Notas iniciais
Oieee ainda tem alguém aí? Desuclpem a demora em postar, estava tendo uma avalanche de problemas e isso acabou um pouco com o meu animo. De mais a mais, temos um capítulo sofrência para vocês. Eu sinto muito, essa história ela parece que só vai fluindo e o Ikki e o Hyoga tem uma carga dramática que escorre por aqui. Mas tá acabando! Em breve teremos uma fic mais leve pra vocês prometo.

Domingo era um dia bem movimentado no condomínio, nos poucos meses que morava ali, Ikki pode perceber que era o dia em que os vizinhos se encontravam nas áreas livres e nas quadras, nas piscinas e almoçavam no restaurante anexo no clube dentro do condomínio de luxo. Se alguém lhe dissesse um dia que teria uma vida como aquela ele teria rido, quando ele tinha quatorze anos ele trabalhava meio período na feira comum em troca de um meio salário para ajudar em casa. Sua mãe havia morrido por conta da depressão e sua avó odiava seu pai o suficiente para recusar o dinheiro que ele enviava. Então precisavam de um pouco mais do que a assistência social pagava e do salário de cozinheira de Agatha!

Da varanda do seu apartamento ele via a movimentação lá embaixo. Eles pareciam felizes e despreocupados então devia estar tudo bem, não como ele com um mal-estar que parecia ressaca, mas na verdade era apenas uma merda de noite mal dormida por causa de tudo que vinha acontecendo.

— Eu estava evitando essa “DR”, mas acho que precisamos conversar. Tá sendo complicado fingir que nada tá acontecendo quando você está há dias dormindo no sofá. – Esmeralda se apoiou na amurada do mesmo modo como Ikki estava apoiado. Mais uma noite em que ele ficava na sala apesar dos outros dois quartos e do próprio quarto do casal no qual ele entrava apenas para pegar suas roupas – Eu fui ontem no médico pegar o resultado dos exames que estava fazendo, você lembra?

— Eu lembro. – Ikki se voltou para a esposa a olhando com atenção, os olhos estavam inchados.

— Eu vou ter que retirar o útero, o cisto está grande demais e mesmo com os medicamentos não vai dar resultado. Mas bem antes do cisto eu já não podia engravidar porque tenho um problema no fator RH, ele não vai me deixar manter uma gravidez. – a jovem pesquisadora deu de ombros sorrindo de forma amarga – Engraçado isso porque eu sempre disse que nunca iria ter filhos e agora... Então desejos se tornam realidade certo?

Ikki se aproximou e puxou a loira para seus braços, acalentando-a com carinho mesmo que Esmeralda permanecesse calma e sem lagrimas. Ela era muito autossuficiente para chorar na frente dele, com certeza já tinha tido sua parcela de tristeza e agora decidira seguir em frente.

— Nós ainda podemos adotar, podemos conseguir uma barriga solidária. Se um dia você quiser ser mãe, nós ainda podemos dar um jeito. – confortou a esposa mesmo sem saber ao certo como seria o futuro deles. Por agora teriam que ficar juntos e tentar resgatar o casamento. Eles se amavam quando decidiram casar, não se amavam? Ele largara tudo na Grécia para seguir Esmeralda que decidira viver na índia por alguns meses, nisso eles viveram em muitos lugares como uma lua de mel que nunca terminava até que Ikki como a ave do paraíso que era, sentiu saudades do lar e decidiu voltar.

— Será que você estará aqui quando eu decidir ser mãe? – Esmeralda olhou nos olhos escuros do marido – Porque desde que chegamos eu sinto que você quer ficar e eu quero partir, que você se arrepende.

— Eu quero mesmo ficar. Aqui é onde está a minha família... Meu pai voltou, eu tenho que resolver algumas coisas com ele.

— Seu pai? Aquele que você não vê sei lá, quinze anos? – Esmeralda franziu o cenho e olhou para o marido que parecia muito abatido. Bem, o retorno do pai poderia sim ser algo que deixasse Ikki taciturno e isolado, não seria necessariamente por causa de Hyoga que ele ficaria assim.

