Notas iniciais
Oi pessoal lindo tudo bem? Mais um caps dessa fic doce que nem batata doce... Não pera Coloquei algumas notas no final a nível de curiosidade Enjoy

— Hyoga que cheiro é esse que eu tô sentindo nas suas roupas?

— É perfume do Camus pai, me deixa dormir! – resmungou o adolescente da cama, acabou chegando muito tarde na noite anterior e teve sorte por Milo ainda não estar em casa. Nessa noite gostou um pouquinho de Saga.

Milo pegou as roupas do filho e cheirou outra vez, perfume francês caro recendia pelas roupas e aquela informação gritada em meio ao sono ficou revirando na mente do grego do mesmo modo que as roupas na máquina de lavar. Quando Camus chegou para o conserto do carro teve uma recepção e tanto.

Hyoga viu o pai atravessar a pequena sala e sair para a varanda, o garoto e Milo não falou absolutamente nada, nem o habitual bom dia. Porém, Hyoga acreditou ser tensão por encontrar o ruivo já que Milo não falou de outra coisa a semana inteira. Ficou chocado quando começou a ouvir a gritaria.

— Vai embora daqui seu pervertido filho da puta! – vociferou o mecânico antes até que Camus saísse do carro – Leve seu carro idiota, seu dinheiro e perfume francês para o raio que o parta! Fique bem longe do meu filho ou eu mato você!

— Mas... Você ficou louco?! – Camus se viu réu e culpado sem nem ao menos ter a chance de se explicar. Não foi difícil imaginar porque Milo chegara àquela conclusão, mas Camus estava indignado.

— Pai que porra é essa?! Porque está dizendo essas coisas para o Camus?! – Hyoga já estava na varanda desde que ouvira "pervertido" – O Camus não tem...

— Porque ele lhe deu um perfume caro? É um pervertido igual ao Kanon, vai querer dar a você presentes caros e depois sabe lá o que pedirá em troca! – Camus até estava tentando sair do carro para explicar aquele grego ignorante sobre o perfume quando ouviu o que ele dizia quando o ouviu compará-lo à Kanon.

— Seu ignorante! Você entendeu tudo errado! Como ousa falar essas coisas de mim você não nem me conhece. – Camus perdera toda a sua educação, se tinha algo que lhe tirava do sério era duvidarem de sua integridade.

— Pois eu conheço tipos como você Camus Chevalier. É da mesma laia que os Laskaris, suma daqui antes que eu quebre a sua cara!

— Pai pára me deixa explicar! O Camus só me... Camus volta aqui! – mas o francês já tinha feito à volta e saiu cantando pneus, o loirinho começou a praguejar e se virou enfurecido para o pai – Olha o que você fez! O Camus está furioso eu não acredito que pensou essas merdas dele, você não o conhece!

— Porque ele lhe deu um perfume caro?! Hyoga você é muito inocente não sabe das coisas filho.

— ELE NÃO ME DEU CACETE! Ele me emprestou porque eu tinha um encontro ontem, ele foi a melhor pessoa do mundo comigo me dando conselhos e me emprestando o perfume dele pra agora você despejar sobre ele toda essa merda! – Hyoga já voltava de dentro de casa com a bicicleta – Eu nunca vou perdoar você se ele deixar de ser meu amigo!

Hyoga saiu a toda na bicicleta com esperanças de que pudesse alcançar Camus na avenida, com sorte o encontraria parado no sinal da esquina.

Milo ficou para trás absorvendo as palavras do filho com ENCONTRO e MELHOR PESSOA a martelarem na sua mente como uma enxaqueca chata, a explicação não estava descendo, talvez porque admitir que cometera um erro tremendo entalasse tudo em sua garganta.

— Ei Milo o que houve? Dava para ouvir os gritos de casa. – os vizinhos estavam todos em suas portas, Shun e Ikki vieram até o grego e foi o primeiro que perguntou.

— Shun você viu o Hyoga ontem?

— O Hyoga estava no fliperama com o Tenma, todo mundo da fundação viu os dois juntos Milo. – foi Ikki que respondeu sob o olhar indignado de Shun – Acho que eles estão namorando.

