Notas iniciais
Boa noite pessoal tudo bem? Aqui vai o penultimo capitulo da fic, obrigado a todos que deixaram comentários e aos favoritos da fic e obrigado pelo apoio nesse trabalho. Queria avisar que esse capitulo em especial tem uma cena muito pesada, acredito que seja meio gore, então vou avisando que caso se sinta desconfortável, evite. No mais é isso.

Hyoga estava um bom tempo na porta do apartamento de Ikki Amamiya pensando se voltava para o elevador ou se tocava a campainha. Acabara de chegar do psicólogo e para uma primeira conversa até que fora bem reconfortante, sempre achava estranho como acabara por falar por horas por tudo e por si mesmo chegar as conclusões do que sentia e do que fazer. Sabia que a tarefa do psicólogo era induzir a isso, mas não deixava de ficar espantado. Conversaram nesse primeiro momento sobre Tenma e o possível inquérito, mas o profissional deixara para a Hyoga a tarefa de começa a desatar os nós que o estavam sufocando e Ikki Amamiya era um deles, por isso estava ali.

Enfim endireitou as costas e tocou a campainha, ouvindo-a soar dentro do apartamento só ela e mais nada por uns segundos. Talvez eles não estivessem em casa, queria falar apenas com Ikki, mas se Esmeralda tivesse lá não ia deixar para depois ou perderia a coragem. Queria saber do próprio se eles ainda teriam um futuro juntos, caso não ele seguiria sua vida e tentaria dar certo com Kagaho.

Era vai ou racha!

Já tinha o dedo sobre o botão da campainha quando ouviu o elevador apitar e abrir e Shun desceu junto com Kagaho, o loiro arregalou os olhos para aquela dupla improvável e uma pequena parte de seu cérebro visualizou a si mesmo recriminando-se por sua aparência. Enquanto Kagaho estava deslumbrante em um terno cinza gravite impecável e o Shun estar vestido com mais cuidado, camisa social sob o suéter verde e calça social, Hyoga parecia apenas ter colocado um casaco sobre sua pior roupa de dormir. Lembrou-se de ver a si mesmo no espelho com as olheiras escuras e o ar macilento do rosto, seu cabelo também não devia estar muito bom porque conseguia ver os fios apontando para todos os lados debaixo do gorro. Em suma, ele estava se sentindo um mendigo.

— Veio procurar o Ikki? – Shun perguntou sorrindo meio sem jeito, por ver que Hyoga olhava para ele e para Kagaho com fixação – Ah, nós...

— Eu vim deixar Shun em casa e conhecer o marido dele, depois ia vê-lo. – Kagaho se aproximou de Hyoga segurando-o pela cintura e tentou não demonstrar todo seu desconforto ao perguntar – O que faz aqui?

— Eu preciso falar com o Ikki. – disse Hyoga aos murmúrios, desviando o rosto dos outros dois e mordendo o lábio – Mas acho que ele não está em casa, melhor voltar outra hora.

— Estranho, porque na Fundação ele não apareceu hoje. – Shun se voltou para a porta do apartamento do irmão – Vamos ver se ele está aqui. Esmeralda deixou as chaves dela na portaria ontem, o Acrisios me entregou hoje quando passei.

— Esme deixou as chaves? Porque? – Hyoga não entendeu porque Esmeralda deixaria suas chaves na portaria.

— Eles se separaram, ela foi embora.

— Você vai entrar no apartamento do seu irmão? E se ele ficar irritado? – Hyoga franziu o cenho.

— Mas do que eu estou irritado com ele duvido. – Shun não esperou para abrir a porta, já foi vasculhando os bolsos e colocou a chave na fechadura – Também não falo com ele desde sábado então será bom ver como está esse teimoso. Venham também, acho que podemos conversar de forma civilizada.

— Não Shun! Me- – Hyoga quis protestar, contudo o japonês já tinha aberto a porta do apartamento, que permanecia escuro, mas as janelas da sacada estavam abertas e as luzes da cozinha estavam abertas.

Não demoraram a achar Ikki, o moreno estava sentado no chão com algumas latas vazias em volta, havia meia garrafa de uísque também ao seu lado e ele já estava no estado de embriaguez muito avançado, os olhos já muito estreitos estavam quase fechados. Mas ele permanecia no mesmo lugar apenas fitando um ponto distante, vestia apenas uma calça moletom e ao ver o irmão e os outros entrando pela sala apenas levantou o rosto.

— O que vieram fazer aqui? – vociferou, mas as palavras saíram emboladas e quase ininteligíveis – Vão embora!