Porque tudo naquela situação gritava que era por conta do russo, que ele era a causa da bagunça que estava Ikki Amamiya e ela desconfiava que a real saudade do moreno fosse o jovem patinador que ele nunca esquecera.

— Esse mesmo. Ele é advogado e novo namorado do Hyoga. – Ikki deu de ombros – Vai ser complicado agora, mesmo que ele não conhecesse ninguém eu ainda o odeio. Só que agora ele é namorado do russo e nós somos amigos, a família dele é quase a minha família também e Shun e Hyoga são melhores amigos. Além de parentes porque o Shun casou com o Shiryu, o primo do Hyoga.

— Você vai ter que lidar com isso, afinal se passaram quinze anos. No entanto, de qualquer forma você não precisa conviver com eles. Nós podemos ir embora daqui e superar tudo isso longe. – ela o olhou esperançosa.

— Eu não quero ir embora, já disse. Eu vou ficar, o Hyoga querendo ou não ficar com aquele cara. Eu vou ficar. – o moreno parecia falar mais para si do que para Esmeralda e aquilo a deixou inquieta.

— Eu quero ir embora Ikki, não quero mais ficar aqui e nem fazer o mestrado. –ela lambeu os lábios e ambos se olharam. No olhar dela havia medo e ansiedade, no de Ikki apenas resignação.

— Então você pode ir Esme, eu não vou pedir para você ficar.

A expressão dela era de estarrecimento, Esmeralda sentia como se uma garra segurasse seu coração. Não acreditava que ele ia deixá-la, não podia ser, não naquele momento. Mesmo que ela sempre dissesse que era independente e que não seria o amor que os manteria juntos, mesmo que ela fosse contra eles formarem uma família e ficarem em um mesmo lugar para sempre. Esmeralda queria ser livre para seguir onde o vento a levasse e esperava que Ikki fosse assim. Fora pelo espirito curioso e aventureiro dele que ela se apaixonara e por um tempo viu nele isso. Queria seu Ikki adolescente e aventureiro de volta!

— Se você ficar nós podemos tentar de novo, tentar resgatar o nosso casamento. Mas não quero que fique obrigada, eu mesmo talvez não deseje realmente resgatar algo... Porém, não vou mentir para você e dizer que podemos fugir de novo. Porque há quatro anos atrás eu fugi com você porque tinha medo de não conseguir me apaixonar, de não conseguir retribuir todo o sentimento que eu recebia e então eu fui embora. Mas agora eu quero ficar, quero esse sentimento de volta e vou lutar por ele!

— Você está falando no Hyoga?

— Também.

Esmeralda baixou os olhos e as lágrimas finalmente vieram, ela queria esmurrar Ikki e dizer que aquilo tudo era mentira. Queria agir pela primeira vez como uma mulher apaixonada e que se deixava levar pela emoção e pela dor, no entanto, ela se limitou a largá-lo e voltar para dentro da casa.

Ao final da tarde, ainda na varanda, Ikki estava sozinho no apartamento. Ele voltara para dentro apenas duas vezes para usar o banheiro e tinha visto as malas no corredor e Esmeralda se vestindo. Ela se fora sem dizer mais uma palavra e bem mais tarde naquele dia ela lhe mandara uma mensagem dizendo que voltaria para Chipre para a casa dos pais por enquanto e que ele mandasse preparar a documentação do divórcio. Pratica e objetiva, só no final da mensagem é que ela deixara escapar seu dessabor.

“Ainda bem que não tivemos filhos, eu acabaria como a sua mãe. Talvez você deva mesmo se reaproximar do seu pai, são bem parecidos.”

Ikki releu a mensagem duas vezes antes de desligar o telefone e voltar a varanda, tinha uma noite sem estrelas a sua frente agora e na área de lazer poucas pessoas. Havia apenas o silencio preenchendo tudo, inclusive seu coração e ele estava bem assim. Logo mais sairia para um plantão e comeria algo no hospital mesmo, não sentia fome mesmo que tivesse passado o dia sem comer nada. Ele se sentia vazio.