“Puta que pariu” Milo bateu as mãos ao lado do corpo em um gesto meio dramático e meio descrente de que realmente tinha se superado daquela vez.

***

— Maldito carro! Argh! Bosta de sábado. – Camus chutou várias vezes o pneu do carro enguiçado como se isso resolvesse algo.

Devia ter previsto que aquele mecânico ignorante pensaria besteira, falava furioso consigo mesmo, mas de fato não imaginava que a mente de Milo fosse tão pérfida aquele ponto. Estava com raiva de si mesmo ao se deixar levar daquela maneira, ao se envolver com aquela família mais do que sua condição de professor esperava.

— Camus graças a deus! – Hyoga parou a bicicleta ao lado do carro, descendo de qualquer jeito indo até o ruivo enfurecido – Por favor, me perdoa. Eu não queria que meu pai pensasse aquilo, papai entendeu tudo errado e nem me deixou explicar direito! Ontem eu cheguei muito tarde, eu não falei direito com ele...

— Hyoga tudo bem esquece isso. – Camus respirou fundo colocando as mãos na cintura e olhando para o céu nublado – Volta para casa, vai chover.

— Você enguiçou? Eu vou chamar o meu pai e vamos rebocar seu carro para a garagem, ele vai consertar e tudo vai...

— NÃO! Se encontrar seu pai de novo agora eu sou capaz de dar um soco nele! – só de olhar para o ruivo Hyoga teve certeza de que Camus cumpriria a promessa – Já chamei o reboque, volte para casa petit.

— Camus... – o russinho estava muito infeliz. Teve uma noite ótima para agora estar naquele sábado desastroso! Olhava Camus tentando segurar a calma, naqueles poucos dias não vira Camus se exaltar, então sabia que para que ele estivesse daquele jeito Milo tinha ido longe demais – Eu vou ficar aqui com você até o reboque chegar.

— Non precisa mon ange... – Camus estava tão exaltado que seu sotaque se acentuava, respirou fundo e tentou dar um sorriso para o mais jovem – Volte para seu pai ou ele ficará ainda mais furioso. Até na segunda se ele não apresentar uma queixa.

— Ele não vai! Jamais vou perdoá-lo se fizer isso. – Hyoga se apoiou no carro, Camus estava ali esperando o reboque e encostou-se ao carro também – O Tenma me pediu em namoro ontem, não sei bem o que fazer porque nós ficamos e logo depois ele veio com essa história de namoro. Ah você não está com cabeça para saber dos meus problemas, poxa Camus eu estou tão envergonhado que poderia me enfiar num buraco.

— Não se culpe, seu pai apenas está tentando proteger você. Quando ele se acalmar vai cair em si. – confortou o russinho mesmo que duvidasse de suas palavras.

Ficaram em silencio até o reboque chegar, o que não demorou muito. Quando o caminhão e encostou, viram Milo dobrar a esquina também no velho volvo. O remorso no grego o atingiu em cheio ao ver que Camus ficara enguiçado e preferiu chamar o guincho a voltar para sua casa, tinha prometido ajudá-lo com o carro e não cumpriu sua promessa por um mal entendido. Curiosamente Hyoga tinha o mesmo ar decepcionado de Camus ao olhar para ele e Milo não gostou de notar o quanto eles poderiam ser parecidos.

— Camus você pode levar o carro para a minha casa e nós podemos conversar para esclarecer as coisas, eu sinto muito. Entendi...

— Não precisamos conversar senhor Savalas, apenas para deixar tudo de modo claro, ontem na saída dos treinos Hyoga disse que ia encontrar os amigos e eu não vi mal algum em lhe conceder algumas gotas de perfume, algo bobo já que é apenas um perfume. Não me tome por leviano, você não me conhece. Hyoga é quase uma criança e é meu aluno, eu prezo meu trabalho e tenho princípios. – quase disse "não me tome por você que mistura trabalho e prazer", mas calou-se porque jamais se rebaixaria a esse ponto.

Camus subiu no caminhão para entrar no carro rebocado apenas acenando para Hyoga, os Savalas ficaram olhando o reboque partir sem ter muito que fazer.

— Enquanto você não pedir desculpas a ele eu não falo com você!