— Nii-san, o que você está fazendo?! – Shun se aproximou do irmão, mas ele o repeliu com um safanão que encontrou o vazio porque o Amamiya mais velho não enxergava muito bem no escuro e ainda bêbado – Você passou o dia inteiro bebendo?!

— Me deixa em paz Shun! Você está com raiva de mim. – pegou a garrafa e virou um bom gole – Todo mundo está! A Esme foi embora, você foi, o Hyoga foi... Meu pai foi embora, todo mundo vai, por isso eu vou ficar sozinho agora! Sozinho...

Kagaho e Hyoga permaneceram afastados enquanto Shun tentava tirar a garrafa de bebida de Ikki e erguê-lo do chão, mas era pequeno e franzino e não conseguia erguê-lo sozinho. O advogado sênior se impacientou e ele mesmo se aproximou tirando a garrafa de Ikki e erguendo o moreno de uma vez no chão.

— Não é assim que você vai resolver seus problemas! – falou um pouco alto, como erguera Ikki do chão ambos ficaram frente a frente e o moreno franziu o cenho e depois tentou abrir mais os olhos ao ver que era o pai ali – Shun, vá preparar um café bem forte, vou levá-lo para o chuveiro. Hyoga você consegue algumas aspirinas no seu apartamento?

— S-sim! – o loiro saiu correndo antes de Kagaho falar alguma coisa. Kagaho puxou um dos braços de Ikki sobre o próprio ombro e saiu com ele pelo apartamento, encontrando o quarto rapidamente onde foi direto para o banheiro ligando o chuveiro e colocando o filho debaixo da água fria sob os protestos dele. Só que Ikki estava bêbado demais para lutar contra Kagaho que empregava sua força para subjugar o outro e fazê-lo tomar a ducha fria.

— Porque você está se afogando em bebida? Se você a ama vá atrás dela, você quer sua mulher de volta então lute por ela. – disse segurando Ikki pelos ombros e sem se importar em molhar suas roupas – Meu...Filho, você tem que lutar pela sua felicidade!

— Minha felicidade está com você. Por isso a Esme foi embora, porque eu não consigo amá-la como ela merece porque quem eu amo está namorando o meu pai! – gritou Ikki esmurrando o peito do pai, estava em lágrimas, mas era difícil saber por conta da água, embora Kagaho conseguisse ver toda a dor no semblante do filho e aquilo estava lhe dilacerando. Não conseguia suportar que ele estava sofrendo e que uma parte desse sofrimento fosse culpa sua.

Ikki grunhiu, enterrando os dedos nos cabelos molhados e Kagaho fechou os olhos parra então abri-los com um novo brilho de determinação neles.

— Me perdoa, Ikki. Eu juro que não vou mais te fazer sofrer.

Quando Hyoga voltou ao apartamento para deixar as aspirinas, só Shun estava ao lado da cama de Ikki que dormia profundamente. O ex atleta tomava uma xícara de café enquanto olhava o irmão dormir pensando na figura devastada do pai que saíra não tinha muito tempo.

— Eu trouxe a aspirina, cadê o Kagaho? – perguntou o loiro sentando com cuidado na cama perto do pediatra adormecido, tinha vontade de tocar nos cabelos molhados, dar o cafuné que sabia que Ikki gostava. Apesar de tudo, lhe doía ver Ikki desabar daquela forma, devia estar sendo duro ver Esme ir embora.

— Já foi. – Shun notou o embate interno que o amigo parecia estar tendo, era interessante observar os sentimentos de Hyoga tão visíveis, ele geralmente se espelhava em Camus para agir e viver. Contudo o loiro era mais emotivo e intenso que o ex-professor e por isso era-lhe muito difícil alcançar o mesmo nível de controle e até certa frieza que Camus – Ele disse que ia resolver umas coisas e que voltaria, espero mesmo que ele volte, não é hora de desaparecer de novo. Eu nunca vi o Ikki assim, seria bom ter alguém como Kagaho para ajudar a lidar com ele.

— Quem podia imaginar que ele a amava tanto? – Hyoga disse ainda olhando o outro adormecido – Por que ela foi embora? Será que ele contou a ela sobre o que houve na sala de balé? Mas porque contaria se ele se arrependeu, ele nem voltou a falar comigo depois daquilo...

— Mas é um burro mesmo! – Shun revirou os olhos e riu irônico – Loiro, ele não está assim por causa dela! É por sua causa, você está viajando.

— Minha causa?! – agora Hyoga olhou para Shun que permanecia com a expressão irônica o olhando como se tudo fosse obvio – Quem está viajando é você.

— Então vai pensando que é isso mesmo. Se ele realmente amasse a Esme e não estivesse confuso, ele tinha ido atrás dela, você conhece o Ikki quando ele quer alguma coisa.