***

Shun evitou sair de casa no domingo e permaneceu em seu apartamento o dia inteiro, relembrando da infância e olhando as poucas fotos que tinham juntos, na maioria delas estavam Hyoga e Milo. Os Savalas estavam sempre ali desde que ele se entendia por gente, tão natural como se eles fossem uma família. Seu telefone tocara duas vezes aquele dia, uma das vezes era Milo para saber como ele estava e indagar sobre Ikki que não atendera a porta e nem o celular pelo dia inteiro, o grego estava preocupado com eles como o pai zeloso que era. A segunda vez fora Hyoga querendo vê-lo para pedir desculpas, mas pela primeira vez na vida ele se recusara a ver o amigo. Precisava colocar os seus sentimentos no lugar primeiro para depois decidir como agir com cada uma das pessoas envolvidas na sua vida.

Kagaho mandou uma mensagem, breve, apenas perguntando como ele e o irmão estavam e informando sobre o inquérito e sobre a ficha deles na polícia que agora estava impecável como sempre fora. Shun achou bom que ele não fosse bancar o pai presente agora, que não fosse invasivo. Havia muito o que conversar ainda então precisavam ir com calma.

— Venha ver o que eu preparei para o nosso jantar. – Shiryu surgiu na porta do escritório da casa deles e o chamou, o moreno estava perfumado e vestido com uma camisa social e jeans, tinha ido visitar o pai aquela tarde porque Aiolos veio ver Milo e a família e também buscar Krest, o garotinho ficaria aquela semana com o tio e em segurança. O Argenkland aproveitou para sequestrar o filho um pouco e matar as saudades e mesmo Shun insistindo que ficaria bem, Shiryu não quis dormir na casa do pai e voltou para junto do companheiro.

— Não precisava, eu já ia fazer o jantar Shi. – Shun se ergueu e acompanhou o marido e quando chegou na sala encontrou a mesa posta, luz de velas e massa italiana fumegante esperando por eles junto com vinho tinto – Zeus, Shiryu!

— Gostou? Um jantar romântico para espairecer. – Shiryu puxou a cadeira e chamou Shun com um gesto, o japonesinho se aproximou da mesa, mas ao invés de sentar abraçou o marido apertado beijando-o em seguida com paixão – Hum... Parece que alguém gostou!

—Você não existe! Sinceramente, eu não mereço você.

— Claro que merece, eu sou o homem da sua vida! – ele sorriu presunçoso e voltou a beijar o outro em seguida indicando a cadeira – Vamos jantar antes que esfrie e depois você pode ganhar uma massagem relaxante para tirar essa tensão.

— Você acha que eu estou exagerando? – comentou Shun se sentando à mesa enquanto Shiryu fazia o mesmo.

— Bem, todos temos o nosso momento. Apenas lembre-se que Hyoga e os Savalas não contaram nada porque não competia a eles contar. – Shiryu serviu vinho a ambos – Também não estou dizendo para culpar apenas Ikki por não contar, afinal você conhece seu irmão melhor do que eu e deve imaginar como estava a vida dele depois de descobrir sobre o pai e que esse pai está com a pessoa que ele ama... Ou eles não teriam uma recaída e ele não estaria tão mal como está. Acredito que tudo não passou de uma infeliz coincidência!

— Pode ser. – Shun começou a comer em silêncio, pensando no que Shiryu falara e em toda aquela situação. Claro que não culpava ninguém, mas não conseguia deixar de lado de que estava magoado e talvez precisasse de tempo para assimilar isso. Talvez deve-se aguardar a “poeira baixar” como se costumava dizer.

Assim, no fim do domingo todos os envolvidos naquela teia de estavam exaustos e tanto pensar em uma forma de contornar aquela situação difícil, só esperando que o tempo ou algo a mais os ajudasse a resolver. Talvez não fosse um milagre que esperavam, talvez só um sinal do caminho a seguir para tentar juntar a família sem machucar mais ninguém. Sinal ou não, o fato é que no fim da noite aconteceu algo que começou a desencadear uma reviravolta em suas vidas.

