Notas iniciais
Olá pessoal como vai? Ufa! Capítulo novo! Queria agradecer a paciência e incentivo de todos que deixam reviews e acompanham a fic e a autora. Tive uma crise braba de existência e quase larguei tudo TT Mas eis que volto, agora com a colaboração maravilhosa da minha amiga e Beta Soriku! Não tenho palavras para agradecer o apoio A Sion Neblina e Vagabond pela amizade e carinho, a Amelinda pelo amor e carinho com a fic meu muito obrigado e gratidão eterna Enfim vamos lá

— Eu não vou voltar para a escola, nunca mais saio de casa! Eu acho que posso morar na Rússia, será que o papai...

— Hyoga, não é assim também.

Camus apertou os lábios olhando o jovem russo andar de um lado para outro em sua sala. Estava difícil acalmar o patinador, e o francês quase podia ver Milo ali. A dramaticidade e a impulsividade eram claramente heranças do pai! Depois da conversa com Shaka e um rápido almoço com Aiolos e Aiolia, achava que a situação estava controlada. Contudo, ao ver Shaka e Hyoga na sua porta naquela manhã, era nítido que nada estava sob controle.

O francês estava prestes a sair de casa quando abriu a porta para receber os dois, Hyoga estava aos prantos e não parava de praguejar um minuto sequer sobre como era bobo e estúpido por se envolver com Tenma e tudo mais. Shaka explicou à Camus o que ocorrera na porta da escola, e os hematomas na pele clara do garoto comprovavam seu relato. Nos braços de Hyoga as marcas das mãos de Tenma estavam tão nítidas na pele tanto quanto digitais. Havia um vergão arroxeado no pescoço também.

— Eu não duvido ele ter conseguido sair da escola e que esteja de plantão na porta da minha casa, vai ficar lá até eu voltar ou meu pai chegar e dar um tiro nele. E não duvide de Milo Savalas tentar matá-lo quando descobrir o que aconteceu. — Hyoga se jogou no tapete de centro, tinha curiosidade em saber se aquela maciez era só para os pés — Sabiam que uma vez ele tentou atropelar um cara que mexeu com a minha mãe? Imaginem o que ele pode fazer com uma Glock 19?

— Seu pai tem uma arma em casa?! — Shaka ergueu uma sobrancelha em total descrença. Não acreditava num nível de irresponsabilidade daqueles!

— Senhor Evrad meu pai acredita em segurança, principalmente em bairros afastados do centro. — Hyoga deu de ombros — Gente porque os psicopatas não vem com uma etiqueta ou sei lá? A ficha médica anexa no perfil do Facebook?! Meu deus olha só onde eu me meti e ninguém me falou nada... Já posso ouvir meu pai falando “Bem feito, eu disse pra você ficar longe dos garotos, que não podia namorar ainda e bla bla bla!”.

— Não é sua culpa petit, pare de se martirizar. — Camus tentou confortar o garoto que o olhou aflito, sentiu vontade de sentar ao lado do russo e acariciar os fios dourados para consolá-lo, mas conteve-se porque era naturalmente retraído com demonstrações de afeto. No entanto, sentia crescer a cada dia um carinho sem igual em si por Hyoga, como se ele fosse um irmão mais novo ou até um filho – Acho melhor nós nos reunirmos agora e pensar no que fazer. Hyoga não pode ficar prisioneiro em sua casa por causa do Tenma. Shaka ligue para Shina e Aiolos, nós precisamos conversar.

— E o Milo?

— Eu vou falar com ele pessoalmente na oficina, melhor que eu vá buscá-lo. – Camus passou a mão no rosto suprimindo um lamento. Se lembraria deste dia quando a vontade de ser pai surgisse outra vez, pelo menos o faria voltar a razão.

Pegou o endereço com Hyoga e partiu para o trabalho do grego. Tentava pensar num modo de entregar aquela bela notícia à Milo, de que seu precioso filho acabara de ser ameaçado por um rapaz com problemas mentais. Levando em consideração a superproteção de Milo com Hyoga, o mínimo que podia acontecer era o mecânico surtar.