Hyoga mordeu o lábio, não queria acreditar nas palavras do amigo. Não queria ter esperanças novamente e depois descobrir que tudo não passara de um sonho. Não de novo!

— Mas o Kagaho...

— É, temos ainda o senhor Li Ang Sing. – Shun suspirou se erguendo da poltrona – Mas acredito que ele fará a coisa certa! Você pode ficar aqui um pouco para que eu avise o Shiryu que vou dormir aqui e aproveito pego algumas coisas? Não acho seguro ele ficar sozinho essa noite.

Hyoga assentiu vendo o outro sair pelo quarto e então voltou seus olhos para o leonino adormecido, acabou deixando os dedos timidamente deslizarem pelos fios negros de azeviche de Ikki, sentindo a umidade e também a maciez. Fora ali naquela noite para falar com o moreno e acabaram encontrando-o daquele jeito, Kagaho estava lá e cuidou do filho, mesmo que tivesse ido embora sem falar com Hyoga. O russo não achou ruim, esperava mesmo que Li Ang colocasse os filhos como prioridade em sua vida já que os negligenciara por mais de quinze anos, estava disposto até a se afastar de Kagaho se aquilo atrapalhasse a relação ele com Ikki.

Porque por mais que não admitisse à ninguém, a felicidade de Ikki que importava. O amava demais e o conhecia o suficiente para saber que ter o pai por perto era tudo que o pediatra queria.

Era madrugada avançada quando Aiacos recebeu o recado de seu mordomo que Kagaho Li Ang Sing estava subindo para falar com ele, aquela pessoa àquela hora da noite em uma visita era muito inusitada então ele já imaginava que não era apenas uma visita ocasional. Ficou evidente quando ao abrir a porta, se deparou com o advogado e sócio da Elíseos todo desalinhado sem o terno e visivelmente bêbado parado no corredor aguardando que ele abrisse a porta. Aiacos intuiu que ele mesmo deveria fazê-lo e dispensou o empregado para ficar a sós com o “visitante”.

— Algumas horas atrás eu disse ao meu próprio filho que não se resolve os problemas bebendo. – Kagaho disse devagar, apesar de alcoolizado, as palavras saíram bem claras – Mas tá doendo demais, eu pensei que a única coisa que aliviaria isso fosse o uísque.

E para o terror de Aiacos, Kagaho começou a chorar.

***

Era noite quando a equipe da polícia e Camus com Milo e Tethis desceram das lanchas na ilha pequena no mar Egeu, uma das várias que ficavam próximas ao cabo Sunion. Ainda passaram um dia inteiro investigando até achar a ilha certa, porque Camus lembrava vagamente do caminho que pegaram até lá, contudo lá estavam eles descendo na areia de cascalho no máximo de descrição possível, embora a guarda costeira estivesse dando cobertura. Dessa vez, Saga não ia escapar.

Camus olhou para o caminho quase invisível em meio ao mato e respirou fundo, lembrando-se para onde aquele caminho levava e isso lhe fez sentir um arrepio gelado correr sua espinha. Sentiu a mão de Milo enlaçar sua cintura e apertar de leve, o marido com o gesto fazendo-se notar e os olhares se conectaram novamente. Em volta os policiais já começavam a se movimentar para adentrar a ilha a procura do esconderijo de Laskaris.

— Me prometa que se o ver, vai avisar os policiais e não atirar nele. – Camus pediu para Milo, que já tirava a Glock da jaqueta com os olhos percorrendo a sua frente e acompanhando Tethis que também se encontrava armada também andando ao lado deles.

— Se for para te proteger eu não vou hesitar. – afirmou o loiro convicto o que fez Camus bufar, não estava armado porque planejava ficar o mais longe possível de Saga e de confusão.

— Nós não precisamos segui-los, já mostramos o caminho agora é ficar na praia e esperar eles o encontrarem. Milo volta aqui!

— Ruivo, você está atrapalhando a gente e tirando a diversão. – Tethis falou desdenhosa – Mantenha a boca fechada e pare de querer bloquear o Milo, deixe ele aproveitar.

Putain.— disse Camus entredentes e se afastou dos dois de volta a praia, não iria seguir e se Milo quisesse mesmo protegê-lo como dizia ele ficaria na praia com ele! Esse pensamento lhe confortou e por isso continuou voltando para perto das lanchas com a esperança de que Milo o seguisse, quando ouviu passos atrás de si seu sorriso surgiu e já se virando confiante para ver o marido viu que não era Milo que estava ali. Depois não conseguiu ver muita coisa porque tudo girou e ficou escuro.