Mu já tinha se recolhido com Kiki, Shaka lia um livro e tomava o resto do vinho tranquilo no sofá esperando que o sono viesse quando percebeu que o telefone tocava. Estranhou que o telefone do apartamento tocasse àquela hora da noite porque poucos sabiam aquele número e a maioria dos seus amigos ligaria para seu celular e não para o convencional. Atendeu mais por curiosidade do que qualquer coisa.

— Alô? – disse o indiano sereno.

“Por que você voltou Shaka? O que significa isso?” – Shaka segurou o fone com mais força, reconhecendo a voz mesmo que ela estivesse impregnada de desespero.

— Eu voltei para vê-lo Saga, me deixe ver você. – disse o loiro de forma dócil, por sugestão da polícia e dos advogados, se Saga entrasse em contato tentaria ao máximo arrancar todas as informações que conseguisse dele.

“Por que quer me ver Shaka? Agora eu estou quase conseguindo me livrar do Camus, o Kanon está aqui comigo e ele vai esperar até que eu consiga trazer o ruivo para cá, você não devia ter voltado Shaka... Não posso machucar você! Você não... – a ligação falhou agora, mas Shaka pode sentir o outro respirando ruidosamente e o vento forte.

— Então você não precisa machucar mais ninguém Saga. Onde você está?

"Você sabe onde os maiores criminosos estão Shaka?” e a ligação foi cortada. Shaka ficou um tempo pensando e por fim começou a fuçar na internet pelo celular. Era um pouco depois das duas da madrugada quando o celular de Milo começou a tocar na casa dos Savalas e foi Camus que atendeu porque Milo estava quase em “coma”

— Eu descobri onde o Saga está! – disse o indiano antes mesmo que Camus falasse alô.

***

Na manhã seguinte o lar dos Savalas era um alvoroço só.

— Não se preocupe Camus, vou cuidar deles para vocês. Só não acho uma boa ideia vocês irem junto com a polícia para esse lugar. – Aiolos tentava demover pelo menos o cunhado, já que o irmão já estava desde a madrugada em planos com a polícia e o advogado Minos de Griffon. O diretor da Fundação Kido esperava pelo menos que Camus fosse sensato.

— Eu sou o único que sabe exatamente onde fica a casa onde Saga está, eu já fui lá e nunca esqueci daquele lugar. – o grego percebeu a sombra que passou nos olhos de Camus ao falar aquilo. Só conseguia imaginar as coisas que o ruivo passara nas mãos de Saga e percebia que assim como Milo, Camus desejava mais do que justiça. Ele queria beber o sangue de Saga Laskaris.

— E Aiolos sem cogitação do Camus ir sozinho atrás daquele filho da puta! – Milo nem olhava para eles ao dizer isso, mesmo que o irmão e Camus estivessem na sacada, o loiro estava atento a conversa deles. Milo estava na sala com os policiais e Tethis ajustando as últimas informações – Investigador Katsaros, como está o inquérito do Hyoga?

— Agora é marcar a acareação. – o policial respondeu dando de ombros, Heitor Katsaros era investigador na polícia há vinte anos e já vira um pouco de tudo. Mas Saga Laskaris estava sendo uma pedra em seu sapato e ele também queria acabar logo com aquele caso – Li Ang infernizou quem podia e quem não podia para conseguir todas as imagens do centro psiquiátrico, da boate e os históricos de ataque do rapaz Tenma, que ainda está internado no hospital diga-se de passagem. Do jeito que Li Ang está empenhado, é melhor que o garoto permaneça em coma mesmo.

— Não posso dizer que o resultado não me deixa satisfeito investigador. Eu mesmo abri várias queixas de agressão e tinha uma medida restritiva contra Tenma por perseguir o meu filho e tudo que consegui foi o que? – Milo olhou o investigador com desprezo fazendo o outro rir – Ele na primeira oportunidade que teve de fugir quase sequestrou meu filho! Já não bastava ele ter tentado matá-lo quando ele tinha quinze anos?

— Mas Tenma não tem culpa dos problemas que tem Milo! – Aiolia se impacientou, era um professor acima de tudo e conhecia Tenma desde muito jovem na Fundação – Ele, do jeito dele, acredita que ama Hyoga. Só tem problemas psicológicos demais para se controlar.