— Você não pode fazer isso! Quem pensa que é? Tem muito a explicar isso sim. – Milo pegou o filho pelo braço – Que história é essa de encontro?

— Você sabe o que é isso que droga! Eu tenho quinze anos já, sou um adolescente.

— Hyoga você não pode namorar ainda, é jovem e imaturo. Essas coisas são para quando você tiver mais idade e responsabilidade. – Milo largou Hyoga e começou a levantar a bicicleta para amarrá-la ao carro – Você tem que estudar e continuar patinando, brincando com seus amigos.

— ARGH! O Camus tem razão você é um ignorante.

— Vê como fala comigo moleque ou eu vou te dar um corretivo!

— Eu te odeio!

Hyoga puxou a bicicleta das mãos do pai e saiu pedalando a toda de volta para casa, Milo entrou no carro praguejando indo atrás do filho. Ao chegar em casa foi direto para o quarto do loiro encontrando a porta trancada e um som de rock pesado ecoava fazendo um barulho tremendo.

Milo suspirou e sentou na escada, estava arrasado. Tinha pensado tanto naquele sábado e ele estava sendo uma catástrofe.

***

Aiolos chegou à casinha ao pé do monte Lycavittos1 em Kolonaki2 e encontrou o irmão na pequena varanda, sentado no sofá velho de molas soltas, os pés apoiados na cerquinha de madeira. Havia um som ensurdecedor saindo de casa, metal lírico e sabia que o meio-irmão odiava então Hyoga estava ouvindo apenas para atazanar o pai.

— Os vizinhos vão chamar a policia. – disse sentando ao lado do mecânico.

— A vizinha do lado esquerdo é surda, do lado direito há tanta gente que eles são acostumados com os gritos. – Milo balançou o ouzo no copinho que bebia – Quer um pouco?

— Por favor. – Milo serviu mais um copo, já esperava que o irmão viesse porque ouvira Hyoga ligar para o tio e despejar toda a sua infelicidade. Antes tinha tentado tirar o garoto do quarto e brigaram novamente porque Milo disse que ele estava de castigo e Hyoga que ir até Camus – Milo porque quando você vê um buraco de escorpião gosta de enfiar a perna até o joelho? Eu nem sei como te defender!

— Puta que pariu eu não sabia! – Milo bateu os punhos nos joelhos – O Hyoga parece encantado com esse ruivo, aí ele chega em casa recendendo a perfume francês, logo em seguida daquela história bizarra com o Kanon. O que você queria que eu pensasse?

— Em nada Milo porque você não é bom em pensar. – Aiolos tomou seu ouzo – Porque não perguntou ao Hyoga sobre ao perfume?

— Perguntei! Ele só disse que era do Camus.

— Você devia ter acordado ele e perguntado sobre a noite, o que tinha acontecido, de porque ele estar com um perfume diferente. Não ficar revirando um monte de caraminholas e acusando as pessoas precipitadamente.

Milo se calou amuado. Era por isso que Aiolos era diretor da Fundação Kido, um homem respeitado em Atenas, porque sabia usar a cabeça e era sensato. Se fosse Aiolos o pai de Hyoga ele saberia como conversar com o garoto.

— Você devia ter deixado Hyoga ir procurar Camus.

— Ele está de castigo. Hyoga está “namorando” com um dos lutadores da equipe da Fundação, um tal de Tenma você sabe quem é? – Milo torceu os lábios em claro desagrado.

— Sim, ele é um dos órfãos que mora na Fundação. Aiolia disse que ele é um dos melhores lutadores, Shina me fala como ele é aplicado e estudioso. Ele só é... – Aiolos achou melhor não contar ao irmão ciumento sobre a instabilidade psicológica de Tenma, até porque ele já estava em tratamento e afinal aquilo era apenas um namorico – muito jovem, dezessete anos.

— E o meu anjinho acabou de completar quinze anos Aiolos! É praticamente uma criança, como posso não ficar preocupado com essas coisas?

— Milo não seja hipócrita ele só é um ano mais novo que você quando Natássia engravidou! – Aiolos riu um pouco, mas pela cara amuada do irmão do que qualquer coisa.