Quando Camus abriu os olhos, ele estava amarrado e amordaçado em um local escuro, havia uma nesga de luz passando por uma claraboia, mais a fraca luz não lhe permitia enxergar mais do que dois palmos à sua frente. Estava deitado no chão gelado e conseguia sentir o cheiro do mar e a dor começando a se insinuar pelos seus braços torcidos para trás e nas pernas, a mordaça na boca deixava ela seca e incomodava.

— Fique quieto Camus, quando ele chegar ainda finja que está inconsciente e não se mexa muito. Ele vai me soltar também e aí nós vamos agir. Eu não vou deixar ele te machucar, prometo. – disse uma voz na escuridão e Camus se retesou por reconhecer o timbre. “Kanon!” sua mente gritou e ele começou a tentar se mover – Quieto Camus, não vamos enfurecê-lo ou pode ser muito ruim, por experiencia própria lhe digo isso. Você também conhece o Saga quando está enfurecido.

Camus grunhiu, revoltado por estar à mercê de Saga de novo! Como ele não percebera que o grego estava chegando e como com aquele mundo de policiais lá fora ele conseguiu pegá-lo?! Lágrimas de frustração lhe encheram os olhos.

Porém, Camus não teve tempo de chorar. A porta se abriu e a luz elétrica inundou o quarto largo mostrando a Camus tudo que havia nele, inclusive a pessoa que chegava ali. Saga estava vestindo apenas uma bata larga e jeans, os cabelos amarrados em um rabo de cavalo baixo e parecia calmo e são como sempre aparentou. Kanon jogado no outro lado do quarto estava com as roupas puídas e sujas, a barba por crescer e os cabelos desalinhados. No quarto havia correntes e uma parede com uma variedade de chicotes pendurados, um grande pilar ficava mais à frente próximo à um catre em que Camus acreditava que Kanon dormia.

— Veja Kan, eu o trouxe para você uma última vez antes de me livrar dele de uma vez por todas. Não era isso que queria? Aqui está ele, vamos aproveitá-lo logo antes que os policiais apareçam. – Saga puxou as cordas que amarravam Camus, o francês protestou mesmo amordaçado ao sentir a fibra da corda cortar sua carne. O advogado Laskaris puxou o ruivo até ficar com o rosto próximo ao dele – Vai ser como naquele dia, só que mais divertido porque ele vai estar consciente.

— Saga, você prometeu que me deixaria tê-lo primeiro! – Kanon ralhou e Saga revirou os olhos, mas foi até o irmão desamarrá-lo e Camus ficou atento a interação deles. Não entendia como Kanon ia agir para ajudá-lo, para ele parecia que ia acabar como na última vez em que estiveram naquela ilha. Dopado e estuprado por ambos os irmãos, só que desta vez sentiria tudo e não ficaria com aquela percepção de sonho e realidade. Precisava fazer alguma coisa para sair dali!

Então Saga desamarrou Kanon que se ergueu devagar e esticou as pernas, movimentando as mãos que permaneceram amarradas por muito tempo. O gêmeo mais novo olhou de relance para Camus e para a arma que Saga carregava na cintura da calça e que a bata cobria, pensando que poderia pegá-la primeiro se Saga lhe deixasse se aproximar, mas logo percebeu que a melhor chance deles era Camus então continuou com o teatro.

Se aproximou do ruivo o erguendo e trazendo-o para o catre e Saga os acompanhou de perto atento aos dois e lambendo os lábios a expectativa do que estava por vir. Na cabeça dele, deixaria que ambos achassem que iam se amar ali antes que ele interviesse, mas estava disposto a cortar a garganta de Camus assim que Kanon e ele estivessem dentro dele e se aproximando do ápice. Seriam os dois que estariam no céu enquanto o sangue jorrava da garganta do ruivo, planejara tudo isso desde que sequestrou o irmão mais novo. Era o gran finale!

***

Alheio ao o que acontecia com os pais, Hyoga ligava para Kagaho do seu quarto, chegaram em casa e Aiolos estava com Shura na sala conversando e ouvindo um dos álbuns franceses de Camus e pareciam bem apaixonados. Achava bonita a relação do espanhol e do tio, eles não haviam casado apesar de morarem juntos, Aiolos costumava dizer que fariam isso quando fosse o tempo certo e Shura completava dizendo que não precisavam de papéis para afirmar que se amavam. Realmente era uma relação estável e tranquila, que duraria até a morte o russo pensava.