— Problema é dele! – retrucou Milo fazendo os irmãos e o marido revirarem os olhos. Seria difícil muda a ideia que o ex-mecânico tinha daquele assunto – S ele tivesse sequestrado o meu anj-

— Quantas vezes eu já te pedi para parar de me chamar assim?! – Hyoga vinha com o irmãozinho e as mochilas pelo corredor e ouviu Milo – E olha quanta gene nessa sala! Você quer me desmoralizar mais do que já estou? Já tenho vinte uns anos, pai pelo amor!

— Não quero ir! Eu quero ir com o papa viajar! – gritou Krest tentando se desvencilhar de Hyoga, ele estava muito irritado – Quero ir para a escola!

— Meu amor, já conversamos sobre isso. – Milo foi pegar o filho, Aiolos e Camus também vieram para a sala para junto dos garotos e dos policiais – É perigoso, papai está cuidando da nossa segurança, prometo que vamos voltar logo e...

— EU NÃO QUERO IR! – ele berrou ainda mais alto chutando os sapatos e correndo de volta ao quarto, o garotinho andava muito irritado por se ver sendo deixado um pouco de lado do que acontecia. Percebia que algo acontecia com a família, mas ninguém lhe dizia nada e ele ficava irritado com isso. Na sua cabeça infantil, eles estavam cansados dele e seu modo de reagir era ficar com raiva e gritar. Passara a semana na casa de Aiolos e voltara para os pais apenas naquele fim de semana, quando Camus lhe contou que ele voltaria para a casa do tio, Krest ficou furioso – EU ODEIO VOCÊS!

— Não me admiraria que ele não acabasse surtando também. – Hyoga observou vendo o irmão sumir pela porta do seu próprio quarto.

— Ele vai nem que seja a força! Vocês não vão ficar sozinhos aqui. – Camus apertou o maxilar, estava se remoendo por dentro por ver os filhos assim, mas queria fazer aquele ultimo sacrifício para salvar a família. Precisavam achar Saga.

— Calma Camus, não se preocupe. Pode ir tranquilo que eu fico aqui com eles. – Aiolos o tranquilizou apertando o ombro do ruivo – Eu vou em casa apenas pegar algumas coisas e depois volto aqui ou posso pedir para o Shura trazer! Ficamos aqui eu e o Shura enquanto vocês resolvem as coisas, o Krest está se sentindo abandonado e triste, é normal ele se rebelar assim nesses casos e o melhor é ele ficar em seu ambiente familiar de costume. Ele vai se sentir melhor aqui e Hyoga vai ficar então vamos conseguir deixar ele melhor, eu cuido dos nossos anjinhos. – finalizou Aiolos com aquela sua calma e confiança características. Aiolos era sempre uma rocha de serenidade e poder paternal, da família era o pilar que sustentava todos e Camus confiaria sua vida a ele.

— Obrigado meu amigo. – em seu raro momento de fragilidade, Camus abraçou Aiolos sentindo que o outro lhe passava um pouco de sua força. O ex-patinador também queria se acalentado um pouco para ter força para o que estava por vir. De alguma forma sabia que ir atrás de Saga era de algum modo se colocar em risco e à Milo também.

— E você prometa que vai ver o psicólogo hoje? – largou Aiolos para abraçar Hyoga – Que vai conversar com ele e tentar sair de casa. Não se preocupe, está quase acabando.

— Volte com vida e não deixe meu pai fazer nenhuma besteira, Camus. Já basta um Savalas em eminencia de ser preso. – Hyoga apertou o padrasto junto a si – Volte para nós são e salvo papa! Me prometa!

— Eu juro meu filho. – Camus olhou para Hyoga emocionado, sempre ficava assim quando Hyoga também o chamava de pai.

— Não se preocupe com o psicólogo, Kagaho está vindo me buscar para me levar lá. – Camus e Aiolos trocaram um olhar ao ouvir o russo dizer – Ok, pode me olhar com essa cara, mas tem muita coisa pra fala e agora vocês têm que ir.