Quando chegou a oficina e falou com o supervisor de Savalas que se apressou em comunicar Milo de que ele precisava ir à escola do filho. Ficou aguardando na recepção até ver o grego entrar na sala bonita e arejada de macacão e enxugando as mãos que acabara de lavar além do rosto. Na expressão havia curiosidade por Camus estar ali na oficina procurando por ele.

— Eu preciso que venha comigo, já expliquei ao seu supervisor que é urgente...

— O que aconteceu com o Hyoga? – Milo levou um minuto para associar a atitude tensa de Camus ao seu filho, na verdade seria seu primeiro pensamento se não tivesse ficado perdido por um instante olhando o ruivo vestido naquela camisa de malha fria e calça jeans clara. Definitivamente uma perdição!

— Eu explico no caminho, eu espero você trocar de roupa.

— Ah, mas nós vamos é agora mesmo, eu só vou pegar meu carro. Você já sabe como chegar à minha casa.

— Milo melhor irmos com meu, precisamos conversar! O Hyoga está na minha casa. – “Esse macacão definitivamente...” Camus queria se bater.

“Esse olhar não promete nada de bom”, pensou Camus devolvendo o olhar de Milo, por fim ambos saíram da oficina em direção ao carro do francês. Entraram no carro e Milo esperou que ele ganhasse a rua para questioná-lo.

— Anda ruivo, desembucha! Por que meu filho está na sua casa?

— O Hyoga está na minha casa por que algo grave aconteceu na escola hoje e ele não se sente seguro em ficar na casa de vocês sozinho. A orientação está ciente e Aiolos também, nós antecipamos a reunião que faríamos na segunda-feira, você está informado pelo que me contaram.

— É aquele lutador, não é? O tal de Tenma? – Milo falava olhando pelo retrovisor, o maxilar trancado.

— O que sabe dele? – Camus arriscou um olhar para Milo, não estava gostando da expressão do grego.

— Não muito. Hyoga não fala sobre ele, só disse que saíram sexta e não tivemos ainda oportunidade de conversar. Mas ele foi a nossa casa essa semana várias vezes e achei esse garoto meio estranho, sei lá, grude demais para um lance de uma semana! Mas eles são adolescentes então pensei que tava tudo bem.

— É, mas não está. Hyoga está fugindo de Tenma na escola, a coordenação e eu estamos achando o comportamento do Tenma um tanto quanto exagerado.

— Está me dizendo que ele é um daqueles lunáticos que persegue as pessoas? Que fica obsessivo e tudo mais?

— Não estou dizendo que Tenma é lunático...

— Ah Camus, se tá essa comoção toda e você veio pessoalmente me buscar no trabalho para conversarmos sobre isso é porque esse moleque fez alguma coisa com o Hyoga! Eu vou matar ele primeiro! – Milo já estava gritando – Estouro os miolos desse japonês antes que ele possa cogitar a possibilidade de machucar meu filho... Peraí! — Milo vasculhou os bolsos a procura do celular, e quando o encontrou em dois segundos já fazia uma ligação – Alô? Você tá muito ocupado agora? Eu preciso urgente de um favor, como advogado... Sim caralho! Pensei que fôssemos namorados, é para isso também que namorado advogado serve... É sim, não... Tá pronto na oficina, é só você ir buscar, não falei que arrumava? – Milo revirou os olhos – Por favor, amor você pode me ajudar estou com problemas... Querido é a puta... – Milo se refreou ao ver o olhar alarmado de Camus, quase esquecera que estava no carro do francês com ele dirigindo! Olhou para o ruivo rindo de forma sem jeito — Anota aí o endereço que vou te dar, já estamos chegando lá me espera na portaria. Também te amo, recompenso você mais tarde... Anda, anota o endereço cara... – se refreou novamente e depois disse o endereço de Camus desligando em seguida — Namoro meio recente. – explicou o grego querendo internamente se matar, porque depois de saber aquilo, Camus estaria fora do seu alcance. Ainda era muito cedo para desistir dele e investir em Saga pra valer. Talvez o advogado estivesse apenas mentindo sobre o namoro.

