A respiração estava agora mais calma e ele constatou com alívio que a temperatura da garota tinha baixado.

Ela ficava linda assim, com as pálpebras cerradas emolduradas por pestanas escuras perfeitamente reviradas contrastando com a pele clara.

O cabelo comprido da garota esparramado em cima dele não lhe causava cócegas, mas sim a vontade de brincar com as mechas e foi isso que ele fez, enquanto um silêncio absoluto reinava naquele ambiente apertado.

Maria Aparecida, tão só, tão dependente, tão mistério que ele não conseguia desvendar. Elano foi invadido por uma onda de afeto tão intensa que o desnorteou por um momento.

Por muito que o estudante quisesse mandar o resto do mundo para o espaço, ele não se conseguia esquecer de um único fato. Elano tinha nos braços a namorada de Conrado Werneck.

Ela acabou despertando, se espreguiçando indolentemente enquanto rolava para o lado.

A descida da febre trouxe de volta a Cida envergonhada. Elano percebeu a deixa, recolhendo as suas coisas e se preparando para deixar o apartamento:

— Cê sabe se a Isadora e a Ariela ainda vão demorar muito?

Consultando o relógio, ela respondeu que não. Não havendo nada em contrário, as irmãs Sarmento iriam dormir em casa.

— Tá bom, Cida. Então eu vou indo. Se você precisar de alguma coisa…porque é que você não chama o Conrado?

A boca dele dizia uma coisa, mas a expressão de preocupação outra completamente diferente.

Maria Aparecida ia responder que não podia pedir ajuda a Conrado porque ele dizia que não conseguia suportar ver alguém doente, quando ambos ouviram uma pequena colisão contra uma das janelas.

Elano se apressou a verificar o que se passava enquanto ela se colocava de joelhos no sofá.

O estrondo tinha sido o baque de um pobre jovem melro-preto perdido no seu trajeto de voo migratório que terminou abruptamente contra a janela da sala do apartamento das Sarmento.

Elano desalojou um par de sapatos da caixa para a usar para albergar o passarinho.

O coraçãozinho do desaventurado animal batia descompassadamente com o susto. A pobre ave tinha uma asa machucada.

Mostrando o pequeno animal a Maria Aparecida, Elano demonstrou a sua pena:

— A primavera já começou há muito. O pobrezinho está atrasado.

Ela o encarou pensativamente, declarando com uma sapiência desconhecida até então:

— Dá sempre tempo, Elano.

Notas finais
Uma Cida com febre é quase o equivalente de um Davi bêbado. O próximo capítulo vai demorar um pouco mais para sair porque ainda tenho que organizar o próximo bloco da história. Estejam à vontade para enviar pedidos ou sugestões. Quanto à ideia da Cida ter ciúmes de Elano, ficou anotado, mas vai surgir muito depois :). Eu volto. P.S. – Acho que o capítulo 7 se vai chamar “Proibida Pra Mim”!