Os policiais começaram a sair e Milo veio se despedir dos filhos, Krest acabou voltando para a sala cchoroso, porém um tanto menos irritado. Depois de abraçar e beijar ambos os filhos e abraçar o irmão, Milo se foi com os outros. No corredor em direção aos elevadores ele passou o braço sobre os ombros de Camus que se aconchegou nele, estava um tanto trêmulo. Milo beijou os cabelos do marido e sussurrou próximo para que só ele ouvisse.

— Eu te amo, e vou fazer de tudo para te livrar desse filho da puta. Eu vou te proteger.

Camus sabia disso, sabia que Milo estava disposto a tudo para acabar com aquele inferno e por isso começou a pedir aos céus que os policiais achassem Saga primeiro que Milo ou tudo estaria perdido.

***

— E então ele está disposto a lutar para se reaproximar dos filhos? Isso é uma coisa boa no fim das contas, porque pelo que o Shiryu me contou, a maior vontade do Shun sempre foi conhecer o pai e mesmo o Ikki sendo todo esse poço de raiva, finalmente ter o pai por perto vai ajuda-lo. – Aiolos serviu o almoço para Hyoga. Krest dormira emburrado e ainda não acordara então resolveram deixa-lo dormir, já tinha ligado para casa para avisar Shura que passaria ali com ele ao fim da tarde para deixar algumas coisas do grego. O espanhol também se ofereceu para ficar lá e fazer-lhe companhia, o que Aiolos achou maravilhoso. Já se encontrava instalado e bem a vontade na cobertura, tanto que já pegara as roupas do meio irmão para vestir – Shiryu mesmo se sentiu melhor ao saber da sua família biológica, ele fala com a irmã até hoje e já foi para o Japão também vê-los. Os pais dele morreram quando ele era um bebê, a irmã não pode ficar com ele porque era de menor.

— É, mas a história do Kagaho não é tão altruísta assim. – Hyoga remexeu na comida pensando na família Amamiya, a bem verdade que ele também não estava com nenhum apetite. Toda aquela história lhe tirava o sono e o apetite – Ele era jovem demais e tinha acabado de sair do orfanato para a faculdade, tinha conseguido a bolsa com muito custo e tudo mais. Mesmo assim isso não é justificativa para largar a namorada grávida para viajar para Paris!

— Você chegou a conversar com ele sobre isso? Tentou entender os motivos dele? – os olhos verdes de Aiolos observavam o sobrinho com atenção. Para ele, Hyoga não estava tão dividido naquela história como dizia, Aiolos achava que ele estava mais pendente para o lado de Ikki que sempre odiou o pai por tê-los abandonado do que qualquer outra coisa. Mesmo que agora esse pai fosse o homem que mexia consigo, Hyoga não o perdoava do mesmo modo que Ikki fazia – Bem, quando os Amamiya vieram para a Fundação eu me lembro bem deles. Shun era tão pequeno e mal desenvolvido que tivemos que deixá-lo na creche por uns anos até que ele conseguisse acompanhar as crianças do maternal. Ikki era muito arredio e brigão, ele precisou de acompanhamento psicológico assim como você, não do mesmo nível, mas ainda assim... – Aiolos deu de ombros – Agatha era a responsável deles e uma mulher irascível, era mais cabeça dura que Milo e olha que eu ainda não tinha conhecido ninguém tão teimoso quanto o seu pai. Mas o fato é que esta velha senhora era uma mulher que criava os netos do mesmo modo em que fora criada, com rigor e punhos de ferro. Pelo que eu sei, Kagaho voltou anos depois para tentar se aproximar dos garotos, ele até me procurou na Fundação e foi quando eu sugeri que ele começasse a pagar a pensão em uma conta mesmo que Agatha não aceitasse.

— Quer dizer que a Agatha não aceitou o dinheiro dele? Nunca?! – Hyoga estava chocado – Mas eles viviam passando necessidade! Houve dias em que nós tivemos que dividir nosso jantar com Shun e Ikki porque eles não tinham nada para comer em casa! E não foram poucos.