— Por que um advogado Milo? Não é extremo demais, você ainda nem conversou com os professores e Aiolos, talvez eles tenham uma solução mais simples. – Camus retorquiu de modo frio, sem demonstrar importância àquela explicação sem jeito de Milo sobre o “namoro recente”. Tolo! Por acreditar que Milo Savalas com aquele sorriso sacana poderia cogitar algo sério com alguém. Galanteador do jeito que o mecânico era, o francês pensou que ele poderia muito bem estar enganando aquele outro trouxa que ele dizia namorar. Porque quem está namorando flerta com outro assim como ele estava fazendo consigo?

— Eu vou pedir uma medida restritiva para o Tenma, ele não vai chegar mais perto do Hyoga! Nunca mais! – rebateu ríspido, não gostando nenhum pouco do tom frio e com um “quê” de desprezo que o professor usou.

Camus revirou os olhos e estava prestes a começar uma explicação sobre medidas extremistas quando ao dobrar a esquina da rua do seu prédio, viu um carro conhecido estacionar ali e alguém descer. A freada que deu só não os jogou contra vidro da frente porque estavam com o cinto de segurança.

— Não me diga que você é o namorado do Milo?! – Camus deu uma risada irônica saindo do carro, Milo saiu também por ver Saga e não entendeu o que acontecia ali. Saga ficou desconfortável quando viu Milo e Camus chegando juntos, só percebeu que o endereço que o mecânico lhe dera era o endereço do “ex” quando chegou à frente do prédio. Era péssimo com endereços! – Que maravilha!

— O que houve?

— O que houve Milo Savalas é que você trouxe Saga Laskaris para o meu apartamento! – Camus passou os dedos pelos cabelos rubros a custo tentando controlar a raiva – Eu devo ter roubado o fogo do olimpo porque não é possível! – Camus entrou no seu carro de novo sem esperar por Milo e seguiu pela entrada da garagem.

— Que diabos deu nesse ruivo!

— É que eu e o Camus, nós fomos amantes no passado e nosso relacionamento não acabou nada bem. – Saga colocou a mão nas costas de Milo e o conduziu até a entrada, esperando que a portaria os liberasse – Ele me odeia.

— Caramba! Você já namorou o Camus? – Milo esqueceu a raiva por um momento para fitar o outro.

— Não e foi por isso que ele me odeia, mas falamos disso outra hora. Veja, já podemos subir.

No apartamento eles foram recebidos por Hyoga que já estava muito a vontade recepcionando todos como se ali fosse a sua casa, Camus não estava na sala e Milo ficou preocupado com isso. Talvez estivesse fadado a sempre deixar Camus em uma saia justa, não acertava nunca com o francês, pensava pesaroso.

— O que ele faz aqui posso saber? – Hyoga olhou enviesado para o acompanhante do pai – O que fez para Camus dessa vez? Ele entrou colocando fogo pelas ventas!

— Não sei direito, talvez eu consiga uma explicação depois que todo esse circo acabar e VOCÊ me explicar o que está acontecendo na escola?

— Calma Milo, nós vamos conversar civilizadamente. – Aiolos interveio chamando o irmão, Aiolia e Shina estavam ali também além de Shaka — Hyoga, você pode chamar o Camus para começarmos?

— Comecem sem mim! – Camus passou pela sala apenas, seu olhar estava em Aiolos apenas e seu tom era ríspido – Já fiz a minha parte, agora preciso resolver algumas coisas lá dentro. Milo está com o advogado então bem assistido. — O francês não conseguiu disfarçar o sarcasmo na última frase — Com licença e fique à vontade. Shaka e Hyoga sabem onde fica tudo, caso precisem de alguma coisa. — E saiu a passos duros.

— Que bicho o mordeu? Camus esquecendo a finess é algo inédito. – Comentou Shina rindo, olhando para Milo e Saga que não parecia perceber o quão era indesejada sua presença.

— O bicho que o mordeu é Saga Laskaris, eu nem acredito que você teve a cara de pau de aparecer aqui. – Aiolia bufou entre irônico e irritado – E você Milo, de pedir favores a esse cara!