Enquanto Aiolos e Shura estavam na sala Hyoga e Krest estavam no quarto do loiro, o menino assistia algo no tablet com as perninhas balançando, ele acabara vindo para o seu quarto porque não queria dormir, Hyoga permitiu e até gostou porque ele se distraia um pouco. Apesar dos seus problemas também estava angustiado com os pais naquela ilha longe de tudo e com o louco do Saga. Mas o irmão estava raramente quieto, então Hyoga tinha muito tempo para divagar sobre aquele Kagaho e Ikki e aquele episódio estranho do dia anterior. Nem quando Agatha morreu ele desabou daquela maneira, talvez ele estivesse com muitas coisas na cabeça... Já era noite e Kagaho não atendia suas ligações nem respondia suas mensagens e ele nem fazia questão de esconder que as lia, as barrinhas azuis estavam lá para comprovar.

— Você vai ter que me atender em algum momento, Kagaho! Ou eu vou ter que ir na sua casa? – murmurou jogando o celular de lado.

— O chefe ‘tá de mal com você, mano? – Krest perguntou sem tirar os olhos do tablet.

— Tá! Ele não quer falar comigo. – Hyoga deitou perto do irmão observando o rostinho rechonchudo que parecia atento ao desenho – Krest, seu irmão é muito bobo.

— É verdade, muito bobo. Porque você não vai na casa dele brincar com ele?!

— Quando nossos pais voltarem eu vou lá. – o loiro bagunçou os cabelos do garotinho, ele queria ter a mesma confiança do irmão, de que Kagaho abriria a porta para “brincarem”. Tinha a sensação de que quando o reencontrasse, Kagaho teria outros planos.

Em Laka Milo e a polícia estavam desesperados por conta do sumiço de Camus, até Tethis estava se sentindo um pouco culpada por ter instigado a briga entre o casal e por não ter antecipado que Saga poderia sequestrar o ruivo. Agora o advogado psicopata estava com ele na ilha que não era tão pequena assim, eles estavam em poucos e todo minuto que passava era vital para a sobrevivência do francês. Tethis sabia que mesmo que Saga fosse pego agora, se ele já tivesse matado Camus, ele se entregaria feliz.

— Laskaris eu consegui seu sinal! Venha logo. – gritou um dos policiais no grupo, eles tinham ido para a praia onde estavam as lanchas.

— Para que você quer sinal GSM? – a loira perguntou para o ex-mecânico quando este se aproximou do grupo, os policiais disponibilizavam um equipamento das lanchas de rastreamento

— Eu coloquei um aplicativo de rastreamento no celular do Camus, um app bem simples onde ele diz em tempo real onde está o aparelho. Ele não precisa de internet para funcionar, ele usa a rede GSM.

— CARALHO, eu que não queria ser casado com você! – outro policial começou a rir os outros o acompanharam enquanto o inspetor da polícia e a guarda-costas dos Laskaris ficavam abismados.

— Eu tinha que me adiantar! Com esse maníaco louco à solta, quem me garantia que o Camus estava seguro? Eu precisava saber onde ele estava quando não estava sob as minhas vistas. Isso não tem nada a ver com ciúme, tá legal? – Milo disse desviando o olhar para a tela do notebook, os outros dois balançavam a cabeça apenas – ACHEI! Caralho até que enfim, anda povo comecem a se mexer, fica ao norte, subindo aquela pequena colina.

— Vou chamar reforço aéreo. – o inspetor começou a usar o rádio e os outros policiais correram seguidos de Milo e Tethis, o grego pedindo a todos os deuses que Camus ainda estivesse vivo.

Por cuidado dos deuses ou não, Camus ainda estava vivo. Kanon estava com ele naquele momento e Saga os olhava, sentado um pouco distante em uma poltrona de vime. O gêmeo acariciava o ruivo amarrado que se retesava, em seu ouvido e bem baixinho em russo, Kanon falava.

— Vou abrir sua camisa e continuar a te beijar enquanto deixo no colchão embaixo de você uma faca. Vou te desamarrar, mas prometa que vai ficar quieto e fazer tudo que eu disser agora... – Kanon gemeu fingindo acariciar por dentro da calça de Camus – Só quando ele tiver muito perto Camus, ela está tão afiada que se você passar uma vez no pescoço dele vai abrir como se tivesse fatiando um presunto.

Kanon abraçou o ruivo o erguendo e beijando-o com volúpia e ao ser deitado no catre novamente, Camus sentiu a frieza da lâmina afiada sob suas costas, sentiu até ela amassar contra sua blusa e esperava que não tivesse se cortado. Fitou o rosto nublado de desejo de Kanon, que mesmo em meio àquela situação louca estava duro, Camus se perguntou se Kanon não era tão psicopata quanto o irmão, mas de um modo diferente.

— Você não vem? – Kanon olhou para o irmão gêmeo que os fitava, Saga se ergueu lentamente, tinha uma arma não mão apesar de achar que estava tudo bem, era como se fosse a primeira vez em que estiveram ali – Vou desamarrá-lo.