— Por isso mesmo! Eu não quero que o Hyoga passe pelo que eu e a mãe dele passamos, eu amo meu filho, mas se tivesse pensado melhor talvez Natássia estivesse viva e patinando como sempre sonhou. Ah merda! Eu sei que pensei besteira sobre o perfume, mas o Hyoga é muito ingênuo e aquele ruivo...

— Bem acredito que você deva procurar o Camus e pedir desculpas. Converse com Camus também sobre o Hyoga, ao que parece eles estão muito próximos e talvez o ruivo saiba de coisas sobre o loirinho que você não sabe. Eles parecem se entender.

— Do jeito que o Hyoga defendeu esse francês hoje parece que o pai dele é o Camus não eu!

— Irmão você deve pedir desculpas ao Camus. Aquele francês é muito sério e integro, deve estar muito chateado por ter ouvido aquelas coisas de você. Deixe passar o fim de semana e vá a Fundação procurá-lo na segunda-feira, para esclarecer de uma vez esse mal entendido.

— Hyoga disse que não fala comigo até que eu peça desculpas ao Camus acredita? – Milo estava indignadíssimo.

— Exagero evidente, mas ele não deixa de ter razão. Agora quanto ao exagero não reclame porque ele puxou isso de você.

Milo passou todo o fim de semana remoendo o que diria à Camus e Hyoga trancado no quarto com raiva dele, também o adolescente estava às voltas com os telefonemas insistentes de Tenma e de Shun querendo saber de tudo. Até Ikki ligou procurando saber se era verdade que Hyoga e Tenma estavam namorando porque o outro lutador até já havia mudado o status de relacionamento nas redes sociais e colocara uma foto do Hyoga como capa e tudo mais.

“Mas que porra é essa?!” o loirinho olhava boquiaberto para o celular porque fora conferir o que Ikki tinha dito.

Na segunda-feira na escola o circo estava armado. Tenma o esperava na entrada todo sorridente e amoroso e toda a escola já pareciam saber da novidade, receberam muitos cumprimentos e felicitações, desejos de boa sorte que ele não entendeu muito bem. Tenma não desgrudou de Hyoga até a sua sala sob o olhar de todos e Hyoga queria se atirar num poço.

Quando disse a Tenma que seu pai reagira mal a noticia do encontro e o deixou de castigo, o jovem japonês deu de ombros lhe enchendo de beijinhos na porta para se despedir.

— Não se preocupe amor, com o tempo ele se acostuma. Vou à sua casa amanhã para conversar com ele e pedir formalmente. – disse sorrindo e Hyoga ficou ali piscando aturdido o vendo ir para a outra sala do terceiro ano.

— Hyoga ele é um psicopata! – Shun estava gargalhando.

***

— Boa Tarde Hyoga. Tudo bem? – o russo ouviu de Camus ao chegar no ginásio para o inicio do treino.

— Mais ou menos. E você tá de boas? Ainda estou me sentindo muito culpado.

— Já disse que não precisa se preocupar com isso. – Camus parou o vídeo que assistia no tablete, estava revendo algumas performances porque tinha planos de tentar esboçar alguma coisa com Hyoga àquela semana. Ainda não conseguira suplantar o medo de voltar à pista de gelo, mas poderia instruir Hyoga fora dela para começo de conversa.

— Olha ele vem aqui falar com você e pedir desculpas, papai me prometeu.

— Que seja. Veja chegaram os novos equipamentos. – Camus indicou as caixas próximas aos bancos – Há patins e uniformes, vista e verifique se serão necessários ajustes. Tiramos as medidas, mas sempre há uma coisa ou outra...

— Patins novos! – Hyoga não continha a alegria quase infantil ao ver o equipamento novo, Camus sabia exatamente o que ele sentia, já fora assim. Via-se tanto em Hyoga que chegava a ser espantoso.

— Há quatro pares aqui, todos são meus? – Hyoga remexeu mais na caixa e seus olhos brilharam – Esses têm os seus nomes Camus!

Naquela manhã acompanhou a chegada do equipamento com os sentimentos embaralhados e ao ver que todo o material estava dividido por dois, sentiu um aperto no estômago. Não pediu o equipamento, mas pelo visto Aiolos achou necessário.