— Gente vamos ao foco aqui? Não temos o dia todo! – Shaka resolveu acabar com toda aquela especulação e procurar Camus assim que tudo estivesse encaminhado pela sala. Não conhecia Saga Laskaris pessoalmente, era a primeira vez que o via inclusive. No entanto, já ouvira Camus falar e muito dele! Conhecera o ruivo depois do desastre amoroso, então conhecia a história toda e o motivo de Camus estar querendo matar alguém naquele momento. Embora, olhando atentamente fosse um desperdício matar alguém tão bonito e enigmático quanto Saga, pensou o indiano rindo sozinho observando Aiolos começar a conversa sobre o episódio com Tenma.

***

— Por que não está na sala com os outros, você poderia ajudar a lidar com Milo. – Shaka se apoiou no batente da porta da suíte do ruivo. Teve esperanças de que Camus voltasse à sala, mas já estavam passando da hora do almoço e ele nem saiu do quarto uma vez sequer. O técnico de patinação artística se encontrava sentado na cama olhando a TV e devorando uma taça de sorvete – Hum sorvete no meio da semana, estamos mesmo bem irritados.

— Milo está com Saga não está? Não tenho nada a fazer lá!

Evrad foi até o amigo sentando-se ao lado dele e roubando a colher para provar o sorvete também enquanto Camus apenas resignou-se, já esperava que Shaka viesse rir da sua auto piedade.

— Tudo isso é porque Saga assumiu o namoro com um mecânico e não você ou porque é com Milo o mecânico que você vem flertando há semanas?

— Não tem muita diferença se for parar para pensar bem. — Resmungou o francês para em seguida olhar Shaka com os olhos amendoados crispando – Aquele filho da puta está agora namorando?! Qual a diferença entre Milo e eu, cacete?!

— E chamando palavrões, está realmente fora de si. My dear há um mundo de diferenças entre você e Milo que nem consigo enumerá-las, que tal se conformar? Open your eyes Camus!

Shaka deixou os dedos longos deslizarem pelas madeixas ruivas, os dedos ergueram o rosto afilado do francês e com o polegar acariciou a bochecha. Camus talvez precisasse de ajuda para descobrir o que realmente sentia pelo relacionamento de Saga e Milo. O indiano acreditava que o amigo fosse fadado a desastres amorosos, talvez pela própria dificuldade de Camus em lidar com os seus sentimentos. Há anos acompanha a batalha de Camus com suas dores, a solidão e de como o ruivo construíra uma barreira de racionalidade em volta de si porque era naturalmente sentimental e isso o assustava.

— Camus.

Hyoga baixou o olhar envergonhado tentando transparecer que não vira Shaka e Camus em um momento de carinho, mas a vermelhidão nas maçãs do rosto o denunciava.

— Nós já vamos, eu só queria pedir desculpas.

— Já resolveram tudo? Vou pegar a chave para leva-los. – Camus se ergueu da cama – Pedir desculpas?

— Eu sei que você tá bem irritado com toda essa confusão. Desculpa! Você foi a primeira pessoa que eu pensei quando saímos da escola, não era para ter envolvido você nisso. Eu estou sempre te metendo em confusão... Desculpa Camus, por favor!

— Não petit, jamais negaria ajudar você e não estou irritado com você, por deus! – Camus veio até o adolescente e deu vazão ao desejo de abraça-lo com carinho, Shaka observou como o amigo parecia mais receptivo e afável com jovem russo. Que Hyoga conseguia ter acesso à Camus como ninguém — Eu o adoro como a um irmão mais novo, é que... — o francês achou por bem falar a verdade, ou Hyoga continuaria a pensar que ele estava chateado com ele — Saga e eu tivemos um relacionamento que não acabou de forma amigável, nós não nos falamos. Se eu soubesse que ele era o advogado namorado de Milo, não tinha permitido que ele entrasse na minha casa.

— Sério?! Que merda Camus... ‘Peraí namorado? Eles não são namorados!

— Seu pai disse que é recente.

Hyoga se afastou de Camus e o fitou com o cenho franzido, era mais baixo e por isso precisava erguer o rosto que agora estampava uma expressão de desconfiança.

— Eu não acredito que meu pai aceitou namorar aquele escroque. Nunca gostei do Saga porque sei que ele tem vergonha do meu pai porque somos pobres e ele é mecânico, duvido que esse namoro seja pra valer! O Saga deve estar enrolando papai do jeito que deve ter enrolado você.