Então Saga se aproximou e ambos os gêmeos ficaram lado a lado, Camus sentiu um calafrio e sua garganta se fechou. Era como na noite em que fora dopado, agora ele tinha certeza que as “alucinações” que Saga lhe dissera que tivera, nada mais era do que lembranças do que realmente acontecera com ele. Os gêmeos, ambos juntos o tomando por toda a noite e ele entre aquela linha tênue de lucidez e quase morte. O terror dessa noite de dez anos atrás agora parecia ser revivido e o deixava em pânico.

Saga puxou Kanon pelos cabelos da nuca, beijando o gêmeo com fúria até mordendo o lábio do outro para sentir o sangue verter. Havia ciúme revolvendo dentro de si, não sabia ao certo se era do irmão ou de Camus e aquilo o deixava transtornado! Iria tomá-los, primeiro Kanon para que Camus soubesse que Kanon fora sempre dele e de mais ninguém e em seguida tomaria Camus junto com o irmão para mata-lo assim que chegassem ao ápice. Ele queria ver Kanon ir do céu ao inferno como paga por todo aquele sofrimento de anos ao se apaixonar por Camus.

Jogou o irmão junto ao catre ao lado de Camus e apontando a arma para Kanon enquanto rudemente lhe rasgava as roupas, agora totalmente fora de si. Camus ousou se mexer e Saga apontou a arma para ele.

— Se tentar alguma coisa eu atiro em você. – disse entredentes, e então abriu a calça o suficiente para colocar o membro para fora que se encontrava duro e penetrou Kanon, sem nenhuma preparação e empurrando-se sem nenhuma piedade. O irmão gêmeo urrou, fechando os olhos ante a dor e ergueu os braços levando as mãos em direção ao rosto do outro. Aquele rosto tão igual ao seu! Como aquele ser que nascera junto consigo, crescera a sua volta, tinha se transformado naquele monstro? E porque tinha que ser ele a acabar com aquilo?

Ele que o amava tanto! Sua outra metade.

As mãos de Kanon encontraram o pescoço vigoroso do irmão e sentindo ele se arremeter fundo dentro de si o ex-atleta começou a apertar com todas as suas forças, Saga arregalou os olhos e tentou afastá-lo largando a arma e segurando as mãos do outro na tentativa de tirá-las de si. Saga tentou então pegar a arma, mas Camus foi mais rápido e a pegou jogando-a longe já que se tentasse levantar Saga poderia usar esse artificio para escapar. Acabou ficando ali, encolhido enquanto via Kanon cruzar as pernas para prender Saga junto a si e continuar a estrangulá-lo. Camus conhecia a força daquelas pernas, ele treinara por anos para a ginastica e para os saltos no cavalo, no solo. Kanon era um ginasta completo e aquilo não se perdia nunca!

A polícia encontrou o porão da casa isolada no meio do vale na ilha no momento em que Saga tentava dar seu último grito, era uma cena grotesca que se via. O advogado estava preso ao irmão que tinha as mãos agarrando fortemente sua garganta, o rosto convulsionado já pela falta de ar e os olhos ficando fora da orbita. Kanon também estava deformado por conta do esforço supremo de prender o irmão junto a si para que ele não fugisse, era uma ironia amarga que agora eles estivessem assim ligados. Era quase como o parto, lembrara do que sua mãe dissera sobre eles estarem emaranhados um no outro que o médico teve dificuldades de tirá-los de dentro dela, agora eles estavam de novo assim, mas Saga estava morto.

— Camus! Cadê o Camus?! Gritava Milo e apenas ele e dois policiais entravam no porão, Tethis também e ao ver a guardiã de sua família Kanon começou a chorar. A loira viu aquela cena bizarra e a biles subiu pela sua garganta encontrando caminho rápido para o chão, doía mais seu coração do que aquela sensação de vômito. Pelos deuses aquele amor bizarro acabara daquela maneira?!

Milo correu logo para Camus, que vendo o esposo saiu da paralisia e afastou os irmãos Laskaris para chegar até o grego. Ambos se abraçaram em meio a balburdia dos policiais que gritavam um para o outro e tudo parecia um caos, Camus chorava descontroladamente e Milo o agarrava com força junto a si lhe dizendo que o amava e estava li, que ele estava seguro agora.

***

Ikki acordou com o cheiro de café, abriu os olhos e a claridade que invadia o quarto incomodou seus olhos e ele lembrou que Shun dormira ali e que ele gostava da claridade, provavelmente fora ele que abrira as cortinas. Precisava se levantar já que o irmão estava ali, desde domingo e depois da bebedeira que Shun vinha vê-lo. Pelo menos Shun voltara a falar consigo, ainda lhe incomodava saber que ele fora procurar o pai e que Kagaho estivera ali, mas isso resolveria em outra hora.