— Mais de uma vez Milo me pediu dinheiro para fazer compras porque vocês estavam com pouca comida porque estavam dividindo com os Amamiya. – Aiolos assegurou de forma triste – Eu lembro muito bem disso. Cheguei a contactar Kagaho e pedir que ele tirasse as crianças de Agatha, mas ele não fez nada quanto a isso porque também já estava casado e tudo mais, tudo que sei é que ele agilizou vários processos para que ela recebesse benefícios do governo como um modo de ajudar ela a ter mais condições. Agatha preferia receber dinheiro do governo do que de Kagaho e agora você consegue imaginar como ele deve ter sofrido para se aproximar dos filhos?

— Meu deus... – Hyoga mordeu o lábio. Não se admirava agora do ódio que Ikki nutria pelo pai, era o próprio ódio enraizado de Agatha porque ele fora testemunha dos vários desabafos da mulher sobre o homem horrível que a filha tinha arrumado para ser pai dos filhos dela, do quanto ela era uma vadia por se deitar com qualquer um e etc. Mas agora aquilo que Aiolos lhe contava lhe dava arrepios! – Porque não contou a eles, tio!

— Não venha me punir me chamando e tio! Ikki viu o pai várias vezes e sabia do dinheiro tanto que quando fez dezoito o dividiu com o irmão, eu fiz tudo que pude Hyoga, mas Ikki sempre achou que Agatha estava certa.

— Porque ela era a única referencia dele. – Hyoga suspirou pensando de novo em Ikki e seu coração doeu por isso. Já tinham passado por tanta coisa juntos, eram amigos antes de tudo e ele precisava ajudar o moreno a se reconciliar com o pai porque sabia que Ikki sentia falta do pai.

— Você já foi procurá-lo?

— Ainda não, mas... – Hyoga olhou paa o celular, ele havia vibrado com a nova notificação de mensagem. Era Kagaho dizendo que não poderia ir com ele ao psicólogo porque Shun pedira para vê-lo, então estava esperando o filho mais jovem no escritório dele na Eliseos. De certa forma o loiro ficou feliz, Shun dera o primeiro passo agora só dependia de Kagaho e sabia que o melhor amigo acabaria sendo a ponte entre Ikki e o pai – Bem, acho que vou ter que ir no psicólogo sozinho.

— Eu levo você.

— Não é necessário. Tenma está em coma, Saga prestes a ser pego, nada vai acontecer. Quer dizer, até vai se você acordar o Krest para sair agora, ele vai virar um pequeno demônio, então é melhor deixar ele dormindo. Prometo que tomo cuidado.

— Por favor. – Aiolos continuou a comer e com um gesto incitou o sobrinho a fazê-lo também ao que Hyoga o fez apenas para agradar o tio.

***

Shun tinha mandado a mensagem, mas agora as portas da Eliseos ele sentia-se fraquejar e tentado a ir embora e inventar uma desculpa qualquer. Passara boa parte da noite conversando com o marido e depois passara no apartamento do irmão para conversarem, mas ele não estava. Ligou para Aiolos e descobrira que o grego estava na casa dos Savalas porque Milo e camus tinham ido atrás de Saga, isso o deixou alarmado e preocupado com Hyoga, mas ainda queria conversar primeiro com o pai para só então conversar com o melhor amigo. Era a primeira vez que brigavam daquela forma, não que fosse exatamente uma briga, mas sentia um certo rompimento. Teriam que juntar os cacos e recomeçar, mas primeiro tinha a conversa com o Kagaho.

“Boa sorte” e o emoji de dedos cruzados estava na mensagem que Hyoga lhe enviara, apenas isso e mais nada. Ele sabia que o loiro respeitaria seu espaço e estava feliz com isso, não eram melhores amigos a toa. Esperava poder ajuda-lo também de alguma forma a passar por aquela tormenta que atravessava a vida do russo. Mas uma coisa de cada vez, primeiro seu pai, depois o seu irmão e então Hyoga. Antes de encontrar o pai fora procurar Aiolos na casa dos Savalas onde o grego lhe contara o que sabia sobre a história deles, sobre Kagaho e Agatha e fora também por isso que manteve o encontro com o pai. Queria saber agora a versão dele, a de Agatha ele já tinha, a de Milo também e a de Ikki. Era a vez do pai se justificar. Por isso entrou na sede da Eliseos convicto de que sairia dali com todas as peças daquele quebra cabeça.