— Por que acha que Saga me enrolou? – Camus olhou para Shaka meio sorrindo, meio tenso.

— Ele tem cara de que faz isso e, Camus, você deve ser que nem eu, um bobo sentimental. Os caras se aproveitam disso sabia? Bem-vindo ao clube.

— Veja Camus, está recebendo conselhos de um expert! – Shaka interveio bem-humorado. Os três acabaram rindo com gosto e isso desanuviou um pouco o desgosto do ruivo.

— Hyoga, não pense que estou chateado com você. Só que apesar do tempo... Talvez não haja um dia em que eu supere o que houve entre nós. – Ajuntou Camus sombrio.

— Camus a casa é sua! É só colocar Saga para fora daqui ora! – Pelo olhar de Shaka parecia que ele achava que era tão simples quanto Hyoga.

— Vamos para a sala nos despedir de todos, eu ainda quero saber o que ficou decidido.

Na sala, todos se preparavam para ir embora; Camus olhou desolado para a bagunça que estava ficando para trás: louças sujas e farelos da sua bela torta alemã que estava cortada em cima da mesinha de centro.

— Pensei que teria que ir à toca tirar você de lá! – Aiolia falou sarcástico.

— O que ficou decidido? Principalmente sobre alguém me ajudar a limpar tudo isso? – A irritação parecia ter voltado.

— Não se preocupe eu fico e ajudo. – Ofereceu-se Shaka, os irmãos Argenkland vieram para junto do indiano e de Camus com Shina.

— Vou levar Hyoga para minha casa como medida de prevenção. — Explicou Aiolos — Vamos falar com o Tenma e se ele resistir será afastado do colégio e de suas atividades. Aiolia acredita que ele acabará acatando voltar ao tratamento para ficar na equipe de luta, ele tem grandes chances de se classificar para a equipe olímpica. Confesso que estou bem triste com o que houve, eu e os médicos no núcleo tínhamos esperanças de que Tenma conseguisse voltar a conviver em sociedade normalmente.

— Às vezes é maior que o esforço das pessoas Aiolos, ele só precisa de tempo eu acredito.

— Quanto ao resto, ficará tudo normal. Nós só precisamos ficar atentos na escola e Hyoga prometeu não sumir pelos bosques e cantos escuros com mais ninguém por lá! — O olhar esmeraldino do tio era advertência suficiente para fazer o adolescente corar e desviar os olhos, Camus assentiu concordando com tudo – Shina vai orientar os outros professores e eu ainda vou tentar convencer o Milo de que uma medida restritiva é uma medida desnecessária.

— Esse advogado dificulta tudo! – Shina torceu os lábios olhando de esguelha para Saga, que conversava com Shaka e Milo mais à frente — Odeio gente arrogante assim!

— Duvido que Milo mude de ideia, ele decidiu ainda no carro e sabe o quão super protetor ele é. De qualquer forma se Tenma souber que uma medida tão grave será imposta por conta do seu comportamento, ele pode cair em si e aceitar melhor seu problema e tratá-lo como se deve.

— Pobre garoto! Já não bastava o Kouga sendo aquele louco varrido. — Aiolia suspirou pesaroso.

— Vamos andando? Deixei minhas filhas com a minha irmã, ela deve estar querendo me matar.

— Vamos Shina, eu levo você. – Aiolos e a italiana saíram junto com Aiolia depois de se despedir de Camus, Hyoga deu um abraço no técnico e também foi com os tios. Saga se preparou para sair, Shaka tinha começado a recolher as coisas com Milo, então o advogado se viu na sala sozinho com Camus.

— Camus eu sinto muito...

— Vá embora.

— Eu não me toquei na hora que o Milo me falou do endereço, faz tanto tempo que eu não venho aqui. Nem Kanon sabe onde você mora também, pensei que vocês iam ter alguma coisa já que você ligou para ele trabalhar com você.

— Tinha me esquecido de como vocês Laskaris são doentes!

— Eu amo o Milo. — Saga se aproximou, invadindo o espaço pessoal do ruivo e falando bem próximo ao rosto de Camus, que o olhou alarmado sentindo o corpo tenso pela proximidade do outro — Como nunca amei ninguém. Você sabe o que é isso, Camus?