— Bom dia dorminhoco! Eu ia descobrir porque você está faltando trabalho, mas liguei para Jabu e ele me disse que você foi afastado da residência médica. – então era realmente Shun, ele estava entrando no quarto agora com uma xicara de café e aproveitou para sentar ao seu lado enquanto Ikki pestanejava e tentava processar que o seu irmão havia falado com o pessoal do hospital – Porque está querendo deixar a residência na Fundação? – os olhos verdes o fitavam aguardando uma resposta e nisso ele era muito persuasivo, nem adiantava mentir.

— Porque eu estava pensando em desistir da medicina e viajar por um tempo, também esses últimos dias tive alguns problemas no trabalho que poderiam ter consequências graves. O médico coordenador dos residentes decidiu me dar uma folga de cinco dias e depois que eu voltasse ele vai me perguntar de novo se eu vou abandonar o curso.

— E você vai nii-san?

— Não tenho certeza ainda. . . – Ikki se arrastou na cama para pegar o celular e olhar a hora, era terça-feira e Shun devia estar no trabalho – Não está na hora de você ir trabalhar?

— Eu já tô indo, só passei aqui para acordar você. Quero que você veja uma pessoa hoje, – Shun se ergueu e esfregou as mãos nas pernas, um sinal de nervosismo que Ikki bem conhecia e então olhou mais atentamente para o mais jovem vendo que Shun parecia criar coragem para falar algo – prometa que vai ouvi-la e vai tentar ser amigável para passar o dia com ele hoje. Ele dispensou todos seus compromissos para lhe ver e passar o dia com você hoje, então por favor seja razoável.

— Nem fodendo eu vou passar o dia com o Kagaho hoje, Shun! – Ikki esbravejou, largando a xicara na mesa de cabeceira – O que foi que ele te falou que agora te deixa condescendente com vinte anos de abandono, hã?

— Não seja mesquinho! Você e Agatha nunca deixaram ele se aproximar, vocês nunca permitiram que eu o conhecesse e agora você diz que ele nos abandonou! – explodiu Shun surpreendentemente – Você tem tanta raiva dele por ele não ter insistido? Nossa mãe não morreu por causa dele Ikki, pare de culpá-lo por isso como Agatha fazia ou vai morrer consumido por esse rancor como ela morreu e eu me recuso a viver assim! – Shun apertou os lábios, os olhos esmeraldinos estavam brilhantes pelas lágrimas porque para Shun era muito fácil desaguar seus sentimentos daquela maneira – Ele está aqui agora, na verdade ele nunca nos abandonou. O dinheiro, a Fundação e todos os benefícios que conseguimos foi ele que conseguiu sabia? Aiolos me contou tudo! Ele ia a Fundação nos ver, ele estava lá quando me classifiquei para o mundial de ginastica olímpica... Meu pai esteve lá nas sombras e a culpa é sua e da Agatha! Se eu consigo perdoá-lo por isso Ikki, acho bom você começar a pensar em perdoar o Kagaho.

O japonesinho respirou fundo e cerrou os lábios, se amaldiçoando porque prometera que não jogaria aquelas acusações sobre o irmão porque queria pôr um fim naquele passado cheio de ressentimentos. Mesmo que quisesse ser altruísta e em seu coração quisesse esquecer e perdoar, aquela descoberta doía. Saber que fora privado do convívio do pai apenas porque Agatha o odiava e incutira esse ódio no irmão mais velho lhe macucava muito.

— Eu vou embora de novo Shun. – o mais velho apenas murmurou sem encarar o irmão.

— Você pode ir, mas primeiro passe o dia com Kagaho hoje, depois pode fazer o que quiser! Mas faça essa última coisa por mim ok?

Shun foi embora e Ikki pode ouvir a porta da frente do apartamento fechando num estrondo, seu pequeno irmão e seus rompantes. Shun era muito sereno e calmo, mas quando estava irritado ou algo lhe incomodava costumava ser um barriu de pólvora. Virginianos eram como lagos profundos, a superfície escondia muita coisa.