— Não vai experimentar o seu Camus? – insistiu Hyoga.

"Ele não sabe, seja compreensivo", pensou consigo respirando fundo e tentando camuflar sua inquietação.

— Por hora basta que você experimente os seus. Hoje vamos iniciar o treinamento básico, percebi que você tem velocidade e segurança sobre os patins. Mas ainda falta técnica e um pouco de desenvoltura, vou ensinar a você algumas técnicas de dança para ajudar e também separei algumas performances para que pudesse ver.

— Já sei! Podemos refazer a sua coreografia de 94 hã? Sua primeira medalha de ouro Camus! Eu já a fiz várias vezes, mas não consigo fazer o salto com a pirueta. Se você fizesse comigo tenho certeza que conseguiria. – Hyoga parecia fascinado com a ideia, seus olhos de céu estavam brilhantes – Vamos tentar juntos, coloque os patins Camus!

— Não petit, hoje não.

Havia uma nota de pânico no tom de Camus que intrigou Hyoga, o rapaz olhava para seu mestre, seu ídolo e não conseguia acreditar que a possibilidade de entrar na pista de gelo estava deixando Camus com medo.

— Venha Camus você consegue.

E Hyoga estendeu o outro par de patins para o francês, havia até o nome de Camus neles. Então Aiolos e Hyoga tinham tal confiança nele a ponto de acreditarem que superaria o trauma? Pegou as botas brancas passando os dedos sobre elas como fazia com seu par intocado em casa. Essas eram novas e modernas, de um material mais confortável e resistente, podia sentir sob seus dedos trêmulos.

— Tente você sozinho hoje Hyoga. – Camus largou os patins – Vá para a pista que eu corrijo daqui o que ver de errado.

Recuperou-se, trancando o pânico bem fundo dentro de si para não falhar ainda mais com Hyoga. Sabia que não podia adiar por mais tempo, em algum momento teria que patinar para ajudar o rapaz a se desenvolver. Precisava vencer o pânico de alguma maneira. Desapontado o russo foi para a pista e Camus para o som a fim de deixar fluir a musica, tinha um arquivo bem vasto e de todas as apresentações que gostava.

Passaram boa parte da tarde ali tentando ajustar os erros do russinho na coreografia, isso deixou ambos irritados porque as limitações dos dois estavam prejudicando o treino. Por fim depois de tentar pela décima vez o salto sem sucesso Hyoga caiu no gelo ofegante.

— Se você fizesse junto comigo eu conseguiria! – explodiu o rapaz para se arrepender em seguida, Camus de braços cruzados apenas lambeu os lábios e desviou o olhar porque não sentia que era certo repreendê-lo, Hyoga estava certo.

— Para o chuveiro, está dispensado por hoje. – disse depois de um tempo.

— Não! Vamos tentar...

— O treino acabou não me questione! Lembre-se que aqui dentro eu sou seu técnico e você me deve respeito, não confunda as coisas Hyoga. – Camus foi duro com o russo.

Hyoga se ergueu e saio da pista, Camus se afastou para voltar a mexer no som e o garoto tirou os patins, saindo para os chuveiros deixando tudo bagunçado para trás. Camus deixou por menos naquele momento, o banho esfriaria a irritação de Hyoga.

No caminho para o vestiário Hyoga já se arrependia da sua atitude, ficara decepcionado com o pai, mas era tão impulsivo e precipitado como ele. O que ele sabia sobre o trauma de Camus? Os sentimentos que o ruivo tinha por não conseguir superar seus medos assim? Passou anos sem poder andar, fazendo fisioterapia para conseguir os movimentos e o que Hyoga podia julgar de alguém que vira seus pais e irmão morrerem? Depois de vestido voltaria para falar com o técnico e pedir desculpas, sabia que Camus ainda ficava um tempo ali até ir embora de uma vez.

De volta encontrou Milo que se dirigia ao complexo de patinação e ficou muito feliz em ver o pai ali.