Camus se afastou e sua fachada impassível escondia os sentimentos que revolviam nele como lava quente. As palavras de Saga o machucando de novo como há cinco anos. Por que se permitia sofrer assim?

Saga saiu do apartamento e Camus deixou-se escorar na porta aberta abraçando a si próprio na esperança de conter sua comoção. Milo saiu de um dos corredores e se aproximou do outro, o olhando com preocupação porque via que algo abalara o francês.

— Eu vou passar a vida inteira me desculpando com você?

— Ainda não será o suficiente por hoje. – Camus olhou para Milo e não conseguia refrear a mágoa, embora soubesse que nada era culpa do mecânico.

— Eu poderia culpar o destino e várias outras coisas, mas não vai adiantar me justificar pra você. — Milo sentia vontade de abraçar o francês, achava que de algum modo o estava magoando mesmo sem intenção. Limitou-se a segurar o cotovelo de Camus delicadamente e deslizar o polegar pela pele de alabastro, sentindo a textura firme e macia. Sonhou muitas vezes em como seria percorrer aquela pele com as suas mãos, mas ao que parece aquilo só ficaria na sua imaginação mesmo.

— Vá para casa Milo e esqueça tudo isso.

— Obrigado pelo cuidado que dispensa ao meu filho, você tem feito bem a ele desde que apareceu. – Camus se desvencilhou da mão do grego para fugir da presença perturbadora dele e das suas palavras melosas. Milo não ia convencê-lo com desculpas agora. Não tinham nada, ainda era tudo muito subjetivo, mas para o ruivo já havia tido o suficiente.

— Tente não pegar no pé do Hyoga, ele é um bom menino e não tem culpa de Tenma ter problemas. – Camus voltou para dentro do apartamento deixando a porta aberta em um convite explícito para que Milo fosse embora.

***

Camus foi à cozinha pegar um copo de água e ajudar Shaka a limpar todo o resto, o que já não era muito. Começou a lavar a louça apenas para ter algo que fazer e esperar as perguntas de Shaka, sabendo que não ia ser dispensado delas.

— Separei uma das suas saladas para comermos, trouxe sais para a sua banheira. — Shaka guardou o lixo encostando-se a pia em seguida olhando o ruivo — Então aquele é Saga Laskaris. Ainda é muito difícil vê-lo?

— É difícil respirar o mesmo ar que ele Shaka. — Camus respondeu com os olhos nas bolhas de sabão da pia — Seria para você se tivesse passado por tudo que passei com ele. Você não tem empatia, acha que é bobagem.

— Porque você nunca me contou. Fica difícil imaginar algo terrível vindo dele, vendo-o tão centrado daquele jeito. — Shaka olhou para o amigo de esguelha — Ele pareceu bem com Milo.

— Mas ele aparenta mesmo estar bem, ele é um centrado e perfeito. O problema é eu como sempre, não é assim? Por me apegar e tudo mais?

— Não venha jogar a sua auto piedade para cima de mim, não vou fazer discurso de autoestima para você. – Shaka afagou os ombros largos do amigo apoiando o queixo no ombro de Camus — Mas eu queria saber o que ele fez de tão grave para você odiá-lo assim, de todas as pessoas que lhe magoaram, Saga merecer seu ódio me intriga.

— Porque eu o amei, confiei nele e depois percebi que não havia retribuição. Que nada passou de um jogo para ele. Saga e eu nunca tivemos um relacionamento saudável e eu sempre me perguntava por que insistia, porque tentava lutar para que ele mudasse. — Camus ergueu os olhos para o teto e sua mente se perdeu em lembranças — Ele sempre foi meio sádico comigo, sempre tinha uma palavra ferina para me humilhar. Quando nos envolvemos, não fazia muito tempo em que estava na Grécia e que tinha recuperado os movimentos, ainda tinha alguns problemas psicomotores e Kanon me ajudava na maior parte do tempo. Eu sempre pensei que eu e Kanon ficaríamos juntos, ele chegou a se confessar para mim um dia... Saga fazia piadas sobre minhas dificuldades em locomover na frente de todos, era humilhante.