Horas mais tarde Shun estava junto com o pai a caminho da sua casa, Kagaho ia dirigindo e contando sobre como conheceu Hyoga na Eliseos, agora ele parecia a vontade com o ex-medalista olímpico e agora diretor do Medalha de Ouro. Conversaram muito sobre os motivos de Kagaho e sobre o afastamento dele, sobre como ele tentou se aproximar e fora repelido por Ikki e Agatha, mas fora covarde demais para tentar com afinco.

— Eu achei que não devia mais tentar me aproximar já que vocês pareciam bem sem mim. Eu nasci num orfanato Shun, fui aprendendo muito cedo a ser autossuficiente e dessa forma eu sempre pensei que as pessoas deveriam ser. – admitiu o advogado sênior da Eliseos para o filho ao fim do seu relato – Meu erro foi achar que vocês não precisariam de mim, só do meu dinheiro. É um erro do qual eu nunca vou me perdoar e por isso não espero que vocês me perdoem.

Shun sentiu que naquele momento não havia mais porque guardar ressentimentos e tentar entender o que havia acontecido para eles se afastarem. O que tinha separado sua família fora a vida, as escolhas de cada um e os sentimentos ruins. Quantas famílias haviam em todo mundo com os mesmos problemas ou até pior? Kagaho buscava ser rico e ter dinheiro porque era algo que não tivera na infância e adolescência, essa busca lhe privou de muitas coisas também. A mãe deles buscava uma família e por isso escolhera Kagaho, mas tudo tinha sido apenas um sonho pueril. Agora era juntar os cacos também e acertar os ponteiros.

— Você gosta mesmo do meu amigo? Não está apenas querendo brincar com ele, está? – perguntou a certa altura da viagem, quando Kagaho ficou em silencio pensando se contava sobre os jogos BDSM que fazia com Hyoga – Agora deu pra perceber que ele é muito frágil, que ele já foi infeliz demais em relacionamentos e por isso não pode ter mais uma ilusão.

— Eu estou apaixonado pelo Hyoga. Demorei tanto a admitir isso para mim mesmo que fiquei chocado quando realmente percebi, foi no dia em que encontrei ele na sala de balé com o Ikki, – Kagaho mordeu o lábio e apertou o volante – Eu nunca, nunca fiquei tão desesperado como naquele dia. Eu já tive inúmeros amantes, sei que muitos deles também tinham seus casos e isso nunca me preocupou porque eu não era apegado a nenhum deles. Mas Hyoga... Eu fiquei louco de ciúme! Eu podia ter matado naquele dia e talvez por isso, o destino quis que fosse o Ikki o cara com quem eu peguei o Hyoga.

— A Esmeralda deixou o Ikki sabia? – Shun olhou para o pai, mexendo no cabelo castanho. Pensou de novo que ele e Ikki eram muito parecidos! – Ela me ligou hoje para avisar, não sei bem o que ela queria com isso, mas ela está bastante ferida. Pudera, ela é louca pelo meu irmão e ele também a amava, não entendi porque ele se arrependeu...

— Eu sei porque ele se arrependeu. Shun, as vezes não se pode fugir do que realmente é, Ikki pode ir para muito longe, mas no fim ele sempre vai voltar para o que lhe é mais confortável. Para sua casa, sua família! – Kagaho olhou para frente pensando no filho mais velho – Acha que ele vai lutar pelo Hyoga?

— Eu não sei, acho que ele pensa que não merece mais.

Kagaho suspirou. Aquela perspectiva lhe assustava mesmo que odiasse admitir, porque no fundo sabia que Hyoga ainda amava Ikki e só estava magoado com ele e com tudo que vinha acontecendo. Passada as magoas, que garantia ele teria de que o loiro o amaria? E ele conseguiria ficar contra o filho daquela maneira?