Milo ensaiou o dia todo para falar com Camus, queria muito se desculpar e esperava desfazer a má impressão também e conversar com Camus para recuperar o início de amizade. Acompanhou o filho até o interior do ginásio olhando tudo em volta com curiosidade, poucas vezes teve oportunidade de estar ali e sempre se impressionava com a qualidade de tudo. Por estar olhando o teto alto que acabou tombando com o filho que havia parado de repente.

— Que foi?

— Não faça barulho.

Estavam na pista de patinação e tudo ao redor estava escuro, havia apenas luz no centro onde Camus estava parado de patins e Hyoga percebeu que ele respirava fundo e ritmado. "Ele vai tentar" murmurou o russinho se posicionando atrás da amurada para ver melhor e puxando Milo para acompanhá-lo.

— Lembra que eu contei sobre um acidente em Montreal em 2002 que feriu muita gente e matou outro tanto? O desabamento do ginásio? – perguntou o jovem ao pai baixinho e Milo assentiu. Lembrava-se porque Natássia ficou muito triste com o ocorrido, falou disso por semanas e Hyoga quando começou a se interessar por patinação também – Camus estava lá ele era o favorito para conseguir a medalha de ouro e se conseguisse ia ser um feito histórico. Mas o ginásio desabou e matou a família dele, ele ficou ferido e passou dois anos fazendo fisioterapia para voltar a andar, mas ele ficou com trauma de patinar.

Os dois ficaram observando Camus parado por um longo tempo, o silêncio era esmagador no ginásio até que enfim as laminas começaram a raspar o gelo de forma tímida. Milo esfregou os braços, mesmo sob a jaqueta sentia o quanto estava frio e achava incrível como Hyoga e Camus pareciam não se importar. O grego olhou para as roupas de Camus, a regata preta e a calça solta que não escondiam toda a promessa do corpo bem proporcionado do francês. "Muitos pensamentos impuros esse ruivo me trás" pensou Milo rindo consigo mesmo.

"Ele está refazendo a coreografia de 94”, Hyoga começou a ficar inquieto ante a expectativa, eram os primeiros passos, porém já conseguia distinguir e se surpreender por Camus lembrar depois de tanto tempo. Ficou atento as técnicas, percebendo como havia desenvoltura e verificando onde ele mesmo errava. Estava certo ao dizer que se Camus fizesse com ele, saberia refazer os movimentos.

Camus tomou distância e os outros dois prenderam a respiração, Hyoga estava prestes a gritar e talvez o fizesse se o ruivo conseguisse cravar o giro triplo que lhe deu a medalha de ouro em 94.

Na pista Camus ganhou velocidade e se impulsionou, um giro, dois e três para na aterrisagem quando tudo parecia perfeito o berro de Hyoga saiu só que impregnado de pânico. Camus tocou o primeiro patins no chão e ao tocar o segundo o fez de mau jeito, isso fez com que a aterrisagem falhasse o que fez o corpo do francês cair na pista gelada com um baque tremendo.

Hyoga e Milo correram até o ruivo estatelado no gelo frio.

— Camus meu deus! Camus fala comigo.

— Não grite. – murmurou Camus piscando para tentar recuperar a visão que estava desfocada e sua cabeça estava latejando – Hyoga você vai fazer exatamente o que eu disser agora, preciso saber se quebrei algo na queda, a cabeça e o pescoço por último. – O treinador começou a indicar o que o russinho precisava fazer ouvindo as respostas claras de Hyoga, a dor estava diminuindo e a dormência aumentando isso era por causa do frio.

Milo estava ali ao lado tão preocupado quanto Hyoga, o francês focava no rosto bonito do grego para manter-se ativo e auxiliar Hyoga. Depois de constatar que não havia nada quebrado ele conseguiu se erguer auxiliado pelos outros dois.

— Melhor ir para a emergência. Você tá de carro? Não é bom dirigir assim, você pode estar com uma concussão.

— Foi uma queda normal, eu não quebrei nada e só preciso de alguns minutos. Daqui a pouco vou para casa...

— Você não pode dirigir! – falaram Hyoga e Milo ao mesmo tempo Camus sentiu o latejar em sua cabeça aumentar com o quase grito dos dois, o grego mais velho ainda acrescentou – Precisa de um hospital agora!

— Me deixa sentar um pouco.