— Eles disputaram você foi isso?

— Descobri mais tarde que sim, foi uma loucura... – um rubor forte cobriu os malares salientes que fez com que Shaka arqueasse uma sobrancelha – Você acredita que eles trocaram uma vez? Que Kanon me fez acreditar que era Saga com o consentimento dele? Saga me contou muito tempo depois, no dia em que terminou comigo. Disse-me que era tão estupido que não conseguia diferenciá-los.

Camus voltou a lavar a louça e Shaka apenas apertou os lábios ao final do relato sussurrado do amigo. Não conseguia encontrar o que dizer a ele e pelo que via, Camus não ia contar nada além. Tentava apenas vislumbrar o que os irmãos Laskaris fizeram ao amigo para que o francês tivesse toda aquela insegurança.

***

— Como pode dispensar um cara como Camus?

— É complicado. Na época eu era jovem e bem irresponsável e Camus tinha muitos problemas. — Saga tragou o cigarro e ficou pensativo olhando o teto — Ele não era o cara bem resolvido que é agora. Vai dormir aqui?

— Não posso. Ainda tenho que falar com o meu filho, mas não se preocupe com amanhã porque está tudo certo. Hyoga vai ficar com Aiolos então está seguro. – Milo rolou na cama para apoiar o rosto no peito de Saga – Ainda não tô acreditando que você pegou aquele ruivo.

— Está interessado nele? – Saga fixou o olhar em Milo que apenas deu de ombros.

— Ele é bonito, você tem que admitir. Só que agora sou um homem sério.

— Temos um compromisso seu loiro vadio, quebro a sua cara se pegar você com outro! – Saga largou o cigarro no cinzeiro para puxar Milo para cima do seu corpo – Eu e Camus tínhamos um relacionamento de garotos, eu amadureci. Ele é lindo e bem-educado, culto mesmo o que é surpreendente vindo de onde ele veio.

— O Camus é rico, claro que ele é culto e refinado.

— O Camus não é rico, ele só é bem de vida. Nada de extraordinário além do apartamento e do carro, alguns euros extras no banco. O Camus veio de um vilarejo bem pobre na França, foi para Paris ainda jovem para treinar patinação no gelo porque os pais achavam que ele ia ganhar dinheiro com isso. De fato, ele começou a ganhar depois da primeira medalha, antes ele era ferrado!

“Camus era pobre! Isso explica muita coisa”, pensou Milo consigo e olhando Saga falar do tempo em que se relacionava com o francês. Agora entendia em parte a mágoa de Camus e Saga podia jogar aquela conversa de que não amava Camus, de que eram jovens e tinham pensamentos e estilo de vidas diferentes, mas era óbvio que Saga não os assumiu e dispensou Camus porque tinha vergonha da origem dele. Como tinha vergonha do fato de Milo ser mecânico e pobre, só que alguma coisa havia mudado.

— Você me ama Saga?

— Amo. E só por isso vou enfrentar tudo para assumir você, então não me decepcione arrumando outro principalmente Camus Chevalier.

— Certo. — Milo escondeu o rosto na curva do pescoço do outro, não sabia bem como reagir àquela confissão. Pressionou Saga para namorar porque queria um relacionamento de verdade e eles já vinham se encontrando há algum tempo, não queria ser tratado como um vadio. Porém, agora Saga lhe confessara seu amor e Milo não conseguia responder por que não tinha certeza se amava o advogado também. Estava em dúvidas justamente por conta do ruivo.

— Vou lhe dar um tempo para que se acostume à ideia e responda de volta do jeito certo. – Saga acariciou os cachos de Milo – Vamos fazer amor outra vez Milo, quero você dentro de mim dessa vez.

Notas finais
Bem eu tive que dividir porque esse capítulo ficou enorme, então eu a Kuro achamos melhor dividir. Acredito que o próximo caps não demore tanto quanto esse, tá na fase da betagem Acho que expliquei para algumas pessoas que essa fic vai abordar temas difíceis como relacionamentos abusivos. Então apartir daqui o angust vai rolar pesado, permeado de momentos fofos então eu vou logo avisando. bjks