Por fim se ergueu estalando os ossos e indo tomar um banho para se preparar para aquele dia que ele encarava como um dia de cão, com sorte logo acabaria e ele poderia ir embora. Seu ser todo clamava para bater asas e sair por aí sem destino, para esperar as coisas acalmarem ou ele mesmo encontrar um caminho a seguir naquele momento. Mas isso era o que ele sempre fazia e não parecia certo deixar Shun naquele momento, porém nem conseguia encarar o pai por toda a mágoa que guardava dele e pelo presente dele. Como esquecer que Kagaho era apaixonado por Hyoga e eles pareciam estar juntos? Eles estavam juntos no apartamento dele no domingo, mesmo em meio a nevoa do álcool Ikki notou Hyoga ali no apartamento. Com certeza viera com Kagaho ou estava na casa do loiro, pensava enquanto colocava a cabeça debaixo da ducha forte e deixava agua fria escorrer pelos músculos do corpo o acordando-o.

Em sua casa Kagaho descia apressado as escadas preparando-se para sair, Aiacos o viu passar de onde estava, na sala de jantar onde o café estava posto e o outro advogado o tomava tranquilamente.

— Não vai nem se despedir de mim? – Aiacos disse apoiando o queixo entre os dedos entrelaçados, o sorriso malicioso de sempre brincava nos lábios finos. Kagaho revirou os olhos e foi até o outro que apenas ergueu o rosto para receber o beijo, que seria apenas um selinho por Li Ang, mas Aiacos tinha outros planos. Segurou Li Ang Sing pela gola da camisa e resvalou a língua pelo lábio do outro pedindo passagem para a sua língua que o outro acabou cedendo, aprofundando o beijo ao enroscar a sua língua na de Kagaho e sentindo o gosto de enxaguante bucal que ele usava.

Na madrugada em que Kagaho chegou bêbado e desesperado em seu apartamento Aiacos só conseguiu colocá-lo para dormir e acordar Radamanthys com uma ligação tardia, para tentar descobrir algo que pudesse ajuda-lo. Os dois chegaram à conclusão de que algo acontecera na conversa que Kagaho tivera com os filhos, Garuda sabia dessa conversa e ele mesmo estava incentivando-o Li Ang Sing a se acertar com os filhos já que por algum golpe do destino eles finalmente se reencontraram. Aiacos de Garuda não sabia bem o que pensar disso, mas conhecia a culpa que Kagaho carregou por anos por causa desse afastamento, quem sabe se entender com os filhos fizesse Kagaho entender que estava na hora de encontrar alguém para partilhar a vida.

Na manhã seguinte eles acordaram juntos na cama de Aiacos, Kagaho não tinha muita ideia como fora acabar ali bêbado como estava e Aiacos pensou que inconscientemente dormir na mesma cama que o seu grande amor lhe daria aquela velha sensação de pedaço de ilusão do qual ele se alimentava por todos aqueles anos. Então quando Kagaho o procurou ele apenas se permitiu e lá estavam os dois juntos. Ele confessara que o amava à mesa do café e ao fim do dia, Kagaho dissera que não podia prometer nada, mas que estava odiando ficar sozinho, que precisava de alguém naquele momento.

“Você é um filho da puta egoísta, Kagaho.” Aiacos o acusara para em seguida o beijar e agora estavam ali, há dois dias Aiacos tinha trazido tudo do seu apartamento para a casa de Kagaho. E naquela manhã vira toda a ansiedade do amante em se arrumar para ir ver o filho mais velho.

— Você gosta de fazer espetáculo para os empregados. – comentou Li Ang quando o outro o largou ao que Aiacos retrucou com um dar de ombros – Estou bem?

— Perfeito. Deixei tudo arrumado no píer, Pierre estará esperando por vocês e Constance já foi para lá. – Aiacos voltou ao seu café.

— Arrumou o quê?

— O barco Kagaho! Vai fazer o que com esse menino hoje? Vocês iam até o tumulo da mãe morta e você ia levar ele ao zoológico? – Aiacos mexeu na franja comprida e aproveitou para revirar os olhos – Ele tem o que? Vinte cinco ou vinte seis anos? Se ele for que nem você, vai ser um poço de teimosia. Nada que uma viagem rápida no seu barco e seus dotes de marinheiro não amoleçam, vá até a costa, mostre um pouco da Grécia antiga para ele, conversem sobre as cidades estados! Leve-o a Laka para pescar e ao fim da tarde traga-o aqui, quero botar os olhos nele. Minos disse que ele é a sua cara.

— Acha que eu vou conseguir com tudo isso chegar até o fim do dia? – Kagaho arqueou a sobrancelha – Caso com você se conseguir.

— Então vou pedir para o Radamanthys começar nosso acordo pré-nupcial. Vou querer partilha dos bens, preciso redecorar esse mausoléu – e fez um gesto amplo ao redor, Kagaho apenas gargalhou e em seguida pegou suas chaves para sair e pegar Ikki no apartamento dele. Shun havia prometido que tinha falado com o irmão e que ele tinha aceitado sair com ele.