Amor de Cais
2 Reencontro porreta
Sob o sol quente da Bahia, num velho, mas bastante movimentado cais, um homem caminha. Tem um quê de nostalgia em seu olhar, e seu andar denuncia sua familiaridade com o local. João José, artista conhecido no Rio de Janeiro retornava, como todo bom filho, a sua antiga casa. Sim, casa. Enquanto o velho trapiche lhe valera de quarto, a cidade que lhe servira como verdadeiro lar ainda quando atendia por “Professor”.
Não estava de todo surpreso com as diferenças que percebia conforme olhava o ambiente a sua volta. O mar e a areia eram os únicos que permaneceram idênticos às suas lembranças de menino. Pelo pouco que andou, pôde ouvir de um tudo, desde modinhas e rodas de samba a comentários sobre a greve dos estivadores. Decidiu não ficar por ali e tratou de rumar ao areal.
Professor caminhava pela areia a passos largos, pés descalços e camisa desabotoada. Em suas mãos, o próprio par de sapatos. Seu olhar perdia-se em meio às ondas que não mais podiam ser notadas na linha do horizonte. Teve vontade de entrar no mar, mas conteve-se, sabia que logo deveria retornar à cidade para arrumar algum local para seu repouso. Não sabia por quanto tempo ficaria na cidade, então pressupôs que teria todo o tempo que quisesse para visitar o mar. Ficaria ali “só mais um pouquinho…”, prometeu a si mesmo.
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Naquele mesmo cais, sem que ninguém fizesse ideia, também encontrava-se outro antigo morador da cidade, que atendera, em um passado distante, por Pedro Bala. Agora, pelos poucos amigos que tinha, ou seus tantos companheiros, era tão só, Pedro. Perdera o “Bala” quando abraçara a vida de grevista tal qual seu pai e por consequência, abriu mão de sua liderança dos Capitães da Areia.
Conforme Alberto lhe pedira, rodou por toda a Bahia, de em cidade em cidade, organizara grupos de meninos de rua em verdadeiras tropas de choque. Ganhou uma pequena fama, mas que agora, dez anos depois, confundia-se com lenda, coisa que o povo inventa para trocar conversa. Só que Pedro não ligava, contentava-se com seu dever de líder, não mais de meninos de rua, ou de tropas improvisadas, mas de colegas estivadores. Tal pai, tal filho, mantinha para si esse ditado com grande afeição.
Pedro estava sentado numa das pontes de madeira daquele velho cais, fumando o último cigarro que tinha em sua cartela. Conforme a fumaça se perdia no ambiente, seus olhos vagavam entre céu e ondas, porém sua mente pairava por sua antiga estrela: Dora.
Certamente, com o decorrer dos anos, aquele amor adolescente que sentira havia sido ofuscado pelas coisas da vida, mas sempre que podia, Bala revisava suas lembranças e fazia questão de polir a saudade que tinha de Dora. Não só dela, mas de todos os seus antigos companheiros. Muitos morreram, outros foram presos, pelo que havia ouvido falar. Sabia que João Grande, negro bom, havia sumido pro interior há quatro anos, alguma coisa com os terreiros da vida. Gato seguia malandrando pela Bahia, era o único que vez ou outra retornava à cidade e esbarrava com Bala. Pirulito, outro companheiro, enfim se tornou padre e recentemente havia adquirido a própria paróquia. Nunca teve notícias de Professor, no entanto. Aquilo o chateava, em partes, pois de todos os companheiros próximos que teve, nenhum jamais ocupou o lugar de seu antigo amigo, e mesmo assim, não tinha notícia alguma dele. Não que não tivesse tentado, mas também não sabia como procurá-lo. O Rio de Janeiro era um lugar demasiado distante e grande para descobrir quaisquer coisas sobre o artista João José, sem falar que, com tantas greves e inconveniências envolvendo a polícia, Bala nunca teve o tempo — ou a predisposição — para saber qualquer coisa nova de Professor.
O cigarro enfim acabara, bem como o tempo de Pedro para recordar o passado. Levantou-se depois de jogar a bituca ao mar e foi caminhar para o bar mais próximo. Era quase meio-dia, estava com fome e o sol bradava seus raios com toda força.
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O destino é um tanto brincalhão, poderia dizer qualquer poeta de meias penas. Bala e Professor calharam de estar juntos no mesmo bar, com a mesma fome, mas com caras diferentes. Os anos deram músculos para Bala e ele abriu mão de seus cabelos bagunçados para um corte rente que ia de encontro com sua barba igualmente loira, mas rala. A única coisa que lhe lembrava a adolescência era o velho talho em sua face, que lhe atribuía um ar exótico, em que uns viam mistério, outros experiência, ou mesmo, agressividade.
Já professor não mudara tanto assim. O corte de cabelo era o mesmo, seu porte franzino também. Talvez o que o distanciasse de seu antigo ser fosse sua própria vestimenta, sobretudo os óculos que lhe emolduravam a face. A miopia enfim foi neutralizada, depois de anos de leituras à luz de vela no trapiche. Agora ele usava vestes que se Gato em seus anos de meninice visse, certamente invejaria. Não era nada demais, mas em comparação aos trapos que já usara, seria pano da mais alta classe.
Não demorou para uma rodinha de samba se formar naquele ambiente, os homens depois que comem, querem se divertir, esquecer, nem que seja por uma meia hora, da rotina dura de trabalho que têm a completar. Pedro e João José estavam, contudo, sentados lado a lado de frente ao balcão. Ambos apoiavam as costas no que antes lhes servira de mesa para almoçarem; agora observavam o tocar de cordas do violão, o batucar de tambores e bater de palmas. Não haviam sequer olhado um para o outro, eram apenas homens sozinhos aproveitando da coletividade do bar, até que Professor, entre sorrisos e inspirações, sacou um bloquinho de anotações que usava para rascunhar desenhos.
— É batuta, não? — Bala puxou assunto referindo-se à rodinha assim que notou o suposto estranho desenhando.
— Se é. — Foi tudo que respondeu, pois sem dúvidas se atordoou com o que ouvira. Não importava se uma década se passara, João reconheceria aquela voz em qualquer espaço temporal. Largou de desenhar e encarou o homem ao seu lado. O talho no rosto só confirmou aquilo que já sabia.
— Bala?!
— Se não é o Professor…
Não tardou para que os dois se levantassem e dessem um abraço firme e ao mesmo tempo, nostálgico. Muitos tapinhas nas costas foram dados e se não fosse a saudade, qualquer outro abraço não duraria tanto. Era um reencontro. Um reencontro porreta. Eles mesmo disseram um ao outro inúmeras vezes durante o abraço: um reencontro porreta.
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