Levaram-no até o banco dos técnicos e enquanto Hyoga o ajudava a sentar, Milo saiu dizendo para que ia colocar o carro na entrada para que pudesse levar Camus para a emergência.

— Você conseguiu... Foi incrível Camus!

— Não fiz a aterrisagem. – Camus testava os membros, estava um pouco dolorido na lombar e na cabeça, mas estava se sentindo bem.

— Mas ainda sim foi perfeito. – Hyoga se virou para o treinador de novo com aquela empolgação infantil – Como está se sentindo? Deve ter sido tremendamente difícil, estou muito orgulhoso de você e feliz que tenha conseguido Camus.

— Graças a você. – Camus bagunçou os cabelos do rapaz sorrindo – Agora quero ouvir você gritar comigo de novo daquele jeito, vou fazê-lo correr o ginásio até ter câimbras.

Hyoga riu encabulado e Camus o olhou fingindo severidade, mas acabou rindo junto com o adolescente. Devia mesmo agradecer aquele menino que o impulsionou a vencer a barreira do medo, porque foi para ajudar Hyoga a ser um campeão que Camus se cobrou vencer o trauma e conseguir entrar na pista. Talvez ainda tivesse algum receio, mas já sabia que superaria.

— Eu falei com o segurança para ficar de olho no seu carro, vamos com meu que eu te levo para a emergência. – Milo voltou para junto dos dois – Amanhã você pode pegar ele aqui.

— Posso ir de táxi para casa, obrigado.

— Meu deus que ruivo teimoso! E se você tiver uma concussão? Precisa de uma radiografia.

— Vá Camus, por favor.

Vencido o francês acabou concordando em ir para a emergência e depois de alguns procedimentos de praxe, foi levado ao médico e a sala de exames.

— Plano de saúde! Vai ser bem rápido, se eu o levasse ao pronto socorro passaríamos a noite toda lá. – Milo comentou com Hyoga, aguardavam Camus no corredor.

— Ele é rico, você sabe que dinheiro facilita tudo.

— Verdade... Foi uma queda bem feia, você também vai cair assim nos treinos?

— Não se preocupe porque a Fundação e o comitê vão me dar todo o apoio. – Hyoga deu de ombros – Quedas assim são raras, dá um desconto! Ele tá sem patinar a treze anos.

— Treze anos e fez tudo aquilo. Não é a toa que ganhou medalha... Quer uma coca? Vi uma maquina ali atrás.

— Quero.

Milo voltou com o refrigerante para o filho no exato momento em que Camus voltava do consultório.

— Estou muito bem, foi só uma pancada forte. Preciso apenas ficar umas quatro horas acordado para observar, então podemos ir embora. – Camus jogou a radiografia em Milo – Satisfeito?

— É melhor prevenir do que remediar, agora vamos deixar você em casa.

— Ótimo, posso convidá-los para jantar comigo e agradecer todo esse cuidado.

— Era o mínimo que eu podia fazer, mesmo que não tivesse xingado você de todas aquelas coisas no sábado. – Milo riu sem graça, já caminhavam para fora do hospital – Não precisa agradecer não Camus.

— Faço questão! Mas você vai ter que se esforçar muito ainda para se redimir sobre sábado Milo, por sua causa eu gastei seis mil euros no conserto do meu carro e você disse que ia me cobrar metade disso.

— Seis mil euros Camus! Que sacanagem, onde você foi fazer o serviço? – Hyoga perguntou abismado.

— Na concessionária, eu tinha urgência porque precisava do carro.

— Estou me sentindo ainda pior. – e Milo estava mesmo.

— Comece a pensar nas formas de se redimir, agora vamos jantar. – Camus disse e todos entraram no carro, Camus atrás e Hyoga ao lado do pai como sempre. Milo e Camus se olharam pelo retrovisor, no olhar quente que o grego lhe lançou havia arrependimento e um calor diferente que fez com que involuntariamente Camus sorrisse e Milo achou que com aquele sorriso Camus poderia conseguir tudo que quisesse.

Notas finais
1 Monte Lycavittos https://pt.wikipedia.org/wiki/Monte_Licabeto 2 Bairro de Atenas